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REVISTA
BRASILEIRA
DE
REUMATOLOGIA
Artigo
original
Recomendac¸ões
da
Sociedade
Brasileira
de
Reumatologia
para
diagnóstico
e
tratamento
da
febre
chikungunya.
Parte
1
–
Diagnóstico
e
situac¸ões
especiais
Claudia
Diniz
Lopes
Marques
a,b,∗,
Angela
Luzia
Branco
Pinto
Duarte
a,c,
Aline
Ranzolin
b,d,
Andrea
Tavares
Dantas
a,
Nara
Gualberto
Cavalcanti
b,
Rafaela
Silva
Guimarães
Gonc¸alves
b,
Laurindo
Ferreira
da
Rocha
Junior
b,d,
Lilian
David
de
Azevedo
Valadares
e,
Ana
Karla
Guedes
de
Melo
f,
Eutilia
Andrade
Medeiros
Freire
g,
Roberto
Teixeira
h,
Francisco
Alves
Bezerra
Neto
i,
Marta
Maria
das
Chagas
Medeiros
j,
Jozélio
Freire
de
Carvalho
k,
Mario
Sergio
F.
Santos
l,
Regina
Adalva
de
L.
Couto
Océa
m,
Roger
A.
Levy
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Carlos
Augusto
Ferreira
de
Andrade
o,
Geraldo
da
Rocha
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Pinheiro
n,
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Mendes
Abreu
p,
José
Fernando
Verztman
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Selma
Merenlender
r,
Sandra
Lucia
Euzebio
Ribeiro
s,
Izaias
Pereira
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Costa
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Gecilmara
Pileggi
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Virginia
Fernandes
Moc¸a
Trevisani
w,x,
Max
Igor
Banks
Lopes
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Carlos
Brito
a,
Eduardo
Figueiredo
b,
Fabio
Queiroga
z,
Tiago
Feitosa
aa,
Angélica
da
Silva
Tenório
a,
Gisela
Rocha
de
Siqueira
a,
Renata
Paiva
ab,
José
Tupinambá
Sousa
Vasconcelos
ac,ade
Georges
Christopoulos
ad,aeaUniversidadeFederaldePernambuco(UFPE),Recife,PE,Brasil
bUniversidadeFederaldePernambuco(UFPE),HospitaldasClínicas,Recife,PE,Brasil
cUniversidadeFederaldePernambuco(UFPE),HospitaldasClínicas,Servic¸odeReumatologia,Recife,PE,Brasil dInstitutodeMedicinaIntegralProfessorFernandoFigueira(IMIP),Recife,PE,Brasil
eHospitalGetúlioVargas,Ambulatóriodechikungunya,Recife,PE,Brasil fUniversidadeFederaldaParaíba(UFPB),JoãoPessoa,PB,Brasil
gUniversidadeFederaldaParaíba(UFPB),HospitalUniversitárioLauroWanderley(HULW),Servic¸odeReumatologia,JoãoPessoa,PB,
Brasil
hUniversidadeEstadualdeCiênciasdaSaúdedeAlagoas(Uncisal),Maceió,AL,Brasil iUniversidadeFederaldoRioGrandedoNorte(UFRN),Natal,RN,Brasil
jUniversidadeFederaldoCeará(UFC),FaculdadedeMedicina,DepartamentodeMedicinaClínica,Fortaleza,CE,Brasil kUniversidadeFederaldaBahia(UFBA),InstitutodeCiênciasdaSaúde,Salvador,BA,Brasil
lUniversidadeEstadualdoPiauí(Uespi),FaculdadedeMedicina,Teresina,PI,Brasil mUniversidadeFederaldeSergipe(UFS),Aracaju,SE,Brasil
nUniversidadedoEstadodoRiodeJaneiro(Uerj),DisciplinadeReumatologia,RiodeJaneiro,RJ,Brasil
∗ Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](C.D.Marques).
http://dx.doi.org/10.1016/j.rbr.2017.05.004
0482-5004/© 2017 Publicado por Elsevier Editora Ltda. Este ´e um artigo Open Access sob uma licenc¸a CC BY-NC-ND (http://
oFundac¸ãoOswaldoCruz(Fiocruz),EscolaNacionaldeSaúdePúblicaSérgioArouca(ENSP),RiodeJaneiro,RJ,Brasil
pUniversidadeFederaldoRiodeJaneiro(UFRJ),HospitalUniversitárioClementinoFragaFilho(HUCFF),RiodeJaneiro,RJ,Brasil qHospitaldosServidoresdoEstadodoRiodeJaneiro,RiodeJaneiro,RJ,Brasil
rHospitalEstadualEduardoRabello,Servic¸odeReumatologia,RiodeJaneiro,RJ,Brasil sUniversidadeFederaldoAmazonas(UFAM),FaculdadedeMedicina,Manaus,AM,Brasil tUniversidadeFederaldeMatoGrossodoSul(UFMS),CampoGrande,MS,Brasil
uUniversidadeFederaldeMatoGrossodoSul(UFMS),HospitalUniversitárioMariaAparecidaPedrossian(Humap),Servic¸ode
Reumatologia,CampoGrande,MS,Brasil
vUniversidadedeSãoPaulo(USP),FaculdadedeMedicinadeRibeirãoPreto(FMRP),HospitaldasClínicasdeRibeirãoPreto(HCRP),
RibeirãoPreto,SP,Brasil
wUniversidadeFederaldeSãoPaulo(Unifesp),SãoPaulo,SP,Brasil xUniversidadedeSantoAmaro(Unisa),SãoPaulo,SP,Brasil
yUniversidadedeSãoPaulo(USP),HospitaldasClínicas,AmbulatóriodaDivisãodeMoléstiasInfecciosasdeParasitárias,SãoPaulo,SP,
Brasil
zInstitutodeMedicinaIntegralProfessorFernandoFigueira(IMIP),HospitalMiguelArraes,Paulista,PE,Brasil aaUniversidadeFederaldePernambuco(UFPE),HospitaldasClínicas,DivisãodeGestãodoCuidado,Recife,PE,Brasil abCRPFisioterapia,RiodeJaneiro,RJ,Brasil
acUniversidadeEstadualdoPiauí(Uespi),Teresina,PI,Brasil adSociedadeBrasileiradeReumatologia,SãoPaulo,SP,Brasil aeSantaCasadeMisericórdiadeMaceió,Maceió,AL,Brasil
informações
sobre
o
artigo
Históricodoartigo:
Recebidoem19dedezembro de2016
Aceitoem22demaiode2017
On-lineem28dejunhode2017
Palavraschave:
Febrechikungunya Epidemia
Consenso Brasil
r
e
s
u
m
o
Afebrechikungunyatemsetornadoumimportanteproblemadesaúdepúblicanospaíses ondeocorremasepidemias.Até2013,asAméricashaviamregistradoapenascasos impor-tadosquando,emoutubrodessemesmoano,foramnotificadososprimeiroscasosnaIlha deSaintMartin,noCaribe.NoBrasil,osprimeirosrelatosautóctonesforamconfirmados emsetembrode2014eatéasemanaepidemiológica37de2016jáhaviamsidoregistrados 236.287casosprováveisdeinfecc¸ãopelochikungunyavírus(CHIKV),116.523confirmados sorologicamente.Asmudanc¸asambientaiscausadaspelohomem,ocrescimentourbano desordenadoeonúmero cadavezmaiordeviagensinternacionaistêmsidoapontados comoosfatoresresponsáveispelareemergênciadeepidemiasemgrandeescala. Caracte-rizadaclinicamenteporfebreedorarticularnafaseaguda,emcercademetadedoscasos existeevoluc¸ãoparaafasecrônica(alémdetrêsmeses),comdorpersistenteeincapacitante. Oobjetivodestetrabalhofoielaborarrecomendac¸õesparadiagnósticoetratamentodafebre chikungunyanoBrasil.Paraisso,foifeitarevisãodaliteraturanasbasesdedadosMedline, SciELOePubMed,paradarapoioàsdecisõestomadasparadefinirasrecomendac¸ões.Para adefinic¸ãodograudeconcordânciafoifeitaumametodologiaDelphi,emduasreuniões presenciaiseváriasrodadasdevotac¸ãoonline.Foramgeradas25recomendac¸ões,divididas emtrêsgrupostemáticos:(1)diagnósticoclínico,laboratorialeporimagem;(2)situac¸ões especiaise(3)tratamento.Naprimeiraparteestãoosdoisprimeirostemaseotratamento nasegunda.
©2017PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigoOpenAccesssobuma licenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
Recommendations
of
the
Brazilian
Society
of
Rheumatology
for
diagnosis
and
treatment
of
chikungunya
fever.
