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Revista
Brasileira
de
CIÊNCIAS
DO
ESPORTE
ARTIGO
ORIGINAL
A
Copa
do
Mundo
de
1982
e
o
‘‘turbilhão
de
emoc
¸ões’’
nas
crônicas
de
Nelson
Motta
Riqueldi
Straub
Lise
a,∗,
André
Mendes
Capraro
be
Fernando
Renato
Cavichiolli
baUniversidadeFederaldoParaná(UFPR),SetordeCiênciasBiológicas,ProgramadePós-Graduac¸ãoemEducac¸ãoFísica,Curitiba,
PR,Brasil
bUniversidadeFederaldoParaná(UFPR),SetordeCiênciasBiológicas,DepartamentodeEducac¸ãoFísica,Curitiba,PR,Brasil
Recebidoem11defevereirode2013;aceitoem27dedezembrode2013 DisponívelnaInternetem8dedezembrode2015
PALAVRAS-CHAVE
Futebol; Literatura; Identidade;
Campeonatomundial
Resumo OobjetivodapresentepesquisaéanalisarascrônicasdeNelsonMottareferentesà Copade82,afimdeperceberquaiseramasimpressões/concepc¸õesdoautoracercadaCopa doMundo,bemcomodaequipebrasileiraquedisputoutalcampeonato.Paratal,apoiou-senos preceitosdaanáliseliteráriapropostaporAntonioCandido(1992;2000),quelevaemconta afusãodetexto(vinculadoàautonomiaestéticadoautor)eocontexto (momentosociala queoescritoresuaobrapertencem).Apartirdaanálisedetaiscrônicasépossívelnotaro encantamentodeMottaquantoàselec¸ãobrasileira,bemcomoareverberac¸ãodeumateoria freyriana.
©2015Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´e umartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).
KEYWORDS
Soccer; Literature; Identity;
WorldChampionship
TheWorldCupof1982andthe‘‘Turbilhãodeemoc¸ões’’inNelsonMottachronicles
Abstract ThisresearchaimstoanalyzethechroniclesofNelsonMottarelatedtoWorldCup of1982, inorder tounderstand whatwere the impressions oftheauthor about theWorld Championship,aswellasabouttheBrazilianteam.Tothisend,itwasbasedontheprinciples ofliteraryanalysisproposedbyAntonioCandido(1992;2000),whichtalksaboutthemerger betweentext (linkedtotheaestheticautonomyoftheauthor)andcontext(socialmoment
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](R.S.Lise).
http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2015.11.002
that thewriter andhis worksbelong). From the analysisof thesechronicles ispossible to notetheenchantment ofMottafor theBrazilian national team,andthereverberationofa Freyreantheory.
©2015Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
PALABRASCLAVE
Fútbol; Literatura; Identidad; MundialdeFútbol
ElMundialdeFútbolde1982yla‘‘Turbilhãodeemoc¸ões’’enlascrónicas deNelsonMotta
Resumen El objetivo de esta investigación es analizar las crónicas de Nelson Motta relacionadasconelMundialdeFútbolde1982conelfindeentendercuáleseranlas impresio-nes/opinionesdelautorsobreelMundialdeFútbol,asícomosobrelaselecciónbrasile˜naque jugóesecampeonato.Paraellosebasóenlosprincipiosdeanálisisliterario propuestospor AntonioCandido(1992;2000),quetienenencuentalacombinaciónentretexto(vinculadocon laautonomíaestéticadelautor)ycontexto(momentosocialalcualpertenecenelescritory suobra).DelanálisisdeestascrónicasesposibleobservarelencantoqueMottasentíaporla selecciónbrasile˜na,asícomolareverberacióndeunateoríafreyriana.
©2015Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Estees unart´ıculoOpenAccessbajolalicenciaCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).
Introduc
¸ão
NaCopadaEspanha,em1982,comoBrasilvivendo inten-samenteaaberturapolíticaeaanistia,tínhamosumadas melhores selec¸ões brasileirasde todos os tempos,que pareciaaindamaisrápida,maiseleganteemais harmo-niosaatéqueadoTri.Eumatorcidaespetacular.Com elasvivemosumsonhoeumagrandeaventura,tãoalegre quantodramática,quecomec¸anumatardecarioca,com aditaduraagonizandoeopaísfalido---masmaisanimado doquenunca.(Motta,1998,p.9).
