Direitos autorais 2020 Edmilson Antunes Tavares. Todos os direitos reservados

Texto

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Todos os direitos reservados

Os personagens e eventos retratados neste livro são ctícios. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é coincidência e não é

intencional por parte do autor.

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Dedico aos meus amigos, e todos aqueles que, de alguma forma, colaboraram para a realização desta obra,

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ÍNDICE

Direitos autorais Dedicatória Introdução Destinatário:Sara A Filha da Princesa Alma e Ossos Joana

A Cidade dos Canibais

Angélica, Simplesmente Ángel Cartas

Um mergulho no inferno Livros deste autor

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INTRODUÇÃO

Neste trabalho estão oito contos, abordando temas diversos, entre eles a AIDS, uma doença que assustou muitos de nós, e dra-mas como da família de Joana, casos esquecidos pela classe domi-nante desse país. O último conto, um mergulho no inferno, quis ser uma homenagem a Barbara Samson, escritora francesa..

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DESTINATÁRIO:SARA

Eu nasci em uma cidade pequena, dessas do tipo em que todo mundo conhece todo mundo. Cidade que ainda preservava os bons costumes como termômetro da personalidade das pes-soas. Conheci o grande amor da minha vida aos quinze anos. Ela era linda! O seu pai era do tipo carrasco, e não permitia à lha sair de casa sem a mãe, senão para a escola, e aos domingos para a missa.

Namorávamos escondido, e não era fácil. A casa dela era próxima à casa de sua prima, esta tinha quase a mesma idade da-quela, e por serem muito unidas, até estudavam na mesma sala de aula, as duas permaneciam grande parte do tempo juntas. Entre a casa dela e a da sua prima havia um carreiro, que saía dos fundos de sua casa, beirava o quintal, junto a uma velha cerca, e saia numa espécie de corredor, entre um muro e um velho armazém, a casa de sua prima cava em frente ao armazém, do outro lado da rua. Para ter-se uma ideia da proximidade entre as duas casas, bastava ela ir até o portão no fundo do quintal e chamar, logo sua prima surgia na calçada de casa, e vice-versa, bastava a prima sair na cal-çada e gritar que breve aparecia ela no portão do quintal. E foi aí, nesse beco, onde nosso namoro cresceu.

Bem, eu a conheci no aniversário de uma amiga, eu a vi e achei-a bonita. Uma sensação de prazer me prendia os olhos nela, encantei-me com ela, e, creio, tudo isso foi recíproco, pois ela também me buscava de quando em quando com os olhos. O ani-versário foi num domingo à tarde, e no nalzinho tocou um forro-zinho animado. Eu não era lá essas coisas mas sabia dançar mais ou menos, era a minha chance de dançar com a garota mais bonita da festa (se bem que a aniversariante não cava para trás). Senti

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que ela queria dançar comigo, pois me olhou de um jeito convida-tivo. A coragem me faltou e eu não consegui nem mesmo me loco-mover até ela, apesar de intenso esforço. Resolvi esperar a pró-xima música, quando percebi que a outra estava terminando eu caminhei em direção a ela, ainda sem saber como nalizar o que eu tinha dado início, pois ao ir em sua direção ela percebeu, logi-camente, segundo os olhares que trocamos, eu iria chamá-la para dançar. Ao chegar bem perto, quando eu comecei a contrair o braço e erguê-lo, e as palavras já vinham na garganta, um de seus amigos, vindo sei lá de onde, puxou-a num convite meio forçado e tirou-a para dançar. Olhe, todas as cores e tonalidades do arco-íris, do violeta ao vermelho, reluziram em minha face. Eu quei tão sem ação que permaneci por alguns instantes ali, depois sen-tei um pouco, porque até as pernas bambearam. Fiquei obser-vando-a enquanto dançava, e quando sua face se voltava para o meu lado, trocávamos olhares insinuantes. Dançaram duas músi-cas, foi o tempo necessário para minha cara e minha cor voltarem ao normal. Ela veio em minha direção, para o lugar onde estava sentada, então eu me levantei e nem uma palavra foi necessária, eu apenas estendi a mão num convite gesticulado e ela aceitou num sorriso. Com leveza, deixou três dedos seus tocarem em mi-nha mão, e fomos para o meio da pequena sala onde todos dança-vam. Paramos e então camos um de frente para o outro, e quando eu levei a mão e envolvi a sua na cintura, mais delgada que um o de esperança relutando contra as evidências, tendo os seus longos cabelos roçando a minha mão, e após ter tado os seus lindos olhos azuis – pasme! Eu ainda nem tinha conseguido notar que seus olhos eram azuis –, bem no momento em que eu encostei o meu rosto, ainda sem vestígios de barba, na sua delicada pele, e aquele doce aroma começou a se inltrar em mim, droga! (per-dão), alguém nos fez parar. Era a sua mãe, que se desculpando co-migo virou-se para a lha e explicou-se: “Filha, seu pai já deve es-tar preocupado, vamos?” E puxando-a levou-a. Ainda a mim disse ela: “Tchau!” Num sorriso sem graça respondi.

E outra vez lá eu, um homem-camaleão, tomando a cor da situação. E se você pensa que eu desisti de sonhar e fui embora

EDMILSON ANTUNES TAVARES

todo triste para casa, está muito enganada, quei e fui o último a sair.

Quando todos foram embora eu procurei saber da cinde-rela encantada que conheci ali, a aniversariante era tanto amiga dela quanto minha. Fiquei sabendo em qual turno e escola es-tudava, endereço, idade e nome; estudava de manhã, no giná-sio, o único da cidade, morava na rua, uma das, chamada rua da baixa, especicamente, a que dava acesso à capela Nossa Senhora Sant’Ana, tinha treze anos de idade e chamava-se Adriana.

Na segunda não vacilei, fui logo cedo para frente do giná-sio escolar. Quando já eram quase sete horas e eu estava pratica-mente a desistir, ela chegou, ela e outra garota, a sua prima. Ela passava por detrás do ginásio e atravessava um beco, formado pelo altíssimo muro do colégio e a parede de uma olaria. O beco era estreito, cabia cerca de três pessoas, porém era o caminho mais curto e o mais propício para os alunos das ruas da baixa e do chapadão, eles seguiam a rua que beira o rio Capuré até ali, nos fundos do colégio, pois se optassem a ir pela esquerda, teriam de passar por cinco casas e depois descer pela rua da frente, e op-tando pela direita, teriam de contornar toda a olaria e seu imenso depósito.

Sabendo que ela passava por aquele estreito caminho, já imaginei coisas. Ela nem me viu, até porque eu evitei. Tive de vol-tar porque tinha mil e uma coisas para fazer. O m do turno era às onze e vinte, ao aproximar-se dessa hora corri para lá, subi num arvoredo da rua que cava ao fundo e quei observando. De cá dava para ver o portão da escola. Deu o sinal e começaram a sair os alunos, e lá veio ela, precisei mais ou menos o tempo por ela gasto do portão até o beco e fui. Comecei a descer pelo beco, quando tinha andado mais ou menos um quarto ela entrou na outra extre-midade e veio subindo. Muitos alunos vinham vindo e ela estava entretida com a prima em um agradável assunto e nem me viu. Senti-me um tanto triste.

Porém na terça de manhã (na segunda eu até pensei em desistir) eu não resisti e voltei lá. Fiquei na extremidade superior do beco, no sentido oposto ao seu trajeto e quando ela adentrou

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o beco eu fui. Ao ver-me, notei, ela mudou de feição. Dedicou um sorriso disfarçado para mim, baixou os olhos e passamos um pelo outro num rápido esguio de olhares. Propositalmente levei a minha mão de forma a tocar na sua, e elas se tocaram. Por cerca de umas duas semanas esse foi nosso namoro, toques de mão duas vezes ao dia no beco ao lado da escola.

Fui reparando-a cada vez mais, era realmente uma garota bonita, pele branca contrastando-se com seus cabelos completa-mente negros, tinha um belo corpo, pernas sensuais e seios a for-mar-se. A boca, agora a boca dela, era simplesmente linda! Não sei se é porque a cada momento que eu conseguia repará-la melhor eu estava mais apaixonado.

Ela queria, eu, nem se fala, então nada nos impedia senão nossa timidez. Resolvi procurá-la. Era uma tarde de sábado, já es-tava escurecendo, um apo de crepúsculo era tudo quanto ainda restava de luz, procurei a prima dela, pois ir direto na casa dela isso eu não tinha coragem. A prima dela já sabia e eu nem preci-sei explicar nada, ela até se adiantou a mim: “Quer ver Adriana?”. Com um sorriso conrmei, ela prosseguiu: “Venha aqui então”. Não desisti porque não deu tempo, ela arrastou-me pela mão e levou-me pela lateral do armazém. Atrás deste tinha um muro formando outro beco, ela empurrou-me ali e gritou: “Oh Dri!”. De alguma forma eu estava torcendo: “Por favor, não esteja!”. Mas gritou uma segunda vez e houve resposta, como que uma voz de sinos, soou um “oi” para nós. Meu coração doeu, minhas per-nas bambearam, e todo o processo que se segue, uma perda de controle em cadeia. A prima dela continuou: “Venha até aqui.”. Quando ela chegou perto perguntou: “O que foi?”. A prima dela apenas me mostrou com os olhos e disse: “Alguém quer vê-la. Tchau!”. Com rapidez voltou, eu quei imóvel e, creio, ela

tam-bém, pois eu não a estava vendo por estar detrás do muro, nem ela a mim, porém ela apareceu na esquina: “Oi!”. Respondi: “Oi!”. Continuou: “Queria falar comigo?”. Eu não sabia o que dizer, então disse apenas: “Só vim vê-la!”. Ela cou um pouco corada. Como não tinha nada para conversar mesmo, ou melhor, não tínhamos assunto, camos calados. De repente sua mãe gritou: “Adriana!

