Unidade 1
A Origem da escrita:
como tudo começou Francisco Thibério Arruda Sales
Oficina de Textos em Espanhol
Avançado
Gerente Editorial
CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico
TIAGO DA ROCHA Autor
FRANCISCO THIBÉRIO ARRUDA SALES
O AUTOR
Francisco Thibério Arruda Sales
Eu, Thibério, possuo graduação em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (2009); Especialista em Linguística pela Universidade Estadual do Ceará (2013) e estou concluindo o Mestrado em Análise do Discurso na Universidade de Buenos Aires – Argentina. Atualmente, sou Professor Universitário e Conteudista. Na Argentina, trabalho como professor de português e de Linguística nas seguintes universidades:
Universidad Nacional de Avellaneda e Universidad Nacional de San Martin. Possuo diploma de Proficiência em Língua Espanhola emitido pelo Ministério de Educação da Argentina e obtive o nível “avanzado superior”. A minha proficiência na língua se deu através do exame CELU – Certificado de Español Lengua y Uso. Além disso, participo constantemente de Jornadas universitárias, Congressos e Seminários de temas relacionados à Linguística (como ouvinte e expositor). Atualmente elaboro livros de conjugação e expressões idiomáticas. Também desenvolvi uma metodologia focada na Abordagem Comunicativa para o ensino de línguas (português como língua estrangeira/espanhol). No Brasil, trabalhei como professor de espanhol e de Linguística em renomadas instituições e tenho experiência de ensino tanto na Graduação quanto na Pós-Graduação de forma presencial e online.
ICONOGRÁFICOS
Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que:
INTRODUÇÃO:
para o início do desenvolvimento de uma nova compe- tência;
DEFINIÇÃO:
houver necessidade de se apresentar um novo conceito;
NOTA:
quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento;
IMPORTANTE:
as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você;
EXPLICANDO MELHOR:
algo precisa ser melhor explicado ou detalhado;
VOCÊ SABIA?
curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias;
SAIBA MAIS:
textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento;
REFLITA:
se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou dis- cutido sobre;
ACESSE:
se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast;
RESUMINDO:
quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últi- mas abordagens;
ATIVIDADES:
quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada;
TESTANDO:
quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas;
SUMÁRIO
A Origem da Escrita: Como Tudo Começou ... 10
Os Primeiros Resquícios da Escrita ...10
A Escrita Como Base Para a Oralidade ...16
Breve Histórico da Leitura no Ocidente... 19
A Oralidade na Antiguidade Clássica ... 19
A Dinâmica da Oralidade ...23
A Leitura no Ocidente da Idade Média até os Dias de Hoje ...25
Breve Histórico da Escrita no Ocidente ...28
A Escrita na Antiguidade Clássica ...28
A Escrita Tomada de Forma Consciente ...34
A Escrita nos Dias de Hoje ...35
Texto e Contexto ...38
Texto ... 38
Contexto ...44
A ORIGEM DA ESCRITA: COMO TUDO COMEÇOU
UNIDADE
01
INTRODUÇÃO
Conhecer a estrutura da escrita e da oralidade é um processo um tanto quanto prazeroso porque começamos a entender os “mecanismos”
dos idiomas, estudamos desde o processo da arte pictórica até as novas tecnologias.
Nos dias de hoje, tanto a escrita quanto a oralidade se complementam, mas isso nem sempre foi assim: durante a Retórica Clássica, a escrita foi severamente criticada e demorou muito tempo para ser utilizada.
Encontramos mais estudos relacionados a escrita do que a oralidade e isso se deve porque era mais prático analisar algo que já estava registrado e é por conta disso que pouco se sabe sobre as línguas ágrafas, ou seja, línguas que não possuem uma forma escrita.
Com o passar do tempo e como o desenvolvimento da língua, a definição de texto teve de sofrer profundas transformações e dentro da própria Linguística Textual (LT), a sua definição foi se adaptando até chegar a um conjunto de interações que necessita de um contexto para a sua correta produção da mensagem.
Um contexto é um elemento que deve estar ligado ao texto pois é através deve que os indivíduos compartilham saberes e experiências vividas ao longo dos anos. Tanto o texto quanto o contexto são elementos fundamentais no processo de interpretação textual.
OBJETIVOS
Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso propósito é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos:
1. Entender e identificar primeiros resquícios da escrita;
2. Pensar sobre a formação da leitura no Ocidente;
3. Pensar sobre a formação da escrita no Ocidente;
4. Aprender noções de Texto e Contexto.
Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento?