Part
1
–
Diagnosis
and
special
situations
Keywords:
Chikungunyafever Epidemic
Consensus Brazil
a
b
s
t
r
a
c
t
Environmentalchangescausedbyhumans,disorderlyurbangrowthandanever-increasing numberofinternationaltravelersweredescribedasthefactorsresponsibleforthe emer-genceoflarge-scaleepidemics.Clinicallycharacterizedbyfeverandjointpainintheacute stage,approximatelyhalfofpatients progressto thechronicstage(beyond 3 months), whichisaccompaniedbypersistentanddisablingpain.Theaimofthepresentstudywas toformulaterecommendationsforthediagnosisandtreatmentofchikungunyafeverin Brazil.AliteraturereviewwasperformedintheMedline,SciELOandPubMeddatabases togroundthedecisionsforrecommendations.Thedegreeofconcordanceamongexperts wasestablished throughtheDelphi method,involving2 in-personmeetingsand seve-ralonlinevotingrounds.Intotal,25recommendationswereformulatedanddividedinto 3thematicgroups:(1)clinical,laboratoryandimagingdiagnosis;(2)specialsituations;and (3)treatment.Thefirst2themesarepresentedinpart1,andtreatmentispresentedinpart2. ©2017PublishedbyElsevierEditoraLtda.ThisisanopenaccessarticleundertheCC BY-NC-NDlicense(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
Considerac¸ões
gerais
Epidemiologia
Ovírus chikungunya (CHIKV),que pertenceà família Toga-viridae, gêneroAlphavirus, foiisolado pelaprimeira vez em humanosem1952,duranteoprimeirosurtoemciclourbano reconhecidonaeramodernacientífica,quandouma epide-mia atingiu a costa de Muawiya, Makondo e Rondo, hoje Tanzânia.1Aorigemdonomevemdomakonde,umdos
dia-letosfaladosnosudestedopaís,esignifica“curvar-separa frenteoucontorcer-se”,emreferênciaàposturaadotadapelo pacientedevidoàsdoresarticularesqueocorremdurantea infecc¸ão.1Emborahajaumaamplagamadeespéciesde
mos-quitosAedesquetransmitemadoenc¸anaÁfrica,noBrasilos principaisvetoressãooAedesaegyptieoAedesalbopictus,cujas fêmeastêmacapacidadedeinfectarsereshumanosatravés dapicada.2
Desdeaprimeiraepidemiadefebrechikungunyadescrita naTanzânianadécadade1950,diversasepidemiasmenores ocorreramperiodicamenteaté2004,quandoumgrandesurto foidescritono Quêniaeespalhou-separa numerosasilhas doOceanoÍndico,daÍndiaedoSudestedaÁsia.3Até2013,
asAméricashaviamregistradoapenascasosimportados, a maioriadelesnosEstadosUnidos,quando,emoutubrodesse mesmoano,foramnotificadososprimeiroscasosnaIlhade SaintMartin,noCaribe.Atéofimde2015,cercade1,6milhão depessoastinhamsidoinfectadospeloCHIKV,oqueresultou em71mortes.4–6 NoBrasil,osprimeirosrelatosautóctones
foramconfirmadosquasequesimultaneamentenoOiapoque (AP)eemFeiradeSantana(BA)emsetembrode2014.7 Em
2015,foramregistradosnopaís38.332casosprováveis, dos quais13.236foramconfirmados.Em2016,atéasemana epide-miológica(SE)37(até17desetembrode2016),jáhaviamsido registrados236.287casosprováveisdeinfecc¸ãopeloCHIKV, 116.523confirmadossorologicamente.8
Fisiopatologia
Durante a inoculac¸ão do CHIKV na pele humana através da picada do mosquito, a saliva desseé inoculada para o
hospedeirojuntamentecomovírus,quecontémumasérie demoléculascompropriedadesanti-hemostáticase imuno-moduladoras,oqueinduzaumainfiltrac¸ãocelularprecoceeo aumentodecitocinas.Emseguida,ocorreumafasedeintensa reproduc¸ão viral nos fibroblastos e macrófagos cutâneos, disseminac¸ãopordrenagemparaosgânglioslinfáticos,onde areproduc¸ãoéintensificadaantesdeovírusserliberadopara acirculac¸ão,composteriordisseminac¸ãoeconsequente com-prometimentodeórgãos-alvo,comoarticulac¸õesemúsculos. Inoculac¸ãodiretadovírusnacirculac¸ãotambémpodeocorrer atravésdepicadasdemosquito.Ressalta-seaindaainduc¸ão darespostaimuneinata,seguidapelarespostaimune celu-lar,comaliberac¸ãodediversascitocinaspró-inflamatórias, comointerferon-alfa,interleucinas,quimiocinasefatoresde crescimento.9–11
Modelos experimentaisde artriteinduzida poralfavírus sugerem quea patogêneseda evoluc¸ãopara acronicidade da febre chikungunya seja resultado de uma combinac¸ão de dano celular e tecidual direto, causado porreproduc¸ão viral,eindireto,porativac¸ãodarespostaimunenos tecidos--alvo.12 Porém, o principal mecanismo aventado é uma
desregulac¸ãodosmecanismosdecontroledoprocesso infla-matório, causado pelainfecc¸ão persistenteem macrófagos teciduais – ou, ao menos, pela presenc¸a de RNA viral no interiordessascélulas.13Asalterac¸õeshistopatológicas
sino-viais observadasapósinfecc¸ãoporCHIKVsãosemelhantes àsencontradasempacientescomartritereumatoide(AR)ou outrasartropatiasinflamatóriascrônicaseincluem hiperpla-siasinovial,proliferac¸ãovasculareinfiltrac¸ãodemacrófagos perivasculares;14emmodelosanimaisdeinfecc¸ãopeloCHIKV
foi demonstrada necrose periosteal, proliferac¸ão óssea e isquemiamultifocaldamedulaósseaapartirdoquintodia apósainfec¸ão.15
Manifestac¸õesclínicas
Operíodomédiodeincubac¸ãodoCHIKVédetrêsasetedias, variaentreume12.16Adoenc¸apodeevoluiremtrêsfases:
Tabela1–Definic¸ãodecasodefebrechikungunya17,45
Critériosclínicos:inícioabruptofebre>38,5◦Ceartralgia/artriteintensadeinícioagudonãoexplicadaporoutrascondic¸õesmédicas
Critériosepidemiológicos:indivíduoresideouvisitouáreaendêmicaouepidêmicanoprazode15diasantesdoiníciodesintomasoutem vínculoepidemiológicocomcasoconfirmado
Critérioslaboratoriais
䊉IsolamentodoCHIKVporcultura
䊉Presenc¸adeRNAdoCHIKVavaliadaPCRemtemporeal
䊉Presenc¸adeanticorposIgMespecíficosparaCHIKV
䊉AumentodequatrovezesnosvaloresdeanticorposIgGespecíficosparaCHIKVemamostrasrecolhidas,pelomenoscom10-14diasde
intervalo
䊉Detecc¸ãodeanticorposneutralizantescontraCHIKVporPRNTemsoro
Classificac¸ão
Casosuspeito:opacienteapresentaoscritériosclínicoseepidemiológicos
Casoconfirmado:quandoumcasosuspeitoapresentaqualquerumdoscritérioslaboratoriais
Casoatípico:quandoháconfirmac¸ãolaboratorialempacientecomoutrasmanifestac¸ões(neurológicas,cardíacas,dermatológicas, oftalmológicas,renais,respiratóriasetc.)
CHIKV,Chikungunyavírus;PCRemtemporeal,realtimepolymerasechainreaction;PRNT,testedeneutralizac¸ãoporreduc¸ãodeplaca;RNA,ácido ribonucleico.
