Entre o real e o sonho : Sarmiento e os processos de apropriação no pensamento hispano-americano do século XIX
Texto
(2) UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO - UFPE PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS MESTRADO EM TEORIA LITERÁRIA. ENTRE O REAL E O SONHO SARMIENTO E OS PROCESSOS DE APROPRIAÇÃO NO PENSAMENTO HISPANOAMERICANO DO SÉCULO XIX. HELENIZA MARIA SALDANHA DE OLIVEIRA. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras para a obtenção do grau de Mestre em Teoria da Literatura.. ORIENTADOR: PROF. DR. ALFREDO CORDIVIOLA. DISSERTAÇÃO DE MESTRADO RECIFE, AGOSTO DE 2002.
(3) BANCA EXAMINADORA. ______________________________________ Prof. Dr. Alfredo Adolfo Cordiviola. ________________________________________ Prof. Dr. Lourival Holanda. ________________________________________________. Profª. Drª. Silvia Cortez.
(4) RESUMO. Nesta dissertação apresentamos um panorama do pensamento hispano-americano do século XIX, discorrendo sobre alguns aspectos, como: o desejo de se construir uma nova nação representativa; a busca por uma identidade; a legitimação de um discurso; a apropriação como um fator divergente apontado pela crítica e a própria busca pela fundação de uma literatura autóctone. Neste ponto utilizamos como paradigma as obras: Facundo - foco principal do trabalho – e Argirópolis, ambas do escritor argentino Domingo Faustino Sarmiento. Além disso, questionamos as fronteiras entre o discurso literário e o discurso histórico, demonstrando com isso a enorme contribuição do romantismo e da historiografia para o desenvolvimento dessa literatura ávida por emergir. Demonstramos também o valor do poder que a palavra adquiriu a partir dessa nova consciência histórica e utilizamos, para motivo de análise, a obra Recuerdos de Província do mesmo autor. Como forma de complemento analisamos ainda as narrativas de viagens como produto dessa contribuição historiográfica-literária para demonstrar a sua importância na fundação da literatura argentina. Para isso, fazemos primeiro um retrospecto dos viajantes ingleses que visitaram a Argentina, no período de 1820 a 1850, depois apontamos a influência desse tipo de narrativa na emergência da literatura nacional, utilizando textos de dois dos mais expressivos escritores desse país: Juan Bautista Alberdi e Domingo Faustino Sarmiento..
(5) Para Dandara, minha filha.
(6) AGRADECIMENTOS. Ao orientador, Prof. Dr. Alfredo Cordiviola, pela delicadeza e paciência nos momentos mais difíceis desta dissertação. Ao pessoal da secretaria, Diva e Eraldo, especialmente este último por ter sido sempre tão atencioso e gentil. Ao pessoal da biblioteca da pós-graduação; Fabiana, Wellita, Ronaldo, Juliana e Amanda por terem sido sempre tão prestativos. A Crhistianne Coelho, Francisco Mesquita e Kátia Pinho pelos bons momentos. Às minhas tão estimadas e sinceras amigas Cláudia Freire e Luciana Marinho, pela força nos momentos mais difíceis, pelos inenarráveis momentos de alegria, pelo companheirismo nos últimos momentos da dissertação e por tudo o que passamos juntas nesse árduo caminho. Às minhas eternas professoras e amigas Ildney Cavalcanti e Izabel Brandão por terem me iniciado no mundo acadêmico, além de terem me incentivado e acreditado incondicionalmente em minha capacidade. À minha tia Maria Tereza de Oliveira Silva por ter realmente proporcionado o meu desenvolvimento intelectual, a quem jamais esquecerei e serei eternamente grata. À minha mãe Haydê Saldanha por não ter medido esforços para me ajudar nos mais variados momentos. À minha filha Dandara por ter suportado meu mau humor e minha ausência com uma maturidade surpreendente. A Paulinho, por ter me ajudado a tornar-me o que hoje sou, por ter contribuído para meu aperfeiçoamento intelectual e pela eterna disposição em me ajudar a seguir essa jornada..
(7) Mi hilo conductor ha sido el pensar que no hay secreto de la expresión sino uno: trabajarla hondamente, esforzarze en hacerla pura, bajando hasta la raiz de las cosas que queremos decir; afinar, definir, com ansia de perfección. Pedro Henríquez Ureña.
(8) SUMÁRIO. PRÓLOGO. 9. 1. O PENSAMENTO HISPANO-AMERICANO DO SECULO XIX E A BUSCA POR UMA NOVA NAÇÃO. 18. 1.1 A Construção de uma Nação. 18. 1.2 Sarmiento: o político e seu sonho. 23. 1.3 O Romantismo e sua característica nacionalista. 31. 1.4 Legitimação de uma nova identidade. 33. 1.5 Imitação ou Apropriação: ambigüidades de um conceito. 43. 2. O DISCURSO HISTÓRICO-LITERÁRIO E SUAS FRONTEIRAS. 51. 2.1 A prioridade do historicismo no romantismo hispano-americano. 51. 2.2 O Poder da Palavra. 60. 3. AS NARRATIVAS DE VIAGENS E SUA REPRESENTAÇÃO NO DISCURSO HISTÓRICO-LITERÁRIO 3.1 Narrativas de viagens: principal elemento na construção da nação do Novo. 67 67. Mundo 3.2 Os viajantes ingleses e a fundação da Literatura Argentina. 69. 3.3 Juan Bautista Alberdi e Domingo Faustino Sarmiento: a emergência de uma. 84. literatura nacional 4. CONCLUSÃO. 99. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. 101.
(9) PROLÓGO. Há algum tempo, o pensamento hispano-americano do século XIX vem sendo estudado com o propósito de esclarecer possíveis dúvidas relacionadas à construção de uma literatura própria desses países não só no respectivo período, mas também em tempos contemporâneos. Vêm-se questionando o caráter híbrido de muitas dessas obras assim como o fator de originalidade delas. Esses povos, teriam ou não uma literatura nacional? Suas obras seriam ou não representativas de um povo marcado por imposições e influências? Como justificar - se é que se justifica – apropriações e imitações ao longo desse percurso em busca de uma legitimidade do discurso? Parecem irrisórias essas questões em pleno novo milênio quando muito já foi dito sobre as conseqüências literárias geradas pela relação sempre conflituosa entre o poder do colonizador e a submissão do colonizado. Entretanto, ao nos depararmos com obras como Facundo do escritor argentino Domingo Faustino Sarmiento1 e Os Sertões do escritor 1. Domingo Faustino Sarmiento, filho de José Clemente Sarmiento Funes e Paula Albarracín de Srmiento nasceu em San Juan, Argentina no dia 15 de fevereiro do ano de 1811. Seu pai, não tinha uma profissão em particular, portanto, foi peão de campo, arriero e soldado nas guerras pela Independência. Após aderir ao movimento independentista em 1810 passa a participar das lutas armadas contra o exercito espanhol, deixando a cargo de sua esposa a criação de seus filhos. Assim Paula Albarracín - figura retratada por Sarmiento em Recuerdos de Província - assume o comando da família tendo exercido no filho um admirável fascínio. Foram uma família muito pobre, porém orgulhosa o suficiente para pedir auxilio aos familiares. Sarmiento aprendeu a ler com seu pai e seu tio José Eufrasio de Quiroga Sarmiento. Freqüentou a Escola da Pátria, instituição pública, entre os anos de 1816 e 1823. Esta será, portanto, sua única instrução formal. A partir daí será um autodidata. Seu tio José de Oro uma outra personalidade marcante em sua vida lhe ensinará latim e fundará junto com ele em 1825 uma escola rural em San Francisco del Monte. Dotado de uma inteligência extraordinária e de uma insaciável vontade de saber, devorou em sua juventude todos os livros que por ventura caíram em suas mãos. Leu os principais autores dos séculos XVIII e XIX. Escritores de diferentes nacionalidades, como Rousseau, Scott, Franklin, etc. Tornou-se a par dos diversos movimentos intelectuais como o Iluminismo, romantismo, positivismo, entre outros. Dos iluministas aprendeu o valor das instituições republicanas, o sistema representativo, a liberdade de imprensa, o valor das individualidades e a própria virtude cívica e moral a qual tinha uma enorme admiração. Já dos românticos conheceu o patriotismo e o amor pela terra. Dos positivistas aprendeu o sentido prático, a força em busca do progresso e a teve em seu plano de governo. Em 1830, emigra pela primeira vez ao Chile , porém logo retorna ao tomar conhecimento da derrota do governo federalista de SanJuan. Porém, em 1831 o caudilho Juan Facundo Quiroga invade a região e Sarmiento emigra novamente para o Chile, onde trabalha inicialmente numa escola de fronteira, mas tarde no comercio de Valparaíso e por fim nas minas de Copiapó. Por conta deste último oficio Sarmiento adoece e retorna a San Juan. Já entre os anos de 1835 e 1840, ainda em sua cidade natal, Sarmiento cria uma sociedade literária, filial da Asociación de Mayo Fundada por Esteban Echeverría em Buenos Aires. Em 1839 junto com alguns outros nomes significativos fundou ainda o periódico El Zonda. Este periódico não foi muito adiante devido.