Iníciode junho,desembarcava em Sevilhaa equipedo jornalOGloboresponsávelpelacoberturadaCopadoMundo de1982,naEspanha.Dentreosjornalistasdesignadospara essatarefaestavamSérgioCabral,CarlosLeonam,Renato Maurício Prado e Nelson Motta. De 13 de junho a 11 de julho,taisjornalistas,alémdecumprirsuasatribuic¸ões pro-fissionais de cobrir a Copa do Mundo, viveram in loco as emoc¸ões,asalegrias,ashistóriaseosdramas propiciados pelomaiorespetáculodefuteboldomundo.Oprincípioda décadade1980ficoumarcadocomoumdosperíodosmais turbulentosdahistóriapolítico-socialdoBrasil.Oentão pre-sidentegeneralJoãoBatistaFigueiredodeclaravaaosmeios decomunicac¸ãoqueasucessãoàPresidênciadaRepública sedariadeformademocráticaeencerrariaumperíodode 21anosdeditaduramilitar,iniciadaem1964efindadaem 1985(Skidmore,1998;CostaeMello,1999).
Economicamente,oBrasilpassavaporumadesuasmais sériascrises,assoladoporumgraveendividamentoexterno, o qual desencadeou uma série de problemas inflacioná-rios,intensareduc¸ãodossaláriosreais,forterecessãonas indústrias e nocomércio, que culminoucom umaumento substancial nos índices de desemprego (Rezende, 2001;
Torres, 1998; Cysne, 1994; Skidmore, 1988). O país vivia momentosdeincertezas.Contudo,mesmosujeitoaossérios problemasdeordempolíticaeeconômica,grandeparteda nac¸ãovoltavasuaatenc¸ãoparaaCopadoMundodaEspanha. Comandada pelotécnico TelêSantana, a equipe brasi-leira contava com o entusiasmo incondicional de grande partedapopulac¸ãodopaíse imprensaespecializada,pois compunha-se de atletas com ótimo nível técnico, como Júnior,Cerezo,Falcão,Sócratese Zico---esseconsiderado poralgunsjornalistascomoomelhoratletadepoisda‘‘Era Pelé’’ (Saldanha, 2002; Verissimo, 1999; Andrade, 2002). Aindaa favordessaselec¸ão,somava-se ofatodepraticar umfutebolcujaofensividadeeraacaracterísticaprincipal, comoressaltou Garrincha em declarac¸ão àrevista Placar: ‘‘Nossoerro contra a Itália foi buscar alucinantemente o gol?Ora,masogolnãoéarazãodofutebol?Temosde man-teroestiloetorcerparaquenovosvaloressurjam,porque algunsqueestiveramnaEspanhanãoresistirãoaotempo’’. No que se refere ao apoio da imprensa especializada, conta-secomafiguradeNelsonMotta---colunistadojornal
OGlobo,enviadoparaacoberturadoMundialdaEspanha, jornalista,compositoreprodutormusical,roteiristae escri-tor---quedescreve sobaformadecrônicas odiaadia no paísespanholduranteoperíododaCopadoMundo. Posteri-ormente,taiscrônicasforamreunidasnolivro‘‘Confissões de um torcedor’’ (Motta, 1998), no qual Motta discorre sobreaconvivência comoscolegasderedac¸ão;asfestas; asexpectativasàsvésperasdosjogosdaselec¸ãobrasileira; ascomemorac¸õespelasvitórias;e,porfim,adecepc¸ãopela derrotadaequipenacionalfrenteaotimeitaliano,na par-tidaqueficouconhecidacomo‘‘odesastredeSarriá’’.
o contexto político-social do país, questiona-se: quais as construc¸õesliterárias/jornalísticasusadasporNelsonMotta aoretrataroselecionadobrasileirode1982?Diantedetais formulac¸ões, há a reverberac¸ão de um discurso identitá-rio,comointuitodereforc¸arelementos‘‘genuinamente’’ nacionais?
Nessesentido,oobjetivodapresentepesquisaéanalisar ascrônicasdeMottareferentesàCopade82,afimde per-ceber quais eramas impressões/concepc¸ões do jornalista acercadaCopadoMundo,bemcomodaequipebrasileira quedisputoutalcampeonato.
Paratal,apoiou-senospreceitosdaanáliseliteráriade AntonioCandido (1992; 2000),que leva em contaafusão de texto (vinculado à autonomia estética do autor) e o contexto(momentosocialaqueoescritoresuaobra perten-cem).Optou-sepelousodaanáliseliterária,poisogênero crônicapodeserdefinidocomo‘‘umamescladeliteratura, jornalismo, vida social e cotidiana, sem umcompromisso maisperenecomofato,éumdospoucosgênerosliterários tipicamentebrasileiros’’(FreitaeCapraro,2012).Devidoa essecaráterprovisório,acrônica,durantecertotempo,foi consideradacomoumgêneromenor,exatamentepelofato deamalgamar osfatos, destacadosnos jornais, e a esté-tica,provenientedaliteratura.Elementoquelheconcede, ainda,acaracterísticadeumgênerodefronteira.1
Sobre
Nelson
Motta
Nascidoem29deoutubrode1944,emSãoPaulo,aosseis anosmudou-se coma famíliapara oRio deJaneiro, mais precisamenteparaCopacabana,bairrodeclassemédiaalta ondepassouamaiorpartedesuavida.Jornalista, compo-sitor,escritor,roteirista,produtore críticomusical, Motta desde sua juventude esteve envolvido com o mundo da música,éautordemaisde300canc¸ões,participoudabossa nova,datropicáliaeposteriormentedorockdosanos1980 (Produc¸ãoCulturalNoBrasil,2011).