A infecc¸ão aguda é sintomática em 80 a 97% dos pacientes.18,19 Os sintomas maiscomuns sãofebre de
iní-cio súbito e artralgia e/ou artrite (praticamente em 100% doscasos),comumentedepadrãosimétrico epoliarticular. Asqueixasarticularesacometemsobretudomãos, punhos, tornozelosepés,namaioriadasvezessãodecaráter incapaci-tante.Outrasmanifestac¸õesmenosfrequentespodemincluir astenia,mialgia(60–93%),cefaleia(40–81%),náuseas/vômitos, diarreia,fotofobia, dorretro orbital,conjuntivite, doraxial, exantemamacular/maculopapular(34-50%),comousem pru-ridocutâneo,edemadefaceeextremidadeselinfadenopatia cervicalougeneralizada.19–24
Nafasesubaguda,predominam ossintomas articulares, ocorrem ematé 50% dospacientes infectados pelo CHIKV. Caracteriza-sepelapersistência daartralgia/artrite,bursite, tenossinovite, associadas a rigidez matinal e astenia, com evoluc¸ãocontínuaouintermitente.21,24,25
Aprevalênciademanifestac¸õesarticularescrônicasapós ainfecc¸ãoporCHIKVvariade14,4a87,2%.14,19,21,23,26–30Essa
amplafaixade variac¸ãopercentualpodeserexplicada, em parte,por questões metodológicas:variável número amos-tral,tempodeacompanhamentodiferente,medidasusadas paraavaliarartropatiacrônicaemétododecoletadosdados. Modelo estatístico com dados de estudos observacionais estimouque,naAméricaLatina,47,6%dosindivíduos acome-tidosporfebrechikungunyairãodesenvolvermanifestac¸ões articularescrônicas.31 Uma metanálise recente32 avaliou a
prevalênciadedoenc¸a articularinflamatóriacrônica(DAIC) pós-chikungunya (pós-chik), em 18 estudos selecionados (novecoortesretrospectivaseprospectivas),com5.702 paci-entes.Otempomédiodeacompanhamentofoide17,5meses eaprevalênciada DAIC pós-chik variou de 25,3% a40,2%, dependeudotipodeestratificac¸ãodosestudos.
Opadrãodecomprometimentoarticularcrônicopode ocor-rernaformadequeixaspersistentes(20-40%)ourecidivantes (60-80%)33,34 e inclui a presenc¸a de oligo ou poliartralgia
de intensidade variável, geralmente simétrica, predomina em punhos, mãos, tornozelos e joelhos, em associac¸ão com rigidezmatinal eedemaarticular.33 Mesmopacientes
queapresentammelhoriasignificativainicialpodemcursar com recidivas em até 72% dos casos, com intervalos que
variam de umasemana aanos, com sintomas variáveis e comcomprometimentodasmesmasarticulac¸õesacometidas previamente.29,35
Apesardeapersistênciadasqueixasmusculoesqueléticas seraprincipalcaracterísticadafebrechikungunya,poucofoi estudadosobreosfatoresqueseassociamcomcronificac¸ão epiorprognóstico.Osresultados dassériesdecasos publi-cadasdemonstramquealgunsfatoresestãomaisassociados à evoluc¸ão para forma crônica como sexo feminino,34,36–38
idade acima de 40 anos, envolvimento articular proemi-nentenafaseaguda(edemaerigidezarticulares,poliartrite, tenossinovite),32,34,36–39 diagnóstico dedoenc¸aarticular
pré-via,comoosteoartrite(OA),39,40epresenc¸adecomorbidades,
comodiabetesmellitus(DM).33,35Poroutrolado,apresenc¸ade
dorarticularsemedemaourigidezfoiassociadaamaior pro-babilidadederecuperac¸ão.34
Dopontodevistalaboratorial,sãoconsideradoscomo pre-ditoresdecronicidadeosníveiselevadosdeproteínaCreativa (PCR) e de sorologia para CHIKVIgG;28,41 a persistência de
CHIKVIgMpositivaalémdafaseagudaestáassociadacom artriteerosivaecronificac¸ãodossintomasarticulares.42,43
Odiagnósticodafebrechikungunyaétipicamenteclínico, umavezqueaassociac¸ãodefebreagudacomartralgiae/ou artriteintensadeinstalac¸ãoagudaéaltamentesugestiva,com elevadasensibilidadeevalorpreditivopositivo,emáreasonde a doenc¸a é endêmicae onde epidemiasocorram.17,44
Atu-almente,noBrasil,arecomendac¸ãodoMinistériodaSaúde éusaroscritériosclínico-epidemiológicosparadefinic¸ãode caso suspeito de febre chikungunya. Critérios semelhantes tambémforampropostosnaúltimareuniãodeexpertsfeita naNicarágua,em201517,45(tabela1).
Alguns casos podem evoluir de forma atípica, caracte-rizadapelo aparecimentode manifestac¸õesclínicas menos frequentes(tabela2)ouporapresentarsinaisdegravidade.46
Afrequênciadosquadrosgraveséde0,3%,estãoassociados à idade avanc¸ada(> 65 anos) e àpresenc¸a de comorbida-des.Existemrelatosdaocorrênciadesepseechoqueséptico empacientescom febrechikungunya emterapia intensiva, não foi identificado outro possível agente etiológico que justificasse o quadro.21,25,46–49 O uso de anti-inflamatórios
Tabela2–Principaismanifestac¸õesclínicasatípicasdafebrechikungunya55,136,13,7
Orgão/sistema Manifestac¸õesclínicas
Cutâneas Hiperpigmentac¸ão,úlcerasaftosas,eritemanasaltransitório,eritemageneralizado,lesõesvesicobolhosas, descamac¸ãodaspalmasdasmãos,despigmentac¸ãolabial,lesõesvasculíticas,erupc¸õesliquenoides. Renais Insuficiênciarenal(podeserprecipitadaouagravadapelousodeAINEs)
Nefrite. Pulmonares Pneumonia
Insuficiênciarespiratória
Gastrointestinais Diarreia,vômitos,hepatiteaguda(relacionadaaovírus,etilismoeusodeparacetamolprévios) Cardíacas Insuficiênciacardíaca,arritmias,perimiocardite,doenc¸aisquêmicacoronariana
Neurológicas Encefalite,meningoencefalite,irritac¸ãomeníngea,síndromedeGuillain-Barré,síndromecerebelar,acidente vascularcerebral,confusãomentaleconvulsões
Oftalmológicas Conjuntivite,neuriteóptica,iridociclite,episclerite,retinite,uveíteanterior. Hematológicas Trombocitopenia,linfadenopatia
Tabela3–Critériosdeclassificac¸ãodedoenc¸aarticularinflamatóriacrônica(DAIC)pós-chikungunya29
>4articulac¸õescomartrite+durac¸ãodossintomas≥6semanas+ausênciadediagnósticoalternativo A.Artrite=1critérioinflamatório
䊉Sinovitea
䊉 Calore/oueritemasobreaarticulac¸ão
䊉 Rigidezmatinal>30minutos
䊉 Dorinflamatória–melhoracomoexercícioepioracomorepousoouduranteanoite
B.Nãopreencheoscritériosdeartritereumatoideouespondiloartrite,alémdaeliminac¸ãodeoutrascausasdepoliartrite:gota,doenc¸as autoimunes,disfunc¸õesdatireoide,hepatiteviralcrônica,sarcoidoseetc.
a Diferenciardeedemaarticularsemsinovite.
arterialsistêmica(HAS)edoenc¸ascardiovascularesfoifator independenteassociadoaoaumentodamortalidade.46,47 As
hemorragiassãopoucofrequentes,têmmaiorriscoligadoà coinfecc¸ão com adengue, enão estãoligadas a alterac¸ões decoagulac¸ãooutrombocitopenia grave.25 Similaraoutras
doenc¸asvirais,taiscomoahepatiteC,afebrechikungunya temsidoassociadacomaltaprevalênciadecrioglobulinemia mista.50
Umestudorecenteavaliouaconcordânciaentreo resul-tadodasorologiaIgMparaCHIKVeodiagnósticoclínico.A presenc¸adedorarticularemqualquercombinac¸ãocomfebre, mialgiaouexantemaproduziuumaconcordânciade85%com oresultadopositivodaIgM(kappa=0,289,p<0,001).Os auto-ressugeremqueo usodesses sintomaspode serútilpara definircasosdefebrechikungunyaquandooCHIKVéo arbo-víruspredominanteemcirculac¸ãodiantedadificuldadepara feituradotestesorológico.51
Existem evidências que indicam o desenvolvimento de doenc¸as reumáticas crônicas pós-infecc¸ão pelo CHIKV.26,31,32,38,40,52,53 A patogênese da artropatia
ocasio-nada pelainfecc¸ão pelo CHIKVainda não está claramente definida,masestudosfeitoscomoutrosvírusartritogênicos demonstram que possivelmente a artrite nesses casos é decorrentedahabilidadedovírusdesereproduziremediar dano tissular na articulac¸ão, esse dano é dependente da respostaimune do hospedeiro.54 As séries de casos
publi-cadas demonstram que alguns pacientes durante a fase crônicapreencheramcritériosparaAR23,29eespondiloartrites
(EpA).19,20,29,52 Existem também relatos de exacerbac¸ão de
psoríasecutâneaedeflagrac¸ãodessadoenc¸a apóssurtode febrechikungunya.55,56
DuranteaepidemiadasIlhasReunion,Javelleetal.29
pro-puseram um critério de artrite inflamatória indiferenciada (nãovalidado)(tabela3)paraclassificarospacientesquenão preenchiam os critérios de AR oude EpA,para separar os que apresentavamdoenc¸a inflamatóriadaqueles que apre-sentavamapenasartralgia.Diantedessescritérios,qualquer quadropoliarticularinflamatórioquepersistepormaisdetrês mesesapósafaseagudadafebrechikungunyadevesugeriro diagnósticopotencialdeDAICpós-chik.Arigidezmatinalfoi consideradaamanifestac¸ãocomomenorpoderdiagnóstico, devidoasuaaltaprevalêncianoperíodopós-chik,enquanto sinoviteetenossinoviteforamaltamenteindicativosdeDAIC, oquepodeserconfirmadoporultrassonografia(USG),para diferenciardoedemadepartesmoles,tambémcaracterístico dadoenc¸a.29Essescritériossãobastanteinespecíficosenão
foramvalidadosemoutraspopulac¸ões,nãoépossívelprecisar suaacurácianapráticaclínica.Dessemodo,recomendamos cautelanocasodeseuuso,poisfacilmenteumpacientecom outras doenc¸asinflamatóriascrônicaspodeserclassificado equivocadamentecomofebrechikungunya.