(10) aos altos impostos aplicados pelo governo sanjuanino a cada publicação. Porém, neste mesmo ano Sarmiento fundou ainda o Colégio para Señoritas de la Advocación de Santa Rosa de América com a ajuda de seu Tio José Quiroga Sarmiento. Em 1840 se exila novamente no Chile por ter participado de uma conspiração unitária contra o governador federalista Nazario Benavídez. Conspiração essa que não obteve o sucesso desejado. O presidente do Chile nesta época era o então General Joaquín Pietro (1831-1841). Durante seu mandato havia restabelecido a estabilidade política e econômica. Santiago do Chile era então uma promissora cidade de 80.000 habitantes, com liberdade de imprensa e uma Universidade fundada e dirigida pelo ilustre poeta Venezuela Andrés Bello. Entre 1840-1850, durante a presidência de Manuel Bulnes, Sarmiento iniciou a luta periodistica contra o regime rosista. O governador de Buenos Aires, Juan Manuel de Rosas, impunha sua ditadura sobre as províncias da atual Republica Argentina. Desde 1841, já no novo governo do Chile com o então general Manuel Bulnes (1841-1851) Sarmiento participou publicamente através de artigos no periódico El Mercúrio da cidade de Valparaíso. Assim, em 1842, publica seu primeiro artigo em El Mercúrio, onde ingressa de imediato como redator. Participou ainda da direção do El Nacional e também como redator do periódico El Progreso, que fundou no ano de 1842. Foi neste mesmo ano que Sarmiento organizou e assumiu como primeiro diretor da Escuela Normal para maestros de Chile. Ainda em 1842, cria a primeira Escola Normal de Sudamérica da qual é nomeado reitor. Em 1843 foi membro fundador da Faculdade de Filosofia y Humanidades da Universidade do Chile. Neste mesmo ano publicou Mi Defensa e abriu uma escola privada para os filhos da aristrocacia de Santiago. Em 1845, seu amigo e atual ministro de Instrução Pública Manuel Montt envia-o para estudar os sistemas educativos da Europa e Estados Unidos. Sarmiento retorna em 1848 e apresenta ao governo chileno um relato sobre suas observações da viagem. O ano de 1845 foi para o escritor argentino decisivo em sua atuação pública. Sarmiento então com 34 anos, publica no periódico El Progreso e em forma de folhetim Civilización y Barbarie. Vida de Juan Facundo Quiroga y aspecto físico, costumbres y hábitos de la República Argentina, sua obra mais conhecida; editou seu Método gradual de enseñar a leer el castellano ; se encarregou do estudo dos sistemas educativos e das políticas migratórias dos Estados Unidos e Europa durante a presidência de Manuel Bulnes; correu o mundo em dois anos;; visitou Uruguai, Brasil, França, Espanha, Argélia, Itália, Alemanha, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos, Canadá e Cuba. Da França voltou desencantado, pois encontrou uma sociedade repleta de desigualdades sociais, onde a democracia se confundia com o autoritarismo. Entretanto, descobriu nos Estados Unidos uma sociedade perfeita, estável, baseada na liberdade de imprensa e nos direitos de igualdades para todos. Desta sua viagem trouxe a concepção de uma educação pública para todos e o desejo de modernizar a sociedade Argentina tomando os Estados Unidos como um modelo a ser seguido e “imitado”. Assim, quando regressou em 1848, apresentou seus informes as autoridades e publicou as impressões de suas Viajes. Ao final do ano de 1845 conheceu em Montevidéu Esteban Echeverría o grande ideólogo da geração de 37. Em Uruguai encontrou Bartolomé Mitre e Florêncio Varela. Do Uruguai viajou para o Brasil, onde se encontrou com José Mármol na cidade do Rio de janeiro, partindo daí para a Europa. De volta ao Chile em 1848, Sarmiento apresentou ao governo suas impressões sobre os sistemas educativos e políticas imigratórias da Europa, África e América. Neste mesmo ano se casou com a já então viúva Benita Augustina Martinez pastoriza, adotando o filho de sua esposa dando-lhe também seu próprio apelido “Dominguito”. Retoma então sua luta contra o ditador Rosas através da imprensa chilena nos diários La Crônica” e “La Tribuna” ambos de propriedade de Manuel Montt. O governo de Buenos Aires, em 1849 pediu as autoridades chilenas duas vezes a extradição de Sarmiento, porém não obteve êxito. Um ano depois Sarmiento dedica ao governador de Entre Ríos, General Justo José de Urquiza, sua obra Argirópolis.(ensaio analítico-programatico de conteúdo político) e publica Recuerdos de Provincia obra de cunho autobiográfico. Em 1851, embarca para Montevidéu e se incorpora a coalisão organizada por Urquiza contra Rosas. Imediatamente após a queda de Rosas começam os desentendimentos com Urquiza e Sarmiento decide emigrar para o Brasil, onde publica sua crônica da guerra: Campaña em el Ejército Grande. De volta ao Chile, lá toma conhecimento da separação do Estado de Buenos Aires da Confederação Argentina dirigida pelo governador de Entre Ríos. Frente a esta situação, em seus escritos toma partido por Buenos Aires e critica a Urquiza . Foi ainda diretor da revista El Monitor de las escuelas primarias e organizou a primeira rede de Bibliotecas Populares Em 31 de maio de 1852, numa reunião de governadores presidida pelo governador de Entre Rios, José Justo de Urquiza, firmou-se o acordo de San Nicolas.Este acordo previa entre outras coisas, a.