Adriana!”. Ela apenas me disse: “Volte amanhã”. E saiu correndo em direção a sua casa.

No outro dia eu voltei, ensaiamos qualquer diálogo. Eu acho que só tive coragem de beijá-la uns três ou quatro encon-tros depois. Ficamos namorando escondido um bom tempo, seis meses para ser exato, com a conveniência da prima dela. Nem seu pai nem sua mãe nunca passavam por ali, na verdade ninguém a não ser as duas.

Um dia, em que inclusive eu estava poético, houve um ble-caute e as luzes da cidade se apagaram, e quando a energia voltou apenas as luzes das casas se acenderam, cando as ruas às escu-ras. Estávamos namorando no momento do blecaute e tudo cou escuro. E na baixa entre as ruas (por isso ruas da baixa) os vaga-lumes faziam um fuzilamento de luzes contra a escuridão, num incessante pisca-pisca. Ela olhou o céu, que estava forrado por nuvens, e comentou comigo: “Nossa! Não há uma estrela no céu.” Armação até incorreta, as estrelas estavam lá, apenas não as vía-mos. Apontando para o longo da baixa mostrei-lhe os vaga-lumes: “Não vê? Olha as estrelas aí.”. Indagou-me sorrindo: “Wanderson, por que as estrelas desceram para a terra?”. Respondi-lhe: “Ora, porque todo o azul do céu veio para os seus olhos.”. Nessa hora mágica uma lâmpada bateu seu foco em nossos rostos. O pai dela havia resolvido ir buscá-la na casa do cunhado devido ao blecaute e nos agrou ali. Entre chingos puxou-a pelo braço e veio para cima de mim. Tive que correr muito para não apanhar.

Consegui fugir do pai dela, mas da gozação dos colegas e do sermão dos meus pais, disso não houve escapatória. Ela cou uma semana de castigo, além de uma boa surra. A prima também não escapou da surra, por conivência. E foi por meio dela que ainda nosso amor viveu, era ela quem trazia notícias e levava, em forma de palavras, bilhetes, ou até mesmo carta, e também ela quem proporcionou todos os nossos poucos encontros. Mas durou pouco a nossa felicidade, Adriana e a família foram embora da cidade.

Iam embora na terça-feira, porém antes, no sábado à noite, ia ter uma festa de quinze anos de uma de suas amigas.

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Impressio-nante, não? Conhecemo-nos em uma festa de aniversário, e numa festa de aniversário nos despedimos. Lembro dela haver pedido à mãe um vestido bem bonito, pois a tal aniversariante era de uma família rica da cidade. Ela foi sozinha com a prima, cer-tamente seus pais nem desconavam da continuidade do nosso namoro às escondidas. Também ela era boa na arte de disfarçar, despistar as evidências. Certo dia, pouco antes de partirem, seus pais agraram-na chorando no quarto, sua mãe indagou: “Que foi, lha?” Respondeu: “Meus amigos, mãe, vou sentir saudades deles, não conheço ninguém lá para onde vamos.” Disse-lhe a mãe: “Você conseguirá novos, minha lha, não se preocupe.” Novos amigos, certamente; novo amor como eu, já dava margem a dúvidas.

Eu não havia sido convidado, mas conseguiram pôr-me para dentro. Eu e ela camos juntos o tempo inteiro. Nem eu per-guntei para onde iam, nem ela comentou nada comigo. Apenas vivemos o momento, e bem vivido. Por volta de dez e meia foram embora, eu as acompanhei, ela e a prima, até a última esquina para a casa da prima (ambas iam dormir lá), onde esta apressou um pouco e deixou-nos a sós. Um certo silêncio nos envolveu, olhos nos olhos, demoramos alguns segundos, imóveis, como que fotografando um ao outro, para recordação na solidão vindoura. Beijamo-nos, ela, após o beijo, levou a mão em meu rosto, nesse momento percebi que estava chorando. Seu rosto também estava molhado. Foi afastando-se lentamente, quando um pouco dis-tante disse: “Adeus!” E saiu correndo, e chorando. Eu sentei-me no meio-o e quei, também chorando. Eu permaneci ali de quando ela saiu, umas onze e pouca, até umas três da manhã. Eu sofri tanto ali!

No domingo saíram para o sítio de um amigo, retornaram na segunda de manhã. Durante todo o dia, a família inteira passou a arrumar a mudança, com exceção de alguns colchões, o restante dos móveis partiria naquele mesmo dia antes do anoitecer. Na hora do almoço eu passei perto do armazém, e de cá pude vê-la arrumando as coisas lá, estava com um short curto, suas pernas, e que pernas!, à mostra, chegaram a dar-me água na boca. Ela nem chegou a ver-me.

EDMILSON ANTUNES TAVARES

Durante a noite daquela segunda houve um blecaute e toda a cidade cou às escuras, tal qual o dia do agrante, mas desta vez foi geral. Se não me falha a memória foi causado pela queda de uma árvore na rede elétrica. Eu perdi o sono, e quando foi uma hora da manhã eu não consegui mais car deitado, a cama estava queimando minhas costas. Uma dor dentro do peito, uma tristeza tão grande me tinha, que resolvi sair pela rua. Antes porém uma ideia, apanhei uma caneta e um papel e escrevi um pequeno bilhete, uma coisa nunca dito a ela por mim, escrevi ape-nas três palavras: “Eu te amo!” Saí e fui em direção à casa dela, mu-nido de uma caixa de fósforos e uma simples vela. Mais à frente, consegui, mesmo em meio à escuridão, furtar uma rosa, levei-a acompanhada do bilhete, e deixei-os na janela dela.

Com o coração na mão eu aproximei-me da janela dela, estava tudo escuro. Deixei a or sobre o bilhete, sem saber se ela ao menos iria abrir a janela. No outro dia, por volta das sete, nada z, fui até a janela e, um pequeno pedaço de papel com um pequeno peso em cima, peguei-o com cautela e trouxe-o à frente dos olhos, estava escrito: “Idem!” Ela possivelmente estava sem caneta ou lápis, escreveu com o próprio batom. A propósito, esses dois papéis contendo essas quatro palavras, estão na última ga-veta do lado da cama daquele armariozinho de cabeceira, lá do meu quarto, dentro de um envelope branco escrito: “Recordações de nós dois.” Lá também o bilhete com o recado sobre a nossa cama no dia do nal.

Bem, eu quei lá naquela cidadezinha sozinho, triste. Eu sou homem, mas cheguei a chorar algumas vezes por ela. Também eu tinha perdido muito, não era rico, nem belo, eu não tinha chan-ces de namorar uma mulher muito bonita e ela era uma mulher bonita, estava cando linda, estava se tornando a mulher mais bo-nita do lugar, pois ela era magra e estava se reformando, tomando forma e corpo, só tinha quatorze anos e iria, com certeza, chegar aos quinze linda.

Bem, por um bom tempo eu quei pensando nela, só nela, nem conseguia car com ninguém, preferia sempre car sozinho, no meu canto. Fui esquecendo aos poucos, ou melhor, creio que

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fui me acostumando, consegui retornar à normalidade de minha adolescência, porém pensava nela grande parte do tempo.

Após terminar o segundo grau eu quis tentar vestibular, consegui entrar na faculdade. Contudo, como a faculdade cava muito longe, tive que mudar de cidade. Prestei concurso público e entrei na CEMIG (Companhia Energética de Minhas Gerais), para assim pagar meus estudos e sustentar-me. Era um trabalho pu-xado, eu chegava sempre atrasado cinco ou dez minutos. A sala onde eu cursava engenharia era a primeira a partir do portão de entrada, como eu sempre chegava atrasado e era o primeiro a sair, e sempre durante o recreio cava estudando, eu só conhecia os meus próprios colegas de sala. Para você ter uma ideia, estudei dois anos sem saber sequer o nome de um aluno de outras turmas.

Quando eu entrei no terceiro ano o aperto ainda era o mesmo, eu chegava atrasado, estudava durante o recreio e saía vo-ando logo após terminada a aula. Um dia eu cheguei uns vinte mi-nutos atrasado e, como tinha prova na segunda aula, resolvi car do lado de fora estudando. Sempre eu cava em casa para estudar, calculava o tempo e chegava na hora exata, mas naquele dia eu queria pegar a primeira aula, porém no caminho algo me deteve e assim não cheguei a tempo. Pela primeira vez sentei e quei ali, do lado de fora.

Num momento qualquer uma garota sentou-se no banco oposto, entre nós o passeio. Uma curiosidade fez-me olhar quem era, uma bela garota. Algo familiar fez-me observá-la novamente. Meus lábios anteciparam-se a mim e professou sem que eu nem percebesse: “Dri!?!” Ela olhou, trocamos um rápido olhar, após um sorriso. Nem eu nem ela sabíamos como proceder, talvez o melhor era car sentado para não cair com a dor, pois meu co-ração batia tão forte a ponto de se machucar. Respondeu-me ter-namente: “Oi!” Tentei continuar estudando, não consegui. Falar então? Terá ela me reconhecido? Pensei.