Com o objetivode conhecer o comportamentoda febre chikungunya noBrasil, bemcomo obterdados para emba-sarfuturasdecisõesterapêuticas,foiiniciadoemabril/2016 umestudodecoortemulticêntrico–CoorteChikbrasil–que temincluídopacientesbrasileiroscominfecc¸ãopeloCHIKV e manifestac¸ões articulares. Inicialmente, seis centros em quatroestadosdoBrasil(Pernambuco,Paraíba,Cearáe Ser-gipe) participam desseestudoeos pacientes sãoincluídos seapresentaremdiagnósticoclínico-epidemiológicodefebre chikungunya17commanifestac¸õesarticularescrônicas.Atéo
sido coletadoseanalisadosperiodicamente (análisesainda nãopublicadas).
Método
Paraelaborac¸ãodasrecomendac¸õesforamcriadostrês gru-posdetrabalho: umgrupocentral, umgrupoderevisãoda literatura eum para o painelde votac¸ão. O grupo central foicompostoporcincoreumatologistas(CDLM;ALBPD;VMT; JTSV;GC)etevecomofunc¸õesadefinic¸ãoeoenviodas per-guntascondutorasqueserviramdebaseparaacriac¸ãodas recomendac¸ões,acoordenac¸ãoesupervisãodosmembrosdos outrosdoisgrupos, aconduc¸ãodospainéisde votac¸ãoea redac¸ãodomanuscrito.Ogrupoquefezarevisãoda litera-turafoicompostode20reumatologistasetrêsfisioterapeutas. Abuscaporevidênciasfoifeitanasbasesdedados(Medline, SciELO,PubMed,Embase)eforamselecionadosartigos relaci-onadosaodiagnósticoeaotratamentodafebrechikungunya, alémderesumospublicadosemanaisdecongressos,em lín-gua portuguesa,inglesa, francesaeespanhola,até outubro de 2016. Esse grupo foi responsável por revisar as evidên-cias encontradas e fornecer embasamento teórico para as recomendac¸õesfinais.
A qualidade metodológica dos estudosidentificados foi submetidaaavaliac¸ãocríticacombasenoriscodeviéspara ensaiosclínicosdeintervenc¸ãoenoStrobe(Fortalecimento deRelatóriodeEstudosObservacionaisemEpidemiologia).57
Como não foi possível, pela diversidade metodológica dos estudosencontrados,afeiturademetanálise,aavaliac¸ãofoi feitapeloníveldeevidênciaegrauderecomendac¸ãosegundo aclassificac¸ãodeOxfordCentreforEvidence-BasedMedicine,2011 (LevelsofEvidence),58queclassificaasevidênciasde1a5de
acordocomatipodoestudopararesponderaperguntaem questãoegeraramelhorevidênciaparatomadadadecisão. Comoforamusadosnaelaborac¸ãodasrecomendac¸ões estu-doscomdiferentesníveisdeevidências,optamosporcolocar todososníveisquegeraramarecomendac¸ãofinaldeduas for-masaseguir:emsequência,separadoporvírgula,ouintervalo, separadoporhífen.
Devidoàbaixaqualidadedasevidênciasencontradas,eaté mesmopelafaltadeevidênciasemalgumassituac¸ões, tam-bémusamosas análisespreliminares da CoorteChikbrasil (descritasaolongodotexto,particularmenteparatratamento) eaopiniãodosespecialistasdogrupoparadarapoioàs deci-sõestomadasparadefinirasrecomendac¸ões.
Paraadefinic¸ãodograudeconcordânciafoiusada meto-dologiaDelphi,emduasreuniõespresenciaiseváriasrodadas devotac¸ãoonline.Ogrupodevotac¸ãofoiformadocomtodos oscomponentesdosoutrosdoisgrupos, alémdetrês clíni-cosgerais, uminfectologistaeumrepresentantedagestão públicaemsaúde.Asduasreuniõespresenciaisforamfeitas emRecife-PE(outubroenovembrode2016),comapresenc¸ade maisde90%doscomponentes.Alémdavotac¸ãopresencial, foram feitas várias rodadas de questionamentos, votac¸ões e correc¸ões via internet. Para a definic¸ão do grau de con-cordância,osparticipantes dopaineldevotac¸ãoatribuíram umanotade0a10,emescalacontínua,o0foiconsiderado comodiscordototalmenteeo10concordototalmente.Apartir
dessasnotasfoicalculadaamédiaeodesviopadrãoparacada recomendac¸ão.
Foramgeradas25recomendac¸ões,divididasemtrêsgrupos temáticos:A.Diagnósticoclínico,laboratorialeporimagem; B. Situac¸ões especiais e C.Tratamento.No presente artigo foram incluídos os dois primeiros temas (tabela 4), com 14recomendac¸ões,easrecomendac¸õesdetratamentoficaram paraaparte2.
Parafacilitaraleituradotexto,osníveisdeevidênciados estudosusadosparaembasarasrecomendac¸õespodemser encontradosnalistadereferênciasfinal.Nãoforam classifi-cadasasreferênciasrelacionadasadiretrizes,protocolosde tratamento,resumospublicadosemanaisdecongressoeas que nãoeram relacionadasdiretamente com febre chikun-gunya.
Recomendac¸ões
A.Diagnósticoclínico,laboratorialeporimagem
A.1Emsituac¸õesdeepidemia,diantedeumquadroagudodefebre, artralgia/artriteintensa,comousemexantema,apossibilidadede febre chikungunya deve ser fortemente considerada. No entanto, outrasdoenc¸asfebrisagudasdevementrarnodiagnóstico diferen-cial,principalmentediantedecasosgravesouatípicos.Concordância: 9,31(DP±1,168);níveldeevidência(2-4).
Ossintomastípicosdafaseagudadafebrechikungunya (febre,exantemaeartralgia)podemocorreremoutrasdoenc¸as virais, particularmente na dengue.59,60 Embora muitos
sin-tomasesinais sejamsimilares,algumasmanifestac¸õessão consideradasmaiscaracterísticas,oquepodeauxiliarno diag-nósticodiferencialentreasduasinfecc¸ões.Odinofagia,tosse, náuseas, vômitos,diarreia,dorabdominal, anorexia, taqui-cardiasãomaiscomunsnadenguedoquenainfecc¸ãopelo CHIKV;61alémdisso,nadengueafebrecostumaserdemenor
intensidade,aerupc¸ãocutâneasurgemaistardiamente(entre oquintoesétimodiadedoenc¸a),observa-semaior frequên-ciadedorretroorbitária,trombocitopeniaeneutropenia.62,63
Devidoàcoexistênciaemumamesmaepidemiadovíruszika (ZIKV)emnossomeio,torna-senecessárioodiagnóstico dife-rencialtambémcomessainfecc¸ãoviral.Afebrenazikaémais leveepodeatéestarausente;aartralgiaeamialgianão costu-mamserdebilitantes;hiperemiaconjuntivalécomumepode existirerupc¸ãocutânea,quetambémépruriginosa.64Deve-se
tambémlevaremconsiderac¸ãoapossibilidadedecoinfecc¸ão doCHIKVcomZIKVe/ouvírusdadengue(DENV),quepode ocorrerduranteasepidemiasdearboviroses.62–64
AlémdoDENVedoZIKV,outrosarbovírustambémpodem causarsintomas semelhantesaosdafebrechikungunyana faseaguda,comoRossRiver,BarmahForest,O’nyong-nyong, grupoSindbiseMayaro.60Dentreesses,oúnicoencontrado
no Brasiléo Mayaro (MAYV),responsável pelo desenvolvi-mento da febredoMayaro,quealém dossintomasagudos semelhantesaosdainfecc¸ãopeloCHIKVtemcaracterísticas artritogênicas compotencial de cronificac¸ão.Noentanto,a febredoMayaroocorrepredominantementeemáreas silves-trese,emgeral,ficarestritaasurtos.65NoBrasil,oMAYVtem
transmissãorestritaaoNortedopaís,66emborajátenhasido
Tabela4–Resumodasrecomendac¸õesparadiagnósticoesituac¸õesespeciaisnafebrechikungunya
Recomendac¸ões
A.Diagnósticoclínico,laboratorialeporimagem
A.1.Emsituac¸õesdeepidemia,diantedeumquadroagudodefebre,artralgia/artriteintensa,comousemexantema,apossibilidadede febrechikungunyadeveserfortementeconsiderada.Noentanto,outrasdoenc¸asfebrisagudasdevementrarnodiagnósticodiferencial, principalmentediantedecasosgravesouatípicos.Concordância:9,31(DP±1,168);níveldeevidência(2-4).
