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Mana vol.9 número1

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Academic year: 2018

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GARCIA , Sylvia G. 2002. Dest ino Ím-par: Sobre a Formação de Florest an Fernandes. São Paulo: Ed. 34. 191 pp.

Heloisa Pontes

Profe ssora , Un ica m p

H om e m “ se m g e ra çã o” , d on o d e u m a h istória d e vid a sin g u la r e q u a se im-p e n s á v e l à lu z d o im-p a d r ã o d e s o c ia b i-li d a d e d a s n ossa s e i-lite s in te le ctu a is, o sociólog o Flore sta n Fe rn a n d e s g a n h ou n om e , sob re n om e e n otorie d a d e a p a r-tir d a su a a tu a çã o n a Fa cu ld a d e d e Filo s o fia d a U n iv e r s id a d e d e S ã o P a u -lo . N a scid o e m Sã o Pa u lo, e m ju lh o d e 1920, filh o d e p a i d e scon h e cid o e d e M a ria Fe rn a n d e s, Flore sta n d e sce n d ia d e u m a fa m ília d e im ig ra n te s p ortu g u e -se s q u e vie ra m p a ra o Bra sil “ ta n g id os p e la fom e ” . Aq u i vive ra m u m a “ h istó-ria d ra m á tica d e d e sa g re g a çã o fa m ilia r e d e d u ros sa crifícios” (se g u n d o e n tre -vista q u e Flore sta n con ce d e u a o M u se u d a Im a g e m e d o Som e m 1981, p u b lica -d a , -d e fo r m a r e -d u z i-d a , e m N o v o s Es -t u d os Ce b rap , 42). O a vô m a -te rn o, q u e

tra b a lh a ra com o colon o e m u m a fa ze n d a n o in te rior d e Sã o Pa u lo, m orre u tu -b e rcu loso e a m ã e , a p ós se m u d a r p a ra a ca p ita l p a u lista , sob re vivia com o e m-p re g a d a d om é stica .

Ao re le m b ra r a su a con d içã o d e “ tí-p ico m ora d or tí-p ob re d a cid a d e d e Sã o Pa u lo n a d é ca d a d e 20” , Flore sta n a fir-m a q u e “ o fir-m e n in o q u e e u e ra vivia [...] fa scin a d o p e lo lu xo d e u n s ou p e la p om -p a d os q u e d e scia m d e ca rros com m o-torista s d e lib ré , a b rin d o a s p orta s, d ia n te d o Te a tro M u n icip a l ou d o C in e Pa ra m ou n t; p a ssa n d o o d ia -a -d ia oscila n d o e n tre a fom e e a fa rtu ra , tra b a -lh a n d o com o se fosse a d u lto – o cód ig o d e h on ra d e n in g u é m e vita va e sse “ fa r-d o r-d e cria n ça ” – e te n r-d o r-d e a r-d m itir q u e a lim p e za e xig e n te d e m in h a m ã e n ã o

e xclu ía a p re se n ça d a s b a ra ta s, a rou -p a re m e n d a d a e la rg a – g a n h a d e fa m ília s g e n e rosa s ou h e rd a d a d os m a is ve -lh os” . (Esta e a s d e m a is cita çõe s d e Flo-re sta n fora m Flo-re tira d a s d e se u a rtig o “ Em Bu sca d e u m a Sociolog ia C rítica e M ilita n te ” , in clu íd o e m A S ociolog ia n o Brasil, 1977.)

Aos 9 a n os d e id a d e , d e p ois d e cu r-sa r p or trê s a n os o p rim á rio, Flore sta n in te rrom p e u os e stu d os p a ra tra b a lh a r. E só voltou à e scola a os 17 a n os, p a ra fa ze r o cu rso d e m a d u re za n o G in á sio Ria ch u e lo, con cilia n d o o d ia d e tra b a -lh o c o m o s e s t u d o s n o p e r ío d o n o t u r-n o. Em su a s p a la vra s, “ o Ria ch u e lo log o d e sve n d ou u m m u n d o n ovo, e m q u e os p rofe ssore s e a s liçõe s n ã o se ria m o ú n i-co e ixo. O s e stu d a n te s i-com p a rtilh a va m c o m ig o c e r t a s d ific u ld a d e s – n ã o t o -d a s. N in g u é m p ossu ía orig e n s tã o tosca s e u m d e se n ra iza m e n to tã o p rofu n -d o. C on tu -d o, to-d os tra b a lh a va m e via m n o cu rso d e m a d u re za u m a in stru m e n ta lid a d e q u e e u d e scon h e cia . Tod os ía -m os lá p a ra a p re n d e r [...]. Pa sse i, e n tã o, d o p a to a o g a n so” .