Isso já não importava, mas será que ela ainda pensava em mim? Pois ao revê-la o mesmo sentimento uma outra vez veio a mim, o mesmo amor. Sim, ela ainda o fazia! Depois de alguns ins-tantes sem palavras ou ações, de apenas alguns olhares meus e,

creio, dela, rápidos e alternados, pois não a agrei com os olhos nos meus e nem ela com os meus nos dela, de propósito ela deixou cair o seu lápis. Apressado eu a acudi para que se não abaixasse e zesse tal serviço em meu lugar. Disse, tal era que as palavras che-gariam a ela antes de mim, sendo o passeio de cerca de três metros ou mais, anunciando-lhe meu intento: “Deixa que eu o apanhe. Não se incomode”. Peguei o lápis e entreguei-lho, ela agradeceu-me.

Havia erguido-se, pois o lápis tinha rolado para um tanto longe. Ficamos de frente um para o outro, um certo silêncio pre-dominou. Uma ânsia de beijar-lhe os lábios me veio, creio que foi recíproco, pois nunca os tinha visto tão belos, sensuais, pedintes pelos meus. Ergui o lápis na palma da mão, esta aberta. A mão dela veio ter com a minha, não pelo lápis, por minha própria mão. Sua mão fez cair o objeto, queria ela tê-la toda sobre a minha, eu era só desejo disso. Estendi-lhe a outra , ela correspondeu-me, as nossas duas mãos nas nossas duas mãos.

Já não eu tinha mãos, mas as minhas eram dela, e já ela, em condições mesmas que eu, já não possuía as suas, mas eram minhas elas. Posto que era minha as dela, e ainda eram minhas as minhas por decreto-lei da física, assim era eu, e ela em situação mesma, de quatro mãos; sim, nos tínhamos quatro mãos, e num gesto lento enlaçamo-nos em nossos braços, e perdera o sentido os quatro braços, porque tanto nos unimos no abraço que já éra-mos “eu”. Não eu próprio ou ela, mas uma eu de nós dois; tor-namo-nos um.

Um beijo, um delicioso beijo, e ali o reenlace aconteceu. Lágrimas, recordações, o fato de ela estudar ali desde o princípio e não nos termos encontrado, isso tudo perdera o valor diante o beijo e a resposta dela, quando a indaguei: “Em algum tempo lem-brou-se de mim? Ao menos um minuto?” Ela respondeu-me sor-rindo: “Todos!” Que felicidade!

O nosso amor era grande e ainda mais cresceu. Casamos e viemos morar aqui neste apartamento, eu comprei-o com a ajuda de meu pai e de meu sogro. A vida prosseguiu linda e amávamos, e tal era a harmonia que a cada dia que distava mais o dia que

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ca-samos mais parecia aproximar-se deste, num regresso do tempo em contínuo estado, posto que o tempo desgasta o casamento, e o nosso mais se consolidava. E tanto mais o fez quando nos premiou a vida fornecendo-nos um papel na criação. Eu me tornei pai! E data isto de quinze anos passados. E este dia de hoje faz arredon-dar este tempo.

Bem, a felicidade era completa mas já creio não ser o per-feito algo à altura do ser humano, pois se o temos conosco já logo tratamos de desfazê-lo, e se demoramos em destruir o perfeito que nos envolve, o destino logo intervém. Só há uma trindade per-feita, a Trindade, perfeita e eterna, todas as outras desabam, ou se não em lágrimas, caso as resista – raros são os casos –, em pó.

Faz quase sete anos, como bem sabe, era uma noite calma, na quinta era feriado, e sexta e sábado foram desconsiderados por muitos, e partiram lá para o feriado prolongado. Naquela noite de quinta a rua estava deserta (antes não estivesse).

Eu encontrava-me louco para regressar à minha casa, pois estava fazendo algumas horas extras para terminar a ligação de um determinado terminal elétrico, por motivo da chuva que des-pencou na quinta de manhã ele havia se quebrado e interrom-pido a passagem da eletricidade, e fui chamado à hora do almoço. Tinha um jogo do cruzeiro naquela noite, começava às nove e meia e era nal de campeonato, não me lembro qual era o título a ser disputado, mas sendo cruzeirense, conforme se diz, doente, não queria nem por morte perder o jogo (perdi por morte).

Bem, quei, mesmo tendo me esforçado muito, até dez e meia da noite pára conseguir terminar todo o serviço, dali a uma hora mais ou menos acabaria o jogo, e dentre quinze minutos pos-sivelmente iria começar o segundo tempo, era só “pisar na tábua”. Geralmente eu gastava dali até em casa vinte e cinco minutos, quinze até a entrada e dez até o nosso apartamento, isso com trânsito mais ou menos, no estado daquela quinta eu gastaria tal-vez vinte ou menos. Quando entrei no carro para sair eram dez e cinco, pensei: “Dá tempo” , e partir. Ia voando baixo.

Entrei na cidade tal eu vinha na estrada, respeitando ape-nas os quebra-molas. Aproximei-me da avenida onde morava, na

EDMILSON ANTUNES TAVARES

verdade uma avenida comercial, não havia casas residenciais, a salvo alguns que moravam nos fundos do seu próprio comércio tinha apenas um ou outro apartamento com destinação residen-cial. Aqui mesmo, este último era o único com habitantes, tinha, além de nós, apenas um vizinho (que naquela noite estava via-jando) e um pequeno escritório onde Adriana atendia à sua clien-tela. Era advogada, como se lembra. Assim, sendo aquela uma área comercial, não tinha, posso-lhe armar, nenhum movimento. Eu vinha ali da rua Tiradentes, como você sabe, daquele ponto em que esta avenida e aquela rua se cruzam até aqui é um pulo, pas-sando por esta travessa que ca ao lado, porém para carro essa tra-vessa é contramão. Para cumprir a real lei de trânsito eu teria de descer a avenida até lá na igreja, pois a travessa pela qual eu podia passar estava interditada, e voltar pela outra avenida. Isso seria demorado. Quando converti à esquerda e entrei nesta avenida em frente não vi qualquer ser vivente. Uns jovens namorando numa esquina, algo lá no m dela, e nenhum policial. Não resistir à tentação, por que acompanhando a movimentação do jogo pelo rádio ouvi dizer que estavam os dois times em seus campos e o juiz já ia apitar o início do jogo. Não havendo nenhum movimento não haveria também qualquer perigo, converti à direita naquela noite de quinta-feira e fui, não sabia eu, de encontro ao inferno.

Eu maneirei a velocidade o mínimo para obter a conver-são, e já logo acelerei. Primeiro porque eu não queria perder o início do segundo tempo, depois porque eu não queria ser a-grado pela polícia. Quando olhei para frente eu vi alguém e freei, infelizmente não deu tempo, o beco, ou a travessa, era estreita e mal cabia o carro, não tinha como evitar o choque, acabei atro-pelando a tal pessoa que, no momento do choque, eu desconei ser duas. Não dá para por aqui a sensação pela qual eu fui pos-suído naquele instante, como à frente não caberá a dor do dia que se seguia. Os pensamentos se amontoaram na minha cabeça, e de todos prevaleceu o sentimento de defesa, eu tinha que fugir do agrante, então saí tão rápido quanto entrei. Toda essa reexão e fuga, acredite, durou décimos de um instante. Não mais.

Entrei no estacionamento aqui do prédio, desci do carro

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tremendo, era uma caminhonete e eu havia, por enfeite, posto uma grade de ferro na frente. O carro não chegou a ser danicado, devido à tal grade. Ainda trêmulo eu andei até as escadas. Uma força, como se fosse alguém, segurou-me, da minha consciência como que bradando aos meus ouvidos anunciava a possibilidade de a vítima ainda estar viva e precisando de socorro, era meu dever de cristão voltar e socorrê-la. A força que me retinha cou com as minhas vestes nas mãos se assim se pode denominar essa casca de cristão que usamos, minha alma nua e crua seguiu escada acima. Parei em frente à porta, hesitei em abri-la, pois se Adriana estivesse esperando por mim, iria logo querer saber o que estava acontecendo. Então entrei lentamente, em meu rosto a narração completa de todo o ocorrido.

Não lembrei de jogo coisa alguma, apenas cautelosamente me pus no sofá. Decidi dormir ali, caso Adriana viesse ter comigo o porquê de estar ali, era fácil a explicação: “Cheguei tarde e não quis incomodá-la”. Naquela noite eu não dormi, apenas amanheci o outro dia, passando pela noite, hoje eu poso dizer que estava na sentinela da minha própria felicidade.

Liguei o rádio logo de manhã, ainda madrugada, a rádio local sempre dava notícias a respeito de incidentes na cidade. Liguei, acredito eu, cerca de umas quatro horas da manhã, as no-tícias eram de que tudo andava bem, o trânsito calmo, as coi-sas andando às mil maravilhas. A notícia que eu queria veio às seis horas, quando se repassava todas as notícias da noite. Dizia que havia chegado ao hospital Santa Helena uma certa mulher de aproximadamente vinte e oito a trinta anos e uma garotinha, possivelmente sua lha, de seis a oito anos de idade, haviam sido atropeladas na Travessa Esperança. Tinham chagado ao hospital às duas e quarenta da madrugada, e a mulher havia morrido enquanto estava sendo encaminhada à mesa de cirurgia. Não ha-viam sido identicadas. O locutor nalizou a notícia com duas informações antagônicas para o meu ser, a primeira apaziguava os meus nervos, a segunda martelava a minha consciência, assim disse em viva memória: “O carro que as atropelou fugiu sem dei-xar pistas, vejam vocês quanta imprudência, a mulher morreu

por falta de atendimento, pois não foi socorrida a tempo”. Perdi-me em mim nesse instante, o arrependiPerdi-mento doeu-Perdi-me. Decidi contar tudo para você e Adriana, após confessar-lhes eu iria ao hospital pagar as despesas, depois à família indenizá-la e, nal-mente, à delegacia, entregar-me à lei dos homens, assim planejei.