Ao trabalho!
A Origem da Escrita: Como Tudo Começou
INTRODUÇÃO:
Estimado aluno, ao término desta seção você será capaz de entender a arte rupestre como manifestação escrita. Você também vai estudar como ela se divide e que aspectos linguísticos e interacionais estão por trás das mesmas.
Também serão estudados o conhecimento coletivo e as crenças individuais dos indivíduos de uma determinada comunidade linguística. Para finalizar, você começará a entender a relação da escrita com a oralidade.
Os Primeiros Resquícios da Escrita
Provavelmente, você deve conhecer alguma coisa sobre a origem da escrita, não é mesmo? Os primeiros registros da escrita são datados desde a Pré-História com a arte rupestre.
Esse tipo de arte consistia em fazer “desenhos” relatando o cotidiano da sociedade da época. Naquele período não existia sistema alfabético e as pessoas registravam suas atividades dentro das cavernas. Segundo o Portal São Francisco (2018), cientistas classificaram a arte rupestre em três grandes grupos:
• Pintura Zoomórfica
Esse tipo de pintura se relaciona diretamente com os animais sendo caçados ou em rituais.
• Pintura Antropomórfica
Esse tipo de pintura está diretamente vinculado com o cotidiano dos indivíduos daquela época, como por exemplo: caça, rituais, práticas sexuais etc.
• Símbolos
Os cientistas criaram esse terceiro grupo porque não conseguiram criar mais subgrupos visto que nessa classificação inclui tudo aquilo que não é pintura Zoomórfica e Antropomórfica.
De acordo com o avanço tecnológico, os cientistas comprovaram que essas pinturas realmente datavam dessa época. Isso representou um grande avanço, porque, segundo o Portal São Francisco (2018), pensava- se que essas pinturas rupestres eram da Idade Média.
Bem, deixando um pouco de lado a História, precisamos entender um fenômeno linguístico muito importante que é o contexto.
Provavelmente, essas pinturas não foram registradas exclusivamente nos momentos de ócio da sociedade naquela época, não é mesmo? Veja bem, existe um por que para isso. É importante que você entenda que essas pinturas não foram feitas de forma arbitrária, ou seja, elas pertenciam a um determinado contexto.
No que diz respeito ao estudo do contexto, Greimas é um dos teóricos mais respeitados nessa área. A partir de sua Semiótica Narrativa e Discursiva, dito autor tenta estabelecer uma relação entre o discurso e a situação ao qual o mesmo é produzido, ou seja, um contexto.
Greimas (2008) afirma que a elaboração de um discurso deve conter marcos de referências para o seu significado. Foi a partir de então que o estudo do contexto começou a ser estudado com maior intensidade. Para entender melhor o que está sendo abordado, observe a figura abaixo:
Figura 1 : Arte Rupestre
Fonte: @pixabay.
A figura acima, ou seja, a figura 1, representa de forma prática o que estamos querendo transmitir sobre o discurso e o contexto. Veja bem, ao analisar essa figura, o que você consegue ver? Podemos ver claramente algumas pessoas com lanças, não é mesmo? E além disso, nós também podemos ver a presença de animais.
Então, poderíamos entender através de seu contexto e também do que estamos vendo que isso se trata de uma caça, ou seja, essas pessoas estão caçando esse animal para se alimentarem. O que foi exposto anteriormente sobre o comentário de Greimas (2008) é que deve existir um marco de referência para o seu significado, ou seja, visualizamos alguns homens com lanças e um animal, portanto, entendemos que isso se trata de uma caça e captamos esse contexto por causa da referência que temos sobre o assunto, que é a origem e formação da arte rupestre.
A noção de contexto proposta por Greimas (2008) se vincula muito bem com a análise que estamos fazendo das pinturas rupestres, pois além dele levar em consideração o contexto de produção, ele também leva em conta a concepção da cultura como produtor de significado, ou seja, na Pré-História, a caça, assim como rituais envolvendo animais eram bastantes comuns naquela época, por isso, isso deve ser levado em consideração como um aspecto cultural daquela época. É importante esclarecer que isso também envolve os aspectos sociais daquela época, não se esqueça que o que era pintado retratava o cotidiano deles.
