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O povo é Aliança na solidariedade

CAPÍTULO 2: AMÉRICA LATINA: POVO DE DEUS SE ENCARNA NA IGREJA

2.2 As características do povo de Deus segundo José Comblin

2.2.3 O povo é Aliança na solidariedade

rejeitados social e eclesialmente220, como minoria profética, livre das alianças com os ricos e poderosos.

Comblin diz que, em nossos dias, existe uma “distância que espanta” entre a práxis de Jesus, dos apóstolos e das primeiras comunidades cristãs, e a subserviência, medo e silêncio da grande maioria dos cristãos católicos. São apresentadas como virtudes hoje o conservadorismo e a submissão do pensamento. É impensável que algum cristão diga algo original, porque quase tudo já foi dito pelos documentos do magistério.221

Tem-se a impressão de que houve um esquecimento, sobretudo da parte da hierarquia da Igreja, de que, a liberdade de pensamento nasceu dentro do povo de Israel e do povo cristão.222 Felizmente, a Igreja e o verdadeiro povo de Deus subsistiam em todos seus segmentos e principalmente nas minorias que, indiferentes aos costumes superficiais, procuravam seguir o evangelho de Jesus Cristo.223 Comblin convida-nos a volver o olhar para a primitiva Igreja, para Jesus e para os apóstolos.

Segundo Comblin, vê-se no Novo Testamento que constituir aliança com Deus na liberdade traz para o povo a exigência de se deixar guiar pelos princípios éticos, inaugurados pela práxis amorosa e servidora de Jesus. A liberdade de Jesus está em servir o seu povo e comunicar a liberdade e a vida em plenitude: “O tema da aliança está nos evangelhos, na última ceia, com Jesus que evoca o seu sangue derramado, sangue da nova aliança [...] A lei de Deus é liberdade, amor na liberdade”225.

A nova aliança fundada na liberdade e no amor se traduz em serviço desinteressado ao próximo, no amor fraterno que dá a vida. Não deve ser como se faz entre as nações, que se relacionam com base na dominação e na tirania “Entre vós não deve ser assim, aquele que quiser ser o maior se faça o servidor” (Mt 20, 25-27). “O maior dentre vós será vosso servo;

todo aquele que se exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha será exaltado” (Mt 23, 11-12).226

Jesus propõe relações de igualdade entre os seguidores, segundo os critérios da aliança. As instituições que surgirem devem organizar-se de maneira igualitária, sendo o poder aceito como serviço. Os apóstolos decidem juntos. As comunidades são dirigidas por colégios de presbíteros. O tema da igualdade das Igrejas e da aliança entre Igrejas iguais percorrerá toda a época patrística, e permanecerá até hoje nas Igrejas do Oriente.227

Para Comblin, a teologia da unidade cresceu de tal forma no Ocidente, que suplantou totalmente a tradição patrística. O principio neoplatônico do uno e a ideologia política imperial fortaleceram a Igreja como instituição piramidal. Sob a condução de um poder central em Roma, a Igreja católica mantém o controle e a unidade de seus fiéis no mundo inteiro.

Na compreensão de Igreja universal, que tem o comando em Roma, as Igrejas particulares, ou dioceses, tornam-se apenas partes ou fragmentos da Igreja universal. Esta visão administrativa vai suplantar a concepção bíblica da aliança. Foi uma grande surpresa o retorno da teologia da colegialidade no Concílio Vaticano II. A colegialidade é o outro nome para falar da Aliança nos textos do Concílio.228

Reacendeu-se, com a teologia da colegialidade no Concílio Vaticano II, a esperança do povo de Deus, de uma Igreja participativa e aliada dos pobres. Incentivou-se a criação dos colégios e conselhos de pastoral nas dioceses e paróquias, com a participação dos leigos. No

225 COMBLIN, José. O povo de Deus, op. cit., p. 228.

226 Ibidem, p. 228.

227 Idem.

228 Ibidem, p. 229.

entanto, predomina ainda o estilo monárquico. O poder continua centralizado no bispo e no pároco. Os conselhos paroquiais não têm caráter deliberativo, são formados frequentemente, por pessoas indicadas pelo próprio pároco e, só tem validade se estão de acordo com o que ele quer e pensa. Para Comblin, isto não é aliança, não forma povo. É apenas continuidade do que já existia.229

Viver agrupado em paróquia não significa consciência de povo. Comblin alerta sobre o fenômeno da urbanização, que a grande maioria das comunidades rurais está desaparecendo.

A paróquia tende a manter o mesmo estilo do passado, o que não corresponde à realidade da cidade hoje. Assim, ela corre o risco de fechar-se sobre si mesma e distanciar-se dos problemas do mundo real. Os fiéis têm a ilusão de que estão protegidos dos conflitos do mundo e até hostilizam tudo o que não está na paróquia. Por exemplo, fala-se que poucas paróquias atingem 10% das pessoas de uma cidade, só acontece nos estados de maior número de católicos declarados.230

Comblin alerta pra o perigo de isolamento das paróquias diante dos problemas da sociedade. Mesmo que existam várias paróquias na cidade grande, há o risco de se tornarem ilhas, guetos, que não têm interligação nenhuma no modo de pensar e agir. Realizam atividades desintegradas e desvinculadas dos problemas materiais da cidade. E ainda mantêm a ilusão de que podem falar em nome do povo inteiro da cidade. Dessa forma, “a paróquia é um agir coletivo, mas um agir que não constitui um povo”. Falta uma meta assumida comunitariamente e um assumir comunitário da realidade da cidade.231

A tendência dos fiéis é refugiar-se da realidade do mundo na paróquia. Muitas pessoas não mais se consideram povo, mas se afirmam como paróquia, na qual o pároco evoca sobre si a missão de formador de almas e único a estabelecer metas, critérios e objetivos. Perde-se a dimensão escatológica de povo de Deus entre os outros povos.