(11) brasileiro Euclides da Cunha, entre outras, vemos o quanto essas questões se tornam pertinentes para um bom entendimento das mesmas. Portanto, o nosso propósito nesta dissertação não é fazer um estudo comparativo entre as obras aqui citadas, mas apresentar, discutir e analisar, entre outras questões, os processos de apropriação do pensamento hispano-americano, a partir da obra de Domingo Faustino Sarmiento, legítimo representante do pensamento hispano-americano do século XIX. Não cabe a nós nesse “curto” trabalho analisar toda a obra do escritor argentino o que seria praticamente impossível devido a sua grande extensão, portanto, nos deteremos em analisar especialmente Facundo, por sua grandiosidade e indiscutível adequação a temática, além de Recuerdos de Província e Argiropólis, duas outras obras não menos importantes, mas que servirão apenas de reforço para algumas questões apresentadas. convocação de um Congresso General Constituinte. Se reuniriam em Santa Fé e estariam integrados por dois deputados por província, além de ter Urquiza como diretor provisório da Confederação Argentina até a sanção da Constituição Nacional. O acordo foi rechaçado pela Legislatura de Buenos Aires. No Chile, em adesão a esta postura, e por iniciativa própria de Alberdi, um grupo de argentinos residentes, fundou esse mesmo ano o Clube Constitucional Valparaíso. Porém, ao ver o rumo que ia tomando a política de Urquiza, a qual Sarmiento acreditava ser uma volta ao regime tirânico, empreende outra viagem ao Chile e a partir daí inicia uma ardorosa polêmica com Alberdi. No dia 19 de outubro do mesmo ano Sarmiento funda então em Santiago do Chile o Clube Argentino, onde aderiu a revolução de 11 de setembro e criticou o acordo San Nicolas. Los ataques de Sarmiento a Urquiza, através da imprensa chilena, provocaram a resposta imediata de Alberdi num artigo anônimo publicado no El Diario de Valparaíso. Sarmiento não demorou muito a reagir e em resposta publicou no dia 12 de novembro Campaña em el Ejército Grande aliado de Sudamérica. Nesta obra autobiográfica, critica aquele que fora seu chefe na Batalha de Caseros. Alberdi, entretanto, não deixa por menos e sai em defesa de Urquiza com “Cartas sobre la prensa y política militante em la República Argentina” que escreveu em Quillota conhecidas também como “Cartas Quillotanas”. Dava-se inicio então a uma das maiores polêmicas políticas da República Argentina. Em 1853 publicou a Memória enviada al Instituto Histórico de Francia sobre la cuestión décima de los programas de los trabajos que debe presentar la primera clase, sobre as republicas sul americanas. Em 1856 torna-se Diretor do Departamento de Escolas; funda numerosas instituições educativas e inicia o ensino de língua estrangeira nas escolas públicas. Em 1862, é nomeado governador interino de SanJuan. Foi ministro nos Estados Unidos onde fundou o periódico Ambas Américas. Em 1868, o Congresso Nacional nomeia Sarmiento Presidente da República exerce o cargo até 1874. Em 1873 sofre um atentado contra sua vida, do qual sai ileso. Dentre suas obras realizadas durante sua gestão, destacam-se a criação de numerosos estabelecimentos escolares, nos três níveis de instrução, entre eles o Colégio Militar, a Escola Naval, as Escolas Normais do Paraná, os Colégios Nacionais de Santa Fe, San Luis, Santiago del Estero, Corrientes e Rosario. Fundou também a comissão Protetora de Bibliotecas Populares, o Observatório Astronômico de Córdoba e a academia de Ciências. Destacam-se ainda a significativa ampliação da rede telegráfica e ferroviária, os projetos (frustrados) de distribuição de terras, o planejamento do que se tornaria o maior porto cerealista do país na passagem do século, a realização da Primeira Exposição Industrial, Artezanal e Agropecuária. A partir de 1875 ocupa, entre outros, e por curtos períodos os seguintes cargos: Diretor Geral de Escolas, Senador e Ministro do Interior. Em 1883, publica Armonía y Conflictos em América, o “Facundo da velhice”, segundo o próprio autor. No dia 11 de setembro do ano de 1888, em Assunção do Paraguai morre Domingo Faustino Sarmiento..
(12) Sarmiento servirá de guia e contraponto para essas colocações visando ainda “teorizar” um pouco mais sobre sua universalidade e sua postura literária. Sarmiento fez sua entrada no mundo literário e sócio-político por meados da década de 30; realizou inúmeros projetos como presidente da Argentina e escreveu diversas obras, artigos e discursos. Sua obra literária, que cobre um período de quase cinqüenta anos, foi publicada em 52 volumes por sua neta A. Belin Sarmiento. È. considerada por Martínez. como “un. manifiesto de las posiciones ideológicas que modelaron el desarrollo argentino, iberoamericano, durante el siglo XIX”. ( GÓMEZ-MARTÍNEZ: 2001b) Deixou uma vasta bibliografia onde estão incluídas diversas participações em periódicos. Porém, sua principal obra é, sem dúvida, o ensaio histórico intitulado Facundo “lúcido diagnóstico da realidade argentina e exposição do dilema civilização e barbárie” ( MARTÌNEZ, 1979: p. 68). Sarmiento escreveu Facundo exilado no Chile e em seu texto descreve alguns aspectos dos quais não tinha conhecimento prévio, a não ser através das narrativas de viajantes. Apesar disso, colheu informações diversas, documentos e estórias tornando-o um dos mais importantes de sua vida literária. Porém, fez uso também de algumas estratégias “falaciosas” para compô-lo favorecendo a si próprio e aos variados momentos. Seu texto nasceu “al calor de una circunstancia precisa: la llegada de Baldomero Garcia a Santiago de Chile en abril de 1845, con la misión de protestar por la campaña contra Rosas de lo exiliados argentinos, sobre todo de Sarmiento.” (apud SARMIENTO, 1979, P. I). Assim, em 1º de maio deste mesmo ano Sarmiento começa a escrever seu folhetim Vida de Facundo Quiroga. O folhetim durou três meses e ao seu término foi então publicado o livro Civilização i barbárie. Esta obra se divide basicamente em três partes, precedida por uma introdução notável. Nesta introdução Sarmiento enuncia seu tão ambicioso projeto de deciframiento del destino nacional, imprescindible para una acción eficaz cuya mira es el progreso futuro. Explicar el enigma supone el análisis de las causas de ordem historico, geografico, social, desde el estudio de la vida de quiroga, para comprender el presente, es dcir, el gobierno de Rosas. Se propone tambiém a corregir el error de Europa frente a los asuntos del Plata, combatiendo la propaganda que el mismo Rosas hacía de su gestión a través de la prensa, y a la vez de contestar a la crítica de los hispanoamericanos, justificando el llamado a la intervención extranjera (...) Tambiém quiere contribuir a la lucha emprendida.
(13) contra el rosismo con ‘ideas’ y ‘estímulos’, ya que cree en el fatal triunfo del progreso.(apud SARMIENTO, 1979: P. II).. Como se vê, Sarmiento era ambicioso e sonhador, pois acreditava tenazmente em seu projeto e na própria execução do mesmo. A primeira parte, entretanto, se resume na descrição da República Argentina com suas características, costumes e personagens; a segunda é destinada à vida de Juan Facundo Quiroga que vai desde o seu auge como caudilho até a sua trágica morte e por último a terceira que consiste, em “la profesión de fé política del autor ante la dictadura de Rosas” (VALDASPE, 1919: P. 102). Sarmiento escreveu Facundo “sob o pretexto de acabar com o sonho de Rosas fazendo a biografia de outro grande caudilho, Juan Facundo Quiroga,” (POMER, 1983: p. 08). O escritor argentino quis mostra com sua obra a Argentina de sua época entregue nas mãos de um caudilho ditador. Nesta obra Sarmiento se apropria de diversos autores, especialmente Fenimore Cooper, além de apresentar através de sua dicotomia civilização x barbárie, uma “nova” teoria baseada em modelos norte-americanos tendo por influência o historiador francês Toqueville. Facundo pode ainda ser vista como mais um dos projetos utópicos do autor em “transformar” a República Argentina num modelo semelhante à Europa. Neste caso, percebe-se uma confusão do autor diante da apropriação deste modelo, pois o mesmo muitas vezes desprezou a identidade nacional de seu povo através do determinismo racial que ele julgava ser inevitável. Recuerdos de província é uma autobiografia. Nesta obra Sarmiento apresenta-nos sua vida, seus familiares e amigos de sua cidade natal, San Juan de Cuyo. Aqui o escritor argentino assume um tom mais ameno e pessoal. Porém, Recuerdos de Província é vista por Altamirano (1983: p.19) - visão esta compartilhada por nós - como uma estratégia de Sarmiento para se promover, pois segundo o autor, Domingo Sarmiento faz uso dela para demonstrar que, não só ele é um descendente da tradição nacional, mas também é um ótimo político e, talvez, o único capaz de enfrentar o ditador Juan Manuel de Rosas. Argiropólis, obra dedicada ao governador Justo José de Urquiza, trata-se, na verdade, de.