Como escritor, Motta obteve relativo sucesso com o lanc¸amentode trêsromances durantea últimadécada,O cantodasereia(2002),obrarecentementeadaptadapara uma minissérie televisiva, Bandidos e mocinhas (2004) e
Ao som domar e à luz do céu profundo (2006). Lanc¸ou, ainda,umlivrodecontos,Forc¸aestranha(2010).Contudo, seusmaioressucessosliteráriosforamsuaautobiografia Noi-tes tropicais (2000) e Valetudo, o som e a fúria deTim Maia(2007),noqualoautordescreveatrajetóriado refe-ridocantorecompositor,quealcanc¸ou acasados140mil exemplaresvendidos.FoicolunistadosjornaisUltimaHora
eFolhadeS.Paulo.Atualmente,escrevecolunassemanais paraosjornaisOGloboeOEstadodeS.Paulo;Motta apre-senta, também, umacolunasemanal, àssextas-feiras, no JornaldaGlobo,sobremúsica,culturaecomportamento.
1Anoc¸ãodefronteiraserefereaumespac¸odeintersec¸ãoque
permiteacircularidadeentreoscampos,daficc¸ãoedofactual,não háparâmetrosquepossibilitemadelimitac¸ãodessafronteira.Os gênerosfronteiric¸ossãocompreendidos,portanto,comoumtipode literaturacomdeterminadograudeproximidadecomocontexto, elementoqueasestabelecenalinhatênueentreficc¸ãoerealidade histórica(Capraro,2007).
NelsonMottasoube,comopoucos,transitarpordiversos meios decomunicac¸ão demassa, trabalhounos principais canais de televisão, jornais e rádios, hoje é considerado um dos mais importantes críticos de arte do Brasil. Sua especialidadesemprefoiamúsica,porémaolongodesua carreiraadquiriuconhecimentosqueopermitemfalarsobre novelas,programasdevariedades,pec¸asdeteatro, litera-tura,cinemaeatéfutebol.Outracaracterísticaimportante acerca dacarreirae dasproduc¸õesde NelsonMotta foi a afinidadecomopúblicojovem,desdeomovimentomusical dabossanovaatésuasincursõescomoroteiristade progra-masdeTVdestinadosatalpúblico.Salvoalgumasexcec¸ões, NelsonMottatemcolecionadosucessos(TRIP.com.br,2012).
Concepc
¸ões
acerca
da
Copa
do
Mundo
e
do
selecionado
de
1982
Em1998,NelsonMottalanc¸ouolivroConfissõesdeum tor-cedor --- Quatro copas e uma paixão.Nessa obra, o autor reúneseusescritos acercadasCopasde1982na Espanha, 1986noMéxico,1990na Itáliae1994 nosEstadosUnidos. Remetendoaotítulodolivro,as‘‘confissões’’deMottatêm característicasdediáriosescritosdurantetaiseventosesão apresentadassobaformadecrônicasemtomconfessional. Caberessaltarqueesteestudoestarácentradonoprimeiro capítulo,intituladodeTurbilhãodeEmoc¸ões,noqualMotta discorresobreaCopadoMundode1982.
Talvezamaisimportantepeculiaridadedascrônicas reu-nidas nesse livro seja o fato de que Nelson Motta --- ao contráriodosoutroscronistasquefizeramacoberturadesse eventoparaojornalOGlobo---nãoeraumespecialistaem futebol, apesar de ser umapaixonado pelo Fluminense e pelo selecionado brasileiro. Sua ida à Espanha não tinha como objetivo principal a produc¸ão de textos que focas-semquestõestécnicasetáticas.Suafunc¸ãoera,sim,falar de futebol,mas também demúsica, gastronomia,festas, confraternizac¸ãodastorcidas,costumeslocais, bemcomo outrassituac¸õesqueaconteciamnoperíododaCopaeque escapavamàcrônicaesportivaespecializada.Nãoeraa pri-meiravezque NelsonMotta cobririaumaCopadoMundo, em1970elejáhaviacumpridoessafunc¸ão.
NoMéxico, em 1970, vivialgunsdos melhores momen-tosdeminhavidadetorcedoredejornalista,naflorda idade, cobrindo aCopa paraa UltimaHora,umaideia meioloucademeuguruepatrãodeentão,Samuel Wei-ner:umcronistanãoesportivocontandooqueacontecia foradosestádiosenocorac¸ãodatorcida.OBrasildava shows defutebolem campo,atorcidaarrebentavanas ruas,WilsonSimonalsuperlotavaosmaioresemais luxu-ososnightclubsmexicanos,tudoconspiravaafavor.[...] Depois dafinal consagradora, na celebrac¸ão da vitória numasuítedeumdoshotéismaischiquesdaCidadedo México,vifascinadováriasgrã-finascariocasdisputando paraverquemdavaprimeiroparaJairzinhoePauloCésar Caju(Motta,1998,p.7).
brasileira que embalava as festas na noite mexicana e, ainda,davaindíciosdosinteressessexuaisdedamascariocas pelosjogadorestricampeões.
