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Solidariedade dos crucificados: eclesiogênese e credibilidade contextual

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Academic year: 2021

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Solidariedade dos Crucificados*

Eclesiogênese e credibilidade contextuai

U lric h S ch o e n b o rn

Toda o cu p a çã o com te o lo g ia do T erceiro M u n d o in e v ita v e l­ m e n te esbarra na p ro b le m á tic a da tra n s fe rê n c ia (tra n s fe r). Será q u e e x p e riê n c ia s e in tu içõ e s d e outros p o d e m ser tra n s p la n ta d o s para d e n tro d o p ró p rio h o riz o n te ? A en tu siá stica a c o lh id a d e p ro ­ postas de p e n sa m e n to e p ráxis da te o lo g ia la tin o -a m e ric a n a de li­ b e rta çã o , p o r e x e m p lo , lo g o d e se m b o ca em fru s tra n te a p o ria no m o m e n to em q u e passam d e sa p e rce b id o s d ife re n ç a s sem ânticas ou o peso e sp e c ífic o d e d e te rm in a d o a rg u m e n to . Daí p o d e rá ser m u ito p ro v e ito s o a te n ta r para os processos te o ló g ic o s de a p re n d i­ zado e v id e n c ia d o s por diversas áreas de tra b a lh o de um a ig re ja p rotestante e m co n te x to la tin o - a m e ric a n o . Isto p o rq u e a crise da a u to c o m p re e n s ã o e c le s io ló g ic a a tin g iu nã o só a ig re ja c a tó lic a , mas ta m b é m in flu e n c io u os num erosos grupos p rotestantes d o c o n ­ tin e n te . Desde o c o m e ço esteve v iru le n ta a q u e stã o a té q u e p o n ­ to as tra n s fe rê n c ia s são le g ítim a s , se a p ró p ria a u to c o m p re e n s ã o necessita de im pulsos p ro vo ca d o re s de fo ra e com o se c o m p o rta a tra d iç ã o re fo rm a tó ria n um a s itu a çã o de opressão e cin ism o . To­ m a n d o com o e x e m p lo a Ig re ja E va n g é lica de C o n fissã o L u te ra n a

no B ra sil (IECLB) te n ta re m o s m ostrar a q u i os e fe ito s q u e a cons­

c ie n tiz a ç ã o p o d e te r p a ra a e c le s io lo g ia . Da c o m p le x a histó ria e c o n tra d itó ria re a lid a d e desta qu e fo i um a ig re ja de im ig ra n te s , b ro ta m prom issoras te n d ê n cia s. N a q u e la m e d id a e m que c o m u n i­ dades p e rm ite m q u e o e v a n g e lh o se e n ca rn e em sua re a lid a d e de v id a , c ria -s e ig re ja . Por isso nã o é m ais a g e n e ra liz a d a frie z a de e n v o lv im e n to nem a c o n tra d itó ria fo rm a de a p re s e n ta ç ã o q u e d e ­ te rm in a m o que é ig re ja . A ntes é assim q u e a re la ç ã o com o Cristo

(2)

c ru c ific a d o e irm ã o dos im p o te n te s leva à c o m u n h ã o c la ra e a u ­ tê n tica . A q u e stã o da tra n s fe rê n c ia p e rd e e n tã o a te n d ê n c ia de buscar o que é a p ro v e itá v e l, p a ra se e s p e c ific a r no s e n tid o de bus­ car os asp e cto s (O rt) d e ig re ja q u e p o d e m ser tra n s fe rid o s , p a ra neles c ria r ig re ja .

1. As 3 ú ltim a s décadas estão ca ra cte riza d a s p e lo d e sp e rta r e p e lo le v a n te dos "m a ld ito s desta te rra ” (F. Fanon). P obres e

m a rg in a liz a d o s c o n scie n tiza m -se dos seus d ire ito s hu m a n o s e lu ­

tam p e la sua p a rtic ip a ç ã o a tiv a na h istó ria . Na A m é ric a Latina esse processo le vo u a um a crise na a u to c o m p re e n s ã o das ig re ja s cristãs e s ta b e le cid a s (1). N um m u n d o de c in ism o b ru ta l e de in e s c ru p u lo - sa e x p lo ra ç ã o , sua m issão e le m e n ta r de ser te ste m u n h a da justiça e lu g a r d o a m o r assum iu re le v â n c ia e x p lo s iv a . Q u a n d o a p lic a d a às ig re ja s, essa m issão passou a q u e s tio n a r e m fu n ç ã o e v a n g e li- zante as estruturas, os p riv ilé g io s e o tra ta m e n to da tra d iç ã o . E q u e , sustentada pelos pobres e m a rg in a liz a d o s , a ig re ja à m argem da ig re ja a d q u irira nova v id a . Os pobres d e s co b rira m q u e são ig re ­ ja e q u e trazem a m ensagem lib e rta d o ra . Sua p e rsp e ctiva da e sp e ­ rança fe z com q u e no o u tro la d o d a h is tó ria surgisse a v is ã o d e

u m a c ris ta n d a d e re n o v a d a .

2. Esse processo, c h a m a d o de " e c le s io g ê n e s e " por Leonar­ do B o ff (2), apresenta -se d e m o d o im p re ssio n a n te no fe n ô m e n o das "c o m u n id a d e s e cle sia is de b a s e " ou "c o m u n id a d e s cristãs p o ­ p u la re s ". P artindo de tím id o s ensaios de re fo rm a in icia d o s já antes

(1) J e th e r P. RAMALHO constata em sua in tro d u ç ã o a Z e ic h e n d e r H o ffn u n g un d G e re c h ­

t ig k e it (B e rlim 1980, 2): "E s e m p re a m e sm a coisa: Q u a n d o a ig re ja se a c o m o d o u em

seu a m b ie n te so cia l, q u a n d o e la dá m a io r p rio rid a d e a sua in s titu c io n a liz a ç ã o e se p re o cu p a com sua p ró p ria e stru tu ra , c o n s id e ra n d o c o n c lu íd a a fo rm u la ç ã o te o ló g ic a e d e fin itiv a a in te rp re ta ç ã o da B íb lia , le v a n ta -s e in e x o ra v e lm e n te o ve n to do Espírito S anto, q u e sacode a ig re ja de sua le ta rg ia e n o v a m e n te q u e s tio n a as suas posições prontas. A tu a lm e n te esse v e n to pa re ce estar s o p ra n d o v io le n ta m e n te na fo rm a da fo r ­ ça dos po b re s, e m suas q u e ix a s e re iv in d ic a ç õ e s . A ig re ja a c e ita este d e s a fio e c o m e ­ ça a se n tir claros sinais de um n o vo p e n te c o s te ".

Cf. já Leonor OSSA, D ie R e v o lu tio n — das is t e in Buch u n d e in f r e ie r M e n s c h . Z u r In ­

k u ltu r a tio n des C h ris te n tu m s in L a te in a m e rik a , H a m b u rg o 1973, p rin c ip a lm e n te pp.

1 14ss.

(2) Cf. E c le sio g ê n e se . A s c o m u n id a d e s e c le s ia is d e ba se re in v e n ta m a Ig re ja , P etró polis 1977; e m a le m ã o : D ie N e u e n td e c k u n g d e r K irc h e . B a s is g e m e in d e n in L a te in a m e rik a , M a in z 1980; o m e sm o, A u s d e m T a l d e r T rä n e n in s g e lo b te L a n d . D e r W eg d e r K irc h e

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d e M e d e llin , surg iu na A m é ric a Latina um m o v im e n to (3) q u e d iv i­ d e as o p in iõ e s te o ló g ic a s e po lítica s. V id a , p e n s a m e n to e a çã o das

c o m u n id a d e s de base fo ra m o b je to de discussão no IV Congresso

da A ssociação Ecum ênica dos T eólogos d o T e rce iro M u n d o , re u n i­ do em São P aulo em 1980 (4). A q u i na A le m a n h a as c o m u n id a d e s de base la tin o - a m e ric a n a s são a lv o de interesse e s im p a tia (5), ta m b é m no m e io p ro te sta n te . Isto salta aos o lhos nos p ro g ra m a s das a ca d e m ia s e v a n g é lic a s , das c o m u n id a d e s e studan tis e v a n g é li­ cas ou da p ro d u ç ã o e d ito ria l. Sobre as razões dessa s im p a tia seria preciso re fle tir em s e p a ra d o , pois n ã o são e x c lu s iv a m e n te os p a ra ­ lelos com a re fo rm a ou m esm o com a c o m u n id a d e p rim itiv a q u e a m o tiv a m . Os s im p a tiza n te s pro te sta n te s na Europa n ã o d e v e ria m esquecer qu e as c o m u n id a d e s de base su rg ira m no co n te x to de tra d içõ e s ca tó lica s e se lim ita m a o m esm o. Se é qu e a li se pratica o c u m e n is m o na base, isto a in d a não s ig n ific a qu e elas buscam co­ m o id e a l o n e o p ro te sta n tism o ou o p ro te sta n tism o m ais re ce n te

(S p â tp ro te s ta n tis m u s ) — " R e lig iã o sem d e c is ã o ” — de p ro c e d ê n ­

cia e u ro p é ia . Por o u tro la d o a a u to c o m p re e n s ã o e c le s io ló g ic a

a in d a em p le n a fo rm a ç ã o cria para os cristãos das CEBs c o n s id e rá ­

veis c o n flito s com a h ie ra rq u ia re g io n a l e n a tu ra lm e n te ta m b é m com Roma.