Sem a menor dúvida, Greimas contribuiu de forma significativa para o desenvolvimento do termo contexto, no entanto, Van Dijk desenvolveu essa teoria de forma mais profunda. Antes de falarmos desse autor, você precisa entender um pouco mais sobre crenças.
Levando em consideração o período da Pré-história, sabemos que a linguagem implica em um tipo de meio de transmissão de mensagens entre membros de uma comunidade e ela se compõe através de vários fatores, como por exemplo:
• Através do seu comportamento;
• Uso de imagens;
• Ações comunicativas.
As ações comunicativas e o comportamento estão estreitamente relacionados visto que se trata de como o indivíduo interage em seu grupo linguístico, se ele é aceito pelo grupo ou não. Com respeito ao uso das imagens, entende-se esse recurso como forma de comunicação.
Segundo Raiter (2003), a relação entre sentido comum e crenças é algo muito dinâmico, no entanto, são mecanismos diferentes, onde:
• O sentido comum é algo social, ou seja, é algo que é comum para toda a comunidade linguística.
• As crenças são consideradas individuais, no entanto, uma determinada crença pode ser compartilhada.
Figura 2 : Sentido Comum (Coletividade)
Fonte: @pixabay.
Diante do exposto, Gramsi (1975) nos faz questionar sobre o estrato social da sociedade (estamos levando em consideração o período da pré-história), como os clãs eram organizados e o que significava sentido comum para eles. Por outro lado, também deve-se levar em consideração que aspectos eram levados em consideração para a formação do sentido comum, como por exemplo:
• Ritualísticos;
• Religiosos;
• Culturais.
O sentido comum para a formação de uma sociedade na época da Pré-História representa a base para todo o seu entendimento, pois se o sentido comum não tivesse sido descoberto, seria impossível o seu entendimento.
Nas pinturas rupestres, podemos entender o sistema comum através dos próprios desenhos, pois eles, em sua grande maioria representam práticas do cotidiano.
Segundo Raiter (2003), para formar um sentido comum de uma determinada comunidade, devem estar presentes as crenças individuais dos membros dessa comunidade. Esse questionamento de sentido comum e crença é encontrado em Saussure (1914), onde o mesmo trabalha os elementos sociais e individuais, em outras palavras, o sentido comum e a crença individual.
Figura 3 : Crenças
Fonte: @pixabay.
Sem dúvidas, podemos entender que na Pré-História existia uma comunidade linguística e que segundo Gumperz (1962), representam um conjunto de indivíduos entre si e que ocupam um determinado território.
Uma comunidade linguística pode estar disposta de várias formas, ou seja, não podemos restringi-la, também deve-se levar em conta os aspectos individuais de cada indivíduo.
Para que você entenda um pouco sobre a complexidade de uma comunidade linguística, é necessário entender que ela pode ser monolíngue e bilíngue ao mesmo tempo, mas como assim? Tomemos o exemplo da Espanha: em Madrid supostamente fala-se somente espanhol, no entanto, quando levamos em consideração a Comunidade Autônoma da Catalunha, por exemplo, nos damos conta que essa comunidade linguística é bilíngue, ou seja, eles falam o espanhol que é o idioma oficial do país e ao mesmo tempo, eles falam catalão, que é o idioma oficial da Catalunha, portanto, é um erro pensar que uma comunidade linguística é homogênea.
Por mais que no período da Pré-História dois ou mais grupos de setores sociais diferentes usem códigos diferentes, deve-se destacar que eles se comunicam e certamente deve existir um ponto comum de entendimento. Para Hymes (1964), os membros de uma determinada comunidade linguística participam/participara alguma vez de algum evento comunicativo de superioridade e subordinação, ou seja, os indivíduos vivenciaram pelo menos uma vez ambos papéis.
Veja bem, dentro de um sentido comum, na comunidade linguística da época, cada membro da comunidade linguística tinha um papel já definido, estabelecido e os conteúdos criados através do sistema de crenças não são constantes visto que cada indivíduo pode mudar a sua forma de ver o mundo assim como de se relacionar com as pessoas.
De acordo com Raiter (2003), não é difícil internalizar o sentido comum de uma dada comunidade linguística, mesmo porque aos poucos isso vai acontecendo de maneira natural. Tanto o sentido comum quando as crenças individuais agregam no enriquecimento cultural de uma determinada comunidade linguística e isso varia de acordo com as experiências pessoais de cada indivíduo mesmo quando exista diferenças hierárquicas nos distintos grupos.
