Ana Maria Martins dos Santos5 Maria A. Belintane Fermiano6
RESUMO
A obesidade e o sobrepeso infantil tem sido objeto mundial de estudos em função do aumento expressivo de crianças que apresentam problemas de saúde por peso inadequado para a faixa etária, uma das causas, é o consumo expressivo de fast-food e de produtos de alto valor calórico. Por isso, é alvo, cada vez mais importante de políticas públicas que desenvolvem ações de conscientização para uma alimentação saudável na infância. Essa pesquisa traz a discussão, sobre a possível influência que a publicidade de alimentos pode exercer no consumo de produtos de baixo valor nutritivo pelas crianças. Para a realização desse estudo, foi elaborada uma pesquisa qualitativa e de campo, com aplicação de um questionário com quatro perguntas objetivas e seis subjetivas, respondidas por um grupo de trinta e uma crianças, com a idade de oito anos de escola pública e particular na cidade de Americana – SP, com o objetivo de descobrir quais alimentos elas veem nos comerciais e se querem consumi-los. Com as respostas obtidas, percebeu-se que 100% das crianças assistem à TV, a maioria delas tem preferência pelos alimentos anunciados que são, por sua vez, de baixo valor nutricional. Foram descritos e analisados dois comerciais, um de fast-food e outro de refrigerante, ambos são elaborados com linguagem e imagens fantasiosas e que chamam a atenção das crianças.
Palavras-chave: Publicidade; Obesidade Infantil; Televisão.
ABSTRACT
Obesity and overweight has been the object of studies in relation to the significant increase of children who have health problems due to the inadequate weight for age, one of the causes, is the consumption of fast food and products of high caloric value. It is therefore target, increasingly important public policies that develop actions of awareness for a healthy diet in childhood. This research brings the discussion on the possible influence that the advertising of food can exert in the consumption of products of low nutritional value for children. For the realization of this study, a qualitative research and Field, with the application of a questionnaire with four objective questions and six subjective, answered by a group of thirty- one children at the age of eight years of public and private high schools in the city of Americana - SP, with the objective of discovering which foods they see in commercials and if they want to consume them. With the answers obtained, it was found that 100% of children
5Aluna do 4º Ano de Pedagogia- Faculdades Network - Av. Ampélio Gazeta, 2445, CEP 13460-000, Nova Odessa, SP, Brasil. ([email protected])
6 Profª Drª Maria A. Belintane Fermiano das Faculdades NetWork. ([email protected])
watching the television, most of them have a preference for foods announced that are, in turn, low nutritional value. Were described and analyzed two commercials, one of fast-food restaurants and another of soda, both of which are prepared with language and fanciful images and that draw attention of children.
Keywords: Publicity; Childhood obesity; Television.
Introdução
Nas últimas décadas e nos dias de hoje, a televisão tem sido utilizada como um veículo poderoso para a publicidade de alimentos, que, por sua vez, bombardeia as crianças com propagandas afetivas e apelativas, influenciando-as a um consumo não só de alimentos, mas também de brinquedos e roupas, especialmente quando tais produtos são apresentados por personagens queridos pelas crianças, como oportunidade de diversão, etc..
A televisão é um veículo de comunicação comum em praticamente todos os lares no mundo, e muitos, contendo mais de um aparelho televisivo em casa. Além de transmitir programas de entretenimento e informações, também é um divulgador de publicidade de alimentos voltados para o público infantil. Considerando o grande número de programas para essa faixa etária, há um verdadeiro bombardeio de publicidade nos horários de comerciais dos filmes, novelas e programas infantis. Esse tipo de comercial é, muitas vezes, apelativo e mexem com a afetividade das crianças, pois fazem junção a personagens mais queridos, brindes e diversão, relacionando-os, especialmente, a alimentos gordurosos, açucarados e ricos em sódio.