3. N o â m b ito d o p ro te s ta n tis m o la tin o -a m e ric a n o (6) d e se n ro la se processo a n á lo g o , com as d e v id a s restrições g e o g rá

-(3) C f. U lrich SCHOENBORN, Das w a n d e rn d e G o tte s v o lk d e r G e g e n w a rt. K irc h lic h e Basis­ g e m e in d e n in L a te in a m e rik a , in : G e s t un d Le b e n , c a d e rn o 3, 1982, pp. 185ss; b ib lio ­ g ra fia !

(4) S e rg io TORRES, Joh n EAGLESON (Ed.), T h e C h a lte n g e o f Basic C h ris tia n C o m m u n itie s , N o va lo rq u e 1981; o d o c u m e n to fin a l d a c o n fe rê n c ia , " D ie T h e o lo g ie d e r U n te rd rü c k ­ te n " está in c lu íd o em A n to n io REISER, Paul G e rh a rd SCHOENBORN, B a s is g e m e in d e n

u n d B e fre iu n g , W u p p e rta l 1981, pp. 259ss.

(5) Cf. N o rb e rt GREINACHER, D ie K irc h e d e r A rm e n , M u n iq u e 1980. Horst GOLDSTEIN, e d ., B e fre iu n g s th e o lo g ie als H e ra u s fo rd e ru n g , D üsseld orf 1981; ressalte-se a li o a r ti­ go d o e d ito r (pp. 139ss): la te in a m e rik a n is c h e B a s is g e m e in d e n . Basis e in e r n e u e n

F o rm vo n K irc h e h ie rz u la n d e ? H u b e rt FRANKENMÖLLE, e d ., K irc h e v o n u n te n - A lt e r ­ n a tiv e G e m e in d e n , M u n iq u e /M a in z 1981.

(6) H e in z J o a c h im HELD, D er lu th e risch B e itra g zu m S e n d u n g s a u ftra g d e r K irch e in L a te in ­ a m e rik a , in: D ie e v a n g e lis c h e D iaspora^ 44, 1974, pp. 107ss; José M ig u e z BONINO, V isão da m u d a n ça s o cia l e de suas ta re fa s po r p a rte das Igrejas cristãs nã o- cató lica s, in : Fé C ris tã e T ra n s fo rm a ç ã o S o c ia l n a A m é ric a L a tin a . E n c o n tro de El E sco ria i

1972, P etró polis 1977, pp. 160 ss; W a lte r ALTAAANN, A m Fuss des Kreuzes. Die Krise

e k k le s ia le r Id e n titä t und d ie N o n k o n fo rm itä t C hristi, in: J a h rb u c h des M a r tin L u th e r

B undes, 24, 1977, pp. 82ss; H e rm a n n BRANDT, A u to -a firm a ç ã o ou in c o n fo rm id a d e ?

R eflexõ es so b re a id e n tid a d e d a IECLB, in: T e n d ê n cia s d a T e o lo g ia no B ra s il, São Pau­ lo 1977, pp. 33ss; P rote stantism o e P olítica no B rasil, C a d e rn o s d o ISER V II, Rio de

(4)

Ja-fica s, estatísticas e cu ltu ra is. Igrejas estão se re p o s ic io n a n d o , a c e i­ ta n d o o d e s a fio q u e o a v a n g e lh o e a re a lid a d e de v id a lhes d irig e . A ntes de a p re s e n ta r m in h a h ipótese da e cle sio g ê n e se em c re d ib i­ lid a d e c o n te x tu a i com o e x e m p lo d a IECLB, d e lim ita re i o h o riz o n te com um a o b s e rv a ç ã o p ré v ia d e c a rá te r b íb lic o - m e d ita tiv o .

Im p õ e -se -m e Lc 23.23s, 39ss co m o cena chave no c a m in h o para o q u a l estão cham adas te o lo g ia e ig re ja na A m é ric a Latina. Jesus de N azaré e x p rim iu sem m eios- te rm o s a justiça de Deus e dispensou o a m o r de Deus sem q u a is q u e r condiçõe s. C om o c ru c ifi­ cado e le e n tra m ais um a vez na v id a p ú b lic a cria d a p e lo e v a n g e ­ lh o e m antém de pé a re iv in d ic a ç ã o c o n tid a no risco qu e e le assu­ m iu. Ele se co lo ca irre s trita m e n te do la d o d a q u e le q u e p a ra e le a p e la e confessa sua id e n tid a d e . Ele, a q u e m a s o cie d a d e re p u ­ d io u e m a rg in a liz o u , so lid a riz a -s e com o o u tro m a rg in a liz a d o . A q u i se a b re a p o rta p a ra n o va co m p re e n s ã o d o q u e é sa lva çã o

(H eil).

Este te xto v in c u la ra d ic a lm e n te à s o lid a rie d a d e dos c ru c ifi­ cados a decisão e n tre e sp e ra n ça e desespero, cu lp a e p e rd ã o , ju í­ zo o lib e rta ç ã o . A m eu ver esta cena, que p e rte n ce a o m a te ria l e x ­ clu sivo de Lucas, a p re se n ta não o m o d e lo id e a l e típ ic o da c o n v e r­ são in d iv id u a lis ta , mas um a p ro vo ca çã o e n d e re ç a d a ò c o m u n id a ­ de, no s e n tid o de assum ir o S enhor c ru c ific a d o re s p e c tiv a m e n te de fa z e r um a opção.

Entre os produtos qu e a te o lo g ia a le m ã , e x p o rta para o Terceiro M u n d o estão as id é ia s de B o n h o e ffe r, e .o . o p ro g ra m a de um a " Ig r e ja para os outros " ( 7 ) e ações de c a rá te r p ro -n o m in a l q u e se

n e iro 1977; José M ig u e z B O N IN O , F u n d a m e n ta l Q uestions in E cclesiology, S. TORRES/ J. EAGLESON, (ver n o ta 4); pp. 145ss; B eatriz M e la n o COUCH, N e w V isions o f the Church in Latin A m e ric a . A Protestant V ie w , in: S. TORRES/ J. EAGLESON, The e m e r-

g e n t G o s p e l. T h e o lo g y fr o m th e U n d e rs id e o f H is to ry , N ova Io rq u e 1978, pp. 193ss;

Hans Jürgen PRIEN, D ie H e ra u s b ild u n g d e s g e s e lls c h a ftlic h e n B ewusstseins im la te in a ­ m e rika n isch e n p rotesta ntism u s, in: o m esm o, e d ., L a te in a m e rik a : G e s e lls c h a ft, K ir ­

che , T h e o lo g ie , V o l. I. A u fb ru c h u n d A u s e in a n d e rs e tz u n g , G ö ttin g e n 1981, pp. 305ss;

Z w ín g lio M . D ia s / Rubem G. FERNANDES, P rote stantism o e P olítica, in: T e m p o e P re ­

sença 29, Rio de J a n e iro 1981.

(7) " A Ig re ja so m e n te é Ig re ja q u a n d o e x is tir p a ra outros. Para c o m e ça r, e la precisa d o a r todos os bens aos m is e rá v e is ", in: W ie d e rs ta n d u n d E rg e b u n g , G ü te rslo h , 1980, 11° e d iç ã o , p. 193. Ernst LANGE a p re se n to u nu m e n s a io a "c o n trib u iç ã o de D ie trich Bo­ n h o e ffe r p a ra a q u e s tã o de u m a fo rm a re sponsá vel d a Ig re ja no p re s e n te ": K irche fü r a n d e re , in E va n g e lisch e T h e o lo g ie 27, 1967, pp. 513ss; cf. ta m b é m W a lte r J. HOLLEN- WEGER, U m g a n g m it M y th e n . I n t e r k u ltu r e lle T h e o lo g ie II, M u n iq u e 1982, pp. 29ss; E. FEIL/ I. TOEDT, e d ., K o n se q u e n ze n . B o n h o e ffe rs K irc h e n v e rs tä n d n is h e u te , M u n iq u e 1980.

(5)

le g itim a m com B o n h o e ffe r. T am bém neste caso se ria preciso ès- c la re c e r o qu e B o n h o e ffe r quis d ize r, q u a is os v e rd a d e iro s m otivos bem com o se o ca rá te r progressista (P ro g re s s iv itä t) da fó rm u la u ti­ liza d a nã o im p lic a certa m is tific a ç ã o (V e rs c h le ie ru n g ). Os la tin o - a m e ric a n o s e m todos os casos suspeitam qu e sem e x p e rim e n ta r e so fre r a re a lid a d e , sem a le itu ra do e v a n g e lh o a p a rtir da visão do po b re , sem um a m u d a n ça de m e n ta lid a d e (U m k e h r), p e rm a n e c e p re p o n d e ra n te nessa fó rm u la o p e n sa m e n to p a te rn a lis ta (8). Lem­ b ra m eles qu e o "s e r para os outros” está p re fig u ra d o na rota des­ ce n d e n te d e Jesus de N a za ré (cf. Fp 2.6ss) re s p e c tiv a m e n te na sua id e n tific a ç ã o com os p e q u e n o s e in s ig n ific a n te s (cf. M t 25.31-45,

passim ). Daí é qu e d e ve p a rtir toda te n ta tiv a de s o lid a rie d a d e , de

e x istê n cia p ro -n o m in a l. M a is a in d a , nas in ú m e ra s cruzes e no so­ frim e n to a n ô n im o do p o vo la tin o -a m e ric a n o está p re s e n te o c ru ­

c ific a d o .(9) De e n tre os pobres e m a rg in a liz a d o s e le vem de e n ­

co n tro às igrejas. O g rito d e le s é o seu g rito ! Q u e m p re te n d e a n u n c iá -lo co m o s a lv a d o r aos pobres, som ente p o d e fa z ê -lo e n ­ tra n d o no d is c ip u la d o da cruz (K re u z e s n a c h fo lg e ). Isto im p lic a em re n ú n cia a q u a lq u e r s u p re m a cia te o ló g ic a e c le s ia l, h u m ild a d e de gestos e atos, d e s p o ja m e n to (KENOSIS) e c o n v iv ê n c ia .