A Escrita Como Base Para a Oralidade
Vimos anteriormente como se deu a formação a um nível mais linguístico da arte rupestre. Trabalhamos diretamente com o sentido comum e as crenças individuais para a formação da escrita para a sociedade de época. Nessa parte, veremos como se deu a formação da oralidade no Ocidente e relacioná-la com a escrita.
A oralidade representa uma das formas de comunicação mais eficientes entre os seres humanos, segundo Ong (1987), diversos cientistas como antropólogos e sociólogos aprofundaram suas investigações no campo da oralidade e muitos deles começaram a estudar essa forma de comunicação desde a Pré-História.
Saussure (1914) elaborou teorias extremamente úteis para o desenvolvimento da Linguística como ciência afirmando que as palavras não são compostas por letras, senão por unidades funcionais de som ou de fonema.
É interessante destacar que a corrente Estruturalista foi uma das primeiras correntes a estudar com mais detalhe a oralidade, no entanto, ao estudá-la, dita corrente não contrasta com a escrita. Poderíamos considerar isso como um estudo incompleto visto que tanto a oralidade quanto a escrita caminham de mãos dadas. A oralidade estudada, segundo Ong (1987), é considerada primária, a oralidade de pessoas que não conhecem a escrita.
Avançando um pouco mais no tempo, tanto a Linguística Aplicada quanto a Sociolinguística contrastam a oralidade primária com a expressão escrita. Ong (1987) afirma que o contraste entre os modos orais e escritos foram estudados com maior magnitude pelos estudos literários através do trabalho de Parry. Dito autor também afirma que a comunicação apresenta diversas faces, dentre as quais podemos citar a comunicação não verbal (gestos faciais, fala etc). Não obstante, tendo em conta a comunicação não verbal, elas podem ser as substitutas da escrita, porém, ela depende de sistemas orais.
Quando pensamos em um idioma hoje em dia, pensamos automaticamente que esse idioma é formado pela escrita e pela fala, não é mesmo? Pois é, na Antiguidade, existiam línguas ágrafas.
VOCÊ SABIA?
Você sabia que na Antiguidade existiam várias línguas ágrafas? Esse termo significa que essas línguas só eram compostas por um sistema oral de comunicação.
Com respeito a oralidade e a escrita, Ong (1987) afirma que:
• Os textos escritos estão relacionados de alguma maneira com os sons, portanto, a oralidade;
• Ler um texto significa convertê-lo em sons;
• Ler um texto significa convertê-lo em sílabas.
Estudos antropológicos e etnográficos apontam que as raízes orais de toda a articulação verbal foram evitadas durante o processo investigativo, porque a oralidade foi vista por muito tempo como uma variante da produção escrita, ou seja, para esses estudiosos, a oralidade sempre dependeu da escrita.
Segundo Ong (1987), a escrita teve mais importância do que a oralidade porque o seu estudo era mais fácil e prático visto que estudar a oralidade de uma determinada comunidade linguística resultava bastante complexo entender toda a formação dialetal de uma determinada língua.
Já imaginou estudar o processo da oralidade das línguas ágrafas na Antiguidade? Seria bastante difícil, não é mesmo? Principalmente se levarmos em consideração a variação linguística.
A Literatura representa um aspecto muito importante no desenvolvimento e criação de uma língua. Isso foi exatamente o que aconteceu com o grego. Essa língua clássica é derivada da cultura fenícia e aos poucos ela foi se estabelecendo como idioma e um dos pontos mais cruciais nesse processo foi o desenvolvimento da sua própria literatura, tanto na oralidade quanto na escrita.
Ainda falando sobre a Grécia, podemos citar o desenvolvimento da Retórica (que se dava de forma oral). Essa ciência que significa a arte de falar se referia ao discurso oral e o mais curioso é que é considerado um produto da escrita. Ong (1987).
IMPORTANTE:
Não se esqueça que a Retórica está relacionada com o discurso público e a oratória e mesmo com o desenvolvimento da escrita, essa prática durou séculos.
RESUMINDO:
Nesta primeira seção, estudamos a arte rupestre como primeira manifestação da escrita datada desde a Pré- História, vimos também que elementos como o contexto nos ajudam a entender uma mensagem assim como o conhecimento compartilhado e as crenças individuais como componentes de um discurso. Por fim, vimos brevemente o desenvolvimento na escrita no ocidente. Vimos que no início, a Linguística estuda basicamente a escrita, mas logo a Oralidade foi sendo alvo de estudo dos mesmos. Até a próxima!