A.2.Empacientescomsuspeitaclínicadefebrechikungunyanafaseaguda,aavaliac¸ãolaboratorial(hemograma,enzimashepáticas, creatinina,glicemiadejejum,VSH/PCR)deveserdecididacasoacaso,adependerdascomorbidadesesinaisdegravidade.Concordância: 7,12(DP±3,5),níveldeevidência(3,4).
A.3.Adetecc¸ãodoCHIKVdeveserfeitaapenasparaoscasosnosquaissefac¸anecessáriaaconfirmac¸ãodiagnósticanafaseaguda:casos atípicos,diagnósticodiferencialdiantedeformasgravesdeapresentac¸ãoouparadefinirestratégiasdesaúdepública(suspeic¸ãode novosfocosoudecasospós-epidêmicos),paraasquaisométododeescolhaéaPCRemtemporeal,deveessasersolicitadanaprimeira semanadesintomas.Concordância:9,19(DP±0,834),níveldeevidência(2,3).
A.4.Paraoscasosagudosdefebrechikungunya,asorologiaparaCHIKV(IgMeIgG)sódeveserfeitanasformasatípicasoudianteda necessidadedediagnósticodiferencial,devesersolicitadaapartirdodécimodiadoiníciodossintomas.Nasformascrônicas,a solicitac¸ãodasorologiaérecomendadaparaconfirmac¸ãodiagnóstica,masnãoparaoiníciodotratamento.Concordância:9,29 (DP±1,510);níveldeevidência(2-4).
A.5.Autoanticorposnafasecrônicadafebrechikungunyasódevemsersolicitadosmedianteanecessidadedediagnósticodiferencialcom asdoenc¸asreumatológicasespecíficas,obedecem-seosconsensos/diretrizesexistentes.Concordância:8,55(DP±2,593);níveldeevidência (3,4).
A.6.Nafaseagudaesubagudadafebrechikungunya,amaioriadospacientesnãonecessitadeexamesdeimagens.Nafasecrônica,a radiografiasimplesdevesersolicitadanaprimeiraconsultacomoreumatologista,comoavaliac¸ãoestruturalinicialoudedano preexistente.Concordância:9,70(DP±0,651);níveldeevidência(3,4).
A.7.Aultrassonografiamusculoesqueléticapodeauxiliarnaavaliac¸ãodealterac¸õesarticulareseperiarticularesemqualquerfasedafebre chikungunya.Nafaseaguda,éoúnicoexamedeimagemquepodeserfeito,acritériomédico,éespecialmenteútilnodiagnóstico diferencialdoedemademembrosinferiores.Concordância:9,29(DP±1,510);níveldeevidência(3,4).
B.Situac¸õesespeciais
B.1.Notratamentodasgestantescomfebrechikungunyadeve-selevaremconsiderac¸ãooriscodosmedicamentosparaofetoe,se indicados,analgésicos,prednisona/prednisolonaehidroxicloroquinapodemserusados.Concordância:9,71(DP±0,534);níveldeevidência (3,4).
B.2.Afebrechikungunya,porsisó,nãoéindicac¸ãodepartooperatório,deveessaserpuramenteobstétrica.Oaleitamentomaternoé permitido.Concordância:9,67(DP±0,547);níveldeevidência(3,4).
B.3.Emidosos(>60anos)comfebrechikungunyarecomenda-seemtodasasfasesdadoenc¸a,especialmentenafaseaguda,supervisão clínicarigorosanoqueserefereaousodemedicamentos,comorbidadesemaiorriscodecomplicac¸ões.Concordância:9,61(DP±0,737); níveldeevidência(3,4).
B.4.Crianc¸asabaixodedoisanosdevemreceberatenc¸ãoespecialpelomaiorriscodemanifestac¸õesgraveseatípicas,particularmenteao acometimentodoSNC.Concordância:9,30(DP±1,179);níveldeevidência(3,4).
B.5.Recém-nascidosdemãescomquadroclínicosugestivodefebrechikungunyapróximoaopartodevemficarsobobservac¸ãorigorosa nosprimeiroscincodiasdevida.Deveserfeitousoracionaldemedicac¸õesparaosquedesenvolvemadoenc¸aemanejodoscasos complicadosemunidadedeterapiaintensiva.Concordância:9,54(DP±0,838);níveldeevidência(3,4).
B.6.Nafaseagudadafebrechikungunyaemcrianc¸as,otratamentoconsisteemhidratac¸ão,analgésicoseantitérmicos,deve-seevitaruso desalicilatos.Nafasecrônica,sugere-seseguirasrecomendac¸õesdosadultos,levar-seemconsiderac¸ãoasparticularidadesinerentesà faixaetária.Concordância:9,48(DP±0,785);níveldeevidência(3,4).
B.7.Recomendamosatenc¸ãoempacientescomdiagnósticopréviodeartritereumatoide,espondiloartritesoulúpuseritematoso sistêmico,vistoquepodeocorrerreativac¸ãoouexacerbac¸ãodadoenc¸adebase.Concordância:9,42(DP±1,840);níveldeevidência(3,4).
Outras causas de doenc¸a viral febril aguda, tais como adenovírus, enterovírus, sarampo, rubéola, parvovírus B19, tambémdevemserconsideradasnodiagnóstico diferencial dafebrechikungunya,deveserlevadasemconsiderac¸ão his-tóriadeexposic¸ãoeáreageográficadopaciente,bemcomo relatosdeviagensrecentes.69
Além das doenc¸as virais, infecc¸ões bacterianas agudas, comoleptospirose,eparasitárias,comomalária,podemlevar aoaparecimento de manifestac¸õesclínicas similares àsda febrechikungunyanasuafaseinicial,comofebrealta, mial-gias,artralgias,cefaleia, fadiga,diarreiae,emalgunscasos, dorabdominal,devem entrarcomo diagnóstico diferencial, principalmentenoscasosconsideradosatípicos.70,71
Algumas doenc¸as autoimunes, como doenc¸a de Still e lúpus eritematoso sistêmico (LES), podem apresentar sin-tomas semelhantes aos da infecc¸ão pelo CHIKV, mesmo na fase aguda. A doenc¸a de Still manifesta-se com febre alta, exantema, artralgia/artrite, leucocitose e aumento
das transaminases e pode ser confundida com infecc¸ões virais; febre, manifestac¸ões articulares e cutâneas, além de envolvimento renal, pulmonar, neurológico, linfopenia são características do LES e que podem ser confun-didas com infecc¸ão por CHIKV complicada (opinião do expert).
Na fasesubaguda ecrônica,ainfecc¸ãoporCHIKVpode apresentar quadro clínico semelhante a algumas doenc¸as reumáticas crônicas. Artrite simétrica, que compromete articulac¸õesdasmãos,punhos,joelhos etornozelos, acom-panhadosderigidez matinal,sãosintomasencontradosna ARequetambémestãopresentesnaartropatiasecundária à infecc¸ão pelo CHIKV. O comprometimento de enteses e fásciaseapresenc¸adelombalgiainflamatóriaempacientes com febrechikungunyapodemsimularumquadrodeEpA, principalmenteempacientesjovensdosexomasculino.20,29
equivocadamente diagnosticados como febre chikungunya, erroesseinduzidopelomomentoepidemiológico.72
A.2.Empacientescomsuspeitaclínicadefebrechikungunyana faseaguda,aavaliac¸ãolaboratorial(hemograma,enzimas hepáti-cas,creatinina,glicemiadejejum,VSH/PCR)deveserdecididacaso acaso,adependerdascomorbidadesesinaisdegravidade. Concor-dância:7,12(DP±3,5),níveldeevidência(3,4).