4. M e u p o n to de re fe rê n c ia , a Ig re ja E va n g é lica de C o n fis ­

são L u te ra n a no B ra sil (IECLB), re p re se n ta m ais ou m enos 1 % de

to d a a p o p u la ç ã o b ra s ile ira (cerca de 130 m ilh õ e s). Essa c la s s ific a ­ ção estatística re p re se n ta ao m esm o te m p o um a in fo rm a ç ã o socio­ lógica. Trata-se de um a ig re ja e m s itu a çã o de m in o ria . Ela v iv e ò m a rg e m , na p e r ife r ia , não no centro, e está exposta à síndrom e de d e p e n d ê n c ia . As pesquisas de Jo a ch im Fischer (10), Hans- J ü r­

(8) C f. H ugo A SS M A N N , Igle sia desde los pobres, in: C ruz y R e ssu rre ció n . P re se n cia y

a n u n c io de u n a Ig le s ia n u e v a , M é x ic o , 1978, pp. 277ss.

(9) Isto é re ssa lta d o p rin c ip a lm e n te no d o c u m e n to fin a l de P u e b la (cf. 20, 31 - 39); q u a n ­ to à c ris to lo g ia de P uebla, cf. Hans Jürgen PRIEN, in: L a te in a m e rik a . G e s e lls c h a ft,

K irc h e , T h e o lo g ie . V o l. II. D e r S tre it um d ie T h e o lo g ie d e r B e fre iu n g , G ö ttin g e n 1981,

pp. 136ss.

(10) Jo a ch im FISCHER, G esch ichte d e r E vang elischen Kirche Lutherischen B ekenntnisses in B ra silie n , in: J. FISCHER/ Ch. JA H N , Es B ega nn am Rio dos S inos, E rlangen 1970, 2° e d iç ã o , pp. 83 ss; o m esm o, Id e n tid a d e e esp e ra n ça , in: Estudos T e o ló g ico s, XVII, 1977, pp. 5ss.

(6)

gen Prien (11) e M a rtin D reher (12) sobre a histó ria da IECLB c o n fir­ m am , no caso iso la d o , o juízo q u e D arcy R ib e iro (13) ou Enrique Dussel e m itira m a re sp e ito de to d o o c o n tin e n te . Este ú ltim o escre­ ve em sua "H is to ria d e la Iglesia en A m é ric a L a tin a " (1972): " N a A m é ric a c o lo n ia l ou n e o c o lo n ia l, e x is tê n c ia h u m a n a la tin o - a m e ric a n a desde se m p re te m s ig n ific a d o e x is tê n c ia d o m in a d a , o p rim id a . O n to lo g ic a m e n te a pessoa a m e ric a n a sofre a c o n d iç ã o de d e s v a n ta g e m , de um ser in fe rio r, escravo de a lg u m a m a n e ira , q u e r seja o ín d io em re la ç ã o ao d o n o de c a p ita n ia , q u e r seja o c rio u lo e m re la ç ã o a o e s p a n h o l, q u e r seja o e sp a n h o l c o lo n ia l em re la ç ã o a o m e tro p o lita n o , q u e r seja o p o vo la tin o - a m e ric a n o ou sua o lig a rq u ia em re la ç ã o à Europa e A m é ric a do N o rte " (14). A e strutura do " e m re la ç ã o a " desde a im ig ra ç ã o m a rg in a liz o u os lu ­ te ra n o s em term os g e o g rá fic o s , étnicos, sociais, e c o n ô m ic o s , p o lí­ ticos, jurídicos, re lig io so s e e d u c a c io n a is (14a ). N ão estra n h a , p o r­ ta n to , q u e a ig re ja procurasse um a saída dessa situ a çã o de g u e to , b u sca n d o -a na p re se rva çã o da g e rm a n id a d e , na d ifu s ã o de idé ia s lib e ra is ou no p re e n c h im e n to de um a la c u n a na á re a da e d u c a ­ ção. Todas as três te n ta tiv a s tiv e ra m e fe ito s históricos, sendo qu e os p ro b le m a s s u rg ira m ju sta m e n te com a p re se rva çã o da g e rm a n i­ d a d e (15), a o passo q u e na á re a da e d u c a ç ã o e in stru çã o h o u ve ê xito s (16).

(11) Hans J ü rg e n PRIEN, Id e n titä t und E n tw ic k lu n g s p ro b le m a tik — Die EKLBB in: U. DU- CHROW, e d ito r, Z w e i R eiche u n d R e g im e n te , G ü te rslo h 1977, pp . 189ss; o m e sm o, D ie

G e s c h ic h te des C h ris te n tu m s in L a te in a m e rik a , G ö ttin g e n 1978; o m e sm o, e d ito r, La­ te in a m e r ik a . G e s e lls c h a ft, K irc h e , T h e o lo g ie , 2 v o ls ., G ö ttin g e n 1981.

(12) M a rtin N. DREHER, K irc h e un d D e u ts c h tu m in d e r E n tw ic k lu n g d e r IECLB /E KLBB , G ö t­ tin g e n 1978; cf. ta m b é m G e rd U w e KLIEWER, A IECLB e o Estado B ra s ile iro , in : P ro te s-

ta n tis m o e P o lític a no B ra s il, (ve r nota 6, pp. 3ss).

(13) Darcy RIBEIRO, U n te re n tw ic k lu n g , K u ltu r u n d Z iv ilis a tio n , F ra n k fu rt/ AA. 1977, p. e x ., pp. 13ss, pp. 315ss.

(14) E nrique DUSSEL, c ita d o c o n fo rm e H.J. PRIEN, (ve r nota 11), 1978, p. 19.

(14a) O bse rva-se q u e o fe n ô m e n o da m a rg in a liz a ç ã o é m ais c o m p le x o d o q u e está a p re ­ s e n ta d o neste esboço fra g m e n tá rio . N ã o o b sta n te o c o n c e ito é usado a q u i e m fu n ­ ç ã o da te n d ê n c ia e sp e cífica .

(15) Cf. H a rtw ig WEBER, D ie O p fe r des K o lu m b u s : 500 J a h re G e w a lt u n d H o ffn u n g . G e s ­

c h ic h te und G e g e n w a r t S ü d a m e rik a s , H a m b u rg o 1982, pp. 257ss.

(16) Isto é re ssa lta d o por H.J. PRIEN (ve r no ta 11) 1978, pp. 763ss; cf. ta m b é m a a n á lis e de Z w in g lio AA. DIAS, K ris e n und A u fg a b e n im B ra s ilia n is c h e n P ro te s ta n tis m u s , F ra n k fu rt/ AA., 1978, p. 126: " A o passo q u e o sistem a e d u c a c io n a l tra d ic io n a l d o país estava o rie n ta d o p a ra u m a fo rm a ç ã o e n c ic lo p é d ia , c a ra c te riz a n d o -s e p o rta n to por um a se p a ra çã o n ítid a e n tre a lu n o s e professores, as in stitu içõ e s p rotesta ntes de en sin o tro u x e ra m no vos m é todo s p e d a g ó g ic o s . Elas esta vam v o lta d a s p a ra o d e s e n v o lv im e n ­ to in te le c tu a l de cada e stu d a n te e por isso d e ix a v a m -s e g u ia r po r m é to d o s p ra g m á ti­ cos de e n sin o e p o r u m a re la ç ã o d e m o c rá tic a e n tre professo r e a lu n o . Este p a p e l p io ­

(7)

Após n o vo ch o q u e de m a rg in a liz a ç ã o o c a s io n a d o p e la Se­ g u n d a G u e rra M u n d ia l, d e lin e o u -s e m ais c o n c re ta m e n te o a lv o de tornar-se " Ig r e ja E vangélica de C onfissão Luterana no B ra s il". Em 1949 as co m u n id a d e s associadas em sínodos u n ira m -se n um a f e ­

d e ra ç ã o . " O p e río d o de ig re ja de im ig ra n te s a le m ã e s, a q u a l por

sua natu re za se d e d ic o u p re p o n d e ra n te m e n te à a tiv id a d e de co n ­ g re g a r e p re se rva r, a p ro x im a -s e d o seu fin a l. Em seu lu g a r está um a ig re ja q u e , na q u a lid a d e d e ig re ja a u tó c to n e , sabe-se corres- ponsável p e lo país e p e la ta re fa de, neste país, le va r a m ensagem do e v a n g e lh o a todas as pessoas, sem d is tin ç ã o , hoje e em to d o o fu tu r o " — é o qu e consta no p ro to c o lo (17). Em 1968, an o de M e- d e llin , dá-se a u n iã o dos sínodos e m um a ig re ja , a IECLB. Estava a b e rto o c a m in h o para a fo rm a ç ã o de ig re ja no Brasil, e e m term os de p ro g ra m a e o rg a n iz a ç ã o pusera-se um fim à vo ca çã o de ser ig re ja dos a le m ã e s. A m eu ver a F a cu ld a d e de T e o lo g ia (fu n d a d a em 1946 em São L e o p o ld o , RS, co m o e s ta b e le c im e n to d e fo rm a ç ã o dos fu tu ro s pastores) assum iu a d ifíc il fu n ç ã o de ser o c e n á rio ond e a ig re ja ta te a n te e o cu p a d a consigo m esm o chocou-se, p e la p ri­ m e ira vez com a re a lid a d e b r a s ile ira . O p ro ce sso d e m e d ia ç ã o (18) n ã o é re tilín e o , não se d e s e n ro la sem c o n flito s e dores, mas d e m o n stra a d m irá v e is e n e rg ia s.