Esperei chegar as sete horas para não acordá-las tão cedo, lembrei-me que Adriana iria atender naquela sexta. Mas como deu oito horas e ela não acordou resolvi ir ao seu quarto despertá-la e após o dedespertá-la, para a vocês eu confessar meu erro. Quando en-trei no seu quarto você não estava, acudiu-me a lembrança que você estava doente e possivelmente, como eu custara, Adriana a levou para dormir consigo, por minha demora e por sua doença, para fazer-lhe companhia e car de olho em você. Fui então para o quarto dela, para despertá-la. Ninguém!; um bilhete sobre a cama:

“Wanderson,

Sara está com um pouco de febre, o antitérmico acabou hoje à tarde, como você está custando eu vou com

ela até o barzinho do seu Luiz para comprar um. Não se preocupe, ela está bem.

Adriana”

Fechei os olhos, uma lágrima foi descendo lentamente, enquanto eu as revia em pensamento, eu as vi saindo, subindo até a esquina e passando pela travessa Esperança, depois indo até a es-quina e seguindo a rua Tiradentes até o bar, não se gastava senão oito minutos, não mais, eu então as vi retornar pelo mesmo cami-nho. Veio a lembrança de que quando passei o bar estava aberto. As vozes que saíram do rádio ecoaram em meu pensamento, uma mulher de aproximadamente trinta anos, uma garota de seis a oito anos, possivelmente sua lha. Corri ao hospital.

Não compensa relatar o quanto eu sofri, vendo minha es-posa morta e minha lha naquele estado. Segundo os médicos você iria para a cadeira de rodas, como de fato foi. Ficou no hospi-tal por quinze dias em estado de choque.

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Depois que tudo passou você ainda permaneceu muda, nunca mais falou comigo. Na escola até melhorou as notas, mas não tem amigos e vive em silêncio profundo. Passou os primeiros anos a chorar e passou a viver agarrada a uma Bíblia para sobrevi-ver. Lembro que desde pequena você queria ser freira, cava parte do tempo observando a foto de irmã Dulce.

Você saiu do hospital como que muda, não falava com nin-guém, a única palavra que ouvi desde aquele dia de sua boca foi, lá no hospital, quando você se reviu em seus sentidos: “Mãe!”. Ela já havia sido enterrada.

Não descone do jeito arredio com o qual eu tenho me portado, de não lhe ter encarado nunca, estar sempre com os olhos a fugir dos seus. No início eu tentei conversar com você, confortá-la, mas três dias depois de você car boa o delegado que investigava o caso esteve aqui em casa, você tinha saído do hos-pital naquele instante, um pouco de esperança me alimentava de que tudo voltasse ao normal, você estava em casa e agora eram só melhoras, não havia por que não um pouco de felicidade. O dele-gado perguntou se podia conversar por uns instantes com você, respondi-lhe sobre seu estado. Levei-o até o quarto e saí. Vim até a cozinha e quando voltava ao quarto encontrei o delegado na sala

já indo embora.

Eu acredito que você se lembre daquelas palavras, até hoje não as esqueço. O delegado comentou comigo, assim falou: “Creio que ela não esteja bem, disse que depois do choque elas caíram, dona Adriana permaneceu consciente e ela ainda estava intacta, então o carro passou por sobre as suas costas, ela desmaiou no momento mas logo voltou a si, e então a mãe disse ter gravado o número da placa, disse-lhe que ela sabia de quem era o carro. Sua mãe tentava confortar-lhe a dor e após tentou levantar-se para pedir socorro, porém quando o fez sentiu tonteira e não conse-guiu, tentou então gritar mas foi inútil, logo perdeu o sentido. Ela nem conseguia conversar, apenas chorava, porque conhecia o cul-pado, e isso a desesperava. Até aí o relato dela parece lúcido, mas nalizou dizendo que não era mais preciso eu procurar porque ‘ele já morreu, eu própria o enterrei’ disse-me.”

EDMILSON ANTUNES TAVARES

O delegado foi, quei sem ação e, sem coragem ao menos de ir vê-la. Sentou-se o júri em suas cadeiras, fez-se o relato e a culpa foi aceita, defendia-me eu não saber que era a minha lha e a minha esposa, acusava-me a total igualdade dos seres humanos, todos com direitos plenos à saúde e à vida. Os ateus defendiam-me, os cristãos acusavam-me. O juiz ergueu-se, procedeu a minha condenação: “Sofrerás cinco pesos de dor”. Numa escala onde o mínimo é a ausência de felicidade, e o máximo o próprio suicídio. Eu fui julgado e condenado pelo tribunal da consciência humana, onde um réu primário sofre mais que um secundário.

Desde então sofro com você, muitas e muitas e muitas vezes já a agrei chorando, não menos eu tantas vezes o z. Devo confessar que depois de Adriana não conheci mulher alguma, de lá para cá em nenhuma outra toquei. Não foi só a sua mãe quem perdeu a vida naquele dia, você também morreu. Sim, você ainda persiste, mas já não existe, e subvive, mas não vive. E não dife-rente me encontro. Morremos os três naquele dia. Sua mãe perdeu a vida, pobre de minha Adriana! Você perdeu a mãe, um pedaço do corpo, e o próprio pai; eu, que era nada mais que um marido e um pai, já não sou um marido, pois perdi a esposa, e sem a esposa não há o marido, e o pai, cujo valor é expresso pela prole, já a lha dis-pensa-o deixando-o sem sentido de ser, como ser pai sem lho? Eu era um marido e um pai, sou um viúvo, tão somente.

Soube, semana passada, por sua tia, que você vai para a Europa, lá entrará num convento onde sua prima irá estudar para freira também, deverá car um longo tempo sem vir aqui, se é que um dia o fará. Eu tenho muitas esperanças com isso, pois Cristo ressuscitou Lázaro da morte para a vida, sei, ninguém res-suscitará Adriana, não merecemos ver esse sinal, mas sei que Ele pode ressuscitar você para a vida, trazer-lhe de novo a vontade de viver, e quem sabe – rezarei por isto – ressuscitar-me em você.

Esta carta cará com sua tia por dois anos, ela então tregá-la-á a uma das irmãs aí do convento, que nalmente lhe en-tregará, mediante um diálogo. Isso tudo para você não a rasgar antes de lê-la. Já a esse tempo terá compreendido que o perdão a quem nos ofendeu ameniza a nossa dor.

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Por nal, lha, queria dizer-lhe que a amo muito, muito mesmo, e que imploro o seu perdão. Não peço exatamente para você voltar um dia aqui, siga as suas missões por aí, mas que me perdoe, isso é o que quero. Não estou em condições de pedir muito, mas implorar é um direito de todo o lho de Deus, que volte um dia, que me dê a felicidade de um abraço e chame-me no-vamente de pai isso a Ele eu suplico, mas de você, humana como eu, sei que já será grande o esforço para perdoar-me. Se conseguir lha, faça-me saber, ao menos por um anjo em sonho.

Mas nem a mais dura realidade consegue sufocar a mais tênue esperança, nem ao menor dos homens nega a vida os mais altos sonhos, por tudo isso ca aqui a sua cama arrumada, o seu quarto reservado, o meu coração aberto ao seu retorno. Entrega-rei a minha vida a essa esperança. Ao chegar em casa caEntrega-rei sen-tado em frente à porta, a esperar, no trabalho seguirei apressado alegando: “Minha lha pode chegar a qualquer momento, e quero estar em casa”. Assim viverei.

Na verdade todo ser humano sonha com a felicidade, e a minha felicidade será o seu perdão, se nunca o der a mim… Mas não quero com este relato impressioná-la, não quero um perdão por piedade, quero um perdão do fundo da sua alma, de livre e es-pontânea vontade de seu subconsciente.

Até um dia, lha, e mais uma vez, saiba, eu a amo, mais que a mim, mais que a própria vida, mais que mais. Um abraço do seu pai,

Wanderson.