A mídia aproveita do mundo infantil para ter seu lucro garantido, pois a criança ainda não possui um conhecimento suficiente para fazer suas próprias escolhas. Com todas as investidas que a mídia faz, acaba trazendo grandes prejuízos ao comportamento alimentar e à saúde, pois o consumo de alimentos de baixo valor nutricional ocasiona obesidade e sobrepeso, o que consequentemente, provoca doenças como a diabetes, hipertensão, entre outras.
Hoje, a obesidade e o sobrepeso estão sendo considerada uma epidemia global, pois vários países desenvolvidos e em desenvolvimento, estão com números elevadíssimos de pessoas obesas e acima do peso, inclusive as crianças.
Estudos mostram que no Brasil, os números da população com sobrepeso passaram de 42,7% em 2006 para 48,5% em 2011. E o maior índice de sobrepeso está entre os homens, com 52,6% e as mulheres com 44,7%, pois segundo estudos, embora ambos pratiquem alguma atividade física, é os homens que passam maior tempo em frente à TV, o que acaba contribuindo para o aumento de peso. (SBEM, 2016).
Do mesmo modo, a obesidade infantil e o sobrepeso, vêm crescendo em um ritmo acelerado, porquanto os números também são altíssimos e vem sendo causa de várias discussões em todo o mundo.
Segundo pesquisas, indicam que “ainda entre as crianças com menos de cinco anos, observou-se que houve aumento de 4,4% (em 1974) para 7,8% (em 2006) e, se essa progressão permanecer incessante, em dez anos, a proporção terá aumentado para 8,3%.
Dessa forma, sugere-se que, em 2016, de uma em cada dez crianças será obesa”. (COCETTI et al, 2012 apud TADDEI, TOLONI e SILVA, 2016, p. 181).
A televisão é um dos meios de comunicação mais popular do mundo, e é através dela que milhares de crianças se tornam alvos da publicidade e do marketing, o que acaba influenciando a consumirem cada vez mais produtos alimentícios pobres em benefícios nutricionais e ricos em malefícios a saúde. É o consumo desses alimentos que gera a obesidade e o sobrepeso infantil e consequentemente as doenças relacionadas ao excesso de peso.
Os “médicos e psicólogos culpam a publicidade de alimentos por essa situação, pelo fato de que a maioria dos anúncios de alimentos é de restaurantes do tipo fast-food e de alimentos ricos em açúcares e calorias”. (SCHOR, 2009 apud ROZANSK, 2011, p.12).
Diante desses fatos, a televisão pode influenciar as crianças na escolha dos alimentos?
Deste modo, essa pesquisa teve como propósito, trazer elementos para discutir fatores que indicam que as crianças, escolhem produtos alimentícios em função da possível influência de comerciais desses produtos de baixo valor nutritivo. Para isso, foram utilizados livros, artigos, entre outras publicações para seu embasamento teórico. Foram feitas entrevistas com trinta e uma crianças com idade de oito anos através de um questionário, para verificar a preferência por alimentos anunciados na TV. Também foram descritos e analisados dois comerciais de alimento e bebida observando-se se, por acaso, eles traziam elementos que chamam a atenção das crianças, induzindo ao seu consumo.
Sendo assim, esse estudo se faz importante, pois tem por objetivo problematizar o consumo infantil de alimentos, com ênfase nos produtos anunciados pela televisão.
Pressupõe-se que comerciais dessa natureza possam interferir nas escolhas e no comportamento alimentar das crianças, pois as horas que passam em frente à TV assistindo, às vezes, conteúdos impróprios para sua idade, também ficam expostas a todo tipo de publicidade, e especialmente os programas e comerciais que são feitos especificamente para esse público.
Essa pesquisa visa, então, verificar o interesse da criança por produtos anunciados pela televisão; investigar a preferência da criança por alimentos que vem com brindes; analisar quais os motivos que levam as crianças a quererem comprar esses tipos de alimentos;
constatar hábitos alimentares das crianças em função dos comerciais televisivos.