Im pulsos decisivos s u rg ira m na ú ltim a dé ca d a . Em 1970 a V A s s e m b lé ia G e ra l da F ederação Luterana M u n d ia l estava prevista para Porto A le g re , RS. Foi no a u g e da era M é d ic i, dos excessos da repressão e d ita d u ra . Face à pressão in te rn a c io n a l, e para desgos­ to da IECLB, a c o n fe rê n c ia fo i tra n s fe rid a para Evian. Na IECLB h o u ­ ve o s e n tim e n to d e n ã o ser c o m p re e n d id a e de p e rd e r um a chance de se p o sicio n a r. E qu e a ig re ja h a v ia p re p a ra d o um p ro g ra m a a d ­ ju n to q u e v o lta ria as a tençõe s p a ra a v io la ç ã o dos d ire ito s h u m a ­ nos no país. A q u e la decisão, e n tre ta n to , não p ôde im p e d ir q u e surgisse o " M a n ife s to de C u ritib a " , no q u a l p e la p rim e ira vez a

n e iro na á re a e d u c a c io n a l d e s e m p e n h o u um a fu n ç ã o im p o rta n te na tra n s fo rm a ç ã o social. N o m o m e n to p re c io s o e m q u e o país se e n c o n tra v a n u m a fa se d e tra n siçã o , os cha m ado s 'c o lé g io s p ro te s ta n te s ' fo rn e c e ra m g ra n d e n ú m e ro d e qu a d ro s be m in stru í­ dos, qu e esta va m em co n d içõ e s d e fa z e r jus às n o va s e x ig ê n c ia s da s o cie d a d e urb a n a in d u s tria l em vias d e s u rg im e n to ".

(17) C ita d o c o n fo rm e H.J. PRIEN (ver nota 11) 1978, p. 762.

(18) E xem plos be m recentes são a to m a d a de po siçã o " O E vang elho e n ó s ", in: Estudos

T e o ló g ic o s XVIII, 1978, pp . 50 ss; ou a discussão re la c io n a d a com o caso de e xo rc is m o

no a n o passado; cf. ta m b é m N elson KIRST. Por q u e fo rm a ç ã o te o ló g ic a em re sid ê n cia , in: Estudos T e o ló g ic o s , X VII, 1977, pp. 25ss.

(8)

ig re ja v in h a a p ú b lic o com um a m a n ife s ta ç ã o p o lític a e c o n c la m a ­ va à observação dos d ire ito s hum anos. D ebates em to rn o da res­ p o n s a b ilid a d e social se cris ta liz a ra m em 1976 num e s tu d o q u e causou g ra n d e sensação (19). Desde e n tã o observa-se um a c o n s ­

c ie n tiz a ç ã o cada vez m a io r nos p ro n u n c ia m e n to s da ig re ja e o dis­

ta n c ia m e n to de um a d o u trin a dos dois re in o s e n te n d id a e rro n e a ­ m ente.

A IECLB a c e ito u com o ta re fa a sua id e n tid a d e na re a lid a d e

b ra s ile ira . R e nuncia ndo a um a solução d o g m á tic a e a c o lh e n d o

e le m e n to s de sua p ró p ria h istó ria de m a rg in a liz a ç ã o , e la está e n ­ v e re d a n d o p e lo c a m in h o ru m o a o p o vo . Trata-se de um c a m in h o qu e a d q u ire seu p e rfil a o ser trilh a d o e e m seus c o n flito s ; esse ca­ m in h o de fo rm a a lg u m a já chegou a seu a lv o . A o se re n u n c ia r a

um c a m in h o d e d e m o n s tra ç ã o d e fo rç a (20) m a n ife sta -se f r a g ili­

d ade (V e rle tz lic h k e it). M as aí é q u e ju sta m e n te está o que a s itu a ­ ção tem de prom issor.

Estou cônscio de q u e os re p re se n ta n te s da p lu rifo rm id a d e c h a m a rã o de u n ila te ra l m in h a ê n fa se sobre o c a m in h o p a ra a b a ­

se em d e s p o ja m e n to e c o n v iv ê n c ia com o c a ra c te rís tic a a id e n t if i­ c a r a ig re ja lu te ra n a . C o n tra sta n d o com a d ific u ld a d e c o m p ro m e ­

tid a d o p lu ra lis m o , constato q u e a q u e le c a m in h o te m c a rá te r u n í­ voco. Trata-se d a q u e le c a rá te r u n ívo co da ra d ic a lid a d e q u e fa z

jus a o e v a n g e lh o , c a rá te r este q u e , para fa la r com José M ig u e z

B on in o (21), p re te n d e ser a pena s " u m a nota de ro d a p é no c a m i­ nh o da fé em nosso c o n tin e n te ", um a nota "c u id a d o s a m e n te re d i­ g id a " , e n tre ta n to .

Q u e re r ser ig re ja para os outros em c re d ib ilid a d e c o n te x ­ tuai d e ve s ig n ific a r, a fin a l de contas, o rie n ta r-s e n a q u e le q u e

m o rre u com o m a rg in a liz a d o fo ra da m u ra lh a p r o te to ra da c id a ­ de, com o e xp u ls o da sociedad e. "N ossa e s p e ra n ç a ", d iz J. Fis­

cher, "e s tá em q u e esse m a rg in a liz a d o conosco se id e n tifiq u e em nossa situ a çã o de m a rg in a liz a ç ã o " (22). A ig r e ja p a ra os o u tro s acaba se e s p e c ific a n d o com o fo rm a ç ã o de ig re ja a p a r tir dos p o ­

b re s e ju n to com os p o b re s .

(19) Cf. H. J. PRIEN (ve r no ta 11)1978, pp. 7 66s; H. BRANDT, (ve r nota 6) 1977, pp. 49 ss; te x ­ to p o rtu g u ê s in: C a d e rn o s do ISER (ve r no ta 6), pp. 15ss.

(20) Isto é o qu e s a lie n ta H e rm a n n BRANDT, Die th e o lo g is c h e S itu a tio n in L a te in a m e rik a , in: D ie e v a n g e lis c h e D ia s p o ra , 50, 1980, pp. 63ss, e s p e c ia lm e n te 66s.

(21) C ita d o em H. J.HELD (ve r no ta 6) p. 123. (22) Jo a ch im FISCHER (ve r n o ta 10) 1977, p. 16.

(9)

5. Essa m u d a n ça d e p o siçã o leva c o n s e q ü e n te m e n te a um a

p a s to ra l d e c o n v iv ê n c ia , da q u a l d e lin e a re i 3 áreas com o e x e m ­

p lo : m issão s u b u rb a n a , m issão in d íg e n a e pastoral da te rra .

a) Em co n se q ü ê n cia da in d u s tria liz a ç ã o crescente e da a m ­ p lia ç ã o dos centros urbanos surgiu no Brasil o fe n ô m e n o da " m i ­

g ra ç ã o in te rn a " . M ilh õ e s de pessoas saíram do in te rio r do país p a ­ ra ir m o ra r nas cid a d e s, tocados p e la espe ra n ça de a li e n c o n tra r tra b a lh o , m o ra d ia e instrução. O de sn íve l desde sem pre já e x is te n ­ te e n tre cid a d e s e in te rio r assum iu pro p o rçõ e s ca ta stró fica s no m o ­ m e n to em qu e a a g ric u ltu ra passou a ser fe ita em escala in d u stria l e os p e q u e n o s a g ric u lto re s e m eeiros tiv e ra m q u e c e d e r à pressão e x p a n sio n ista (ver a b a ix o ).

A o re d o r das cid a d e s e stende m -se em a n é is co n cê n trico s as fa v e la s e os bairros, nos q u a is as pessoas m ais v e g e ta m do que v i­ vem . A li se lo c a liz a a m issã o s u b u rb a n a . M u ita s vezes o tra b a lh o in ic ia com o a tiv id a d e d ia c o n a l c a rita tiv a d e um a c o m u n id a d e u r­ b a n a em fa v o r dos irm ãos de fé e m p o b re cid o s. N ã o d e m o ra , e a d in â m ic a p ró p ria do lo ca l e sta b e le ce o u tro e s tilo de v id a e de tra ­ b a lh o . Em A lv o ra d a , s u b ú rb io de Porto A le g re , RS, re u n iu -s e no ce n tro c o m u n itá rio um a c o m u n id a d e a b e rta e de o rie n ta ç ã o e cu ­ m ê n ica . Um a e q u ip e de c o la b o ra d o re s p e rm a n e n te s e de pessoas que a ju d a m e s p o n ta n e a m e n te p a rtic ip a do c o tid ia n o das pessoas. Q uem m ora em A lv o ra d a p e rte n ce à p o p u la ç ã o tra b a lh a d o ra da m e tró p o le . Ele v iv e na p e r ife r ia , p ro d u z o bem estar do centro, mas deste n ã o p a rtic ip a . A in fra - estrutura d o m e io em que v iv e es­ tá m arca d a por d e fic iê n c ia s no a te n d im e n to m é d ico , na h ig ie n e , nas o p o rtu n id a d e s de instrução, e pelos excessos da p o líc ia , p e la ca rê n c ia em todas as necessidades básicas. No ce n tro se reú n e m e .o . grupos de re fle x ã o , fa m ília s , m o v im e n to "J u s tiç a e N ão- V io lê n c ia " , para fa la r sobre as questões que a tin g e m a todos. O ferecem -se cursos p ro fis s io n a liz a n te s , consultas m édicas, serviço de creche e um a co zin h a com um . Uma vez q u e a e q u ip e conhece m u ito bem o s e n tid o e as lim ita ç õ e s da a çã o c a rita tiv a , em todos os grupos, o p o rtu n id a d e s e serviços cuida-se m u ito que as pessoas

a tin g id a s to m e m in ic ia tiv a , re s p e c tiv a m e n te se g a ra n ta m os e fe i­

tos de a p re n d iz a d o do tra b a lh o em c o m u n id a d e . A sensação de v a lo r p ró p rio surge nas pessoas n a q u e la m e d id a em que elas p ró ­ prias m o d ific a m e d ã o fo rm a a o m e io em que v iv e m . Estas coisas estão descritas no re la to "C o m u n id a d e dos P obres". (23)