A FILHA DA PRINCESA

De tudo a bela ornava-se

Com branco véu cobria o pecado E adormeceu por sorte no alto Da torre de um castelo encantado

Ela trancou a porta da torre E no poço em frente jogou a chave

Antes de tomar a porção mágica Que a pôs em sono suave

Ensejava a bela ali car Por mil anos adormecida Para esquecer um grande amor

Que lhe magoava a vida Mas um dia um certo jovem

Ao alto da torre subiu E pulando a janela da torre

Sobre a cama a viu E saiu pela cidade afora Gritando a todos alarmante Que vira no alto daquela torre

Uma coisa alucinante Uma bela adornada Coberta com um branco véu

De cujo corpo adormecido Dos poros merejava mel

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Mas ninguém acreditava No que o rapaz dizia Porque o castelo há tempos

Uma viv’alma não via Os dias foram passando E o jovem não conseguiu

A ninguém convencer Até que, desistiu E o tempo lhe envelheceu Tornando-lhe um caduco avô Contando ao neto essa história

Que tanto lhe emocionou Mas muitos eram os anos Tudo havia se transformado E na nova república de então Desfez-se o antigo reinado

E o menino um dia Ao alto da torre subiu E conforme dissera o avô

A princesa ele viu O quarto onde estava Adormecida a princesa Tinha proteção de grades

Tal qual uma fortaleza E o menino assim como o avô

Para casa voltou correndo A emoção lhe palpitava Que estava quase morrendo

EDMILSON ANTUNES TAVARES

Mas como era praticamente impossível Ao alto da torre subir

Preferia o povo não crer Que pudesse existir

A tão bela princesa Que tanto alarmou Um pobre avô caduco E o seu jovem neto sonhador

Mais forte que o avô Numa época mais liberal O garoto resolveu tomar

Uma decisão radical Bem ao redor da torre Construiu uma escadaria

Foi por esse motivo Alvo de muita zombaria E quando a obra foi ndada

O povo ali se reuniu Mesmo quem não acreditava

Que uma princesa ele viu Arrombou ele a velha porta

E no quarto adentrou Tendo em sua companhia

Apenas seu velho avô Ao esbarrar-se na cama Foi inevitável a surpresa Outra vez se deslumbraram

Com a magia da princesa

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E permitiram que todos Por ali passassem Para olharem a princesa Desde que não tocassem. Depois o jovem apanhou A princesa em seus braços E desceu com ela a escada Em memoráveis passos

Levou-a até a casa De um certo doutor Que com uma determinada erva

Sem demora a acordou O jovem encantado Levou a bela à matriz

E fê-la sua esposa E também muito feliz

A princesa esquecida Do seu passado cou Do seu corpo mais tarde

Uma criança originou A criança tornou-se Mulher de grande beleza E na cidade era chamada:

“A lha da princesa” Caiu de amores por ela Um jovem ali da cidade

Um poeta meio louco Que a amou com voracidade

E conseguiu por sua sorte Pôr m em sua tristeza

Namorou por um ano Com a lha da princesa Mas ao completar quinze anos

A jovem adoeceu E sem um grande porquê

Em três dias morreu O poeta enlouquecido Porque grande foi a dor Carregou para a torre o corpo

Do seu grande amor Colocou-a sobre a cama

Despiu-a de suas vestes Cobriu-a com um branco véu E beijou-lhe os lábios inertes

Chorou amargamente De sua amada a morte E reclamou da vida

A sua triste sorte Fez um corte no dedo De onde sangue logo saiu Após deixou cair três gotas

Na fronte do corpo frio Crente ele que aquilo Faria a jovem retornar E então caria adormecida

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Desceu chorando dali E a escadaria destruiu E ali na velha torre Ninguém mais subiu E escreveu ao pé da torre

Ferido por sua dor A seguinte frase Que não mais se apagou:

“Não há uma estrela Que brilhe eternamente

Sempre vem o sol Apagá-la impiedosamente”

Depois do acontecido A tristeza foi geral O melancólico e o indiferente

A dor foi igual Quanto ao poeta O pobre poeta apaixonado Ficou louco e depois de velho

Num asilo foi internado O caso repercutiu E a torre cou isolada

Todos eram crentes Que ela cou assombrada A história foi sendo esquecida

Pouco a pouco sumindo A velha geração morreu E uma nova foi surgindo

EDMILSON ANTUNES TAVARES

Poucos ainda restavam Como o pobre poeta

Que de tão velho

Não se aguentava em linha reta Um dia ele sentiu

A morte se aproximando Resolveu sair do asilo E pela rua ir andando Decidiu parar na praça

Pois seu corpo cansou E chorou de emoção Quando a torre avistou

Velha e indiferente Carregada de história Também lutava contra o m

A cada nova aurora Deitou no banco da praça

As forças lhe faltaram Ouviu um grande barulho

Pessoas se aproximaram Era um jovem cercado Por uma pequena multidão

Tentando convencê-la De uma história sem razão

E o velhinho pensou: “Eu já sofri demais E nem tenho o direito

De morrer em paz”

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Abriu um pouco os olhos Olhou o fundo da praça

Uma lembrança triste Deixou-o sem graça Lembrou que naquela praça

Seu primeiro beijo recebeu Da lha da princesa Por quem enlouqueceu Fechou os olhos novamente Não tinha mais forças para viver

Deu suspiros profundos Preparando-se para morrer

Mas o jovem ali perto Sua história contava

Ao amigo receoso Que não acreditava Deixando ali o incrédulo

O rapaz saiu furioso E o que cou disse ao velho:

“Ah meu bom idoso! O jovem que me falava

Está é cando louco Queria que eu acreditasse

Que agora em pouco Ele subiu na velha torre Que todos dizem assombrada

E descobriu que ela É na verdade encantada”

Ao ouvir isso do rapaz O poeta prestou atenção

E sentiu doer no peito O seu velho coração E o que ouviu em seguida Apagou-lhe da vida a dor E pode então morrer feliz

Ao embalo do amor Pois lhe disse o jovem: “Meu amigo que daqui saiu Disse que lá no alto da torre

Saltando a janela viu Uma bela adornada Coberta com um branco véu

De cujo corpo adormecido Dos poros mereja mel”.

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ALMA E OSSOS

Determinado dia de um certo mês em um ano outro, já há muito passado, entrou em uma igreja uma jovem garota de véu e grinalda, de nome Bruna, dezesseis anos, para casar-se com Edu-ardo, vinte anos.

Bruna e Eduardo caram na mesma cidade, e viveram ali todo o tempo, uma vida feliz e tranquila.

Vinte anos depois um acontecimento mudou a vida dos dois, que já tinham a esse tempo quatro lhos. O lho mais velho, Henrique, dezenove anos, saiu de casa por volta das sete horas da noite indo a uma festa na cidade vizinha, a trinta quilômetros dali. Numa determinada curva um parati vinha ultrapassando uma carreta, não deu tempo de frear, o parati empareou com a carreta e nada sofreu, mas ele, ao tentar desviar do parati, perdeu o controle e capotou. Foi socorrido e levado para o hospital de sua cidade.

Por aquela hora Bruna estava em casa com seus outros três lhos: Letícia, dezessete anos, Luíza, dezesseis, e Flávia, qua-torze, Eduardo, que era advogado, estava viajando. Assim que re-ceberam a notícia comunicaram a Eduardo e seguiram rumo ao hospital. Henrique não havia se ferido gravemente porém havia perdido muito sangue, conforme explicou o médico a Bruna e a seus lhos:

— Ele teve apenas ferimentos leves, mas teremos que fazer uma transfusão de sangue, e logo após ele será liberado. O sangue dele é A+, algum de vocês gostaria de fazer a doação?

Bruna e Letícia pronticaram-se. Disse Bruna: — Pode deixar, lha, eu posso doar.

— Ah não, mãe, deixa eu.

O médico interveio:

— Eu vou colher amostras de vocês duas, pode ser que al-guma tenha algum problema. Tudo bem?

Unanimidade no sim, e de tal forma aconteceu. Algum tempo depois um enfermeiro chamou Letícia para fazer sua doa-ção. A esse momento já estavam todas no quarto com Henrique. Assim que Letícia voltou Bruna foi chamada para comparecer à sala do médico responsável por Henrique.

— Pois não doutor?

— Dona Bruna, por favor, entre e sente-se. Ela aproximou-se e sentou-se.

— Bem, agora que já estou à vontade o senhor por favor ex-plique o motivo de tamanha formalidade.

— O sangue da senhora teve um pequeno problema. — E qual foi?

O médico levantou-se e foi até o meio da sala.

— O teste que eu z, dona Bruna, não quer dizer muita coisa, mas a senhora terá de tirar um pouco mais de sangue para um exame que tenha uma capacidade de quase cem por cento de acerto.

— Não estou entendendo.

Ele voltou e sentou-se, e continuou.

— Eu conheço a senhora e seu marido, inclusive estuda-mos na mesma faculdade, sei que são casados há bastante tempo.

— Vinte anos.

— Pois é. Obrigado pela minha prossão eu pedi um teste de HIV, e deu positivo.

Bruna ergueu-se já apavorada. — Eu!? Aidética?

— Calma dona Bruna, este teste dá positivo em várias pes-soas, e depois o outro teste, mais certo, dá negativo. E será isso, com certeza, que acontecerá com a senhora.

— Então, para que esse outro teste? Eu tenho certeza que eu não sou aidética. Sou casada há vinte anos, e sou el a meu ma-rido. Doutor, isso é… Isso não é possível.

— Dona Bruna, que calma, esse outro teste é só para

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rmar, ou melhor, tirar dúvidas.

— Eu não sou aidética, doutor, e recuso-me a fazer esse tal teste.

— Eu conheço o seu marido, fomos colegas, respeito-o muito como prossional, mas, ele usa camisinha para ter relações com a senhora?

Bruna cou calada, o médico prosseguiu:

— Todos que não passam desse primeiro teste fazem os ou-tros sem qualquer constrangimento. Em alguns dias o resultado estará comigo.

–– Não quero que ninguém saiba. Nem meus lhos nem Eduardo.

–– Claro, isso é questão de honra para nós.

Bruna cedeu o sangue, procurou não pensar mais naquilo. Letícia ligou para o pai e acalmou-o, avisando-o que Henrique já estava bem, e nem houve necessidade de car internado.