Breve Histórico da Leitura no Ocidente
INTRODUÇÃO:
Estimado aluno, ao término desta seção você será capaz de entender a prática da oralidade relacionada com a Retórica assim como as principais características dessa ciência. Você também estudará a classificação da oralidade e o porquê dela se dividir dessa forma. Você também verá uma prática dos povos originários que era passada somente através da oralidade e passou para a escrita. Por fim, você estudará um breve recorrido da leitura durante a Idade Média até os dias de hoje. .
A Oralidade na Antiguidade Clássica
No tópico anterior, você começou a entender a relação da escrita com a oralidade. Seguindo o raciocínio sobre a oralidade e a Retórica, percebemos que na Grécia Antiga, a escrita também foi desenvolvida e o fato do seu desenvolvimento não comprometeu a oralidade, na verdade, intensificou. Intensificou no sentido de organizar a oratória de forma mais sistemática, dando forma a ciência em questão.
Um dos pontos a serem levados em conta durante a Retórica era que depois que um discurso era pronunciado, não existia nenhum recurso para ser analisado visto que o mesmo já foi proferido. Portanto, a escrita se tornou um aliado da oralidade.
De acordo com a informação supracitada, podemos entender melhor porque a escrita foi mais estudada e mais analisada do que a oralidade: muitas características da oralidade se perderam com o tempo, pois não havia outra forma de registro, como é o caso das línguas ágrafas.
Na Grécia Antiga (com o passar do tempo), os discursos orais passaram a ser transcritos e isso fez com que o texto passasse a ser alvo de estudo, alvo de investigação. Esse tipo de investigação, como já foi mencionado anteriormente, era considerado de fácil acesso visto que estava tudo registrado.
Segundo Cohen (1977), a partir do século XVI, as relações entre fala e escrita foram estudadas com maior complexidade e chegaram a conclusão que ambas possuem laços estreitos durante o processo comunicacional de uma determinada comunidade linguística.
Retomaremos gora o tema oralidade primária para dar continuidade ao seu estudo. Vimos que a oralidade primária é uma prática que não é muito fácil de identificar com precisão, pois ela carece do conhecimento da escrita. Para Ong (1987), essa oralidade é chamada de primária por possuir recursos primitivos, ou seja, não possui um sistema escrito. Por outro lado, segundo o autor, existe a oralidade secundária, que é exatamente o que vivenciamos hoje com o avanço tecnológico.
Figura 4 : Tipos de oralidade
Fonte: Adaptado de Ong (1987).
Podemos inclusive afirmar que a oralidade primária praticamente não existe (falando de um sentido mais amplo), a oralidade secundária passou a estar presente na grande maioria dos idiomas graças aos recursos tecnológicos, como por exemplo:
• Celular;
• Computador;
• Aplicativos;
• Recursos Audiovisuais.
IMPORTANTE:
Quase todas as culturas têm acesso a esse recurso tecnológico e é por esse motivo que podemos afirmar que estamos passando por um processo de oralidade secundária.
Quando falamos da cultura oral, devemos ter em conta que durante muito tempo várias tradições foram passadas de geração para geração de forma oral. A grande desvantagem é que os detentores desse saber eram só aqueles que foram escolhidos, ou seja, um determinado saber era limitado levando em consideração uma comunidade linguística.
Como vimos anteriormente, a tradição oral não possui nenhum caráter de permanência, se levarmos em consideração uma narração ou algum traço característico de algum povo expresso de forma oral, percebemos claramente que essa parte cultural se perde através do tempo, impossibilitando o seu conhecimento pelas próximas gerações.
Para que você entenda de forma mais específica, vejamos o seguinte exemplo. Lembra que há alguns anos passou na televisão uma reportagem sobre uma comunidade linguística localizada no Brasil que praticamente não usava os textos escritos?
Figura 5 : Povos originários
Fonte: @pixabay.
Pois é, essa comunidade indígena, principalmente o curandeiro dominava a arte de cura e tratamento de determinadas doenças dentro de sua comunidade. Essa tradição (no que diz respeito às ervas utilizadas para o tratamento de doenças) só era passada de forma oral até que foi decidido escrever um livro sobre o uso de ervas específicas no tratamento de doenças.