(10)

"Em 30 de m a io ... nosso pessoal, to m o u de a ssalto' o p a lá ­ cio d o g o v e rn a d o r. Era a p rim e ira vez q u e isto a c o n te c ia na histó­ ria m ais re ce n te — d iz ia o jo rn a l — e m b o ra tivéssem os e n tra d o e subido as escadas co m o se fôssem os co n vid a d o s. A co n te ce qu e a l­ guns d e p u ta d o s qu e nos a ju d a v a m h a via m p ro v id e n c ia d o esse e n ­ contro com o g o v e rn a d o r, qu e o p e g o u de surpresa. Nossa associa­ ção d e m o ra d o re s p e d iu ao g o v e rn a d o r to rn e ira s p ú b lic a s e o d i­ re ito de c o n tin u a r m o ra n d o nos te rre n o s ocupad os sem q u a lq u e r le g a liz a ç ã o , d e p o is que todos os nossos contatos com o nosso p re ­ fe ito nã o h a v ia m d a d o re su lta d o . Entrem entes as to rn e ira s estão insta la d a s e o d ire ito de m o ra d ia está g a ra n tid o p o r 5 anos, para c o m e ç a r". (24)

D urante a m p la g re v e de o p e rá rio s de construção o ce n tro v iro u p onto de re u n iã o dos grevistas, o n d e p o d ia m descansar, d is ­ c u tir e re ce b e r as d oaçõe s d e g ê n e ro s p a ra as suas fa m ília s .

O g ru p o "J u s tiç a e N ã o -V io lê n c ia " d e d ic o u seus esforços a um p ro b le m a de g ra n d e u rg ê n cia . Sem n e n h u m h o sp ita l, os 120.000 h a b ita n te s de A lv o ra d a e stavam e n tre g u e s à fa ta lid a d e . Isto q u e as salas da p re fe itu ra g u a rd a v a m to d o o e q u ip a m e n to de um a e n fe rm a ria d o a d a p e lo g o v e rn o a m e ric a n o após o fin a l da g u e rra d o V ie tn ã . Com ca m p a n h a s de cartas, d e m o n stra çõ e s e pressões sobre o p re fe ito o g ru p o tro u xe a p ú b lic o a q u ilo qu e era do interesse de todos. P e rs e v e ra n ç a é que superou a in s e n s ib ilid a ­ de dos políticos responsáveis e fe z com q u e a o b ra fosse in ic ia d a . N o in te rio r da c a p e lin h a do centro c o m u n itá rio pode-se ver a fig u ra de um p a ra lític o sendo b a ix a d o d o te to , p o r a m ig o s, até os pés de Jesus. Nessa histó ria do e v a n g e lh o (cf. Mc 2.1-12 p a r .) a c o m u n id a d e e n x e rg a um s ím b o lo da e sperança e um a m o tiva çã o para resistir à a p a tia , p o rq u e e la já passou por m u ita s e x p e r iê n ­

cias de lib e rta ç ã o . O n om e do b a irro , " A lv o r a d a " , tem a li um lu­

g a r v iv e n c ia l a u tê n tic o .

O p ro c e d im e n to d o g ru p o de A lv o ra d a é ta m b é m o p ro c e d i­ m e n to de grupos de serviço em São Paulo, Rio d e J a n e iro , C u riti­ ba, B elém e de outros lugares. D esafiados p e la situação, eles a b a n d o n a m um a co n ce p çã o de cristia n ism o q u e nã o m ais se cons­

A rm e n , in: J a h rb u c h des Ev. — Lu th. M is s io n s w e rk e s in N ie d e rs a c h s e n (ELM) Her- m a n n sb u rg 1981, pp. 41ss.

(24) O p. c it., p .41. (25) Cf. op. c it., p .44.

(11)

cie n tiza do seu c o n d ic io n a m e n to bu rg u ê s e fo rç o s a m e n te distorce, por isso, o e v a n g e lh o . Q u e m tra b a lh a na c o n v iv ê n c ia com os p o ­ bres se m p re já fe z um a o p ç ã o a fa v o r dos p o b re s e c o n tra a p o ­

breza. Ele re c o n h e c e u q u e , em term os te o ló g ic o s , a situ a çã o dos

pobres n ã o co rre sp o n d e à v o n ta d e de Deus, m esm o q u e , em te r­ mos e co n ô m ico s, fa ça p a rte do p ro g ra m a d o progresso. A p a rtir dessa in tu iç ã o surge o d e v e r de e s c la re c e r e c o n s c ie n tiz a r as p e s ­

soas, ações estas qu e passam a ser m ais do que n a tu ra is por a m o r

da d ig n id a d e hum a n a e da v o n ta d e un ívo ca de Deus (26) (E in d e u ­

t ig k e it G o tte s ).

No co n ta to d ire to com a ca rê n cia u rg e n te não sobra te m p o p a ra d e s e n v o lv e r um a te o ria re v o lu c io n á ria . Fica in c lu s iv e d u v id o ­ so se esse a lv o m erece ser buscado. A co n te ce qu e , antes de q u a l­ q u e r e ta p a te ó ric a , instala-se n o vo fe n ô m e n o . A c o n v iv ê n c ia e n tre c o la b o ra d o re s e carentes de a ju d a , entre os que e n sin a m e os que a p re n d e m , leva a um in te rc â m b io de ta le n to s , de co n h e cim e n to s e c o m p e tê n c ia . A p a rtir d e b a ix o , da base, surgem novas e s tru tu ­ ras e um a c iv iliz a ç ã o do a m o r. (27) A c o m u n h ã o vira um a situ a çã o de relações h um anas livres de d o m in a ç ã o e cria h o rizo n te s de a p re n d iz a d o . Cada q u a l traz a sua c o n trib u iç ã o para o processo de cre scim e n to . Os que tê m fo rm a ç ã o te o ló g ic a p re cisa m p a rtir da prem issa de qu e "D e u s sem pre já está a tu a n d o em cada in d iv íd u o e em cada g ru p o h u m a n o ". (28) P ro va ve lm e n te os e specialista s

(26) Cf. o m e sm o, Ü b e rle g u n g e n zu r A rb e it in A lv o ra d a , in : Ja h rb u c h 1979 des ELM, H er­ m a n n sb u rg 1979, p. 65: "E les p re c is a m ... fic a r s a b e n d o q u e n ã o é po r causa d o desti* no, d a v o n ta d e d e Deus ou m e sm o po r causa d e d ific u ld a d e s de na tu re za o b je tiv a ou p o r causa d a in c a p a c id a d e d e um g o v e rn o em si be m in te n c io n a d o q u e eles são p o ­ bres e m ise rá ve is, e sim po r causa dos interêsses b e m con creto s de um g ru p o r e la tiv a ­ m e n te p e q u e n o q u e está no p o d e r e e x p lo ra os outros. A lg u m a fo rm a de e s c la re c i­ m e n to pa re ce ser nosso d e v e r p a ra com a sua d ig n id a d e h u m a n a . Eles p re c is a m ... e n ­ x e rg a r os fa to re s q u e co m p õ e m a situa ção. Caso c o n trá rio a c a b a -se d e s tru in d o a n o ­ ç ã o d e ju stiça e in ju s tiç a , n ã o só e m te rm o s a m p lo s , m as ta m b é m no n ív e l pe ssoal, re ­ d u z id o . E com certeza v irã o d e p o is as co n seqüê ncias, caso um a c o m u n id a d e a p lic a r a prom essa de Deus n ã o à re a lid a d e e fe tiv a , m as a um a re a lid a d e a m e n iz a d a . A fé e n ­ tã o se re la c io n a com u m a ilusão . Deus n ã o há d e q u e re r qu e a pessoa se e n to rp e ça p a ra p o d e r a te r-se a suas prom essas, q u e a pessoa so fra e c re ia ofu sca d a , e m vez de con scie nte. C om certeza ta m b é m n ã o está ce rto tra n s fe rir p a ra Deus a q u e la s trib u la ­ ções causadas po r pessoas. N ã o é Deus o c u lp a d o da m isé ria das massas, m as a lg u ­ mas pessoas egoístas. O p ro b le m a de Deus, as trib u la ç õ e s causadas po r e le so m e n te c o m e ça m q u a n d o e n fre n ta m o s essas pessoas".

(27) Este é o o b je tiv o d e c la ra d o d a p a stora l m o tiv a d a a p a rtir de P u e b ia (cf. pp. 490, 642, 1188 passim ).

(28) K nut W ELLMANN, op. c it., p. 66; cf. C lo d o v is BOFF, G e g e n d ie K nech tschaft des ra tio ­ n a le n W issens. Ein neues V e rh ä ltn is zw isch e n de r W issenscha ft d e r T h e o lo g e n un d der W e is h e it des V o lk e s , in: H. GOLDSTEIN, e d ., B e fre iu n g s th e o lo g ie (ver no ta 5), pp.