Paraasolicitac¸ão de avaliac¸ãolaboratorialnos casosde febrechikungunya, devem ser levadosem considerac¸ão as manifestac¸õesclínicaseoestágioemqueadoenc¸ase encon-tra.Umavezquenafaseagudaodiagnósticodeveserfeito combasenoscritériosclínico-epidemiológicos,eaindapela poucaespecificidadedosexamesnessafase,nãoé necessá-riasolicitac¸ãodeexamelaboratorialparaasformas típicas nãocomplicadas.Paraospacientesderisco(idosos,gestantes, crianc¸as abaixode dois anos e com presenc¸ade comorbi-dades),arecomendac¸ãoéquedevesersolicitadoapenaso hemograma.Umaavaliac¸ãolaboratorialmaisdetalhadapode sernecessáriadeacordocomascondic¸õesgeraisdopaciente, comorbidadeseusodefármacos,especialmenteempacientes idosos.17,24
O achado laboratorial mais frequente na febre chikun-gunya é a linfopenia, mais intensa na fase virêmica da doenc¸a.4 Aocontráriododescritonadengue,apresenc¸ade
trombocitopenia émenosfrequente emenos pronunciada. Além disso, podem ser encontradas leucopenia, neutrope-nia, alterac¸ões na func¸ão hepática e renal, hipocalcemia, elevac¸ãodeCPKeDHL,sobretudonospacientesque neces-sitamdehospitalizac¸ão.25,26,49,73,74Comrelac¸ãoàsprovasde
atividadeinflamatórias,avelocidadedehemossedimentac¸ão (VHS)foielevadanamaioriadospacientesduranteos primei-rosdezmesesdadoenc¸aemumestudonaÍndia23eníveis
aumentadosdePCRforamdetectadosemmaisde70%dos pacientes.20,26
Nafasecrônica,alémdosexamesderotina(hemograma, VSH,PCR),deveseravaliadaanecessidadedesolicitac¸ãode autoanticorpos, caso a apresentac¸ão clínica seja sugestiva deDAIC eavaliac¸ãodecomorbidades.Aanálisedolíquido sinovial pode ser necessária para confirmar a natureza inflamatória do comprometimento articular e auxiliar no diagnósticodiferencial(gota,artritesépticaetc.).
A.3.Adetecc¸ãodoCHIKVdeveserfeitaapenasparaoscasosnos quaissefac¸anecessáriaaconfirmac¸ãodiagnósticanafaseaguda: casosatípicos,diagnósticodiferencialdiantede formasgravesde apresentac¸ãoouparadefinirestratégiasdesaúdepública(suspeic¸ão denovosfocosoudecasospós-epidêmicos),paraaqualométodo deescolhaéaPCRemtemporeal,devesersolicitadanaprimeira semanadesintomas.Concordância:9,19(DP±0,839),nívelde evi-dência(2,3).
Odiagnósticoconfirmatóriodainfecc¸ãopeloCHIKVpode serfeitoportrêstiposprincipaisdetestesdelaboratório: iso-lamentodovírus,técnicasmolecularesdedetecc¸ãodoRNA genômicoviral(PCRemtemporeal)etestessorológicos.75
O isolamento do vírus, através da detecc¸ão do RNA viral, pode ser feito em amostras de soro na fase aguda (≤8dias),76nãoéentretantoummétodoaplicadonaprática
clínica.
AtécnicaPCRemtemporealparadetecc¸ãodoRNA genô-mico viraltem algumasvantagens sobreo método dePCR convencional:maiorrapideznafeitura,mensurac¸ão quantita-tiva,baixoriscodecontaminac¸ão,facilidadedepadronizac¸ão ealtasensibilidade/especificidade.Apresenc¸adoRNAviral poressatécnicapodeserdetectadaduranteoperíodoinicial daviremia(atésetedias).77
Selevarmosemconsiderac¸ãoqueossintomasdevidosà infecc¸ão pelos arbovírus (CHIKV, DENV eZIKV) podemser semelhantes,especialmentenosestágiosiniciais,nocasode necessidade de feiturade diagnóstico diferencialem áreas onde existea circulac¸ão dotrês vírus,é maisvantajosa a técnica dePCRemtemporealtríplex,queidentifica simul-taneamenteoRNAdostrêsvírus.78–80
Devido às dificuldades conhecidas para feitura do PCR emtemporealnapráticaclínica,comocustoelevadoefalta deacessoparaamaioriadapopulac¸ão,recomendamosque a confirmac¸ão diagnóstica dos casos agudos só seja feita durante as epidemias emcasos atípicos, graves ou diante de situac¸ões especiais (crianc¸as com idade inferior a dois anos, grávidas, suspeita de novos focos ou de casos pós--epidêmicos).Nessescasos,omaterialparaanálisedeveser colhidonosprimeirosseisdiasdoiníciodossintomas.
A.4. Para oscasosagudos defebre chikungunya, asorologia (Elisa)para CHIKV(IgMeIgG)sódeveserfeitanasformas atí-picasoudiantedanecessidadedediagnósticodiferencial,deveser solicitadaapartirdodécimodiadoiníciodossintomas.Nasformas crônicas,asolicitac¸ãodasorologiaérecomendadaparaconfirmac¸ão diagnóstica, masnão para o iníciodotratamento. Concordância: 9,29(DP±1,510);níveldeevidência(2-4)
Deacordocomasatuaisrecomendac¸õesdoMinistérioda Saúde,emsituac¸õesdeepidemiasódevesersolicitada soro-logiaespecíficaparaCHIKVnafaseagudanoscasosatípicose situac¸õesclínicascomplicadas.17Noentanto,emregiõesonde
asarbovirosessãoendêmicas,acorretaidentificac¸ãodotipo específicodeinfecc¸ãotemgrandeimportânciaparaomanejo dopaciente,principalmentenaquelequeevoluiparaafase crônica,paraainstalac¸ãodemedidassanitáriasapropriadas eparaaorientac¸ãodosgestoresdesaúde.66
Na prática, a sorologia é a forma mais amplamente usadaparaconfirmac¸ãodiagnósticadainfecc¸ãopeloCHIKV. Paraodiagnóstico sorológicopodemserusadasastécnicas de Elisa (Enzyme-Linked Immunosorbent Assays) e o teste de neutralizac¸ãoporreduc¸ãodeplacas(PRNT).17
OsanticorposIgMpodemserdetectadosem4a20%dos casosapartirdoterceirodia,alcanc¸a80%depositividadeapós aprimeirasemana.81,82Níveismaiselevadossãoobservados
entreaterceiraeaquintasemanas,podempersistirporum atrêsmeses,emboraemalgunspacientespossapermanecer positivopormaistempo.OsanticorposIgGtambémsão detec-tadosapartirdaprimeirasemanadainfecc¸ão,geralmenteum adoisdiasapósoaparecimentodosanticorposIgM,epode persistirporanos.81–83
Tabela5–Prevalênciadepositividadedeautoanticorposnafebrechikungunya,emdiversosestudos
Estudos N FR+ ACPA+ FAN+ FRouACPA+
Bletteryetal.,201672 147 0% 0% 0% na
BouquillardeCombe.200992 21 57,1% 28,6% 9,5% 66%
Chopraetal.200820 156 43,3% 3,3% na na
GanueGanu.201193 16 12,5% 56,5% na na
Javelleetal.200529 159 na Na na 30%
Lambourneetal.2015136 54 15% 0% na na
Manimundaetal.201023 20 0% 5% na na
Mineretal.2015137 8 0% 0% 30% na
Zhukovetal.2015138 234 25,2% 1,7% na na
ACPA,anticorposantipeptídeoscitrulinados;FAN,fatorantinúcleo;FR,fatorreumatoide;n,númerodepacientes;na,nãoavaliado.