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A Igreja é sinal do Reino de Deus, povo de Deus no meio dos outros povos. Não existe cristão isolado, solto no espaço etéreo, o que vale para indivíduos e para grupos: “Claro que o específico do povo cristão é a comunidade de fé: é o seguimento de Jesus em comunidade,

229 COMBLIN, José. O povo de Deus, op. cit., p. 233.

230 Ibidem, p. 152.

231 Idem.

como fizeram os apóstolos, visto que essa comunidade seja ampla, pois se trata de comunidade de povo.”232 Diz-nos Comblin:

Não é possível buscar o Reino de Deus isoladamente, cada um por si [...] Busca-se o Reino de Deus em comunidades ativas, numa rede de comunidades de muitos tipos diferentes, mas onde há solidariedade entre todos – onde todos são inspirados pelo mistério da Igreja, e todos participam da mesma realidade material em que estão lutando, ajudando a formar o povo de Deus na fase atual da sua caminhada no meio do mundo.233

Para Comblin, o povo nasce e cresce num país quando os habitantes começam a se sentir solidários, praticando a solidariedade nos desafios, na aceitação da condição comum. Se não há solidariedade o povo ainda não existe.234 O Deus solidário com a humanidade reúne definitivamente em Jesus o povo escatológico na nova aliança baseada no amor total. A solidariedade com os sofredores torna-se o grande sinal profético do povo de Deus na história.

O amor cristão concretiza-se nos gestos de solidariedade.

A pessoa solitária, individualista, que não compactua com ninguém, não forma povo, não vive com os outros o calor humano da solidariedade. O povo não é simples amontoado de indivíduos, povo é solidariedade, é calor de corpos juntos, que sofrem, sonham, trabalham, lutam e festejam juntos.235 “A vida em comum realiza-se em pequenas comunidades, porque um povo é tecido de pequenas comunidades e não de indivíduos isolados”236.

A vivência comunitária da fé, o face a face, cria laços fraternos de comunhão. Difere das experiências intimistas, que buscam a religião para resolver problemas, sem consideração de contexto, não geram comunhão e não têm compromisso comunitário. Resolvido ou mascarado o problema, cessa a busca de Deus.237 A comunidade desperta para a solidariedade, a busca do bem comum. Por isso, o povo de Deus constrói aliança na liberdade, na reciprocidade de pessoas irmanadas na mesma fé e ideal, que é o Reino de Deus:

Um povo é formado por seres humanos que se sentem solidários. Os que não são do povo são os que não se solidarizam, mas pelo contrário, dominam, exploram, ficam indiferentes às necessidades dos outros, governam para a sua utilidade própria sem levar em conta o bem comum. Há, por um lado, o povo, e, por outro, os que maltratam o povo. Por isso as elites dominantes são não-solidárias [...] Muitos tradicionalmente sentiram que a Igreja não estava com o povo, não se interessava

232 Ibidem, p. 150.

233 COMBLIN, José. O povo de Deus, op. cit., p. 156.

234 Ibidem, p. 157.

235 Ibidem, p. 148-149.

236 Ibidem, p. 150.

237 Ibidem, p. 140.

por ele, fazia aliança com os poderosos contra o povo, desprezando-o. [...] Para ser verdadeiramente povo de Deus, segundo D. Oscar Romero, a Igreja deve encarnar- se na história do povo, isto é, nas lutas do povo pela justiça e pela libertação.238

Para Comblin, o grande sinal visível da Igreja é o da solidariedade com os pobres e sofredores. Assim, ela é o povo do Deus solidário com a humanidade. A Igreja é portadora da mensagem da esperança, pois o Evangelho é boa notícia. Quem espera por boas notícias? O povo empobrecido.239 O povo quando perde a esperança deixa de ser povo. O que o caracteriza é acreditar que a sua vida pode melhorar, quando se tem consciência de sua fragilidade é que se espera algo, e se une para superar. A esperança é a marca dos pobres.240

Animar a esperança e a solidariedade do povo é parte da missão da Igreja. Os pobres só têm a Deus por eles, confiam em Deus e descobrem que contam com Ele através da Igreja.

As elites e oligarquias na América latina, locupletadas, não suportam a palavra “povo”, não têm algo em comum com o povo de Deus, a exemplo dos saduceus no tempo de Jesus, não esperam mais nada. Estão escravizadas pelo ter e pelo poder. Não são livres para servir e ir ao encontro do povo dos pobres. Por isso, uma Igreja, povo de Deus, não lhes diz nada, muito menos uma Igreja dos pobres.

Comblin foi um dos que investiu energias vitais e capacidade intelectual na construção da Igreja dos pobres. Ele comungava reflexão e ação com outros teólogos, agentes de pastoral, bispos, padres. Os pobres se puseram a caminhar e organizar-se como povo de Deus.

Conhecedor da realidade latino-americana tinha visão ampla da evolução dos pobres nos movimentos por libertação. Sabia de que maneira se concretizava a Igreja aliada dos pobres, solidária e animadora da esperança. Realimentado na esperança de uma Igreja com o rosto latino-americano, Comblin caminhou para o Nordeste onde conheceu e experimentou a Igreja dos pobres em efervescência.

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