(12)

são os q u e precisam e n fre n ta r a ta re fa m ais d ifíc il, q u a n d o q u e ­ rem e n c o n tra r seu p a p e l d e n tro da co m u n h ã o . C om o p a rte iro s da

h u m a n iz a ç ã o e na luta contra a a u to rid a d e e n te n d id a e rro n e a ­

m ente eles, e n tre ta n to , nã o d e ix a m d e a c h a r sua id e n tid a d e . Ex­ pressão d a lib e rta ç ã o é em todos o c u lto d iv in o no c o tid ia n o d o

m undo. Ele p ro p o rc io n a re fú g io a n te os p e rse g u id o re s, a co n c h e ­

go, co ra g e m p a ra se p ô r a c a m in h o , e c o m u n h ã o . " N o cu lto c e le ­ bram os e v iv e m o s — com todas as ressalvas — a v in d a do re in o de Deus e a tra n s fo rm a ç ã o , q u içá p e rc e b id a , da s o c ie d a d e ". (29)

b) A fo ra a lg u m a s exceções, no passado a IECLB não e m ­ p re e n d e ra q u a lq u e r in ic ia tiv a no se n tid o de tra n sce n d e r os p ró ­

prios lim ites. M is s ã o não era do seu interesse. A a b e rtu ra de novas áreas de c o lo n iz a ç ã o no M a to Grosso, R ondôn ia e A m a z ô n ia m u­ dou a situ a çã o . A co n te ce qu e de re p e n te a te m á tic a d o ín d io pas­ sara a ser fo c o de discussão p ú b lic a e in te rn a c io n a l. D ireitos e le ­ m entares dos índios estavam sendo fe rid o s e am ea ça d o s de m orte p e la p o lític a e co n ô m ic a estatal (ou seja, p e la exp a n sã o da in d ú s ­ tria v o lta d a para a e x p o rta ç ã o ). M esm o o Jo rn a l do Brasil, lib e ra l, n ã o p ôde d e ix a r de e x p ô r co m o absu rd o o protesto de a lg u n s p o lí­ ticos de R o n d ô n ia contra as re iv in d ic a ç õ e s dos índios p e la terra. "E les protestam contra o fa to de um a c o m u n id a d e de 200 pessoas possuir 200 m il hectares, mas se esquece m de m e n c io n a r d e qu e em seu p ró p rio estado um a única pessoa possui m u ito m ais terra do qu e q u a lq u e r c o m u n id a d e : eles esquece m os la tifú n d io s ." (30) C om e te ra m -se atos de v io lê n c ia e sangue contra os índios. A lg u n s dos seus p orta-vozes m o rre ra m em circunstâncias m is te rio ­ sas. D efensores de sua causa, com o P. L u n ke n b e in , fo ra m assassi­ nados. O c h e fe da FUNAI, co ro n e l Jo ã o C arlos N o b re da V e ig a , (30 a) q u e ix o u -s e p u b lic a m e n te do estado d e s o la d o de sua in stitu içã o . (31) A p o lític a qu e o Estado b ra s ile iro p ro m o v ia e m re la ç ã o ao ín ­

108ss. A q u i está um p ro b le m a a in d a po r ser e la b o ra d o p e la te o lo g ia pro te sta n te , as­ sim expresso po r M a n a s BUTHELEZI: " A p ro c la m a ç ã o tro u x e ... a m ensage m de um Deus q u e já esta va lá " .

(29) K nut WELLAAANN, op. c it., p. 67.

(30) C ita d o e m H e rm a n n BRANDT, ed . D ie G lu t k o m m t vo n u n te n , N e u k irc h e n 1981, p. 28. (30a)Ele se d e m itiu em 1981; cf, B ra s ilie n N a c h ric h te n 7 /8 , 1981, pp. 219s.

(31) W a lte r SASS, Freud und Leiden d e r K o lo n iste n , in: J a h rb u c h d e r ELM, H e rm a n n sb u rg 1981, pp. 35 ss cita C o ro n e l João C arlo s N o b re d a V e ig a c o n fo rm e 'Is to É' (1980): " H e r ­ d e i um a in s titu iç ã o em ru ínas, c h e ia de co rrupçã o. M ucfam a té o n o m e dos rios para re d u z ir o ta m a n h o das áreas in d íg e n a s. H oje a q u e le s q u e se d e ix a ra m s u b o rn a r são p ro p rie tá rio s d e g ra n d e s la tifú n d io s , co n stróe m p a ra si m ansões nos m a is fin o s ba irros de B rasília e são p ro p rie tá rio s d e postos de g a s o lin a ".

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d io passou a ser m a c iç a m e n te c o n d e n a d a , p o rq u e nã o era m ais possível d is tin g u ir e n tre seu p ro g ra m a de " e m a n c ip a ç ã o " e o g e ­ n o c íd io p ro g ra m a d o .

D entre a série de pastores m ais jo ve n s q u e co n ta m com o e xp o e n te s de um a pastoral de c o n v iv ê n c ia , estão R o b e rto

Z w e ts c h e sua esposa Lori  ltm a n n . De se te m b ro de 1978 a té o u tu ­

bro (1979) eles v iv e ra m e n tre os Suruís em R o ndôn ia, a té serem expulsos p e la FUNAI. Sobre este p e río d o há cartas, e n tre vista s e um re la to da e x p e riê n c ia . (32) E m a te ria l q u e presta contas sobre o tra b a lh o e n tre os índios e a p re se n ta in fo rm a ç õ e s e tn o ló g ic a s e a n ­ tro p o ló g ic a s . Lori e R oberto e n te n d e m seu tra b a lh o com o e v a n g e ­

liza çã o . P ergunta-se, e n tã o , pelos co n te ú d o s da m esm a, já que

e la d esem boco u em e xp u lsã o .

Eis o q u e escrevem : "F o m o s de e n c o n tro a eles, p a rtic ip a ­ mos de suas a tiv id a d e s in d iv id u a is e c o m u n itá ria s , a p re n d e m o s sua lín g u a e sua cu ltu ra . Procuram os fa z e r jus à a u te n tic id a d e dos P aiterey. Tudo isso com m u ita p a c iê n c ia e h u m ild a d e ". (33) E na m e d id a em q u e isto e s tiv e r d e n tro das p o s s ib ilid a d e s de g e n te branco, fiz e ra m da v id a desse p o v o a sua causa. Entre os índios eles q u is e ra m ser "p re s e n ç a e v a n g é lic a " (34). E ntretanto n ã o n a ­

q u e la c o n h e c id a fo rm a d e p o rta d o r d e u m a m e n s a g e m , q u e d e s ­ p o ja o d e s tin a tá rio d e sua in d iv id u a lid a d e in c o n fu n d ív e l, p a ra tra n s fo rm á -lo em e s c ra v o de um a fé a lie n a d a do co ntexto. A ntes

eles p a rtira m d a prem issa d e q u e o " í n d io te m um a m ensa g e m p a ­ ra n ó s ". (35) Parece p a ra d o x a l, mas esses m issio n á rio s se e n te n ­ d e m co m o "s e rv id o re s do e v a n g e lh o q u e já está no m u n d o ". (36) S e g u in d o esta ló g ica , chega-se in e x o ra v e lm e n te à co n clu sã o tira ­ da p o r Lori e R oberto: "S e o e v a n g e lh o é boa nova para os índios, e n tã o nossa ta re fa so m e n te p o d e ser a de c u id a r qu e o ín d io seja

(32) In: H e rm a n n BRANDT (v e r no ta 30, pp . 21 ss); R oberto ZWETSCH/ Lori A LTM AN N, Paí-

te r . O p o vo S uruí e o c o m p ro m is s o m is s io n á rio , 1980; e a in d a : M issões e va n g é lic a s

com ín d io s e la vra d o re s. C a d e rn o s d o CEDI V, Rio de J a n e iro 1980, p rin c ip a lm e n te pp. 1 lss. e 16ss.

(33) In: H. BRANDT, op. c it., p. 24s (34) In: M issões E vangélicas, op. c it., p. 16 (35) Ibd.

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m ais ín d io " . (37) Por este m e io eles ta m b é m e sp e ra v a m consertar a d e s fig u ra d a im a g e m do c ris tia n im o e d e sp e rta r um a consciência das forças lib e rta d o ra s d o e v a n g e lh o ta m b é m fo ra dos lim ite s do seu c a m p o de tra b a lh o .

C om o sinal de a c e ita ç ã o , os índios co n stru íra m para eles um a p a lh o ça na a ld e ia . Q u e ria m que m orassem com eles. Expres­ são a in d a m ais fo rte de sua a c o lh id a nessa c o m u n id a d e é o fa to de a trib o te r e s c o lh id o o n o m e d a re c é m -n a s c id a filh a dos dois.

A p e n a s po r um a n o os dois p u d e ra m tra b a lh a r entre os Su- ruís. Foram expulsos da reserva, p e la FUNAI, sem in d ic a ç ã o de m otivos. Esse a to de a rb itra rie d a d e se e x p lic a p e la in c o n c iH a b ili­ d a d e das posições p o lítica s e p e lo c o n flito de im a g e n s a n tr o p o ló ­

gica s (M e n s c h e n b ild e r). N u m a carta d e N a ta l (38), Lori e R oberto

e s cre ve ra m e m 1978: "S e q u e re m o s e n c o n tra r a o Deus v e rd a d e iro , precisam os d e sp o ja r-n o s d e tu d o a q u ilo q u e nos p re n d e a nós m esm os... e v o lta r n ã o só nossos o lh o s, m as to d o o nosso ser 'p a ra b a ix o ', para a li o n d e Deus se nos d e p a ra no m ais m ise rá ve l de nossos irm ã o s ". De fo rm a co n se q ü e n te eles seguem a id e n tific a ­ ção d e Jesus com os pobres e p e q u e n in o s (M t 25.30ss passim ), a d o ta m e le m e n to s da te o lo g ia p a u lin a (Fp 2.6ss) e s o le tra m , sob e m p e n h o da p ró p ria vid a , a m e n sa g e m d o e v a n g e lh o — justiça e a m o r — na re a lid a d e de v id a dos Suruís. Sua a tu a ç ã o é resposta à s itu a çã o d o p o vo e à p ro v o c a ç ã o d o e v a n g é lh o : "S o m o s d e s a fia ­ dos para a le a ld a d e . Essa le a ld a d e é o qu e o p o vo de nós e x ig e , a le a ld a d e q u e o e v a n g e lh o nos ensina e de nós re c la m a ". (39)