especialmente em áreas sem circulac¸ão de outros alfaví-rus; a sensibilidade fica entre 85 e98% e a especificidade acimade 90%.14,65,81–88 ApersistênciadeumarespostaIgM
específicamesesapósainfecc¸ãoinicialtemsidoobservada emalgunspacientescommanifestac¸õesmusculoesqueléticas crônicas.84Oseusignificadoaindanãoestábemestabelecido,
mas a hipótese mais aceita é que seja um indicativo da persistênciadovírusemalgumtecidopormecanismosainda malcompreendidos.84,88
Aquestãoda coinfecc¸ão com outras arbovirosesé uma realidadeemáreasendêmicastantoparafebrechikungunya, comoparadengueeZika.OCHIKVéumalfavírusepodehaver reac¸ãocruzadacomoutrosvírus damesmafamília.65,88 No
Brasil,oqueocorre commaiorfrequênciaéoMayaro,que tambémcausafebreeartralgia(limitada),masqueaindatem transmissãorestritaàRegiãoNorte,66emborajátenhasido
detectadoemoutrosestadosforadessaregião.67,68
UmgrupodeestudosdaUniversidade FederaldoRiode Janeirodescreveuumasérie com30 casos provenientesde áreasendêmicasdecoinfecc¸ãoporZIKV,CHIKVeDENV.Os resultadosevidenciaramqueoDENVRNAnãofoidetectável emqualquerdasamostrasclínicas,enquantooZIKVRNAfoi detectávelem17 amostras (56,7%).Acoinfecc¸ão pelo ZIKV eCHIKV foi documentada emumcaso. Dos 17 indivíduos ZIKV-positivos, oitomostraramreatividade paraanti-DENV IgM, o que sugeriu infecc¸ão de início recente pelo DENV, reac¸ãocruzada ou coinfecc¸ão. Esses achados fortalecem a relevância do diagnóstico laboratorial para a confirmac¸ão diagnóstica,sobretudoemcasosdeáreaendêmicadastrês arboviroses.75
OPRNT,desenvolvidoem1959porHendersoneTaylor,89
identifica equantifica anticorpos neutralizantes em amos-trasdesoro,atravésdocálculodopercentualdereduc¸ãoda atividadeviral,égeralmenteaceitocomootestemais espe-cíficoparadiagnósticodasarboviroses.Emamostrasdesoro depacientescomanticorposespecíficosneutralizantesparao CHIKV,onúmerodeplacas observadasserámenorquando comparado com controles, devido à presenc¸a dos anticor-posneutralizantesnascélulasdohospedeiroinfectado.90O
diagnósticoatravésdoPRNTéfeitoquandoocorreaumento dequatrovezes notítuloemamostrada faseagudaparaa convalescente.76
UmestudorecentefeitonasFilipinasdemonstrouqueo usodoPRNTpodeserútilparadetectarcasosdeinfecc¸ão sub-clínica.Aamostrafoiconstituídade853indivíduosescolhidos deformaaleatória,antesdoiníciodossintomassugestivos
de febre chikungunya, durante a epidemia de 2012. Após 12 meses foram identificados 19 casos sintomáticos e 87casosdeinfecc¸õessubclínicas.UmPRNTpositivonavisita deinclusão foiassociado com100%(IC95%:46,1,100,0)de protec¸ãoparainfecc¸ãosintomática.Esses dadospodemser importantes para avaliaro impacto da doenc¸a,entender a transmissãodovíruseauxiliarnodesenvolvimentodevacina contraoCHIKV.91
ConsiderandoqueaPRNTéummétodocaro,trabalhoso, de difícil acesso e interpretac¸ão, o método sorológico de escolhadevebasear-seemensaiosimunoenzimáticos(Elisa), queapresentamavantagemdeserdebaixocusto,acessíveis esimplesdeserfeitos.65,84 Assimcomoparaadetecc¸ãodo
CHIKV, recomendamos que a sorologia para febre chikun-gunyanafaseagudasósejafeita diantedanecessidadede diagnóstico diferencial ou nas formas atípicas. Nos casos típicos,odiagnósticodeveserfeitoatravésdaaplicac¸ãodos critériosclínico-epidemiológicos(tabela5).
A.5. Autoanticorpos nafase crônica dafebre chikungunya só devemsersolicitadosmedianteanecessidadedediagnóstico diferen-cialcomasdoenc¸asreumatológicasespecíficas,emobediênciaaos consensos/diretrizes existentes. Concordância: 8,55 (DP±2,593); níveldeevidência(3,4).
Osdadossobreapositividadedeautoanticorposem paci-entescomfebrechikungunya,alémdeescassos,sãobastante conflitantes, provavelmente pelos diferentes grupos popu-lacionais avaliados e pelo desenho dos estudos, em sua maioriaretrospectivosesériedecasos.Resultados prelimina-resdaCoorteChikbrasil,queincluiuatéopresentemomento 430pacientescomfebrechikungunya,emquatrocapitais bra-sileiras,demonstraramumapositividadedefatorreumatoide (FR)de28,3%em113pacientesquefizeramoexame;ofator antinúcleo(FAN)foipositivo em33,3%entre66pacientese emapenasumpacienteoanticorpoantipeptídeocitrulinado (ACPA)foipositivo(dadosnãopublicados).
Natabela5podemserobservadososresultadosde
positi-vidadedosautoanticorposemdiversascoortesdepacientes comfebrechikungunya.
autoanticorpos,éressaltada aimportânciada avaliac¸ãodo HLA-B27noscasoscomquadroclínicosugestivodeEpA.24
A.6.Nafaseagudaesubagudadafebrechikungunya,amaioria dospacientesnãonecessitadeexamesdeimagens.Nafasecrônica, aradiografiasimplesdevesersolicitadanaprimeiraconsultacom o reumatologista, como avaliac¸ão estrutural inicial ou de dano preexistente. Concordância: 9,70 (DP±0,651); nível de evidência (3,4).
A.7. A ultrassonografia musculoesquelética pode auxiliar na avaliac¸ãodealterac¸õesarticulareseperiarticularesemqualquerfase dafebrechikungunya.Nafaseaguda,éoúnicoexamedeimagem quepodeserfeito,acritériomédico,éespecialmenteútilno diag-nósticodiferencialdoedemademembrosinferiores.Concordância: 9,29(DP±1,510);níveldeevidência(3,4).
Osestudosfeitosatéopresentemomentonãoestabelecem umprotocolo paradefinirquandodevemserfeitosexames deradiografiasimples.Osexamesradiológicosfeitosnafase agudadadoenc¸anãoevidenciaramerosõeseapresenc¸a des-sas, mesmona fasecrônica da doenc¸a, édivergente entre as séries de casos publicadas.20,29,72,92 No estudofeito nas
IlhasReunion, alguns pacientes apresentaram recuperac¸ão parcial outotal das lesões ósseascomo resposta ao trata-mento,emboraemalgunspacientestenhahavidoprogressão dograudedestruic¸ãoósseaadespeitodaterapêutica.29
Osachadosradiográficosobservadosnaartropatia secun-dáriaàinfecc¸ão peloCHIKVforamverificados emimagens obtidasnamaiorpartedoscasosentretrêsmesesedoisanos dedoenc¸a.93Emumestudoretrospectivo,otempomédiopara
odiagnóstico radiográficodas lesõesarticularesapartirdo quadroagudofoide45meses.29 Assim,nãoésugeridasua
feituraempacientesnafaseaguda.Empacientescommenos detrêsmesesdeevoluc¸ão,deverãoserfeitosapenasemcasos selecionados, como na presenc¸a de complicac¸ões, dúvidas diagnósticaseavaliac¸ãodaindicac¸ãodeiníciodeterapêutica precoce.Empacientesnafasecrônicada doenc¸a,com sin-tomasprolongados,fazerradiografiasimplesdeacordocom padrãodeacometimento,senecessário,paraavaliar progres-sãodedanoarticular.24,29
Aultrassonografia (USG) é ummétodo rápido, de baixo custo e não invasivo, mas cujos resultados são muito dependentes do médico que executa o exame; útil na avaliac¸ão da presenc¸a de sinovite, do grau de atividade inflamatória, na verificac¸ão de erosões ósseas e de lesões ligamentaresetendíneasdecorrentesdafebrechikungunya, além de auxiliar em casos de dúvidas diagnósticas e na constatac¸ãodelesõesprévias.22,46,94Especificamentenafase
aguda, permite a avaliac¸ão do edema de membros inferi-ores, auxilia na diferenciac¸ão entre alterac¸ões articulares, periarticulareseedemadeorigemvascular(opiniãodo espe-cialista).
Naavaliac¸ãodoquadroarticularda faseagudada febre chikungunya,emumestudoultrassonográficodesenvolvido naMartinica com28pacientes(durac¸ãomédiade6,15dias de doenc¸a), foi evidenciado derrame articular em 92,8% doscasos. Periatritede tornozelofoi encontradaemmenor frequência(28%);apenasdoispacientesapresentaram tenos-sinoviteenãofoievidenciadaapresenc¸adeerosões.95
Ospoucosestudosqueavaliamaindicac¸ãoderessonância magnética (RM)naartropatia crônicasecundáriaàinfecc¸ão pelo CHIKVsãodescritivos enãodefinem seexiste superi-oridadedessemétodoemrelac¸ãoàUSGounecessidadede seguimentoporimagemnessespacientes.Há,contudo,que seconsiderarocustoenvolvido,adisponibilidadedoexamee aexperiênciadoexaminadornaselec¸ãodométodoapropriado para a avaliac¸ãopor imagem em cada caso.23,27 Os
possí-veisachadosnaRMempacientescomfebrechikungunyasão semelhantes àquelesencontradosempacientes com artro-patias inflamatórias, particularmente a AR.23,24,27,42,72,93 A
tabela6mostraasindicac¸õeseospossíveisachadoscombase
nasfasesclínicasetipodeexamedeimagemusado.