Pe la p rim e ira ve z, Flore sta n se n tiu q u e p od ia rom p e r com a “ d e g ra d a çã o socia l tá cita ” q u e e sta va im p lícita e m su a con d içã o. Um a “ a le g ria e n orm e ” e “ u m a e sp e ra n ça se m lim ite s” som a -va m -se à d e scob e rta d e q u e p od ia “ vive r com o g e n te ” e la n ça rse “ n a corre n -te ” . A cid a d e d e Sã o Pa u lo d e ixa ra d e se r a p e n a s o lu g a r d e “ e n ca n tos p roi-b id os” , con ve rte n d o-se e m u m e sp a ço d e p ossib ilid a d e s con cre ta s. De cid id o a cu rsa r a u n ive rsid a d e , Flore sta n in scre -ve u -se n o -ve stib u la r p a ra a Fa cu ld a d e d e Filosofia d a Un ive rsid a d e d e Sã o Pa u lo, on d e in g re ssou a os 21 a n os. N o com e ço d e 1941, e n q u a n to in icia va o cu rso d e g ra d u a çã o e m ciê n cia s socia is, os in te g ra n te s d o “ G ru p o C lim a ” p re -p a ra va m -se -p a ra la n ça r a re vista q u e tra ria n ota b ilid a d e a vá rios d e se u s e d i-RESEN HAS

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RESEN HAS 147

tore s e cola b ora d ore s. A Fa cu ld a d e n a q u a l tod os e sta va m ou e stive ra m in se -rid os com o a lu n os com p le ta va , p or su a ve z, o sé tim o a n o d e e xistê n cia . Sob o sig n o d a ju ve n tu d e , d a in stitu içã o e d e se u s m e m b ros, sa íra m a ca m p o, cria ra m n ovos p roje tos d e in te rve n çã o cu ltu ra l e im p le m e n ta ra m n ova s form a s d e tra b a -lh o in te le ctu a l.

Flore sta n e scolh e u a s ciê n cia s so -cia is p orq u e a cre d ita va q u e e ssa d isci-p lin a coin cid ia com os se u s in te re sse s in te le ctu a is “ m a is p rofu n d os” . M a s a n -te s d e tu d o q u e ria se r p rofe ssor. Su a op çã o p e la s ciê n cia s socia is, m otiva d a p or u m “ va g o socia lism o” e p e lo d e se jo e n tã o im p re ciso d e “ m u d a r a socie d a -d e ” , p a ssou a o la rg o -d a e scolh a -d e u m a p rofissã o. Ele , q u e a té e n tã o se su ste n -ta ra com e m p re g os va ria d os, in g re ssou n a Fa cu ld a d e d e Filosofia se m se colo-ca r, d e in ício, e sse p rob le m a . M e sm o p orq u e , n o com e ço d o d e cê n io d e 40, n in g u é m sa b ia com cla re za o q u e e ra se r cie n tista socia l e m u ito m e n os o q u e s e p o d e r ia e s p e r a r d e s s e t ip o d e p r o -fissã o.

Flore sta n Fe rn a n d e s e ra o h om e m ce rto p a ra a Fa cu ld a d e d e d e stin o a in -d a in ce rto. Su a orig e m socia l, som a -d a à s d ificu ld a d e s d e tod a ord e m q u e e n -fre n ta ra n a in fâ n cia e n a a d ole scê n cia , d ificilm e n te lh e fra n q u e a ria o in g re sso e m u m a Fa cu ld a d e com o a d e Dire ito ou a d e M e d icin a . De stitu íd o d e tod o ti-p o d e ca ti-p ita l, e le e n con trou n o cu rso d e ciê n cia s socia is o e sp a ço p ossíve l p a ra rom p e r com o “ círcu lo d e fe rro” d e su a con d içã o socia l. C ria d a e m u m ca ld o d e cu ltu ra e m q u e se m istu ra va m o m ovi-m e n to ovi-m od e rn ista e su a rotin iza çã o, a le va d e “ re tra tos” d o Bra sil e n ovos p ro-je tos d e p olítica cu ltu ra l, a Fa cu ld a d e d e Filosofia torn ou -se , e m p ou co te m-p o, o ce n tro e o e ixo e m torn o d o q u a l g irou a form a çã o d e u m n ovo siste m a a ca d ê m ico d e p rod u çã o in te le ctu a l.

Im-p la n ta d o Im-p or Im-p rofe ssore s e stra n g e iros, fra n ce se s e m p a rticu la r, e sse siste m a foi se a clim a ta n d o e fin ca n d o ra íze s n o ca m p o in te le ctu a l p a u lista , g ra ça s à a tu a çã o, n o d e corre r d os d e cê n ios d e 40 e 50, d os m e m b ros m a is e xp re ssivos d o c o r p o d is c e n t e d a F a c u ld a d e d e F ilo -sofia : os in te g ra n te s d o “ G ru p o C lim a ” e os cie n tista s socia is sob a lid e ra n ça in -te le ctu a l e in stitu cion a l d e Flore sta n Fe rn a n d e s.