Eduardo era advogado de uma empresa, viajava muito. Como o lho estava bem prometeu voltar dali a três dias.

Bruna conseguia disfarçar bem a preocupação que o pro-blema lhe causava, ninguém percebeu sua angústia. Eduardo aca-bou não vindo no dia, veio apenas duas semanas depois. Ele havia conseguido uma vitória espetacular para a sua empresa. Chegou alegre e sorridente, e disse a todos:

–– Vamos almoçar fora!

Todos concordaram. Exceto Bruna, ela alegou mal-estar e cou em casa, a verdade é que ela estava com o resultado do seu teste nas mãos e não estava tendo coragem de abrir. Quando só, foi para o quarto, encheu-se de coragem e abriu. E lá estava: “HIV = +”. Desesperou-se, começou a chorar, passando as mãos nervosa-mente pelos cabelos e pelo rosto. Rendeu-se em prantos.

Receber a notícia de que se tem uma doença fatal não é ser informado de que se morrerá amanhã, mas é como se alguém chegasse e informasse: De entre todos que estão à sua volta você será o primeiro a morrer. Isto causa uma verdadeira catástrofe no íntimo de qualquer ser humano. Bruna era uma mulher forte, con-seguiu controlar-se com um pouco de esforço. Lembrou-se do dia

em que temeu tudo aquilo. Uma velha amiga dela, depois de oito anos de casada se contaminou do marido, isso fez com que ela comprasse uma caixa de preservativos. Eduardo estava viajando por aqueles dias, ela cou todo o tempo ensaiando como diria tal coisa, anal eram muitos anos juntos. Ele chegou já à noite, e quando a procurou ela se encheu de coragem e fez o que achava certo, mostrou os preservativos para Eduardo e disse:

— Gostaria que usasse. — O quê?

— É que você passa muito tempo longe de mim.

Ele caminhou em direção a ela e deu-lhe uma bofetada, de tal violência que a derrubou. Pegou-a pelos cabelos e disse-lhe:

— Nunca mais ouse, ou acha que eu sou o quê? Vagabunda, depois de tantos anos pensar isso de mim.

Ergueu-a pelos cabelos e deu-lhe uma joelhada no estô-mago, deixou-a caída e saiu dizendo:

— Vou tomar um drinque, quando voltar quero-lhe pronta para mim.

Ele nunca a havia espancado, fazia-o pela primeira vez. Apesar da dor das pancadas, a reação de Eduardo fê-la crer que ele era por completo el, deixando-a um tanto animada.

Como fazia bastante tempo que isso acontecera, talvez ele realmente não estivesse ainda contaminado naquele dia. Bruna foi à cozinha e tomou um copo com água e açúcar. Lembrou-se ainda que no dia da discussão ela apanhou todos os preservativos e queimou.

Andou até a sala e cou parada de frente para a porta, do lado oposto a esta, pensou em todas as possibilidades. Frequenta-vam o mesmo dentista, faziam consultas sempre no mesmo mé-dico, que era o médico da família há mais de quinze anos, era a pri-meira vez que ela fazia um exame com outro médico, isso devido ao acidente. Via sexo, essa era a única via possível para a entrada daquele vírus em sua família, concluiu por m.

Ficou em pé na sala esperando por Eduardo e os lhos, sem saber o que iria dizer, se se arrependeria depois do que dissesse, ou mesmo do silêncio, quem sabe. Quando eles chegaram ela estava

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no mesmo lugar. Estavam radiantes de felicidade, felicidade esta que causou estranho incômodo em Bruna, como uma luz forte nos olhos de quem estava na escuridão. Todos esbarraram na ima-gem lacrimejante de Bruna, Flávia antecipou-se aos demais:

— Que foi, mãe?

— Nada, lha. Eduardo, estou esperando-o no quarto. Bruna foi para o quarto, Eduardo correu os olhos pelos lhos e seguiu-a, Flávia sentou-se e também os demais, sem en-tender nada. No quarto, Bruna sentou-se na cama e começou entre lágrimas a desabafar:

— Sabe, Eduardo, quando você se casou comigo, não sei se se lembra, mas eu nunca tinha namorado outro. Eu vivia na roça, tinha medo de homem. Quando a minha menstruação veio quase morri de pânico, achei que eu iria morrer. Eu não sabia nem que existia sexo entre os casais, evitava as mulheres grávidas pois achava que elas estavam com uma doença que fazia suas barrigas crescerem (sorri).

— Porque está me falando isso?

— Lembra, você levou quase dois meses para conseguir dar um beijo em mim, eu até corri com vergonha. E quando nos ca-samos então, eu simplesmente achava que eu só tinha de fazer a comida, lavar as suas roupas, cuidar da casa, nada mais. Você veio tirando a minha roupa, achei que só quisesse me ver nua. Aquela primeira vez doeu, e como doeu. Durante o outro dia eu me sentia como se as minhas pernas estivessem sido arrancadas. Torci para que a noite custasse chegar, mas ela, até parece, veio mais rápido. Lembrei-me do que mamãe disse: “Filha, sirva o seu marido em tudo.”, por ser sua mulher, eu tinha que me deitar com você.

–– Eu sei que é praticamente impossível uma garota, como era você, conseguir atingir orgasmo na primeira relação sexual.

–– Sempre fui a mesma garota, até hoje, a diferença é que sei agora ler e escrever, e falar direito.

–– O quer dizer com isto?

–– Que eu nunca senti prazer na vida com você. Acho que ainda tenho medo de sentir prazer e meu pai sair lá do cemitério e vir espancar-me por tal.

EDMILSON ANTUNES TAVARES

–– Mas por que você nunca me disse? Esse problema pode ser contornado com a ajuda de um analista. Por que só agora vem falar-me disso? Por quê?

–– Eu não estou cobrando nada, não, só quero é mostrar-lhe que nem mesmo uma or viu meu corpo nu. Que até hoje eu só fui sua, toda sua. Sempre sua. Que, com exceção dos nossos lhos, ninguém mais tocou meus seios. Você pegou uma menina, fê-la mulher, ensinou-a a ser mulher, amou-a como mulher, mas se es-queceu do ser humano que a compõe.

–– Continuo sem entender nada.

Bruna se levantou, e completamente tomada pela emo-ção, disse desesperada:

–– Eu estou com AIDS, Eduardo! Por Deus, eu sou uma aidé-tica!

Bruna se entregou às lágrimas, Eduardo cou simples-mente sem palavras. Bruna o acusou de tudo:

–– Foi você, você quem trouxe essa doença para nossa cama.

Eduardo cou ainda em silêncio por alguns instantes, ainda suspenso por aquela notícia. Aproximou-se de Bruna e en-xugou seu rosto dizendo-lhe:

–– Eu a amo, Bruna! Perdoe-me. Bruna lhe respondeu no mesmo tom: –– Eu também o amo! Eu o perdoo.

Abraçaram-se fortemente. Eduardo continuou: –– Você deve estar me odiando.

–– Estou magoada com você, porque você traiu a minha vida. Mas temos quatro lhos, devo pensar neles.

–– Temos que ser fortes. Temos que ser fortes. –– Como vamos falar para eles?

–– Deixe o tempo dizer-lhes.

Mais tarde discutiram mais friamente sobre o assunto. Bruna ainda não se conformava com a atitude do marido:

–– Por que você não aceitou usar camisinha? Eduardo cou em silêncio. Ela continuou:

–– Por que não inventou uma desculpa qualquer? Eu

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ria que acreditava. Quis ser machão, e foi, mas não foi homem. Eduardo até riu cinicamente:

–– E como se pode ser macho sem ser homem?

–– Ser macho é fácil, sendo do sexo masculino é só uir pelo desejo, ser homem é saber controlar o corpo e seus desejos. Macho é o reprodutor irracional, homem é o possuidor de game-tas masculinos. Ser macho é ter o corpo a serviço do desejo, ser homem é ter o desejo a serviço do corpo.

–– Eu sei que você está insinuando…

–– Não. Eu não estou insinuando a sua traição.

–– Eu também estou passando por esta angústia de estar condenado.

–– Você se condenou. E por ser irresponsável também me condenou.

–– Foi só uma vez. Eu nunca pensei que isso fosse acontecer comigo.

–– É o erro de tantos, não é? O ser humano nunca aprende ver no erro dos outros a advertência para si. Mas o erro já causou sua consequência, deixa isso para lá.

Aquilo passou como sendo apenas um desentendimento de casal. A partir daquele dia não mais tiveram contato sexual, simplesmente não conseguiram. Não trocaram olhares de

dese-jos, seus olhares agora só continham uma pergunta: “Qual de nós morrerá primeiro?”.

Tudo correu normalmente, os sintomas da AIDS só co-meçaram a aparecer quatro anos depois. Apareceu primeiro em Bruna, e sete meses após em Eduardo. Por aquela época apenas Luíza tinha se casado, e inclusive tido um lho. Ainda assim, Luíza era vizinha dos pais e volta e meia a família estava reunida. Eduardo e Bruna se voltaram bem mais para os lhos, numa tenta-tiva de vivê-los o máximo antes do m. E para acobertar a doença, que mantinham em segredo, Bruna se empregou num hospital para aidéticos, assim ela tinha suas sessões de tratamento sem os lhos carem sabendo, e Eduardo, depois do aparecimento dos sintomas, ia ao hospital com a desculpa de estar visitando a mu-lher.