B.Situac¸õesespeciais
B.1.Notratamentodasgestantescom febrechikungunyadeve-se levaremconsiderac¸ãooriscodosmedicamentosparaofetoe,se indicados,analgésicos,prednisona/prednisolonaehidroxicloroquina podem serusados.Concordância:9,71 (DP±0,534);nívelde evi-dência(3,4).
B.2.Afebrechikungunya,porsisó,nãoéindicac¸ãodeparto ope-ratório,deveessaserpuramenteobstétrica.Oaleitamentomaternoé permitido.Concordância:9,67(DP±0,547);níveldeevidência(3-4).
Durante o surto que houve no sul da Tailândia em 2009/2010, foi feito um levantamento epidemiológico das infecc¸ões dedengueefebrechikungunyanasgrávidasque tiveramseuspartosentrenovembrode2009emaiode2010. Foi feita a sorologia das mães e naquelas com resultados positivosparaCHIKVtambémfoitestadoosanguedos cor-dõesumbilicais.AsoroprevalênciadeCHIKVfoide71,2%;não foram detectadascomplicac¸õesobstétricasmaisfrequentes nessegrupoenemfoidetectadoIgMespecíficonossangues decordãoumbilical.96
Em2015,Dotters-Katzetal.97revisaramasquestões
obsté-tricasrelacionadasàfebrechikungunyaatravésdeumabusca daliteraturacomospadrõesPrismadeartigosrelacionadosao temaemlínguainglesa.Foramanalisados25artigos;apesar deexistiremindicativosdequeindivíduoscomdoenc¸as crô-nicas,idososecrianc¸asapresentamdoenc¸amaisgrave,não parecehaverquadromaisgraveemgestantes,emboranão existamestudoscomparativoscomnãográvidas.
Os resultados gestacionais aparentemente também não são influenciadospelainfecc¸ão peloCHIKV.Emumestudo prospectivo,Friteletal.98compararamgestac¸õesemmulheres
da IlhaReunion,comesemfebrechikungunya.As mulhe-res infectadaspelo CHIKVapresentarammaior número de internac¸õesduranteagravidez,porémsemdiferenc¸asquanto a anomaliascongênitas, prematuridadeououtra alterac¸ão. UmoutroestudoprospectivodeGérardinetal.99 damesma
ilha, assim como em relatos de casos, a viremia materna duranteopartoesteveassociadacomaumentona incidên-ciadealterac¸õesdotrac¸adocardíacofetal,oqueacarretouo dobrodepartosoperatórios,essafoiaúnicadiferenc¸a.
Tabela6–Indicac¸õeseospossíveisachadosencontradosnosexamesdeimagemnafebrechikungunya
Exame Indicac¸ão Possíveisachados
Radiografia simples
Apenasnafasecrônica
䊉Avaliac¸ãodelesõesarticulares prévias,especialmenteem pacientescomfatoresderisco paracronificac¸ão
䊉Avaliac¸ãodedanoestrutural
relacionadoaoacometimento articularpelafebrechikungunya
䊉Aumentodepartesmoles.
䊉Calcificac¸ões
䊉Erosões
䊉Esclerosesubcondral 䊉Osteófitos
䊉Osteopeniaperiarticular
䊉Reac¸ãoperiosteal
䊉Reduc¸ãodeespac¸oarticular
Ultrassonografia Faseaguda,subagudaecrônica 䊉Avaliac¸ãodeinflamac¸ão articulareperiarticular
䊉Avaliac¸ãodestatusarticularem pacientescomsuspeitadelesões articularesprévias
䊉Avaliac¸ãodedanoestrutural relacionadoaoacometimento articularpelafebrechikungunya
䊉Calcificac¸ões
䊉Depósitoscristalinos(diagnósticodiferencialcomgota)
䊉Derramearticular
䊉Erosões
䊉Osteófitos 䊉Periatrite/entesites
䊉Sinovite
䊉Tenossinovite/tendinite
Ressonância magnética
Apenasnafasecrônica Avaliac¸ãodedanoestrutural relacionadoaoacometimento articularpelafebrechikungunya, nasuspeitadeevoluc¸ãopara doenc¸areumatológica(AR/EpA).
䊉Derramearticular
䊉Edemamedularósseo(especialmentenasacroilíaca)
䊉Entesopatia
䊉Erosões
䊉Inflamac¸ãoperiosteal
䊉Sinovite(espessamentosinovial)
䊉Tenossinovite/tendinite
AR,artritereumatoide;EpA,espondiloartrites.
considerada de ocorrência rara. No entanto, a infecc¸ão maternaativa queocorre ematéquatro diasapós o parto aumentaoriscodetransmissãovertical,cujataxavariade 27a48%nasdiversassériespublicadas.97,99–103Deve-se
sus-peitardessaviadetransmissãoquandoossintomasocorrem duranteaprimeirasemanadevidadoneonato,naausência deevidênciadepicadademosquito.103Umavezqueoparto
operatórionãoprevineatransmissãovertical,104,105essenão
éobrigatórionafebrechikungunya,aindicac¸ãoépuramente obstétrica.AtransmissãodoCHIKVpeloleitematernoéainda discutida.97
Otratamentodapacientecomfebrechikungunyacrônica duranteagestac¸ãodevelevaremconsiderac¸ãoosconhecidos riscosdecertosmedicamentosparaofeto.Recomenda-se ini-ciarotratamentoanalgésiconafaseagudacomparacetamol, nadosemáximade4g/dia.OsAINEsestãocontraindicados após a24a. semanade gestac¸ãopelo riscode insuficiência
renalfetalefechamentoprecocedoductoarterioso.24Ouso
deAINEsnãoseletivosdaCOX-2podeserpermitidoporcurtos períodos,entreassemanas16e30,masemgeralépreferível usarbaixasdosesdeprednisona,quepodeserusadadurante todaagravidezenoaleitamento,semriscofetal.106
Ahidroxicloroquinapodeserumaopc¸ãoparatratamento doquadroarticularcrônicoemgrávidaseduranteo aleita-mento,tendoemvistasuareconhecidaseguranc¸adurantea gestac¸ãoelactac¸ão,106,107eaexistênciadealgumaevidência
demelhoriadoquadroarticularemalgumassériesdecasos napopulac¸ãogeral.108,109
Como poupador de esteroides, a azatioprina pode ser usadadurante agravidezeo aleitamento,enquanto queo metotrexate(MTX)deveserevitadonaépocadaconcepc¸ão,
assimcomoduranteagravidezeoaleitamento.106 Alémdo
paracetamol, ibuprofeno eopioides podem ser usados em casosselecionados.110
B.3.Emidosos(>60anos)comfebrechikungunya recomenda--se em todas as fases da doenc¸a, especialmente na fase aguda, supervisão clínica rigorosa no que se refere ao uso de medica-mentos,comorbidadesemaiorriscodecomplicac¸ões.Concordância: 9,61(DP±0,737);níveldeevidência(3,4).
Considerando-seidososindivíduosapartirde60anos, pou-cos estudoscontemplaramessa subpopulac¸ãoemespecial. Porém,selevarmosemcontaumpontodecorteem40anos, observamosqueessesindivíduosapresentarammaiorchance decronificac¸ãodadoenc¸a,comoobservadonacoortedeLa Virginia,Colômbia,ondechegoua52%,38enacoortedasIlhas
Reunion,naqual70%dospacientescommaisde45anos apre-sentavam artralgiapersistentesapós 15 meses da infecc¸ão aguda,comOR4,2(IC1,9-9,3).39
Emumestudofeitocom509pacientesnaÍndia,osidosos consideradosacimade65 anostiveramumafaseagudada doenc¸ademaiorintensidade,permaneceramacamadosem médiadequatroaseisdias;42%apresentaramrecuperac¸ão plenaapósquatrosemanasenãohouvecasosdeóbito.19Nas
demaiscoortesestudadasnãoficouclarooacometimentono idoso;algumasdelascitaramanecessidadedemaiornúmero deconsultasqueosdemais.