(14) un proyecto para crear una confederación de la cuenca del Plata, integrada por las actuales Repúblicas de Argentina, Uruguay y Paraguay. La capital estaria em la isla Martín García del Rio de la Plata. En ese tratado proponía la constitución norteamericana como modelo de organización nacional. Y reclamaba la necessidad de fomentar la inmigración y atraer la inversión de capitales.2. A escolha destas obras deveu-se por duas razões: primeiramente, por serem obras representativas do auge da carreira literária de Sarmiento e, especificamente no caso de Facundo, um marco da própria literatura Argentina; segundo, por tratarem-se de obras que possuem, não a mesma temática, mas que perseguem o mesmo e único “sonho” do autor: o sonho de construir uma nação. Sarmiento fez uso de “estratégias” diversas, porém seu objetivo, em toda a sua vida, foi sempre um só: construir uma nação baseada no progresso e na educação. Estes foram os grandes centros de atenção de seu governo. Porém, sua maior dificuldade era saber como construir essa nação idealizada partindo de uma realidade social originária do colonialismo, e que Sarmiento acreditava ser avessa ao progresso. Como conscientizar um povo mergulhado na barbárie, separado por extensas propriedades territoriais, convivendo quase que exclusivamente com gados de que o seu programa traria benefício para a nação? Que garantia Sarmiento daria a esse povo? Talvez, nenhuma. Dentro então dessa abordagem histórico-literária, questionaremos a fragilidade da fronteira entre a história como um discurso da verdade e a história como um discurso ficcional. Assim sendo, no capítulo 1 procuraremos dar uma visão panorâmica do pensamento hispano-americano do século XIX e suas implicações na literatura, como o desejo de se construir novas nações e a existência, ou não, de um pensamento autóctone nesta época. Será possível, mesmo desejando “imitar” modelos europeus, preservar uma certa identidade nacional? Ou será que a “apropriação” permite-nos filtrar aquilo que nos interessa daquilo que nos é prejudicial? Qual a posição de Sarmiento? Será que podemos delimitar sua “estratégia” sem corrermos o risco de nos perdermos num emaranhado de confusões conceituais acerca do que seria “apropriação, imitação, cópia?” Que papel exerceram suas obras aqui estudadas? Utilizaremos como suportes teóricos Foucault, Ureña, Leopoldo Zea, Stuart Hall, entre outros.. 2. http://www.clarin.com.ar/diario/especiales/sarmiento/htm/periodista/batalla.htm.
(15) No capítulo 2 questionaremos a ligação entre o discurso histórico e o literário, utilizando como paradigma a reflexão de H. White (1995: p. 09) sobre o discurso histórico e o discurso literário do século XIX. Embasados pela teoria dos tropos por ele apresentada com o objetivo de “descobrir os poderosos talentos poéticos que estão subjacentes à realização histórica e que a garantem.” (apud BANN, 1994: p. 60) , discutiremos a prioridade do historicismo no romantismo literário procurando contextualizar a obra de Domingo Sarmiento em busca de uma legitimação do discurso. Utilizaremos ainda outros teóricos como Linda Hutcheon, entre outros. No terceiro e último capítulo dedicaremos uma especial atenção às narrativas de viagens como fontes primordiais para a fundação de uma literatura emergente e autóctone. Neste capítulo tentaremos recapitular através da obra Los Viajeros Ingleses y la Emergencia de la Literatura Argentina: 1820-1850 do historiador Adolfo Prietro (1996) o percurso dos viajantes ingleses entre os anos de 1820 a 1850 e suas diferentes formas de narrativas com o objetivo de demonstrar a influência destes nos escritores argentinos. Estes relatos de viagens exerceram uma forte contribuição para a constituição de uma realidade ignorada por muitos estabelecendo imagens que foram mais tarde proclamadas e propagadas pelos verdadeiros “donos” desse discurso “americano”. Como parte da análise e como prova da apropriação dos escritores argentinos deste tipo de narrativa, apresentaremos alguns textos de viagem do escritor argentino Alberdi3 e alguns trechos da obra Viajes do próprio Sarmiento. Entretanto, como a obra principal a ser analisada nesta dissertação é Facundo nos deteremos em demonstrar essa já predeterminação e esse pré-conhecimento por parte do autor, visto que, em seu texto deixa claro não só a importância desse tipo de narrativa, como também faz alusões aos viajantes deixando claro sua influência e admiração.. 3. Juan Bautista Alberdi nasceu em Tucumán no dia 29 de agosto de 1810, estudou no colégio de Ciências Moraes de Buenos Aires, fundou em 1837 com Echeverría e Juan Marpia Gutiérrez a Asociación de Mayo, graduou-se em Direito no ano seguinte e emigrou para Montevidéu onde começou a luta contra o ditador Rosas através da imprensa e dos livros. Quando viajou pela Europa escreveu em prosa o poema Éden que seu companheiro Gutiérrez versificou durante a mesma viagem. Ao voltar da Europa foi se estabelecer no Chile, em 1843 e ficou conhecido por seus escritos históricos-politicos. O mais celebre e importante destes trabalhos, Las Bases, foi publicado em Valparaíso em 1852. Neste ano começou sua polêmica com Sarmiento, pois Alberdi se inclinava ao general Urquiza, e Sarmiento sostenía ao governo de Buenos Aires. Desta polêmica nascerão dois panfletos: Cartas quillotanas de Alberdi e Las ciento y una de Sarmiento. Desde 1855 hasta 1879, Alberdi permaneceu longe de sua pátria, encarregado ao principio, dos governos da inglatrra, França, Espanha e Estados Unidos. Eleito deputado por Tucumán, em 1878, voltou a Buenos Aires, mas emigrou pela segunda vez ao ver que seus inimigos políticos lhe dirigiam violentas críticas ocasionadas por suas idéias sobre a federalização de Buenos Aires. Foi morar definitivamente em Paris, onde faleceu no dia 18 de junho de 1884..
(16) Sarmiento, assim como tantos outros, percebe o poder dessas narrativas e faz uso delas para buscar uma literatura mais nacionalista, polítizada e americana, mesmo que para isso seja preciso “importar” e se “apropriar” de alguns modelos. Todavia, a razão da escolha em trabalharmos a narrativa Facundo do escritor argentino Domingo Faustino Sarmiento, como assunto de dissertação de Mestrado, decorre de várias razões. A primeira, seria para nós estabelecer um sentimento de identidade cultural que, sem dúvida alguma une nossos países, mas que ao mesmo tempo parece-nos tão distante. A segunda, seria em conseqüência da primeira, despertar em nós o interesse por uma literatura, que em princípio deveria estar mais presente em nosso mundo acadêmico, mas que infelizmente e por razões as quais desconhecemos não está. E, em terceiro lugar, porque consideramos inovador o tema levando em conta que ninguém ainda trabalhou a obra de Sarmiento na Universidade Federal de Pernambuco. Além disso, apesar de Sarmiento ser considerado um escritor universal e, portanto, amplamente estudado, não temos conhecimento de nenhuma abordagem desse tipo de temática a que nos propomos. Ou seja, o objetivo de discutir entre outros, o tema da apropriação na obra de Sarmiento é sem dúvida alguma uma proposta inovadora e que pretende contribuir para o enriquecimento teórico não só da obra do escritor, mas de todo um questionamento crítico-literário acerca de possíveis contradições envolvendo o conceito do termo apropriação. Assim, nossa escolha traduz conseqüentemente, uma inquietude diante desse conceito por sentir uma falta de clareza quanto aos seus “limites” impostos aos escritores no que diz respeito à apropriação como algo original ou não. Ou seja, pensar a apropriação como um conceito que questiona o valor e as possibilidades da originalidade e não como algo que necessariamente as “determina”. Desta forma, buscamos com isso identificar, através das narrativas de Sarmiento os seguintes itens: que tipo de apropriação Sarmiento fez uso e quais foram os modelos por ele imitados, já que em determinadas passagens de suas narrativas confundem-se a sua proposta com aquela a qual ele se identificava. Será nesse caso uma apropriação ou uma imitação? E mais, em que residiria então a sua originalidade, já que o escritor parece ter vivido sempre em busca de modelos aos quais se espelhar? O que o romantismo e suas inovações teriam a ver com esse fato? O discurso literário de Sarmiento se confunde com o discurso político a ponto de pôr em risco a sua originalidade literária fazendo prevalecer à política, ou não?.