ACESSE:
Veja um exemplo do que está sendo mencionado com respeito a cura através das ervas. Disponível em: https://bit.
ly/3k3KbWb
Por mais que a escrita esteja diretamente relacionada com a oralidade, Ong (1987) defende que apesar das palavras serem também trabalhadas na forma oral, a escrita as limita para sempre em um campo visual.
De acordo com o comentário do autor, podemos entender que para a oralidade não existem limites, podemos expressar o que quisermos e da forma que quisermos, usando os recursos prosódicos do nosso próprio idioma, por exemplo. Já no caso da escrita, o autor afirma que é algo muito limitante, ou seja, a oralidade é passada para um papel formando um conjunto de letras e portanto, o que foi pronunciado fica preso, limitado no mundo da escrita.
A literatura possui um papel muito importante na oralidade das comunidades linguísticas. Quem nunca quando era criança estórias contadas por nossos familiares? Muitas dessas estórias eles realmente já conheciam, era consideradas clássicas, como por exemplo:
• Chapeuzinho Vermelho;
• João e Maria;
• João e o pé de feijão.
No entanto, a Literatura oral não ficava só por aí, o mais interessante de tudo isso eram as estórias inventadas pelos nossos familiares. Essas estórias que foram/são construídas por eles representam vários aspectos de suas crenças e conhecimentos compartilhados, já parou para pensar nisso?
Se uma criança mora no Nordeste brasileiro ouve uma estória criada pelo seu pai, muito provavelmente, ele vai colocar elementos que está a seu entorno visto que o pai da criança pode ter tidos certas
experiências de vida e agora está compartilhando com seu filho, ou seja, dificilmente o pai dessa criança vai inventar uma história que envolva neve, por exemplo, provavelmente ele vai retratar a cena do cotidiano da sua própria comunidade linguística. Interessante, não é mesmo?
Figura 6 : Literatura Fantástica
Fonte: @pixabay.
A Dinâmica da Oralidade
O termo consultar um texto escrito é algo inexistente dentro de uma cultura oral, pois se tratando de uma língua ágrafa, como se dará esse processo? A oralidade está muito mais além da pronúncia, as palavras são sons e esses sons não podem ser vistos pelo alfabeto gráfico.
De acordo com Ong (1987), as comunidades orais geralmente consideram os nomes como classes de palavras e que ao mesmo tempo conferem poder sobre as coisas e isso, segundo o autor, pode ser provado na Bíblia, onde Adão, começou a colocar nome aos animais.
É importante destacar que uma coisa que está sendo nomeada se dá graças ao poder que o homem tem em fazê-la e sem nomear as coisas, o processo de compreensão fica comprometido, pois não existe um nome específico, um termo específico que descreve um determinado fenômeno.
Já que uma cultura oral não dispõe de texto, Ong (1987) faz os seguintes questionamentos:
• Como o material é organizado para ser lembrado ao curto, médio e longo prazo?
• O que se entende como material organizado, estruturado na oralidade?
Para esse tipo de “problema”, existe uma técnica conhecida como mnemónica que foi formulada para a repetição oral. O pensamento do indivíduo deve estar conectado com o que deve ser memorizado e recursos como antíteses, rimas, repetições e alternâncias são usados nesse processo.
A memória representa uma qualidade bastante apreciada nas culturas orais visto que não tem como escrever. Já em uma comunidade cujo se conhece a escrita, a memória se dá através de exercícios relacionados com o texto escrito.
Figura 7 : Memória
Fonte: @pixabay.
A Leitura no Ocidente da Idade Média até os Dias de Hoje
A oralidade é algo que está muito relacionado com a leitura e para poder ler, você também precisa saber escrever, não é mesmo? Dentro da Idade Média estudaremos a Literatura a título de exemplo.
A Literatura nesse período aconteceu entre os séculos V e XV até o início do Renascimento. O sistema daquela época era o sistema feudal e as pessoas eram autossuficientes. Naquela época, somente os membros da igreja e as pessoas avantajadas de dinheiro tinham acesso à educação, sem contar as mulheres que não tinham direito a aprender.
Nesse período, como já foi mencionado, pouquíssimas pessoas tiveram acesso à educação e foi por esse motivo que a linguagem e o entendimento racional das pessoas foram manipulados, já que a maioria não sabia nem ler nem escrever.
Como prova disso, houve um movimento literário conhecido como Trovadorismo. Esse movimento foi considerado o primeiro em língua portuguesa.