Quantoàssuas‘‘confissões’’sobreaCopadoMundode 1982,Mottadestacaalgunspersonagens.Dentreeles pode--secitarDomPepe,umconhecidoDJcarioca,descritopor NelsonMottadaseguintemaneira:
Magrocomoumcanic¸o,pretofeitoumtic¸ão,DomPepe é o DJmaisconhecido e querido noRio deJaneiro há maisdevinteanos;desdequeaindasechamavaLuizna Copacabana dos anos 60. Depois trabalhou como disc--jóquei de boates em Londres, onde morou com uma levadebrasileirosnoiníciodosanos70,elávirouPepe, maisapropriadoaotemperamentoapimentadodocrioulo (Motta,1998,p.20).
Alémdascaracterísticasacimacitadas,NelsonMotta des-creveDomPepedeformaestereotipada:umtípicocarioca, malandro,esperto,engrac¸ado,simpáticoearticulado.Dom Peperepetidamenteusaseusatributosnosentidodeobter vantagens. Em diversos momentos da narrativa os apare-cimentos desse personagem estão vinculados a episódios cômicosesituac¸õesinusitadas,nasquaisseu‘‘jogode cin-tura’’,suasimpatiaesuaespertezalherendemumasériede benefícios.DomPepeéumdoselementoscentraisdas crôni-casdeMotta---negro,cariocaemalandro,essepersonagem pareceserarepresentac¸ãodeum‘‘típicobrasileiro’’, sim-pático,cordial efestivo.Seucomportamentoesuasac¸ões retratam‘‘ojeitinhobrasileiro’’deconseguirbenefíciospor meiodaesperteza e malandragem.A modo de exemplifi-cartaiscaracterísticas,segueoexcertosobreaestreiada selec¸ãobrasileiranaCopadoMundocontraaequiperussa.
O crioulo chegou sem qualquer reserva para hotel ou entradaparaojogo,masmeasseguraqueestarámuito bem posicionado logo maisàs nove da noite quando a bola rolar no ‘‘Pai João’’, que é como chama o Piz-juan.[...].‘‘Esse negócio deagênciadeturismoé para otário’’vaicomentandoomouroenquantocaminhamos sobosol.[...]epartiurumoaoAlfonsoGalo,ondese hos-pedam,alémdosbicheiros,oscartolas,osfinancistas,o pessoaldaFifa,grã-finosericosdetodosostipos.Dom Pepeconhecealgunsevaiembuscadeummelhorlugar noestádio(Motta,1998,p.22).
Maistarde,
DomPepeentrasorridenteeexibeatodosumareluzente entradaparaomelhorsetor,cadeiraespecialcoladaà tri-bunadaimprensa,descoladadeumaltodiretordaGlobo conhecidodanoitecarioca,duranteablitznossalõesdo AlfonsoGalo(Motta,1998,p.23).
Outro personagem que detém papel de destaque nas ‘‘confissões’’deMottaéErnestScott,umamericano apai-xonadopelofutebolepelaculturabrasileira.Mesmonatural dos Estados Unidos, país onde o futebol não tem tanta popularidade,Ernestéumdostorcedoresmaisfanáticose animadosdascrônicasdeMotta,queassimodescreve:
Ernest é um brasilianista diferente, que aprendeu portuguêsparalerJorgeAmado,GuimarãesRosae princi-palmenteNelsonRodriguesnooriginal.Eleseconsiderao maiorfãamericanodofutebolbrasileiro,queseguepelo
mundoe doqualseacredita umdos grandesexperts e teóricos.Diz-seautordeváriosensaiosinéditossobreo tema escritos nos intervalos da vidaacadêmica --- se é quesepodechamardeacadêmicaaquelavida...(Motta, 1998,p.10).
DuranteaCopadoMundodaEspanha,pôde-senotar,não apenasnascrônicas de NelsonMotta, masna maioria dos periódicosespecializadosounão em futebol,umdiscurso que retomava as teorias de Gilberto Freyre, em especial aveiculada na obraCasa-grande e senzala. Tal produc¸ão, consideradacomo umensaio decunhosociológico,2 apre-senta uma tese acerca da integrac¸ão étnica no Brasil. Apartirdamiscigenac¸ãopropiciada pelaintegrac¸ão entre negros, índios e brancos, surge uma etnia típica dos tró-picos,o verdadeirobrasileiro:omestic¸o.SegundoFreyre, essa combinac¸ão cultural, proveniente das três etnias, conferiuaobrasileiroumamalícia,umaginga,uma impul-sividadee um ‘‘jogode cintura’’únicos. Posteriormente, Freyredestaca queesse‘‘jeitotípico brasileiro’’se mani-festa de forma inconfundível na maneira de o brasileiro jogarofutebol.Osdribles,ospasseselípticos,osefeitos, a individualidade e principalmente a ofensividade seriam característicasnatasdosjogadoresbrasileiros.