(17) Por fim, e acreditando ser esse o principal motivo da escolha em trabalharmos a obra de Sarmiento, foi o nosso encantamento diante de um escritor que adotou uma postura apaixonada em tudo o que fez sempre consciente do seu papel de cidadão ante os problemas de sua época e de sua nação. Seus métodos muitas vezes paradoxais nos levam a questionar sua vida e obra não nos deixando cair no marasmo de uma simples interpretação literária, mas nos levando, ainda hoje, a questionar nossas próprias vidas e a buscar conhecer nosso passado em busca de entender melhor o nosso porvenir..
(18) CAPÍTULO 1 O PENSAMENTO HISPANO-AMERICANO DO SÉCULO XIX E A BUSCA POR UMA NOVA NAÇÃO [O} individuo ou grupo ou nação, escolhe o próprio caminho. E cada qual encontra, no direito das gentes ou no foro intimo, a justificação moral para sua conduta. Maria José de Queiroz. 1.1 A construção de uma Nação Segundo Benedict Anderson (apud PINA: 2001), para que se concretize um sentimento de nacionalidade é preciso que os indivíduos tenham a consciência de que eles fazem parte de um todo. Porém, esse todo não acabaria necessariamente com as individualidades de cada um, pelo contrário, “as individualidades, ao compartilharem o nacionalismo, inventam as nações – diferenças particulares se diluem ante uma suposta e imperativa fraternidade.” (PINA: 2001), Ou seja, a busca por uma identidade passaria primeiramente. pela aceitação por parte dos indivíduos das suas particularidades e,. posteriormente, por um processo voluntário de criar um Imaginário representante do todo. Pois, segundo Nelly Coelho “os sonhos ou o imaginário, o acaso, as circunstâncias, os ideais de um indivíduo determinam a realização das nações e da História”. (1997: p. 524) Porém, uma nação também não poderia constituir-se apenas de elementos oriundos de uma pequena parcela de indivíduos, mesmo que essa parcela acreditasse ser representativa do todo, pois ela “não pode ser concebida num estado de equilíbrio entre diversos elementos coordenados e mantidos por uma lei ‘boa’”.(BHABHA, 1998, P. 213). Ou seja, não podemos acreditar na imposição de determinados grupos – sempre os de elite – sobre outros – sempre os marginalizados – acreditando que os primeiros têm necessariamente permissão e poder para determinar nossas escolhas e, conseqüentemente, nossa representatividade nacional. Assim, o conceito de nação, até hoje bastante discutido, foi, durante o século XIX, alvo de inúmeras propostas ideológicas, especialmente nos países recém-independentes,.
(19) pois estes, além de estarem ávidos por mudanças, buscavam enfim construir suas nações com bases em seus próprios conceitos, experiências, sonhos e imaginário. Partindo então desses questionamentos conclui-se inevitavelmente que o processo de construção da nação hispano-americana durante o século XIX passou por inúmeros conflitos, uma vez que, enquanto estavam os hispano-americanos sob o domínio dos seus colonizadores sentiam-se “alvos” das mais variadas hipóteses de incompetência, de falta de originalidade e de determinismos raciais e geográficos. A partir do movimento independentista tudo isso passou a incomodá-los com muito mais pertinência a ponto de se buscar uma mudança, pois, de uma forma ou de outra, eles se sentiam pertencentes a essa nação. Como percebiam que eram seres secundários, repetidores de um discurso do Outro, do qual não possuíam nenhuma experiência real e com o qual não se identificavam, sentiam a necessidade, portanto, de mudar o panorama histórico. Assim, passaram a ter a consciência – mesmo que ilusória - de possuir uma identidade. Essa “ilusão” fez com que, durante muito tempo, não se sentissem angustiados com sua condição de colonizados, mas sim deslumbrados com a inteligência e o poder dos seus colonizadores. Entretanto, quando essa nação colonizada começou a tomar consciência de que não mais se identificava com ela, perceberam que, ao contrário do que imaginavam, eram sim, um povo sem identidade e, portanto, sem uma nação própria. Sentiam-se à margem de culturas estrangeiras. Estavam dispersos e carentes de mitos, fantasias e experiências que pudessem tomá-las como suas, pois tudo aquilo que fizera parte da sua história de colonizados e que durante muito tempo foi o seu referencial, agora não o era mais. Era preciso, portanto, partir em busca de novos projetos, de novos referenciais, que os dariam uma nova identidade, muito mais verdadeira. Assim, passaram a formular e almejar novos projetos de nações, onde estaria inclusa a. busca por uma representatividade o mais. fidedigna possível do nosso povo. Desta forma, é exatamente neste sentido que a construção de uma nova nação viria contribuir para o preenchimento de um vazio: “o vazio da não-identidade”. O sonho de construir uma nação com bases em suas crenças, tradições, pensamentos e ideologias tomou conta dos pensadores da época e foi perseguido por muito tempo como um grande projeto a ser conquistado. Porém, esse sonho tinha a pretensão de ser perfeito, ou seja, almejava uma conquista sem grandes obstáculos; um processo de conscientização e implantação dessas nações sem atritos e uma representatividade de toda.
(20) uma cultura naturalmente híbrida numa única e definida “nação” imposta por poucos. Assim, vinham cometendo o mesmo erro dos seus colonizadores: estavam impondo um sentimento de nacionalidade onde todos deveriam se identificar não importando as particularidades e anseios de cada um. Como não podia ser diferente, o sonho de construir uma sociedade perfeita foi então fracassado. Porém, só mais tarde chegariam a conclusão de que “El fracaso motiva, a su vez, la reflexión sobre sus causas y pone de relieve la necessidad de conocerse.” (GÓMEZ-MARTÍNEZ: 2001 a). Foi a partir da década de 1840 que o idealismo utópico de outrora de formar sociedades perfeitas foi substituído pela necessidade de reflexão sobre as causas de tamanho fracasso, assim como preconizou Martinez anteriormente. Chegou-se a conclusão de que era preciso considerar de antemão as próprias circunstâncias antes de se tomar qualquer atitude. O pensador hispano-americano buscaria então soluções particulares para seus problemas, acreditando que estas se ajustariam exclusivamente a sua realidade, não mais aceitando “fórmulas mágicas européias” ditadoras de pensamentos. E assim previa Alberdi La discusión de nuestros estudios será más que el sentido de la filosofía especulativa... en el de la filosofía de aplicación, de la filosofía positiva y real, de la filosofía aplicada a los intereses sociales, políticos, religiosos y morales de estos países... Vamos a estudiar..., en una palabra, la filosofía política, la filosofía de nuestra industria y riqueza, la filosofía de nuestra literatura, la filosofía de nuestra religión y nuestra historia.. (apud GÓMEZ-MARTÍNEZ: 2001 a).. Estava instaurada a consciência e a necessidade de se desenvolver um sentimento de patriotismo. Como dizia Esteban Echeverría “El espíritu del siglo (...) lleva hoy a las naciones a emanciparse, a gozar de independencia, no sólo política sino filosófica y literaria”. (apud UREÑA: 2000). Era chegada a hora de instaurar e defender uma cultura americana, pois a européia não era mais capaz de resolver seus problemas. Dentro desta proposta estava ainda o desejo utópico de “eliminar” tudo aquilo que não era “nativo”, porém, como construir uma nação “unificada” quando a sua própria cultura era decididamente híbrida? Como definir o que era ou não “nativo”? Que critérios utilizar para essa seleção? Sem dúvida esse era o grande impasse. Acreditava-se que “o resíduo, nesta operação de subtrair, seria a substância autêntica do país” . (SCHWARZ, 1987: p.33). Todavia, os resíduos mostraram que o processo dessa subtração era muito.