Esse assunto é importante para que a família seja conscientizada sobre um comportamento mais crítico em relação aos alimentos de baixo valor nutricional e sensibilizar o poder público uma vez que é do interesse do Governo e da sociedade querer o bem-estar integral da criança.
Obesidade e sobrepeso, uma epidemia global
Na antiguidade, e em algumas sociedades, a obesidade era vista como símbolo de saúde, beleza e fertilidade. No entanto, com o passar dos tempos esse padrão de estética veio se modificando, simultaneamente, pesquisas comprovaram que a obesidade traz prejuízos à saúde e ao bem estar das pessoas, a ponto de vários países desenvolvidos e em desenvolvimento, como o Brasil, estarem em estado de alerta, pois o número de pessoas obesas e com sobrepeso vem crescendo desenfreadamente e se tornando um problema de saúde pública.
Segundo Barros Filho (2004),
Ao mesmo tempo em que se descobria o quanto a obesidade pode ser danosa à saúde, a humanidade testemunhou, nos últimos 50 anos, um aumento da prevalência da obesidade, ao ponto de a Organização Mundial da Saúde considerá-la uma epidemia global. Com início alguns anos mais tarde e de forma, por enquanto,
menos intensa, vem se observando que o aumento da prevalência da obesidade também está ocorrendo entre crianças e adolescentes, tanto em países desenvolvidos quanto em países em desenvolvimento. No Brasil, enquanto a desnutrição diminuía, a obesidade começou a aumentar. (BARROS FILHO, 2004, p. 1).
Conforme explicou Barros Filho (2004), a obesidade tem sido considerada uma epidemia global, pois, pesquisas mostram que “em todo o mundo, a prevalência da obesidade quase dobrou desde 1980 e em 2014, 11% dos homens e 15% das mulheres com 18 anos ou mais eram obesas”. (WHO, 2014 apud TADDEI, TOLONI e SILVA, 2016, p. 180).
Estudos indicam que, no Brasil, a obesidade e o sobrepeso são preocupantes. Pesquisas do Ministério da Saúde apontam que quase a metade da população brasileira está com sobrepeso. (SBEM, 2016).
Embora o termo obesidade e sobrepeso possam confundir e parecer que se trata de uma mesma condição corporal, existe uma diferença entre os dois.
O termo sobrepeso é usado para indicar que o indivíduo está acima do peso ideal, e quando se trata da obesidade, se refere a um excesso de gordura. Para distinguir a obesidade do sobrepeso, especialistas utilizam o IMC (Índice de Massa Corporal) que mede o peso relativo à altura do indivíduo. Uma pessoa com o IMC entre 25 e menos de 30 é considerada com sobrepeso, quando o IMC é de 30 ou mais em um adulto, é considerada obesa.
(AZEVEDO, 2016).
Segundo o Ministério da Saúde, pesquisas apontam que os brasileiros consomem em média 29,8% somente em refrigerantes, pelo menos cinco vezes por semana, mas “por outro lado, apenas 20,2% ingerem a quantidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde de cinco ou mais porções por dia de frutas e hortaliças”. (SBEM, 2016).
Além do consumo frequente de refrigerantes, “um em cada cinco brasileiros, ou 20,1%
da população, consomem doces cinco ou mais vezes durante a semana, frequência considerada alta por autoridades de saúde. Entre os jovens de 18 a 24 anos, o índice é ainda maior: 28,5%”. (CANCIAN, 2016).
É importante salientar que a obesidade traz vários problemas à saúde como “alterações metabólicas múltiplas que contribuem para o agravamento de doenças cardiovasculares, entre elas a hipertensão arterial e trombose venosa, além de agravar a diabetes mellitus, afecções pulmonares, renais e biliares, bem como alguns tipos de neoplasias”. (FRAGOSO, 2009, p.
50).