É nesse ideal de brasilidade, que encontra sua materializac¸ão por meiodo futebol,que se pauta Nelson MottaaorelataroscomportamentosdeDomPepe,na Espa-nha,emesmoavisãodoestrangeiroarespeitodoquevem aserbrasileiroounão.Dificilmenteesseretornodiscursivo embasado na tese freyriana tenha se dado propositada-mente,atéporquenãohácondic¸õesdesabersejornalistas maisjovens,comoMotta,leramGilbertoFreyreouse ape-nas reproduzem esse ideal disseminado por figuras como MárioFilho, Armando Nogueira e, principalmente, Nelson Rodrigues.
Amiscigenac¸ão,queantescausavarepulsa,éapontada porFreyrecomoadefinidoradeumaidentidadedoBrasil, aqualseconsolidavanojogarfutebol.Dessaforma,dadoo bomdesempenhoesportivobrasileiro,ofutebolpassaaser caracterizado,sobretudo porliteratos ecronistas esporti-vos,comoumíconedanacionalidade,cujasparticularidades seapoiavamnascaracterísticasexpostasporGilbertoFreyre ---aginga,amalíciaeoimproviso(Helaletal.,2001;Soares, 2003;Antunes,2004).
Assim,talcomo apontaSoares(2003), ascontribuic¸ões culturaisque,segundoGilbertoFreyre,forampossibilitadas pelapacíficarelac¸ãoentreacasa-grandee asenzala aca-bamporsemostrar,sobretudonostextosjornalísticoscomo acrônicaesportiva,sobavisãodeterministadeumpaísonde nãohaveriaracismo,aoquealgunschamaramde‘‘freyrismo popular’’. Esse freyrismopopular ganhatônica comMário Filhoem Onegro nofutebolbrasileiro,de1947, obra na qualoautorexpõeofutebolenquantoummeioprivilegiado deinserc¸ãodosnegrose mestic¸osnasociedadebrasileira.
2O ensaio de cunho sociológico pode se enquadrar como um
Ouseja,todaacaracterizac¸ãodoqueviriaseromestic¸o ---umamisturaentreabenevolênciadosportugueses,a sub-missasexualidadedosnegroseoingênuocomportamentodo índio(Capraro,2007;Santos,2012)---refletia-senamaneira de jogar futebol. Ginga, improviso, brincadeira,poesia e arte,elementos tambémidentificadosnosamba, na capo-eirae,posteriormente,nocarnaval,direcionavam-separao futebolecompunhamasuperioridadebrasileiradentrodas quatrolinhas.
Assim, as proposic¸ões ‘‘popularizadas’’ de Gilberto Freyre, no que concerne ao homem negro e mestic¸o, bemcomoàsuasingularidadenoesporte,ganhamforc¸a e sãoreafirmadas por literatos brasileiros, via jornais, principalmente.Freyreinfluenciouumagerac¸ãode lite-ratosecontribuiuparaumanovainterpretac¸ãodoBrasil, segundo a qual a figura do mestic¸o se fazia valer nas representac¸õesfutebolísticas(Santos,2012,p.29).
Tal como aponta Capraro (2007), Gilberto Freyre fazia parte de um círculo de relac¸ões constituído por literatos como Mário Filho, José Lins do Rego e Nelson Rodri-gues.Essescronistasforamosprincipaisresponsáveispela reverberac¸ão do discurso freyreano, o que permitiu que gerac¸õesfuturas, como Armando Nogueira, Nelson Motta, Tostãodessemcontinuidadeàmáximadabrasilidade base-ada na ginga. Nelson Rodrigues, que, além de cronista esportivo,erajáumreconhecidodramaturgoe, posterior-mente,figuracarimbadanasmesasredondasdatelevisão, foiumdosgrandesresponsáveisportodaessareverberac¸ão --- primeiramentepelafama,queabrangiaoutroscamposque nãooesportivo,eemsegundolugarporseromaislongevo, escreveuaté1980(Castro,1992;Santos,2012).