(21) mais complexo do que se imaginava, pois ao tentar-se “peneirar” tudo aquilo que se acreditava não ser próprio de sua cultura vía-se cair, involuntariamente, substâncias consideradas alheias que viriam, ao invés de subtrair, somar-se aos seus resíduos. Desta forma, como poderiam determinar aquilo que era ou não próprio de sua nação? Como alcançar a tão almejada nação unificada? Segundo Ernest Renan para se alcançar uma nação unificada é preciso se ter em comum três coisas: “...a posse em comum de um rico legado de memórias..., o desejo de viver em conjunto e a vontade de perpetuar, de forma indivisiva, a herança que se recebeu.” (apud HALL, 2000: p. 62-63). Porém, como perpetuar uma herança que em princípio era renegada? Como identificar “suas memórias” se elas se misturavam a tantas outras? Como identificá-las ainda se o esquecimento e a opacidade de alguns fatos históricos foram manipulados a ponto de destruí-la? Como imbuir em cada cidadão o desejo de viver em conjunto se para isso seria preciso privilegiar um aspecto cultural em detrimento de outros, já que eram um povo culturalmente híbrido? Como uma sociedade colonial poderia “reproduzir a européia, se cada personagem da cena histórica já possuía uma memória, um passado?” (DA SILVA, 1998:P. 54). O fato é que, ao se agir dessa forma corria-se o sério risco de se anular uma diferença cultural já pré-existente nesse povo e que consistia exatamente em sua marca pessoal. Sendo assim, agia-se de forma autoritária, abusando do poder em determinar imposições que desconsideraria a composição híbrida cultural de qualquer nação moderna. E foi exatamente isso o que aconteceu. Como nem tudo ainda estava perdido, percebeu-se que para tentar unificar uma nação era preciso então buscar não formas definitivas – pois estas não existiam - mas sim, paliativas. Uma dessas formas foi o poder da narrativa como forma de propagar idéias e conceitos nacionais. A partir dela era possível então narrar toda uma série de costumes que representariam a nação ou até mesmo aquilo que “gostar-se-ia” que fosse representado como sendo “próprio” da nação. E fazendo isso, poder-se-ia então perpetuar não necessariamente a herança deixada, mas sim aquela com a qual se identificava. Observa-se, portanto, que a partir dessa tomada de consciência a narrativa adquire um status diferenciado, pois percebe-se a possibilidade de mudança nos rumos das coisas através de seu uso de forma mais política e ideológica. Poder-se-ia então através dela, almejar a construção de uma nacionalidade de forma mais representativa e mais concreta..
(22) Neste sentido, vale a pena comentar o que Stuart Hall nos apresenta como algumas estratégias representacionais para construir um sentimento de “nacionalidade”. São elas: a narrativa da nação; ênfase nas origens, na continuidade, na tradição e na temporalidade; invenção da tradição e o mito fundacional. No primeiro exemplo o autor mostra a importância da literatura como um dos meios simbólicos de representação da nação, pois ela fornece “uma série de estórias, imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, as perdas, os triunfos e os desastres que dão sentido à nação” (apud HALL, 2000: P. 56). Assim, através da literatura pode-se não só fortalecer o Imaginário, como também recriá-lo. E isso foi o que fizeram os escritores hispano-americanos do século XIX. É verdade que as narrativas de viagens foram usadas durante muito tempo para perpetuar estereótipos, especialmente por alguns viajantes estrangeiros, porém, nesse momento era preciso saber reverter o seu uso para torná-las a seu favor. Percebeu-se que, assim como os viajantes estrangeiros souberam dar vida e crédito as suas narrativas, os intelectuais também poderiam e, assim, todo um panorama nacional poderia ser mudado através do olhar peculiar e particular do hispano-americano que buscaria representar então toda uma comunidade simbólica. Já no segundo exemplo, o autor diz que “Os elementos essenciais do caráter nacional permanecem imutáveis, apesar de todas as vicissitudes da história. Está lá desde o nascimento, unificado e contínuo, ‘imutável’ ao longo de todas as mudanças”. (apud HALL, 2000: p. 58). Ou seja, uma vez estabelecida essa comunidade simbólica com base nas origens, na continuidade, na tradição e na temporalidade estar-se-ia dando um passo decisivo para a construção de uma nova nação, pois a mesma contaria já com os elementos essenciais e imutáveis para a sua concretização. Nada poderia, portanto, alterá-la a ponto de destruí-la novamente. No terceiro exemplo, Hall compartilha da mesma visão de Hobsbawn e Ranger, onde para eles a invenção da tradição consistiria em “um conjunto de práticas... , de natureza ritual ou simbólica, que buscam inculcar certos valores e normas de comportamentos através da repetição, a qual, automaticamente, implica continuidade com um passado histórico adequado”. (apud HALL, 2000: p. 59). Neste ponto podemos salientar novamente o poder de persuasão dado àqueles que estariam encarregados de inventar as tradições. Aqui se observa a importância da criação e manutenção dos.
(23) Institutos Históricos e Geográficos como uma dessas formas de “inventar” tradições. Essa prática levaria inevitavelmente a construção oficial de um passado onde as memórias e as heranças seriam perpetuadas dando continuidade a nossa história, a partir do momento em que os registros de tais tradições estariam, portanto, servindo de ponto de referência para futuras interpretações. Por fim, o quarto exemplo estabelecido pelo escritor: o mito fundacional. Para o autor, essa estratégia trabalharia com a visão de “uma estória que localiza a origem da nação, do povo e de seu caráter nacional num passado tão distante que eles se perdem nas brumas do tempo, não do tempo ‘real’, mas de um tempo ‘mítico’”. (HALL, 2000: p. 59) Assim, podemos observar que através desses mitos novas nações poderiam ser fundadas especialmente as menos privilegiadas já que eles possibilitam uma alternativa na construção simbólica de suas representações, além de fornecerem “uma narrativa através da qual uma história alternativa ou uma contranarrativa, que precede às rupturas da colonização, pode ser construída (...)”. (apud HALL, 2000: p. 60). Ou seja, uma estratégia muito pertinente para a construção de uma nova historia. Assim, vemos o século XIX como um marco do discurso histórico-literário onde a preocupação em “narrar” uma nação já existente e também aquela desejada ganha proporções cada vez mais maiores com o objetivo único de buscar uma representação o mais fidedigna possível de seu povo. 1.2 Sarmiento: o político e seu sonho Dentro dessa perspectiva destacamos o escritor argentino Domingo Faustino Sarmiento foco do nosso trabalho e sua obra Facundo. Nesta obra, texto indiscutivelmente fundador de uma nacionalidade, Sarmiento busca exatamente entender e explicar os problemas de seu país, assim como projetar um futuro com o qual ele havia sonhado. Nesse projeto político-social de nação estaria incluído não só um programa de governo proposto pela figura de um letrado, mas protagonizado por ele próprio. Ou seja, Sarmiento se propõe a “salvar” uma nação mergulhada na barbárie através de suas idéias e visões progressistas e denunciadoras. O presente simbolizado pela figura do ditador Rosas, representativo da barbárie precisaria ser substituído por um porvenir a ser conquistado com base numa ideologia civilizatória vigente na época. Assim, “nessas condições, imaginar-se – fundamentalmente a si mesmo, mas também a todo um grupo de jovens românticos - ,.