Seguindo essa análise, dados apontam que as crianças também não ficam de fora no que se refere à obesidade e sobrepeso, pelo contrário, essa epidemia também está atingindo as crianças como afirmam Taddei, Toloni e Silva (2016):
Mais de 42 milhões de crianças com idade inferior a cinco anos estavam acima do peso em 2013. A prevalência de pré-escolares com excesso de peso está aumentando rapidamente em países de baixa e média rendas. E vale lembrar que a obesidade aumenta o risco de diabetes, hipertensão, doenças coronariana, acidente vascular cerebral e certos tipos de câncer, sendo que em 2014 a prevalência global de diabetes foi estimada em 9%. (WHO, 2014 apud TADDEI, TOLONI e SILVA, 2016, p. 180).
A questão da obesidade infantil e os efeitos causados por ela não atinge só as crianças brasileiras, mas todo o mundo, pois dados da Organização Mundial de Saúde apontam que 63% das mortes no mundo são causadas pelas chamadas doenças crônicas não transmissíveis e que essas doenças chegam a matar 9 milhões de pessoas abaixo de 60 anos de idade todos os dias. Têm-se como principal causa de tais doenças crônicas não transmissíveis, o consumo de
alimentos e bebidas não alcoólicas com baixo valor nutricional, com alto teor de calorias, ricos em sódio, açúcares e gorduras, dando origem a diversas doenças. (HENRIQUES e GONÇALVES, 2013).
Os números de ganho de peso entre as crianças estão cada vez mais elevados, pois além da diminuição do consumo de alimentos básicos como verduras, frutas e legumes e um aumento significativo de alimentos processados e industrializados ricos em gorduras, sódio e açúcares, somados a falta de atividades física e comportamentos pouco saudáveis, vem comprometendo assim, uma dieta mais adequada bem como a saúde e o bem-estar.
De acordo com Jaime (2014),
Obviamente isso pode ser explicado por uma mudança no padrão de consumo da população brasileira que resultou em uma diminuição do consumo dos alimentos básicos, tradicionais da dieta brasileira, que dialogavam com nossa cultura alimentar, de cada região, pela introdução de alimentos cada vez mais processados, industrializados, modificando não só a qualidade da dieta do ponto de vista nutricional, mas os comportamentos e os hábitos alimentares, como comer em casa, comer em família, o comer compartilhado, por uma substituição por comer em frente à televisão, por comportamentos que não são saudáveis. (JAIME, 2014).
Segundo a coordenadora do projeto Genética de Transtornos Alimentares da Universidade de São Paulo, Sophie Deram (2014) sugere que o consumo de açúcar não pode ultrapassar 10% na dieta diária recomendada pela OMS (Organização Mundial de Saúde).
Deram (2014) explica que:
o consumo regular de alimentos e bebidas adoçadas pode levar a um ciclo de dependência química. “Na verdade, atua no mesmo receptor da recompensa da cocaína. Realmente, no seu cérebro, ele recebe uma recompensa muito forte com o açúcar e quanto mais açúcar, mais complicado. A criança obesa não é uma criança que só tem gula, que não tem força de vontade. É uma resposta bioquímica. Vai aumentar o apetite e vai diminuir a atividade física. Vai se sentir mais cansada e vai querer comer mais. Comendo mais, ela vai ter risco de entrar em resistência insulínica e ter risco de diabetes”. (DERAM, 2014).
A televisão como um dos principais fatores que contribui para a obesidade infantil Muitos são os fatores que contribuem para a obesidade infantil, como a influência genética, a percepção dos pais em relação ao peso adequado de seus filhos, pois “diversos trabalhos mostram que os pais tendem a subestimar o peso corporal de seus filhos”
(TENORIO E COBAYASHI, 2011, p. 635).
De acordo com Tenorio (2011), os pais têm uma visão contraditória em relação à obesidade e ao sobrepeso, definindo-o como corpo forte, robusto, ossos grandes, etc. No nordeste brasileiro, pesquisas mostram que as crianças mais gordas são consideradas as mais saudáveis e bem cuidadas pelos pais, o que é um equívoco.