Esse movimento surgiu na França, mas logo se espalhou por toda a Europa e existe um ponto muito importante a ser lembrado é que esse movimento sofria muita interferência da igreja, assim que, os temas abordados eram regulados.
Podemos considerar esse movimento literário mais voltado para a oralidade visto que como a maioria das pessoas eram analfabetas, eles não podiam ler textos.
O Trovadorismo se caracteriza pelo uso do latim (em muitos casos) e também pelo relato de eventos históricos (sempre sendo regulados pela igreja).
ACESSE:
O que acha de conhecer um pouco mais sobre o Trovadorismo? Acesse o link e conheça uma música típica cantada em galego/português. Disponível em: https://bit.
ly/3eCcUQH
Para você entender melhor o Trovadorismo e suas principais características, assim como ele se dá em outros idiomas, veja um trecho feito em língua espanhola:
CANCIÓN
Haré un poema sobre nada:
no es de amor ni de amada, no tiene salida ni entrada, sino que lo hallo
dormitando por la calzada en mi caballo.
Yo no sé cuándo fui alumbrado, no soy alegre ni amargado, no soy hablador ni callado, ni te hago caso,
porque acepto que todo es dado como un acaso.
No sé a qué hora me adormecí, al despertar, muy poco vi, mi corazón casi partí […]
Guillaume de Poitiers (1071 – 1126).
Dando um enorme salto até os dias de hoje, percebemos que a maioria das civilizações apresentam uma língua que abarca a oralidade e a escrita. Até muito pouco tempo, a mulher não tinha acesso à educação, mas nos dias de hoje esse cenário mudou e o avanço tecnológico faz com que as pessoas estejam cada vez mais conectadas.
Sabemos que a tecnologia nos proporciona inúmeras vantagens, como por exemplo a aproximação virtual de pessoas que moram distantes, mas até que ponto a tecnologia pode influenciar em nossas vidas? Será que o uso do celular e consequentemente o uso de emoticons está fazendo com que retrocedamos ao período pictográfico da história da escrita?
RESUMINDO:
Vimos na segunda seção o desenvolvimento da oralidade na Antiguidade e quais estratégias eram realizadas para a memorização. Vimos que as línguas que se constituíam somente através da oralidade tinham as suas próprias características e que nem tudo chegou ao conhecimento das seguintes gerações por não ter nada registrado. Por outro lado, vimos rapidamente a oralidade na Idade Média através de um movimento literário chamado Trovadorismo.
Vimos que atualmente tanto a escrita quanto a leitura se tornaram algo mais acessível para as comunidades linguísticas.
Breve Histórico da Escrita no Ocidente
INTRODUÇÃO:
Estimado aluno, ao término desta seção você será capaz de entender de forma resumida como se deu o desenvolvimento da escrita na Antiguidade Clássica assim como a sua relação com a oralidade. Você também estudará como a escrita era vista na Idade Média e quem tinha acesso a ela. Por último, você será levado a fazer uma reflexão sobre o uso da escrita e o desenvolvimento das novas tecnologias.
A Escrita na Antiguidade Clássica
É correto afirmar que a escrita é um dos processos de ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras, no entanto, devemos levar em consideração inclusive o nosso idioma materno, que é o português brasileiro.
Por muito tempo, a escrita foi bastante criticada no período da Antiguidade Clássica. Hirsch (1977) afirma que naquela época a escrita era vista como:
• Um discurso autônomo onde não se podia questioná-lo diretamente como é na fala;
• O discurso escrito está sempre separado do seu autor.
Veja bem, nos dias em que vivemos, poderíamos rebater de forma bastante sólida esses questionamentos, não é mesmo? Para começar, graças ao avanço tecnológico, um texto escrito pode ser facilmente questionado: podemos enviar comentários para o autor de uma obra através de um e-mail, por exemplo. Falando das redes sociais, podemos inclusive interagir com o autor em tempo real, enfim, esse questionamento perdeu a sua força no século em que vivemos.
Por outro lado, temos o questionamento de que o discurso escrito sempre está separado do seu autor. Como vimos anteriormente, os recursos tecnológicos que temos hoje nos aproxima ainda mais do autor de uma obra, podendo inclusive ter contato com a editora se assim o desejarmos.
Em suma, a principal críticas daqueles não adeptos ao uso da escrita é que o texto escrito não poderia ser refutado de forma direta. Essa não aceitação da escrita foi inclusive reforçada por Platão, onde na Sétima Carta, ele considera que a escrita é:
• Inumana, ou seja, não é natural do ser humano;
• Destrói a memória;
• Debilita o pensamento;
• Não produz respostas.