(24) como artífice e executor de um Estado civilizado, moderno, pujante, era uma empresa plausível.” (GÁRATE, 2001: P. 26). Escritor de extraordinária capacidade e político audaz teve como uma de suas principais metas construir uma nação baseada no modelo norte-americano pelo qual tinha uma enorme admiração. Se por um lado existia nessa época um pensamento original voltado para a independência cultural dos países hispano-americanos – pensamento defendido por Alberdi -, por outro existia um desejo de fazer desses países a extensão da Europa acreditando ser esta a solução para nossos problemas. Esse era, portanto, o caso de Sarmiento. Seu desejo era justificado por acreditar que o conceito de civilização por ele defendido só poderia ser encontrado nas cidades influenciadas pelo estilo europeu - centros inquestionáveis de civilização –, pois em nossos países, devido ao nosso “determinismo geográfico” e também a nossa população de “selvagens”, só seria possível encontrar a barbárie. Portanto, era imprescindível “adaptar-nos” ao modelo europeu se quiséssemos alcançar o progresso e a civilização. Para Sarmiento essa luta entre cidade x província era algo inquestionável, pois enquanto esta última nada tinha a oferecer ao seu povo, a primeira prometia o progresso, o desenvolvimento, o saber. Ao descrever a vida em La Rioja Sarmiento se impressiona com sua caracterização geográfica.. La llanura arenisca, desierta y agostada por los ardores del sol, en cuya extremidad norte, y a las inmediaciones de una montaña cubierta hasta su cima de lozana y alta vegetación, yace el esqueleto de La Rioja, ciudad solitaria(...) El aspecto do país es, por lo general, desolado; el clima, abrasador; la tierra, seca y sin aguas corrientes.(SARMIENTO, 1979: p. 87).. Porém, se deleita diante da cidade, fonte primária da civilização e do seu sonho em tornar sua nação semelhante. La ciudad es el centro de la civilización Argentina, española, europea; allí están los talleres de las artes, las escuelas y colégios, los jusgados, todo lo que caracteriza, em fin, a los pueblos cultos La elegância em los modales, las comodidades del lujo, los vestidos europeos, el frac y la levita tienen allí su teatro y su lugar conveniente.(SARMIENTO, 1979: p. 31). Sarmiento defendia, portanto, as cidades como focos civilizatórios já que eram a partir delas que poderíamos desfrutar de privilégios intelectuais, tais como, bibliotecas,.
(25) universidades, etc. Já as províncias eram vistas pelo autor como fonte da barbárie mais pura, pois as mesmas possuíam não só condições favoráveis para isso como seu próprio povo era o verdadeiro protótipo dessa barbárie.. A dicotomia Civilização x Barbárie. perpassa necessariamente pela busca de uma nação representativa de um povo, a qual Sarmiento acreditava estar apto para exercê-la. Para o autor era uma questão muito simples de ser definida: bárbaros são os selvagens dos pampas, civilizados são os europeus e seus simpatizantes. Portanto, era preciso civilizar a nação Argentina custasse o que custasse. Em sua obra Facundo, essa dualidade torna-se bastante representativa, pois Juan Facundo Quiroga, o caudilho, é filho legitimo da barbárie, enquanto o General Paz, militar europeu admirado por Sarmiento, representa a própria civilização em pessoa. Ambos – Facundo e Paz – travaram uma batalha em Córdoba, pois Paz havia se apoderado da mesma após ter combatido com oitocentos homens. Facundo decide enfrentá-lo dirigindose a Córdoba com seus 4.000 homens Na batalha da Tablada em Córdoba, assim conhecida, “se midieron las fuerzas de la campaña y de la ciudad, bajo sus más altas inspiraciones, Facundo y Paz, dignas personificaciones de las dos tendências que van a disputarse el domínio de la República.”(SARMIENTO, 1979: p. 138). Desta forma, vemos novamente o duelo da civilização x barbárie. De Facundo, Sarmiento dirá o seguinte Facundo, ignorante, bárbaro, que há llevado, por largos años, una vida errante que sólo alumbram, de vez en cuando, los reflejos siniestros del puñal que gira en torno suyo; valiente hasta la temeridad, dotado de fuerzas hercúleas, gaucho de a caballo, (...) dominándolo todo por la violencia y el terror, no conoce más poder que el de la fuerza brutal, no tiene fe sino en el caballo; todo lo espera del valor , de la lanza, del empuje terrible de sus cargas de caballería. ¿ Dónde ensontraréis en la República Argentina un tipo más acabado del gaucho malo? ¿ Creéis que es torpeza dejar en la ciudad su infantería y artillería? No; es instinto, es gala de gaucho; la infantería deshonraría el triunfo, cuyos laurales debe coger desde a caballo.( 1979: p. 138).. Ou seja, Facundo Quiroga nasceu predestinado a se tornar não outra coisa, mas apenas um caudilho. Seu estilo de vida, a própria constituição da natureza geográfica e humana serviu e corroborou para torná-lo um homem destemido, bárbaro, primitivo. E isso é reforçado mais uma vez por Sarmiento.
(26) La vida de a caballo, la vida de peligros y emociones fuertes, han acerado su espírito y endurecido su corazón; tiene odio invencible, institivo, contra las leys que lo han perseguido, contra los jueces que lo han condenado, contra toda esa sociedad y esa organización a que se ha sustraído desde la infancia y que lo mira con prevención y menosprecio(...) ‘Es el hombre de la naturaleza que no ha aprendido aún a contener o a disfrazar sus pasiones, que las muestra en toda su energía, entregándose a toda su impetuosidad. Este es el carácter original del género humano’; y así se muestra em las campañas pastoras de la República Argentina. Facundo es un tipo de la barbarie primitiva: no conoció sujeción de ningún género...(1979: P. 84).. Já do General Paz, o escritor argentino define-o da seguinte forma: Paz es, por el contrario, el hijo legitimo de la ciudad, el representante más cumplido del poder de los pueblos civilizados. (...) Paz es militar a la europea: no crea en el valor sólo, si no se subordina a la táctica, a la estrategia y a la disciplina; apenas sabe andar a caballo; es, además, manco, y no puede manejar una lanza. La ostentación de fuerzas numerosas le incomoda; pocos soldados, pero bien intruidos. Dejadle formar un ejército, esperad que os diga: ‘ya está en estado’, y concededle que escoja el terreno en que ha de dar la batalla. Es el espirito guerrero de la Europa, hasta en el arma en que ha servido; es artillero, y, por tanto, matemático, científico, calculador. (SARMIENTO, 1979: p. 138-139).. Ou seja, por ser ele um europeu filho “legítimo” da civilização, representante fiel de um povo civilizado, era merecedor não só de admiração, mas também digno de ser “imitado” e seus exemplos seguidos. Percebe-se ainda que a oposição entre Buenos Aires e o interior do país causaria um sério problema de nacionalidade dentro do mesmo território, levando seus habitantes a uma luta sem fim. O que significa para os “selvagens” da província a civilização? Em contrapartida, o que significa para os da cidade a barbárie? Esses conceitos apontados por Sarmiento como algo absoluto, na verdade não estavam tão definidos assim para os verdadeiros envolvidos na questão. Sarmiento queria impor suas idéias de barbárie e civilização sem querer tomar conhecimento das conseqüências que estas poderiam causar ao povo argentino, pois este sempre foi considerado pelo escritor como uma “minoria silenciada”. É verdade que ele possuía fatos para discorrer sobre os males e benefícios desses conceitos, porém como ele podia pensar em conscientizar um povo analfabeto de que aquilo que ele denunciava e pregava era o melhor para sua nação? Como sempre, eram apenas os letrados que tomavam partido, que faziam denúncias, que pregavam mudanças, que planejavam o futuro. Seria isso então suficiente para erguer uma nação como a.