De acordo com Linn (2006), um dos fatores que é apontado como sendo a principal causa de maus hábitos alimentares, do sedentarismo e o que consequentemente leva a um aumento significativo do peso, é o tempo que a criança passa em frente à televisão. Atrelado a isso, também há hábitos não saudáveis como comer e assistir televisão, pois quando a pessoa está distraída, não percebe que está ingerindo uma quantidade alta de alimento, sem contar com os comerciais de alimentos que aumentam o apetite, levando o indivíduo a ter um desejo insaciável de comer e beber além do necessário. (RECINE e RADAELLI, p. 23).
Tenorio e Cobayashi (2011) explicam que:
Embora os fatores genéticos predisponham o desenvolvimento da obesidade, os principais determinantes de seu aumento parecem ser os fatores ambientais e comportamentais, como a falta de atividade física, o maior tempo assistindo à televisão e o aumento do consumo de alimentos ricos em açúcares e gorduras.
O excesso de peso na infância aumenta as chances de obesidade na idade adulta.
(TENOTINO & COBAYASHI, 2011, p. 635)
Dessa forma, quanto mais tempo a criança fica exposta à televisão, mais chances de ter obesidade e sobrepeso e a correlação obesidade/tempo que se assiste TV é fortemente comprovada em pesquisas atuais.
Segundo Linn (2006, p. 128)
A incidência de obesidade é maior entre as crianças que assistem à televisão por quatro horas ou mais diariamente, e menor entre as crianças que assistem por uma hora ou menos.
As crianças em idade pré-escolar que possuem televisores em seus quartos têm maior propensão a problemas de peso do que as que não possuem.
Mais de 60% da incidência de peso elevado em crianças entre 10 e 15 anos pode ser causada pelo excesso de exposição à televisão.
Entre os adolescentes, a incidência de obesidade aumenta 2% para cada hora adicional de exposição à televisão.
Para muitas crianças, a redução do tempo em frente à televisão reduz o peso.
Não diferente das crianças americanas, mas também as brasileiras cultivam o hábito de passarem grande parte do tempo assistindo à televisão. Henriques e Gonçalves (2013) afirmam que as crianças brasileiras ficam uma média de 5 horas na TV, sendo expostas aos conteúdos veiculados, inclusive a publicidade.
Henriques e Gonçalves (2013), explicam que os alimentos ultraprocessados divulgados pela publicidade direcionados ao público infantil vêm provocando grandes mudanças no comportamento alimentar, trazendo problemas à saúde como a diabetes, hipertensão, entre outras doenças associadas a esse hábito de se alimentar.
Para Fragoso (2009), a televisão é o meio de comunicação que faz parte do cotidiano dos adultos e também das crianças, sendo o meio de entretenimento predileto e bem presente na vida delas em forma de diversão e informação. Nesse quesito a TV se destaca porquanto
“pesquisas demonstraram que, entre diversos tipos de entretenimentos, as crianças brasileiras preferem, em primeiro lugar, a TV, os vídeos e os DVD’s. Em seguida estão a música, o desenho e as atividades físicas, de lazer e esportivas” (FRAGOSO, 2009, p. 49).
Através desse veículo de comunicação tão comum nos lares, as crianças ficam expostas e totalmente vulneráveis aos bombardeios publicitários, pois ainda não são capazes de discernir um comercial e seu caráter persuasivo e fazer escolhas conscientes, pois “até os 12 anos, a criança não está pronta para isso. Suas relações e escolhas devem ser mediadas por um adulto, afinal ela ainda está sendo educada” (VUOLO, 2011). “Nesse cenário, grandes empresas (principalmente as de brinquedos e alimentos) ampliam, anualmente, seus investimentos em produtos e na publicidade associada a eles” (FRAGOSO, 2009, p. 47).
De acordo com Fermiano (2010), se a publicidade não tivesse o poder de influência sobre as crianças, às empresas não investiriam tanto dinheiro em produtos visando atingi-las.