Flávia havia cado noiva e marcou o seu casamento para aqueles dias. Estava superempolgada com o seu enxoval e todos os preparativos da festa. Eduardo pediu licença do emprego para car próximo da lha e fazer com que tudo corresse bem. A fe-licidade e a empolgação eram muita, Flávia reclamava apenas da falta de apoio da mãe, pois queria que ela tivesse pedido licença para car sempre ao seu lado e preparar o seu enxoval. Bruna fazia-se em mil para dar conta de tudo. E deu, no sábado de manhã, dia do casamento, estava tudo pronto.

Bruna evitou deixar o hospital, mesmo por aqueles dias, tão importantes para Flávia, isso porque lá ela conheceu uma outra família à qual pertencia, que assinava “aidéticos”. Bruna era um ser humano especial naquele hospital, não recebia tanto por estar lá, senão a gratidão de quem por lá padecia. Bruna era a família de quem fora abandonado pela família: se era um idoso era lha; de mesma idade era irmã; se era jovem ela era mãe. Ela sentava do lado na cama, dava carinhos, amor, contava histórias, trocava esperanças, sorrisos; lágrimas. Quando via uma mãe, ou um pai, ali abandonado, seu coração ardia com medo dos lhos descobrirem que ela e Eduardo eram doentes e abandonasse-os. Não pensava nisso porém quando chagava em casa e abraçava-os.

Durante o sábado, por volta das onze horas, Eduardo cha-mou Bruna e confessou-lhe:

–– Bruna, estou passando mal, toma conta de tudo.

Retirou-se rapidamente para o hospital. Quase que não perceberam a falta dele, pois saía de minuto em minuto para pre-parar coisas para o casamento. Por volta das quatro horas da tarde chegou para Bruna a notícia de que Eduardo havia morrido. Bruna imediatamente seguiu em direção ao hospital. Enquanto cá pre-paravam tudo para o casamento ela preparava o velório. No hos-pital, encontrou o apoio de todos. Disse ao médico:

–– Como pode? Ele estava bem.

–– É difícil de entender mesmo, ele tinha o organismo até mais forte que o da senhora.

–– Porém a alma mais fraca –– É, porém a alma mais fraca.

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–– Quero vê-lo, doutor; leve-me até ele. –– Claro. Acompanhe-me.

Bruna havia se controlado até ali, mas quando viu o corpo de Eduardo não se conteve, foi ao desespero. E agora, o que fazer? A lha aguardava o pai para conduzi-la ao altar, a felicidade em casa era geral, como chegar e dizer que ele havia morrido. Provi-denciou todo o necessário no hospital e seguiu para casa. O cora-ção na mão, lágrimas nos olhos, o medo de não resistir na alma. Quando chegou em casa já era tarde, todos já haviam seguido para a igreja. Seguiu para lá imediatamente. Avistou Henrique e Luíza e aproximou-se, antes de qualquer coisa Luíza já lhe questionou:

–– Mãe, onde está pai? Letícia já trouxe Flávia que lhe es-pera ali na porta da igreja.

–– Bem, lha, não quis contar-lhes mas, Eduardo passou mal e foi para o hospital.

–– Não acredito! Quer dizer que ele vão vai mais poder comparecer ao casamento? Nossa, quem e como falar isso para Flávia? Mas papai, ele está bem, mãe?

–– Seu pai morreu, lha.

Luíza não parecia acreditar, nem Henrique, mas Bruna só os abraçou. Letícia, que de nada sabia veio perguntando:

–– Já são seis e meia, onde está papai?

Não houve resposta. Luíza andou em direção a Letícia e abraçou-a dizendo entre lágrimas:

–– Pai morreu.

Bruna entregou-se de vez à dor, o marido de Luíza tomou a frente das coisas. O padre anunciou na igreja o falecimento de Eduardo, alguns choraram, outros não conseguiam crer, o padre anunciou também que o velório seria ali mesmo. Bruna foi em di-reção a Flávia, esta já estava inquieta:

–– Mãe, o que está acontecendo? Hoje é o dia mais impor-tante, o mais feliz da minha vida e tudo está tão estranho, inclu-sive papai, que desapareceu.

–– Sabe, lha, foi com seu pai.

––Ele passou mal e foi para o hospital? –– Foi lha.

EDMILSON ANTUNES TAVARES

–– Oh meu Deus, eu não acredito! Ele está bem? –– Está morto.

Bruna abraçou a lha em sua dor. Quando o caixão chegou na igreja houve desespero, Luíza passou mal e tiveram que dar a Flávia fortes calmantes por esta ter cado completamente fora de controle. Levaram-na para a casa do seu noivo. O corpo foi re-tirado da igreja e posto no salão paroquial, de onde saiu para o cemitério às duas da tarde de domingo. Após o enterro Bruna e os quatro lhos voltaram para casa, só eles, o lho de Luíza cou com o seu marido.

A porta se abriu e a tristeza estava lá, nos pacotes e embru-lhos sobre o sofá e a mesa da sala, onde intacto se encontrava o bolo. Parecia que a distância entre uma parede e outra, e entre os próprios móveis, havia se multiplicado, a casa estava bem maior. Os olhares perdidos pelo innito vazio repassavam lembranças do passado tão presente.

Flávia voltou-se para a mãe, um pouco fora do ar: –– Mãe, como tudo aconteceu?

–– Ontem por volta das onze horas ele passou mal e se internou.

–– Mas mãe, por que a senhora não nos falou? –– Achei que fosse uma crise como as outras. –– Como as outras? O que ele tinha?

–– Ele tinha AIDS.

Houve silêncio, rompido pelo telefone. Era o médico que assistia Bruna e Eduardo, a própria Bruna o atendeu. Ele queria saber se ela não preferiria car toda a semana de folga (ele era o chefe dela no hospital) devido àquela tragédia, ela dispensou, garantiu que na segunda chegaria logo cedo. A morte do marido dava-lhe ainda mais forças para dar apoio àqueles aidéticos do hospital, que tanto necessitavam de amor. Porém Flávia, ao ouvir a notícia, discordou fervorosamente.

–– A senhora vai trabalhar amanhã? Não acredito. Henrique concordou:

–– É, mãe, não há necessidade.

–– Eu gosto, lho. E preciso também.

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–– A senhora não respeita nem a morte de pai? –– Flávia, não é questão de não respeitar.

–– Mãe, a senhora ca o dia todo nesse hospital, às vezes a noite também, nem para o meu casamento a senhora tirou li-cença.

–– Filha – disse, aproximando-se de Flávia –, quando soube que seu pai tinha AIDS nosso casamento passou a ser um enlace fraterno, naquele hospital eu me reencontrei com a vida, encon-trei um motivo para continuar viva.

–– Então é isso, a senhora tem um caso com aquele doutor. Estava louca para papai morrer e a senhora car com ele. Por isso nem sentiu a morte de papai.

–– Cale-se!

–– Depois que o papai adoeceu a senhora foi procurar outro para ser o homem da senhora. Não é?

A ofensa foi demais, Bruna ergueu a mão e agrediu Flávia com uma bofetada no rosto.

–– Aí! E tem mais, eu gostava mais do papai do que da se-nhora, se fosse a senhora quem tivesse morrido tinha feito bem menos falta.

Bruna voltou a agredi-la, com toda a sua força, porém Flávia retribui-lhe a agressão. Bruna, que estava fraca, caiu, le-vantou-se incrédula no que acontecera, olhou para todos, encara-vam-lhe de forma desconada, Luíza deu-lhe o último golpe:

–– Mãe, a senhora tem um caso com aquele doutor?

Ela não respondeu nada, correu para o seu quarto. Deitou-se em sua cama em forte pranto. Na sala, Henrique ponderava sobre o assunto:

–– Será que papai tinha mesmo AIDS? E depois, ele morreu muito rápido, chegou onze e morreu quatro horas, num hospital para aidéticos um aidético morrer com tanta rapidez é estranho.

–– Você não está insinuando que mamãe tinha um caso com esse doutor e por isso…

Os seus olhares se tocaram e ergueram falso testemunho. Bruna, depois de tudo, teve medo de passar mal à noite e decidiu ir dormir no hospital. Ao passar pela sala Flávia a interceptou:

–– A senhora já vai dormir com ele? –– E se sim?

–– Vagabunda!

Flávia saiu chorando em direção ao quarto, Luíza, Letícia e Henrique mostraram-se envergonhados. Bruna resolveu respon-der à ofensa, antes de Flávia sair da sala:

–– Eu os amo tanto para fazerem isso comigo, para descon-arem que eu sou uma mulher sem escrúpulos, para baterem na minha face, para dizerem-me que eu sou uma vagabunda. Eu sou tão vítima nesta história! Eu os poupei, mas vivi a morte do pai de vocês a cada instante, sofri junto com ele e ele comigo.

–– Vai embora (gritou Flávia)! Que aqui ninguém acredita no que a senhora diz.

Bruna não insistiu, abriu a porta e saiu. Seus lhos estavam chocados, para Flávia tudo era quase insuportável, pois seu pai, a quem amava tanto, havia morrido logo no dia mais importante de sua vida. Eis aí um dia de desgraça.

Bruna passou a noite no hospital, o nervosismo lhe preo-cupou porém nada grave aconteceu, e logo pela manhã sentiu-se disposta a voltar para casa. Estava decidida a contar toda a ver-dade para os lhos, já não fazia sentido mais ela esconder-lhes isso.