Somadoàreverberac¸ãododiscursofreyreano---enquanto umaquase‘‘tradic¸ãoinventada’’3que,detantoser repe-tida,adentrouocampodotradicionaljeitodeserbrasileiro --- parte-se, aqui,da hipótese de que esseretorno à tese sociológicafreyrianateriaummotivoprincipal.ApósaCopa doMundonoMéxico, em 1970,na qual oBrasil sesagrou tricampeão mundial, a selec¸ão brasileira jamais reapre-sentou umfutebol sequer razoável. Nas Copas de 1974 e 1978o‘‘futebolarte’’4cedeulugaraum‘‘futebol-forc¸a’’. Aselec¸ão brasileira praticava um futebolparecido com o estilo europeu de jogar, menosofensivo, menos criativo, pautado principalmente pela marcac¸ão e pouca ofensi-vidade: ‘‘Lembram-se de 1978? Sabíamos que seríamos derrotados.Poderiater sidonoprimeiro turno, mas esca-pamos. Estávamos jogando o ‘futebol-forc¸a’, para mim o futebol estúpido e pouco inteligente’’ (Saldanha, 2002, p.147). Após a longa espera de 12 anos a selec¸ão brasi-leira de1982 recuperava aquela índole ofensiva de1970. Asatuac¸õesdaequipenacionaleramconvincentes,o fute-bolnacionalvoltavaaserjogadodeum‘‘jeitotipicamente brasileiro’’.Foinesseperíodoqueseviu(res)surgiro neo-freyrismo,constatac¸ãoesboc¸adanoseguinteexcerto:
3Nopresentetexto,compreende-se‘‘tradic¸ãoinventada’’como
umapráticaque,detantoserrepetidaaolongodotempo,acaba porimplicaracontinuidadeemrelac¸ãoaopassadoeinculcacertos valoresecomportamentos(HobsbawmeRenger,1997).
4Aproblematizac¸ão doconceito futebol-arte consta do artigo
‘‘GilbertoFreyreeofutebol-arte’’(Barreto,2004).
Ernest passou o almoc¸o falando em miscigenac¸ão e na democraciaracialjorgeamadiananaSelec¸ãoBrasileira: desdeFalcãolourodeolhosazuisàafricanidadede Sergi-nho,dapaulisticeolímpicadeOscaràmulaticegenialde Júnior,àpotênciadeEderíndio,arac¸abrasileira repre-sentadaesintetizadanumtimedefutebol(Motta,1998, p.26).
Outra característica marcante das crônicas de Motta refere-se à amistosidade, à festividade e à cordialidade datorcidabrasileira na Espanha. Aproveitando-sedobom desempenho apresentado pelaselec¸ão, atorcida cativava torcedores de outras nacionalidades por meio da alegria e dasimpatia ‘‘típicasdostrópicos’’.O sucessodetorcer pelaselec¸ãobrasileiraocasionoualgunsepisódioscômicos, emquemaisumavezDomPepeeraprotagonista,comono seguinteexcerto:
Incrível,masserbrasileironaEspanhaestádandostatus, pelaarteebelezadofutebolexibidoemcampoepela alegria esimpatia datorcidanasruas, pensoepasmo. Badarótambémestáespantadopormerecerasimpatia popularapenasporserbrasileiro.[...]Campeõesda sim-patiajá somos: ontem mesmo, DomPepe contou, eles estavamcervejando numarambla,ouramblandonuma cerveja, ele nãose lembra bem, quando umgrupo de escocesesealemãesseaproximoudamesaatraídopela batucada e umadasjovenspediu umautógrafoao cri-oulo,levantandoo kilte oferecendoumarolic¸ae alva bundinha à caneta, enquanto o namorado, um lourão sueco,rolavaderir(Motta,1998p.40).
Havia, ainda, por parte da imprensa local uma preocupac¸ãoquantoaojogoBrasileEscócia.Atorcida esco-cesa,apósaprimeirapartida,játinhaprotagonizadoalguns atos violentos, mesmo com a vitória do seu selecionado frenteàNovaZelândia,por5x2.Apreocupac¸ãodaimprensa edapolíciaespanholasejustificavapelacondutaviolenta dostorcedoresescoceses,pelograndecontingentede tor-cedoresbrasileirosepelaiminênciadeumavitóriadoBrasil, que poderia exaltar os ânimos de ambas as torcidas. No entanto,osconfrontosentrebrasileiroseescocesesnãose efetivaram.Apesardeavitóriabrasileira,por4x1,oque seviufoiumclimaamistosoentreastorcidasrivaisdescrito porMottadaseguintemaneira:
Estamosesperandoosescoceses:apugnapodese trans-ferirdocampoparaascalles.Eles,osferozestorcedores
distilled andbottled in Scotland,comandados por Rod Stewart,são turbulentos tradicionais, porestilo e prá-ticacontinuada.[...]Osjornalistaslocaisestãoexcitados comasperspectivasdechoquesentrebrasileirose esco-cesesnasruas,mastudoqueseconseguevernasprac¸as emesasdebaressãotrocasdegarrafaseamabilidades. Eles de saiotes com as caras vermelhas e nós mulatos decamisasamarelasesotaquenordestino(Motta,1998, p.26).