Afin a d os com o q u e se p a ssa va n a lite ra tu ra , n o cin e m a , n a s a rte s p lá sti-ca s e n o te a tro, os p rim e iros fize ra m d a crítica o e lo d e lig a çã o e n tre a tra d içã o in te le ctu a l b ra sile ira , forte m e n te imp re g n a d a imp e lo e n sa ísm o, e o e stilo a ca -d ê m ico in sta u ra -d o p e la Fa cu l-d a -d e . Dife re n te m e n te d e le s, Flore sta n e m p e -n h ou -se com ob sti-n a çã o -n a cria çã o d e u m a lin g u a g e m e sp e cia liza d a , p a u ta -d a p e la id é ia d e cie n tificid a d e . Lon g e d e se r a p e n a s u m a q u e stã o form a l, se u e stilo d e e xp osiçã o e e xp lica çã o d os fe n ôm e n os socia is torn ou se u m d os e le m e n tos ce n tra is p a ra a cria çã o d a id e n -tid a d e d iscip lin a r d a sociolog ia e d e se u s p ra tica n te s n a é p oca . Sin on im i-za n d o e n sa ísm o a a m a d orism o, Flore s-ta n tra vou u m a lu s-ta sim b ólica n o p la n o d a lin g u a g e m com o p rop ósito d e le g iti-m a r e con solid a r a sociolog ia . Vitorioso, e le con ve rte u a ca d e ira d e Sociolog ia I d a Fa cu ld a d e d e Filosofia e m u m d os m a iore s ce n tros d e p rod u çã o sociológ ica d o p a ís, con h e cid o p or “ Escola Pa u -lista d e Sociolog ia ” .

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-çã o vig orosa d o p e ríod o d e form a -çã o d e Flore sta n , q u e se e ste n d e d os a n os 20 e 30 – corre sp on d e n te s à e xp e riê n cia d oí-d a oí-d e m e n in o p ob re – a té 1953, q u a n oí-d o e le d e fe n d e a te se d e livre -d ocê n cia , con q u ista a m a iorid a d e a ca d ê m ica e se p roje ta com o o sociólog o m a is ta le n to-so d a Fa cu ld a d e . M u ito b e m e scolh id o, o títu lo d o livro con d e n sa u m d u p lo fe i-to. Sin te tiza o a rg u m e n to d a a u tora – n a su a a ce rta d a re cu sa e m d issocia r a b iog ra fia d e Flore sta n d e su a p rod u çã o in -te le ctu a l, e a m b a s d o con -te xto h istórico q u e d á su ste n ta çã o à e stru tu ra çã o d a Fa cu ld a d e e à s tra n sform a çõe s socia is e cu ltu ra is n a Sã o Pa u lo d a é p oca – a o m e sm o te m p o q u e ofe re ce u m a im a -g e m v ív id a d o p e r c u r so d e Flo r e st a n . Ímp a r e m re la çã o a o d e stin o d e se u s co-le g a s d e p rofissã o, Flore sta n foi ta m-b é m sin g u la r n a h istória d a su a fa m ília .

Va le n d ose b a sica m e n te d a s e n tre -vista s e d os te xtos a u tob iog rá ficos q u e Flore sta n p rod u ziu a p a rtir d os a n os 70, q u a n d o já se e n con tra va fora d a Fa cu l-d a l-d e e m ra zã o l-d a su a a p ose n ta l-d oria com p u lsória p e la d ita d u ra m ilita r, Sylvia G a rcia n ã o p e rd e d e vista o e n tre la -ça m e n to d a s d im e n sõe s p sicológ ica s e p e ssoa is d o sociólog o com a s “ p ossib ili-d a ili-d e s p re se n te s n a con fig u ra çã o sócio-h istórica d a m e tróp ole p a u lista n a e , e m e sp e cia l, e m se u ca m p o in te le ctu a l e u n ive rsitá rio” (:173). Se m ca ir n a s a r-m a d ilh a s fá ce is d o g ê n e ro b iog rá fico, sob re tu d o d ia n te d e a lg u é m com o Flore sta n , cu jo p e ríod o d e form a çã o in te -le ctu a l coin cid e ta m b é m com o se u m o-m e n to d e a sce n sã o socia l, Sylvia a ro-m a o con te xto n a rra tivo n e ce ssá rio p a ra e n -te n d e rm os a e xce p cion a lid a d e d e sse sociólog o. Be m e scrito e a p a ixon a d o, o livro e n re d a o le itor n a s tra m a s e m p ol-g a n te s e m u ita s ve ze s d ila ce ra d a s q u e d e ra m se n tid o e con sistê n cia à tra je tó-ria d e Flore sta n . Va le a p e n a con fe rir. RESEN HAS

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