S e m e lh a n te o p ç ã o n ece ssa ria m e n te leva a c o n flito s . Os p o ­ derosos vê e m na e v a n g e liz a ç ã o um " f a t o r de p e rtu rb a ç ã o " e um " e m p e c ilh o para o a v a n ço das firm a s c a p ita lista s n a c io n a is e in te r­ n a c io n a is ". Foi o CIMI q u e , com essa in te rp re ta ç ã o p o lític a , c ita ra as ve rd a d e ira s razões para a e xp u lsã o de Lori e Roberto. Dom José G om es e D. Tomás B a ld u ín o c o n c lu e m sua d e c la ra ç ã o de s o lid a ­ rie d a d e : "E les (sc. Lori e R oberto) re p re se n ta m a u tê n tic o cristia n is­ m o lib e rta d o r: por in te rm é d io d e le s a n u n c ia -s e espe ra n ça em m e io a um p o vo que g rita po r ju s tiç a ". (40)

(37) Ib d .; cf. G ü n te r P aulo SÜSS, Die Früchte d e r A u s b e u tu n g n ich t lä n g e r geniessen — In- d ia n e rp a s to ra l in L a te in a m e rik a als A n fra g e und H e ra u s fo rd e ru n g , in: H. GOLDSTEIN, e d ., B e fre iu n g s th e o lo g ie (v e r no ta 5; pp . 91 ss); o m esm o, W ir v e rs u c h e n d ie S tim m e

d e r In d ia n e r zu s e in ; In fo rm a tio n e n M is e re o r, A a ch e n 1981, 4° e d ., p p ,. 22ss.

(38) In: H. BRANDT, op. c it., p. 23s (39) In: H. BRANDT, op. c it., p. 29

(40) A d e c la ra ç ã o de s o lid a rie d a d e está re p ro d u z id a e m : P a íte r (v e r no ta 32) pp. 126 ss e H. BRANDT, op. c it., pp. 2óss.

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Desde e n tã o tem -se a p ro fu n d a d o a c o la b o ra ç ã o de forças e cu m ê n ica s no CIM I. E ntrem entes Lori e R oberto tra b a lh a m e n tre o povo dos K u lin a no A cre.

c) C om o é qu e no Brasil a fa lta d e te rra s p o d e v ira r tem a, q u a n d o a fin a l, existe te r r a s u fic ie n te p a ra to d o s? — O u ça m o s o

qu e d iz e m os a tin g id o s : "D o n d e é qu e ve m toda essa co n fu sã o a q u i, bem eu a ch o q u e é po r causa da so cie d a d e . A q u i n ã o tem te rra . Eles fa la m d o n o rte , d o M a to Grosso. Todos q u e re m g a n h a r m ais d in h e iro , e m esm o q u e m tem seu p e d a c in h o de te rra , desis­ te. Eles q u e re m m e lh o ra r e c o m p ra r um p e d a ç o d e te rra m a io r. E e n tã o eles vã o e m b o ra e d ã o com a cara no chão. A co n te ce qu e lá tu d o é d ife re n te . E se m p re há essas d ific u ld a d e s com os contratos. Os g ra n d e s pressionam os p e que nos. Isso vem bem de c im a , d a ­ q u e le s q u e fa z e m as leis, e q u a n d o os tra b a lh a d o re s g a n h a m a lg o com isso, e n tã o só m esm o no p a p e l. Os tra b a lh a d o re s são uns in­ g ê n u o s; eles tê m seu p e d a c in h o de te rra e a v e n d e m para os f a ­ z e n d e iro s, e esses a u m e n ta m cada vez m ais os seus la tifú n d io s . E os p e q u e n o s nã o se ju n ta m com os outros q u e são com o e le s” . (41) A la d a in h a de q u e ix a s nã o tem fim . Tão fu n d a m e n ta l em tu d o isso é: "O s q u e v iv e m da te rra , nã o tê m te rra " .

Em c o n se q ü ê n cia da m ig ra ç ã o in te rn a (consta qu e a n u a l­ m ente 30 a 40 m ilh õ e s d e pessoas estão a c a m in h o , sem casa e tra ­ b a lh o , sem te rra e a c o n c h e g o ) m u ita s c o m u n id a d e s fo ra m d e s lo ­ cadas d o sul p a ra o n o rte , e do leste para o oeste, p a ra d e n tro das novas áreas de co lo n iz a ç ã o . No Paraná, no M a to Grosso e R ondô­ nia s u rg ira m da n o ite para o d ia cid a d e s com os típicos fe n ô m e n o s da p e rd a de raízes sob in flu ê n c ia c a p ita lis ta (q u e b ra das tra d i­ ções, fa m ília s d e sfe ita s, a usência d o d ire ito , a rb ítrio por p a rte de certas pessoas p a rtic u la re s , e x p lo ra ç ã o da s itu a çã o d ifíc il). Um a

c a ric a tu ra (42) ilustra m u ito bem co m o os novos colonos são a p ro ­

ve ita d o s. C ercados n u m a g le b a , eles tê m q u e fa z e r o d esm ata- m e n to e to rn a r a terra a p ro v e itá v e l, e n q u a n to os re p re se n ta n te s d o c a p ita l, de m o d o suspeito e d o o u tro la d o da cerca, a c o m p a ­ n ham o a n d a m e n to das coisas. D epois qu e tra m ó ia s fra u d u le n ta s , práticas cre d itícia s desonestas, p a ra não fa la r das doenças e d e fi­ ciê n cia s h um anas, a ca b a m a rru in a n d o fin a n c e ira m e n te o co lo n o , os la tifú n d io s to m a m conta da te rra . P a rticu la rm e n te trá g ic o é

(41) S e g u n d o H. BRANDT, op. c it., p. 130 (42) A Q UI ENTRA GRAVURA, p .22

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q u a n d o a e xp a n sã o do la tifú n d io afa sta os novos colonos para d e n tro das áreas indígen as. Dois tipos de m a rg in a liz a ç ã o são acos­ sados um contra o o u tro e n q u a n to interesseiros e e sp e cu la d o re s f i ­ cam à e s p re ita , e s p e ra n d o qu e assim os p ro b le m a s sejam s o lu c io ­ nadas e m sua p ró p ria v a n ta g e m .

D iante desses fatos cínicos m u ito c e d o (43) ho u ve pastores qu e re a g ire m e in d u z ira m a d ire ç ã o da ig re ja a lib e ra r co le g a s p a ­ ra o serviço e n tre colonos e m ig ra n te s. (44) De fo rm a m u ito n a tu ra l esse tra b a lh o levou à c o o p e ra ç ã o com a p a s to ra l da te r r a , gru p o de tra b a lh o in s titu íd o p e la CNBB q u e a p ó ia s o lid a ria m e n te os p o ­ bres nas áreas de tensão. A pastoral da terra e m p e n h a -s e p e la le ­ g a liz a ç ã o cla ra da posse da te rra ; p e la associação em re p re s e n ta ­ ções c o o p e ra tivista s de interesses fre n te ao in te rm e d iá rio e aos bancos; p e la c ria ç ã o de in fra -e s tru tu ra nas áreas de c o lo n iz a ç ã o ; por co ndiçõe s d ig n a s com escolas, a te n d im e n to m é d ic o e aconse­ lh a m e n to a g ríc o la . Os nom es Ita ip u (PR, h id ro e lé tric a ) e Ronda A l­ ta, RS, (e xp u lsã o da te rra ) (45) e x e m p lific a m o co n te x to no q u a l se d e s e n v o lv e e c u m e n is m o a p a r tir dos p o b re s .

Aos olhos de um a p o lític a de d e s e n v o lv im e n to o rie n ta d a p a ra a e fic iê n c ia , esse tra b a lh o p a re ce um a a çã o im p o te n te . A p e ­ sar de e x p e riê n c ia s fru stra n te s, c o n v iv ê n c ia , e c u m e n is m o e lu ta

p o r ju s tiç a n ã o d ã o n u m b e co sem saída. A fin a l o c a m in h o não fo i

p la n e ja d o d e c im a para b a ix o . A ntes, todos os dias se pisa solo n o ­ vo, no q u a l se c ria ig re ja . Os pobres se re ú n e m para vid a c o m u n i­ tá ria em re fle x ã o , c e le b ra ç ã o , m e d ita ç ã o b íb lic a , m u tirã o , cursos su p le tivo s e c o n v ív io p u ro e sim ples. " O qu e nos a le g r a " , consta nu m re la to de R ô n d o n ia , " é q u e e n tra m na c o m u n id a d e pessoas qu e , com o d iz e m , antes 'n e m e ra m ' (46). N o n o vo a m b ie n te elas e x p e rim e n ta m de fo rm a a u tê n tic a e b e n é fic a qu e não são um n a ­ da, e sim filh o s de Deus, cham ados para a lib e rd a d e (cf. Gl 5 .lss). A p a rtir da c o n v iv ê n c ia m anife sta -se co n tra to d a tristeza e s o fri­ m ento, a q u e la c o ra g e m de " t e r no co ra ç ã o e re a liz a r a visã o da

(43) Cf. H e rm a n n BRANDT (v e r n o ta 20) pp. 68s; W ilfrie d BUCHWEITZ, Q u e é Ig re ja ? R em i­ niscên cia — ob servaçõ es — p e rsp e ctiva s, in: E studos T e o ló g ico s, X V III, 1978, pp. 65ss; W a lte r A LTM AN N , A lg u m a s e x p e riê n c ia s de base na IECLB, in: T e m p o e P re se n ça , n° 159, 1980, pp. 3ss.