(27) Argentina, com imensos territórios despovoados e repletos de “selvagens”? Sarmiento acreditava que sim. Seu ideal de nação passava necessariamente pelo progresso, pela educação e por uma melhor distribuição das propriedades argentinas. Seu programa de governo constituíase então em Povoar de imigrantes tecnicamente qualificados, levantar milhares de escolas e alfabetizar maciçamente, estender estradas de ferro que unifiquem o espaço interior, unir fios de telégrafos em direção a todas as latitudes, distribuir a terra entre os imigrantes em frações suscetíveis de proporcionar uma renda razoável e a preços não-especulativos, aceitar por longo tempo nossa condição de produtores de matérias-primas e alimentos, abrir as portas ao capital e às manufaturas estrangeiras, incorporar as tecnologias mais avançadas às praticas agropecuárias do país. (POMER, 1983: p. 16).. Como se vê, o progresso e o desenvolvimento de uma nação dependeria, portanto, dessa tomada de consciência. Era nas cidades que estabeleceríamos as ordens, leis, convenções, instituições. Como civilizar um povo sem esses preceitos? Essa era a diferença para Sarmiento.. Para Rosas o estrangeiro era visto como inimigo, para. Sarmiento não. Eles significavam justamente a aliança com o porvenir. Rosas e seus seguidores viam a questão da nacionalidade ao inverso de Sarmiento. Enquanto um acreditava que poderia permanecer imune aos avanços tecnológicos o outro tinha a certeza de que eles viriam acontecer trazendo a prosperidade para sua nação mergulhada na miséria. Era, portanto, um duelo entre o ditador e o sonhador. Esse “duelo”, que não foi literal, aconteceu de fato através de atividades periodísticas, onde Sarmiento iniciou sua “batalha” fervorosa contra Rosas. Percebeu que ali estava sua “arma” contra a ditadura do caudilho bonaerense, pois, através de seus polêmicos artigos e folhetins conseguia não só propagar um ideal de nação por ele almejado, mas, especialmente, atacar Rosas, denegrindo sua imagem. Assim, se era preciso construir um imaginário representativo para o povo, se era preciso relembrar imagens de uma historia vivenciada através de símbolos e rituais que dessem sentido a nação, então Sarmiento estava disposto a fazê-lo.Era preciso ainda buscar tradições, exemplos e modelos com os quais se identificar, pois, uma vez identificados ninguém mais poderia derrubá-los. Além disso, Sarmiento buscava, ele próprio, “criar” novas tradições, consciente do seu poder de persuasão. Ou seja, a busca por uma nova nação passaria, portanto, por fatores que iam além do passado e do presente, mas que deveriam necessariamente tentar “prever” o futuro.E isso Sarmiento soube fazer.
(28) muito bem. Sua visão de quase profeta conseguiu anteceder situações e conseqüências muitas vezes desastrosas para sua própria República, como de fato aconteceu. Guerras e mais guerras foram agonizando seu projeto de nação e a realidade social ia se impondo a mercê dos seus idealizadores. Sua dicotomia ia se confundindo aos poucos à medida que ele próprio tentava esclarecê-la. Afinal, a barbárie invadia a cidade com a figura de Rosas e destruía seus sonhos de nação civilizada. O que fazer então? Como reagir? O que dizer agora das províncias, focos “naturais” de barbárie? Seria essa uma questão apenas determinista? Selvagens iguais à barbárie; europeus iguais à civilização? Não era tão simples assim. O homem que defendia a civilização a todo custo, que denunciava através de sua obra Facundo a barbárie, representada primeiramente pelo caudilho Juan Facundo Quiroga e, posteriormente, pelo ditador Juan Manuel de Rosas, não conseguiu entender afinal como uma cidade tida por ele como modelo de civilização – Buenos Aires - acolhia em seu seio durante tantos anos um ditador, bárbaro e sanguinário como Rosas. Esse paradoxo trouxe a Sarmiento a dúvida e o desejo ao mesmo tempo de entender os problemas de seu país. Como explicar então essa receptividade da cidade de Buenos Aires ao não menos caudilho Rosas? Simples Rosas havia sido o representante de um grupo econômico-social dominante, os grandes latifundiários criadores de gado transformados em fabricantes de charque. Rosas não era o bárbaro que seu Facundo havia retratado; a barbárie vinha[portanto] da organização social.(POMER, 1983: p. 14). Portanto, tudo passava por uma única questão: “Sarmiento teme o povo, teme a desordem das massas armadas, teme o atentado contra as propriedades daqueles que definitivamente podem ser em San Juan seu sustento político”. (1983: p. 20). Ou seja, não era possível criar uma nova nação sem a participação desse povo, pois “um povo não se modela simplesmente com idéias, uma nação não se constrói pela imitação de um modelo; a realidade social vai-se fazendo sem se importar muito com o ideólogo” (POMER, 1983: p. 09). Porém, Sarmiento só chegou a essa constatação tarde demais em sua idade madura quando a busca por um futuro melhor já não se justificava mais. A busca por uma nova nação, aquela que fosse representativa de um todo ganha proporções contraditórias ao longo da obra de Sarmiento, pois o mesmo não respeita as individualidades de cada cidadão e impõe na maioria das vezes um discurso também autoritário igualando-se ao do seu opositor Juan Manuel Rosas..
(29) Assim, durante toda sua vida política e literária seu discurso partira o tempo todo do pressuposto de que uma minoria culta representaria o todo, porém como diz Bhabha “a nação não pode ser concebida num estado de equilíbrio entre diversos elementos coordenados e mantidos por uma lei ‘boa’”.(BHABHA, 1998: p. 213). E Sarmiento não queria acreditar que ele não possuía essa “lei boa”. Sarmiento, portanto, defensor de um modelo para “criar” uma identidade, não percebia sua fragilidade ao propagar suas idéias ditas nacionalistas. Acreditava ardorosamente que ao construir uma nação semelhante à norte-americana, que para ele era admirável, estaria necessariamente imbuindo em seu povo uma consciência legítima de que essa era a solução para os seus problemas. Almejava a todo custo, e de maneira violenta e abnegada, aquilo que existia em outros países. Não deveriam se importar demasiadamente em serem originais, mas sim em “copiarem” aquilo que deu certo em outros países. Assim, deveriam se adaptar às circunstâncias e não elas a eles. A busca por uma nova identidade ficaria relegada a segundo plano – mesmo que inconscientemente - e o que mais importava era “progredir” rumo à civilização. Sarmiento fez uso de “estratégias” diversas, porém seu objetivo foi sempre um só em toda a sua vida: construir uma nação baseada no progresso e na educação. Uma dessas estratégias está bem representada em seus discursos escritos às pressas: “num estilo tumultuoso, como quem tem muito a dizer e muitas tarefas a realizar, mas que afirmava, ao mesmo tempo, suas idéias em concepções orgânicas”. (MARTÌNEZ, 1979: p. 68). Era preciso ganhar tempo e com isso propagar o mais rápido suas idéias e projetos. Como os grandes centros de atenção de seu governo eram o progresso e a educação, Sarmiento tinha, portanto, a difícil tarefa de construir uma nação idealizada por ele próprio, partindo de uma realidade social originária do colonialismo e que acreditava ele ser avessa ao progresso. O progresso, no século XIX visto através do desenvolvimento industrial e tecnológico e guiado pelos valores da ciência e da razão, já era um fato consumado. Os avanços tecnológicos eram plausíveis com suas máquinas e inventos inovadores, porém não ao alcance de todos. E, exatamente por não sê-lo, despertava um fascínio naqueles mais ousados – como o próprio Sarmiento - que acreditavam na possibilidade de “um dia” poder distribui-los de forma mais igualitária e justa. Todavia, no devaneio exercido por esse fascínio desviavam-se do caminho real, indo ao encontro da utopia, do sonho e dos desejos..
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