Naquela mesma manhã, ao se sentarem na mesa para o café, os lhos de Bruna procuravam entender, Henrique não con-seguia compreender a morte de Eduardo:

–– Não consigo entender, o corpo de pai estava normal, não emagreceu como todo aidético e não tinha manchas. E ainda, porque não nos disse nada?

–– Gente (ponderou Luíza)! Não podemos acusar a mamãe assim.

Flávia, inconsolada, já não pensava assim:

–– E se ela realmente matou o papai para car com esse mé-dico? Não pode car impune.

–– Não fale besteira, menina! É da nossa mãe que falamos. Não podemos acusá-la, meu Deus!

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diz nada?

–– Dizer o quê? Eu estou muito confusa.

–– Façamos o seguinte, vamos entregar à polícia o caso, para que eles possam pôr luz sobre o assunto e assim consigamos saber o real envolvimento de nossa mãe.

E nem terminou de falar Henrique e já chegou Bruna. Todos baixaram a cabeça e caram calados. Ela parou na porta e começou a falar:

–– Querem saber se eu matei o pai de vocês? Eu vou abrir o jogo com vocês. Há alguns anos Henrique sofreu um acidente de carro, como bem se lembram, eu e Letícia queríamos doar sangue, só Letícia pôde, isto porque o meu exame de HIV deu positivo. Bem, foi assim…

E Bruna contou-lhes os mínimos detalhes. Houve silêncio quando ela ndou sua história. Todos de cabeça baixa, não tive-ram coragem de olhar na sua face. Mas ela sorriu-lhes e disse:

–– Ah! Filhos! Eu lhes perdoo porque os amo! Só lhes peço não me abandonarem.

Como todos permanecessem em silêncio e quietos, ela in-sistiu:

–– Nossa! Não mereço um abraço de condolências? Anal também eu padeço com tudo isso.

Foi só então que Henrique se levantou e a abraçou, e tam-bém Luíza, e Flávia, e Letícia. Finalmente a paz repousou sobre eles. Mas a batalha ainda era árdua, o pai havia morrido e a mãe es-tava doente.

Bruna não desistiu de seu trabalho, ao contrário, com o apoio dos lhos se tornou mais forte. Era-lhes doloroso a morte de Eduardo, mas a vida não havia parado, e nem a morte.

Bruna voltou ao hospital, dessa vez não sozinha, mas levando os lhos. Juntos formaram uma espécie de associação, de amigos e parentes de aidéticos, levavam presentes, carinho e afeto a eles, levavam até mesmo seus amigos e parentes. Não levantaram nenhuma estatística para saber se naquele hospital a média de vida dos aidéticos havia aumentado, mas seus humores com certeza se elevaram. Bruna se transformou em uma

verda-EDMILSON ANTUNES TAVARES

deira guerreira, quando ela chegava no hospital sorrisos se alas-travam, esperanças se elevavam. Uma das aidéticas era poetisa, e dedicou a Bruna tal poesia duas semanas antes desta morrer:

“Já lá vem incomodar minha tristeza Aquel’almadentre ossos

Eta sorriso que não se apaga! Feito o sol Estranho é sorrir por onde a morte vive. Habitual para ela que me faz crer

Aidético é como or já colhida Carinho recebido é tempo de vida. Sei lá, parece-me ela apenas uma or

Desprovida de toda a sua seiva

E esquecida por entre as folhas de um relicário.”

Bruna morreu oito meses após Eduardo, lutou contra a AIDS e todos os preconceitos nela surgidos. Flávia foi quem mais se dedicou aos esforços da mãe, mesmo após casada, Bruna mor-reu segurando sua mão. Nos últimos instantes de vida apertou a mão da lha e disse, olhando o horizonte pela janela do hospital:

–– Flávia, eu estou com uma vontade de viver!

Uma lágrima deixou os olhos de Flávia, escorreu por sua face e escapuliu, causando um ruído considerável naquele silên-cio fúnebre ao tocar a superfície da água do copo que segurava na outra mão, equivaleu a um tiro de fuzil no enterro de um soldado.

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JOANA

Essa Joana, nasce e cresce

Caminha pelo mundo, vive e amadurece. Menina levada, em sua infância pobre E até se pode dizer nobre

Tinha pai e tinha mãe, felizmente

E começou a estudar em uma escola decente Tinha também dois irmãos menores

Espaço era um dos seus problemas maiores Dormiam os três amontoados sobre um colchão Em cuja casa se fazia, a cortinas, a divisão

Joana tinha apenas sete anos de idade

Sonhava um dia cursar medicina na faculdade Pedro e Ana eram seus irmãos, em ordem decrescente Tinham cinco e três anos respectivamente O dinheiro do pai de Joana era “curto” Como um homem que se preza não faz furto Dizia claramente aquele pai de família

“Só tenho condições de dar estudos a ti, minha lha.” Todo dia bem cedo saía Joana

Sua mãe cuidava de Pedro e Ana Seu pai trabalhava fora para criá-los Fazia de tudo para alimentá-los Mas o destino, cruel por natureza Impôs a tal família grande tristeza Aquele pai de família, homem direito

Que procurava conduzir-se com dignidade e respeito

Vinha do trabalho, caminhando sobre a calçada Era tarde da noite, quase madrugada

Jovens procuravam ali viver a vida

Em seus carros possantes despertavam a avenida Um deles acabou perdendo o controle do veículo E o “viver a vida” tornou-se um pleonasmo ridículo O carro desgovernado matou um homem sobre a calçada No mesmo instante na rua, mais nada

O silêncio da noite no momento foi o luto oferecido Àquele corpo sobre o cimento estendido

Assim, morreu o pai de Joana Também pai de Pedro e Ana

Joana foi à escola, sua mãe preocupada Seu pai não voltara, e nem uma notícia, nada Quando Joana voltou da escola sua mãe chorava Não perguntou nada, seu coração apertado lhe falava Algumas pessoas conhecidas estavam lá

Ela jogou os cadernos sobre a mesa e foi para o quarto chorar

Chorou, chorou, mas não adiantou Ainda no seu peito a dor cou Sua mãe agora teria que trabalhar Saiu pela rua emprego a procurar Cuidou mais da aparência, e bela cou

E dessa forma logo, logo, alguém a empregou

Foi trabalhar em um lugar um pouco afastado do céu Empregou-se como recepcionista de motel

Saía à tarde e voltava de madrugada Ela, Deus e mais nada

Em casa Joana cozinhava Arrumava, lavava e passava

Certa sexta, a mãe de Joana saiu para trabalhar Trajava uma calça jeans que acabara de comprar

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Tênis branco e blusa azul de mangas compridas E nos longos cabelos um laço de tas coloridas Pouco mais de trinta anos, boa estatura

Um metro e setenta e dois de altura Pele morena e também olhos castanhos Sei que achas esses dados estranhos Mas talvez o caro leitor poderás vê-la

E através destes dados certamente irás reconhecê-la Por favor, se a vires, põe anúncio nos jornais

Ela saiu nessa sexta e não voltou nunca mais Ficaram assim três crianças sozinhas no mundo “Ao som do mar e à luz do céu profundo”

A casa era alugada e tiveram que se mudar Não tinham como o aluguel pagar

E por sob uma ponte, próxima a um viaduto Foram morar os três, ainda com o coração de luto Tinham agora um teto de estrelas

Mas muitas vezes adormeciam sem vê-las E se aconchegavam os três debaixo de jornais Suas vidas desencontradas morriam mais e mais A pequena Ana, sem entender nada

Trouxe a sua boneca, à qual vivia abraçada Pedro trouxe a sua única bola

E tudo isso fez Joana abandonar a escola

Durante o dia iam os três pedir dinheiro nos sinais Muita era a falta que lhes faziam os pais

A rua é uma escola medíocre e sem professores Cujas lições tortas possuem maus odores

Bem diferentes das da vida, corretas e doutrinadas Que passam seus próprios teores ao serem ensinadas Se bem que é a rua uma sala de aula da escola vida Mas uma verdade seja bem compreendida

Na rua se ensina como lutar na guerra pela “subvivência” E esta é uma lei irracional segundo a ciência

EDMILSON ANTUNES TAVARES

Mas o caso é que lá estava Joana

E expostos a tal lei também Pedro e Ana A fome era rotina no dia-a-dia

Escasso mesmo era a alegria

Depois de dois anos um pouco de sossego Joana nalmente conseguiu um emprego

Tomar conta de duas garotinhas em uma mansão Ficou residindo na casa do patrão

Pedro e Ana continuaram no mesmo lugar Só que fome não iam mais passar

Nem frio nas turbulentas madrugadas Às vezes serenadas e geladas

Pois Joana agora era seus pais

Fazendo de tudo para vê-los em paz Todos os dias chegava a lha do patrão Trazendo os seus livros na mão

Ao vê-la Joana escondia-se no quarto para chorar Chorava de vontade de estudar

De realizar seu sonho de menina

De entrar na faculdade e fazer medicina Ela seguia quase em sentido contrário De tal forma não terminaria nem o primário Não deviam acontecer coisas como tal fato

Pois dói, dói muito no coração de um homem sensato Ver uma criança trabalhar

Chorando de vontade de estudar.

Uma guerreira que se presa não foge à luta Buscou no seu âmago força bruta

Privou-se de sua vaidade de menina E do seu sonho de cursar medicina Esforçou-se e pôs Pedro e Ana na escola

Fez Ana abandonar a boneca, Pedro abandonar a bola E lá se iam Ana e Pedro toda manhã

Fazer feliz Joana em sua ação Cristã

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Referências

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