(44) Cf. Hans TREIN, N ovas á reas de c o lo n iz a ç ã o , e W e rn e r FUCHS, A IECLB e a p a stora l da te rra ; a m b o s os a rtig o s in: R e vista d o C e m , V, 1982, n ° l , pp. 27ss, 60ss.

(45) Cf. H ild e g a rd STALLKAMP, R onda A lta — G e sch ich te e in e r p e rm a n e n te n V e rtre ib u n g ; in: B ra s ilie n N a c h ric h te m , ca d e rn o 7 /8 , 1981, pp. 209 ss.

(18)

re v e la ç ã o e a visã o d o do Jesus d e N aza ré re la tiv a à c o m u n h ã o de com p re e n sã o re cíp ro ca , d e a m o r e de ju s tiç a ". (47)

Em 1982 a IECLB teve com o tem a do a n o : "T e rra de Deus — Terra p a ra to d o s " (cf. S alm o 24.1). Assim um a d ire ç ã o d e ig re ja lu ­ te ra n a n ã o só está to m a n d o posição fa c e a processos políticos atu a is, mas a ce n tu a um a p ro b le m á tic a fa ta l p a ra to d a um a nação. A q u a n tid a d e d e m a te ria l a té a g o ra p u b lic a d o e m fo rm a de p a n ­ fle to s, jo rn a is c o m u n itá rio s , a u x ílio s p ráticos, canções e orações (48) dá p ro v a da s in c e rid a d e d o e n g a ja m e n to e s in a liz a a opçã o de um a ig re ja p e la c a m in h a d a ao la d o dos pobres. Desde as o co r­ rências em C o lo ra d o d o Oeste, em R ondôn ia (49), q u e e n v o lv e ra m m em bros da IECLB, essa o p çã o re ce b e u cada vez m ais a p o io .

N ã o c a b e ria no pre se n te a rtig o m e n c io n a r e e x p ô r com a m esm a a m p litu d e todos os s in a is qu e te stifica m a crescente o r ie n ­

ta ç ã o d e base d e n tro da IECLB: p o s ic io n a m e n to da d ire ç ã o da ig re ­

ja sobre p ro je to s d e represas no rio u ru g u a i; p a la v ra s d e a d v e rtê n ­ cia fa ce a o fa to de o Brasil estar se to rn a n d o o m a io r p ro d u to r de arm as d o T erceiro M u n d o ; p a rtic ip a ç ã o no d e b a te sobre a e c o lo g ia ao d a r a p a la v ra aos v e rd a d e iro s p e rito s no assunto nos m eios de co m u n ic a ç ã o e nos espaços da ig re ja ou a o in s ta la r centros de a c o n s e lh a m e n to para questões a g ríco la s; co n scie n tiza çã o e n tre os pastores ou tra b a lh o p io n e iro das diaconisa s. A s o lid a rie d a d e com a re a lid a d e de v id a dos pobres leva a ig re ja a um a a v a lia ç ã o a u to ­ crítica, so la p a as bases de um a d o g m á tic a burguesa e id e a lis ta (50), mas ta m b é m traz in tu iç ã o e im p u lso . "Je su s Cristo

(47) Ibd.

(48) Por e x e m p lo : A E nxad a. B o le tim d o d is tr it o e c le s iá s tic o s u l d o E s p írito S anto ; A q u e s tã o a g rá ria no B rasil, Faculdad e de T e o lo g ia d a IECLB, São Le o p o ld o 1981; Terra de Deus — Terra pa ra todos. T e m as a tu a is V II, São Le op o ld o 1982; Terra de Deus — Terra pa ra todos. A u x ílio s p rá tic o s n ° 1, São L e o p o ld o 1982;

T e rra de D eus — T e rra p a ra to d o s . U m a e n c ru z ilh a d a , São L e o p o ld o 1982.

(49) Cf. In fo rm a ç ã o IECLB n ° 43, A b r il/M a io /J u n h o de 1982; U lrich SCHOENBORN, K o n flik t um d ie L a n d re fo rm , in : N e u e S tim m e , a g osto 1982, pp. 8s.

(50) Q u a n to a o fe n ô m e n o da c o n sciê n cia bu rg u e sa (b ü rg e rlic h e s B e w u s s ts e in ), cf. p. ex. B ern h a rd GROETHUYSEN, D ie E nste h u n g d e r b ü rg e r lic h e n W e lt — u n d Le b e n sa n s­

c h a u u n g in F ra n k re ic h , 2 vo ls., F ra n k fu rt/M 1978, V o l. II, pp. 214s; D ie te r SCHELLONG,

V on de r b ü rg e rlic h e n G e fa n g e n s c h a ft des k irc h lic h e n Bew usstseins, in: G. KEHRER,

Z u r R e lig io n s g e s c h ic h te in d e r BRD, M u n iq u e 1980. Em c o n se q ü ê n cia da situ a çã o de

m in o ria e da busca p o r re c o n h e c im e n to so cia l, os g ru p o s pro te sta n te s na A m é ric a Lati­ na (e n c o n tra v a m -s e e ) e n c o n tra m -s e n o p e rig o d e se a d a p ta re m à situ a çã o social d o ­ m in a n te . U m a vez b e m su ce d id o este processo (a lim e n ta d o , e n tre outros fa to re s , p e lo c o n flito e n tre Estado e Ig re ja C a tó lic a ) a crítica p ro fé tic a e o p ro te sto re lig io s o te n d e m a d e sa p a re ce r. A ra d ic a lid a d e q u e fe z jus a o e v a n g e lh o d e se m b o ca e m a b u rg u e sa

(19)

-lib e rta d o r" so m e n te p o d e ser p ro c la m a d o com c re d ib ilid a d e po r a q u e le q u e se p e rm ite ch a m a r p a ra o d is c ip u la d o d o c ru c ific a d o . Na c o n v iv ê n c ia , a c a m in h a d a ru m o à lib e rta ç ã o é p re lib a ç ã o da li­ b e rd a d e .

6. N esta p a rte q u e re m o s re fle tir sobre as te n d ê n c ia s re le ­ vantes nos cam pos de tra b a lh o a c im a citados. Trata-se de e le m e n ­

tos d e a p re n d iz a d o e d e s a p re n d iz a d o , os q u a is d ã o os contornos

específicos a o processo de inserção do lu te ra n is m o na A m é ric a La- tin a (5 1 ). C o n v iv ê n c ia sem pre já p ro v é m de um a o p çã o a fa v o r dos pobres e m a rg in a liz a d o s , p o rq u e b ru ta lid a d e e cin ism o b la sfe m o s estão a c la m a r aos céus (52). Um seg u n d o passo leva à c o n s c ie n ti­

zação m uitas vezes in cô m o d a sobre a p ró p ria h istó ria , in c lu sive so­

bre a c e g u e ira fre n te aos de sa fio s, c o lo c a n d o a pessoa d ia n te de m ais outras ta re fa s de a p re n d iz a d o .

a) Os e x e m p lo s por m im citados v iv e m da in te n s id a d e com qu e se tra b a lh a na re c o n te x tu a liz a ç ã o do e v a n g e lh o . (53) Em ca­

da co n te xto d is tin to as pessoas in d a g a m se é le g ítim o re c o rre r ao e v a n g e lh o , e sob qu e con d içõ e s, ou com o é q u e o e v a n g e lh o se a p re s e n ta ria nas a tu a is estruturas. Nessa in d a g a ç ã o m anife sta -se o lu g a r e sp e cífico q u e levou ao s u rg im e n to dos textos. Este engas- ta m e n to h istó rico be m co m o o c a m in h o q u e pod e ser d e m o n s tra d o d e n tro da h istó ria são vistos com o in trin s e c a m e n te in e re n te s à fo r­

ma de a p re s e n ta ç ã o dos textos bíblicos. Neste c a m in h o é d e cisiva a e n c a rn a ç ã o d o e v a n g e lh o nas re s p e c tiv a s re a lid a d e s da G a lá - cia, d e C o rin to , Filipos ou da c o m u n id a d e de M arcos, etc. Recla­ mos no s e n tid o d e q u e se a d o te um e v a n g e lh o básico a -h is tó ric o ou a lg o a b stra to q u e fosse e s p e c ific a m e n te cristão n e ce ssa ria m e n ­ te e n c o n tra m resistência. Na sinopse de B íblia e vid a a p a la v ra de Deus a co n te ce com o a çã o co n s o la d o ra e ju lg a d o ra , prom issora e c ria tiv a . Idéias ou sistem as te o ló g ic o s d o P rim e iro M u n d o nã o se

m e n to e c u m p lic id a d e com os podero sos. A h is tó ria da Ig re ja P re sb ite ria n a no Brasil c o n firm a essas a firm a ç õ e s (cf. Jo ã o Dias de ARAÚ JO , in: C a d e rn o s d o ISER VII (ve r n o ­ ta 6) pp. 28ss; H.J.PRIEN, (ve r no ta 11), 1978, pp. 840ss.

(51) Com isto nã o se p re te n d e d a r a e n te n d e r um a a ss im ila ç ã o a crítica da situ a çã o d o m i­ na nte.

(52) Cf. M a n fre d HO FM AN N , Id e n tifik a tio n m it de m A n d e re n , G ö ttin g e n 1978, e s p e c ia l­ m e nte pp. 57ss; 152ss.

(53) Cf. U lrich SCHOENBORN, E v a n g e liu m — F e rm e nt d e r B e fre iu n g . B ib e lve rstä n d n is und b e fre ie n d e r U m ga g m it d e r B ibel in L a te in a m e rik a , in: D eutsches P fa rr e rb la tt, 82, 1982, pp. 202ss.

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