Schor (2009), citado por Rozanski (2011), diz que as indústrias de alimentos têm um gasto de US$ 33 bilhões ao ano somente com publicidade, o Mc Donald’s é um bom exemplo disso, pois chega a investir US$ 500 milhões em anúncio diretamente voltados para o público infantil.
Vuolo ainda salienta que:
Algumas crianças até conseguem distinguir a publicidade da programação televisiva quando têm entre 3 e 4 anos; muitas conseguem fazê-lo na idade de 6 a 8. Mas somente aos 10 anos de idade é que todas as crianças têm essa capacidade de distinção, quando conseguem identificar a natureza comercial da publicidade. No entanto, a maior parte das crianças não consegue explicar o caráter persuasivo da publicidade antes dos 12 anos. (VUOLO, 2011).
As indústrias dizem que é dever dos pais proteger seus filhos diante dos bombardeios do marketing, e que a causa da obesidade é a falta de participação dos pais na vida das crianças, deixando-as a mercê da televisão por várias horas. É difícil para a família defender seus filhos dos bombardeios incessantes das indústrias, que chegam a gastar US$ 15 bilhões por ano, com o objetivo de persuadir as crianças a amolarem seus pais, diminuindo assim, sua autoridade. (LINN, 2006).
De acordo com Henriques e Gonçalves (2013), há quem pense que é dos pais a única e completa responsabilidade para tratar esses assuntos, mas sozinhos as famílias não conseguem lidar com o ataque de publicidades tão presente e contínuo na vida das crianças, embora seja fundamental a participação da família na educação em geral. Há que se considerar que a Constituição Brasileira dispõe sobre esse assunto em seu Art.227 que é dever da família, da sociedade e do Estado proteger a criança e o adolescente. (CF, 1988).
Além disso, no documentário Consumo de criança (2008) revela o quanto às empresas estão, cada vez mais, se especializando em conhecer profundamente o que as crianças gostam de comer, vestir e brincar. Tendo como aliados os psicólogos, antropólogos, sociólogos e cientistas comportamentais que estudam minuciosamente a criança, a fim de explorar o universo infantil para alcançar seus objetivos, visando o lucro e tê-las como consumidores fiéis aos seus produtos.
Parte dos conteúdos exibidos na TV é direcionada as crianças porque ficam totalmente expostas a uma quantidade excessiva de publicidade que foi estudada e desenvolvida com intuito de dialogar com elas. (SILVA, 2012)
Também, “constatou-se que as mensagens são fundamentalmente afetivas, com ênfase no sabor dos alimentos e no prazer, havendo pouca referência aos aspectos nutricionais e de saúde” (REIS, 2011, p. 629) não incentivando uma alimentação saudável e reforçando o consumo de alimentos com baixo valor nutricional.
Segundo Reis (2011), pesquisas feitas pelo Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da UnB (Universidade de Brasília) mostram que, depois de ter sido analisado mais de quatro mil horas de transmissão televisiva, foi constatado que a maior parte das propagandas exibidas são de alimentos ricos em gorduras, açúcares e sal, como fast-food, refrigerantes, biscoitos doces, etc. Chegando a um total de 72% de publicidade exibidos nos horários em que as crianças costumam estar em casa, ou seja, é um verdadeiro bombardeio das campanhas publicitárias. Esses alimentos que causam obesidade estão nas mensagens publicitárias e mais ainda, estão “atrelados à saúde, à beleza, ao bem-estar, à juventude, à energia e ao prazer e a conceitos de ascensão social, de pertencimento e diversão”.
(BEZERRA; SICHIERI, 2011; TOLONI et al, 2013; LANG et al, 2009 apud TADDEI;
TOLONI; SILVA, 2016, p. 184).
Esse tipo de publicidade é bem persuasivo e com grande influência nas escolhas das crianças, pois “um comercial de 30 segundos pode influenciar as escolhas de marcas de até mesmo crianças de dois anos e a exposição repetida tem um impacto ainda maior” (LINN, 2006, p. 131).