Poucomaistarde,
ritmo:tentocontrolarosgritosdegolnagarganta,ainda convalescendoderouquidãodoloridaeridícula (especi-almenteemlínguaestrangeira)depoisdaepopeiarussa. Ojogo foitãolimpoe avitória tãoinquestionávelque na saída do estádio Benito Villamarin, pelo Passeo de lasDelícias afora,oque sevia erambrasileirose esco-cesestrocandocamisasebandeiras. Nosbares, juntos, bebendoparacomemorareparaesquecer(Motta,1998, p.30).
NoBrasil,oclimadeeuforiajátomavacontadatorcida, asboas performances doselecionado jáse refletiam num clima de favoritismo. Os principais periódicos noticiavam que,apóslongosanosdeespera,aselec¸ãonacionalreunia totaiscondic¸õesdesesagrartetracampeãmundial.Na Espa-nha,aTVGlobointensificavaumacampanhadedistribuic¸ão de brindes com motivos nacionais, no sentido de atrair torcedores de outras nacionalidades aos jogos do Brasil: ‘‘ATVGlobo, paralelamenteà coberturadoevento, esti-mula a torcida local com brindes, gadgets, plásticos, canetas, camisetas, milhares e milhares de bandeiras. Comec¸aa sercriado, com simpatia,o climade festaque oBrasilqueria’’(Motta,1998,p.26).
O resultado dacampanhafeitapela TVGlobo,asboas apresentac¸ões daselec¸ãonacional e o carisma datorcida brasileiraemterrasespanholassurtiramoefeitoesperado. NojogocontraaArgentina,amaioriados44miltorcedores presentesaoestádioSarriá,emBarcelona,vestiaacamisa amarela.
Com a nossatorcida engrossada porespanhóis, corsos, cipriotas,italianos,escocesesituttiquanti,adentramos trêmulosoestádiodeSarriácomosolapino.Comotem gentevestindoacamisaamarela!Temgentedomundo inteirovestindooex-símbolodomaugosto,hojeomust
datemporada europeia:acor que vemdos trópicos, a cordoverão.(Motta,1998,p.41).
Comaconvincentevitóriasobreosargentinos,entãoos campeões mundiais, aumentou-se o clima de favoritismo que tomava conta da torcida brasileira. Segundo alguns especialistas, foi a melhor atuac¸ão daequipe até aquele momento.Aeuforiajánãoeracontida,oBrasilerao prin-cipalpostulanteaotítulomundial.Nojogoseguinte,contra aItália,novamentenotou-seumgrandecontingentede tor-cedores de outrasnacionalidades que agora torciam pela selec¸ão brasileira. Mais uma vez, o estádio se apresenta lotado,cercade44miltorcedoresocupamtodososespac¸os disponíveis: ‘‘Agora osespanhóis estão vestindoa camisa brasileirajuntocomosescoceses,osturcos,ossuecos,os pobres,osricos,osamericanoseatéjáalgunsargentinos, todoscontraa Itália,na porta doestádiosob osol escal-dante’’(Motta,1998,p.44).
A selec¸ão italiana chegava ao mundial da Espanha sob uma intensa crise, provocada pela descoberta de manipulac¸ão de resultados no certame italiano em jogos daloteria,ocaso Totonero(WorldCupFifa,s/d).Haviao risco de suspensão dos envolvidos nesse esquema, alguns jogadores da equipe temiam não poder disputar a Copa, porémasuspensãodosenvolvidosnãoseefetivoueaItália pôdecontarcom seusmelhoresatletas. A equipeitaliana faziaumacampanhapoucoempolgante,praticavaum fute-boldequalidadeduvidosa.AtéadisputacontraoBrasil,o
selecionadoitalianoacumulavatrêsempateseapenasuma vitória,marcaraapenasquatrogolsduranteacompetic¸ão. Emcontrapartida,oBrasilapresentavaumacampanhacom quatrovitórias,13golsafavoreumfutebolalegree ofen-sivo.Maisumavez,oBrasilerafavorito.
Não era possível, mas era: nem mesmo a imaginac¸ão torpedeumcérebrodoentioousariatanto.Somenteum caprichododestinoparafazeressetimeitalianoganhar desta Selec¸ão Brasileira --- talvez nossa mais brilhante de todosos tempos ---,de quem perderiam nove vezes em dez.Emsilêncio,ruminamosperplexosnossa colos-salfrustrac¸ãonomeiodamassaamarelaesilenciosaque deixaoestádioentreasbuzinasegritositalianos(Motta, 1998,p.44).
O Brasilfora derrotado pelaequipe italiana por3 x2. Aselec¸ãobrasileiraestavaforadadisputapelotítulo mun-dial. Segundo Motta, a torcida brasileira, que antes era a mais festiva, agora fica silente diante do inesperado resultado.Contudo,aselec¸ãode1982apresentauma carac-terísticasingular:mesmosemsequerterchegadoàfinaldo campeonato,recebeuelogiosquantoasuaatuac¸ãona Espa-nhaeatéosdiasdehojeélembradacomoumadasmelhores selec¸õesdefuteboldetodosostempos(Wisnik,2008).
...comosolhosinchadoseacamisaencharcadadesuor, souinvadidopelaraivaecompaixão peloGrandeTime, quemostrouomaisbonitoeinventivojogo,omais ele-ganteeeficientefuteboldesteMundialenosdeu15vezes à gargantao grito vitoriosode umgol...(Motta, 1998. p.45).
Esta assertiva de que a selec¸ão de 1982 foi a melhor selec¸ão de todos os tempos reflete, em essência, todo aqueleidealreforc¸adojá nasdécadasde1940e 50. Dife-rentemente dapercepc¸ão de Nelson Rodrigues, sobre um complexo de vira-latas que recrudescia a cada derrota (Santos, 2012), o selecionado de 82, embora perdesse a Copa,representavaumaretomadadaidentidadebrasileira, baseadanojogobonito,criativo,degingadotípicodos tró-picos.Essasnuancesidentitárias,construídasem torno da equipeemquestão,reforc¸amtambématradic¸ãomais inven-tadadoBrasil---adequeofutebol-artebrasileiroéomelhor futeboldomundo.
Somadoaisso,há desedestacarofatodequeNelson MottaestavanaEspanhaexatamentepararetrataros basti-doresdacompetic¸ão,deumamaneiraagradávelaosolhos dos leitores brasileiros que consumiam o jornal O Globo. Semdescartar,ainda,apossibilidadedeoprópriojornalista terseenvolvidocom asperipéciasdosbastidores sobreo qualrelatava.Mottanãosóescreviaparabrasileiros,como tambémerabrasileiroepossivelmenteestavaembebidopor essabrasilidade,que,segundosuasnarrativas,sefaziatão admiradapelosestrangeiros.
Conclusão
ApartirdaleituraedaanálisedosescritosdeNelsonMotta acerca do selecionado brasileiro que disputou a Copa do Mundoda Espanha em 1982, pode-se inferirque o jorna-listasemostrouencantadoecreditou àequipenacionalo melhorfutebolapresentadodentretodasasoutrasselec¸ões: ‘‘Dos brasileiros foi tirado o título, mas nada lhes tira o orgulhoeacertezadofutebolmaisbonitoeemocionante destemundial’’(Motta,1998,p. 48).Torna-senecessário, aqui,ressaltarqueessaconcepc¸ãodeMottasobreaatuac¸ão dotimebrasileironãoeraconsensualna crônicaesportiva especializada.Amododeexemplo,pode-seconsiderarque JoãoSaldanha---colunistadoJornaldoBrasil---formulou,no mesmoperíodo,críticasveementesaomodocomooBrasil seapresentaranessemundial.
Motta,aodestacaralgunspersonagens,comoDomPepe, retratadocomoo‘‘típicobrasileiro’’---malandro,festivoe amistoso---,bemcomoaodescreveraadmirac¸ãode estran-geirospelaculturabrasileira,oupelamaneiraúnicadese jogarofutebol,esboc¸aareverberac¸ãodateoriafreyriana (neofreyrismo).Mesmoquemuitoprovavelmentenãotenha lidoGilbertoFreyre,demaneiradireta,oautorreapresenta avisãodofutebolestabelecidadécadasantesdaCopade 82. Nelson Motta, enquanto um jornalista a fim de atin-girumpúblicoleitor/consumidor,fazreverberarapopular máximadequeoBrasiltemomelhorfuteboldomundo,em ummomentobastantepropício.Ora,passadasasCopasde 1974e78,emqueoselecionadonacionalnãoteriaatuadoà alturadesuacapacidadeesportiva,1982representariauma espéciederompimentocomamá fase.Rupturaessaque, assimcomo na décadade 1950,foi produzidae cultivada pelamídia,pormeiodosintelectuaiseliteratosque escre-viam.Poisbem, elesdeixaramseu legado,retomadocom avidezemjulhode82.
Outroaspectoimportanteasedestacar,nestapesquisa, é o fatodeNelson Motta nãoser umjornalista especiali-zado em futebol. Pelo estilo da escrita, suas crônicas se aproximamdeumcolunismosocial oumesmo decrônicas do cotidiano, as quais enfatizam os acontecimentos com os personagens e suas vidas pessoais. Seus escritos soam vagosquandosetratadequestõestécnicasetáticas,porém sãodeumariquezasingularquandoversamsobrequestões que circundamo jogo, relatando de formamuito original aspectosrelacionadoscomasimpatiaemalandragem brasi-leira;ostatusdesertorcedordaselec¸ãocanarinho,mesmo não sendo natural do país; a integrac¸ão das torcidas; e, principalmente,aadmirac¸ãodaculturabrasileira(música, culinária,festividade)poroutrospovos.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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