Podemos ver que esses comentários emitidos por Platão se parecem muito ao comentados anteriormente, não é mesmo? Levando em consideração a prática da Retórica, Platão ainda complementa:
• A palavra escrita não pode se defender.
IMPORTANTE:
Note que esse comentário faz com que entendamos que ele defendia a Retórica Clássica, o jogo de palavras, a oralidade. Isso é visto de forma clara porque na Retórica Clássica, as pessoas argumentavam, expunham os seus pontos de vistas e ao mesmo tempo eram questionadas.
Vimos que Platão criticou fortemente a escrita e o seu uso, mas você como ele chegou a fazer essas críticas? Por incrível que pareça, os seus comentários negativos com respeito ao uso da escrita foram feitos de forma escrita! É um pouco contraditório, não é mesmo?
Ainda relacionando a escrita com a Retórica Clássica, Platão dizia que a escrita destruía a memória, mas será que isso realmente é
condizente? Até que ponto a memória humana pode ser afetada com o exercício da escrita?
Devido à nossa correria do dia a dia, precisamos escrever as nossas atividades em algum lado se não nos esquecemos, não é mesmo? A grande vantagem dos avanços tecnológicos é que podemos escrever uma nota no nosso celular e o próprio aparelho nos lembra do compromisso que temos por meio de alarmes.
REFLITA:
Levando em considerando os dias de hoje, será que a escrita afetou de forma negativa a nossa memória ou foram as nossas atividades cotidianas que foram aumentando e precisamos registrá-las em algum lugar?
Se compararmos o processo de escrita antigamente com o de hoje, percebemos claramente uma acentuada diferença. Para escrever, antigamente era necessária uma série ferramentas, dentre os quais podemos citar:
• Estilos de escrita;
• Pincéis;
• Tintas;
• Papel;
• Pele de animal.
Figura 8 : Pergaminho
Fonte: @pixabay.
DEFINIÇÃO:
Entende-se pergaminho como um suporte de escrita usado pelas civilizações antigas. O pergaminho era feito através da pele de animais, podendo ser de boi, cordeiro, etc.
Nos dias de hoje, um aparelho celular consegue resolver o nosso problema: é possível enviar uma mensagem de texto e ser respondido em tempo real, coisa que nem se pensava antigamente.
Figura 9 : Mensagem de texto
Fonte: @pixabay.
Naquela época também se pensava que a escrita era algo artificial.
A escrita tinha essa característica porque ela não era considerada um processo natural e evolutivo do ser humano: ele tinha de aprender as letras e a ordem das palavras para poder se comunicar.
Ora, acontece mais ou menos o mesmo com a oralidade. Ninguém nasce sabendo falar! Se uma criança tem pais surdos e se a mesma não for estimulada, provavelmente ela terá problemas de linguagem visto que a sua oralidade não foi estimulada da forma que deveria ser.
A fala era mais levada em conta porque era mais consciente, ou seja, o falante sabia exatamente o que estava falando e por que estava falando.
Segundo Ong (1987), as regras gramaticais já eram algo inconsciente, pois uma vez memorizada:
• Podia-se aplicá-las de forma quase que automática;
• Por meio da lógica e comparação, o indivíduo poderia inclusive prever algumas regras gramaticais.
Figura 10 : Lógica
Fonte: @pixabay.
Ong (1987) também destaca que a escrita se difere da fala porque ela não surge do inconsciente: para escrever uma língua falada deve-se levar em consideração uma série de fatores dentre os quais podemos citar as classes de palavras e as regras gramaticais. Em linhas gerais, dito autor resume que afirmar que a escrita é um processo artificial, na verdade representa um elogio para a mesma visto que as estruturas gramaticais tiveram de ser criadas e o indivíduo teve de memorizá-las e aplicá-las em um dado contexto.
Se pararmos para pensar (e como já foi mencionado anteriormente), o estudo da escrita se deu de forma muito tardia, os cientistas sempre acharam conveniente estudar os textos escritos porque eles estavam dispostos de uma forma mais acessível. Já a oralidade, entender o comportamento de uma determinada comunidade linguística, como por exemplo as comunidades que não tinham nenhum tipo de grafia era uma tarefa bem mais complexa.
Na verdade, a escrita surgiu graças a uma grande necessidade de comunicação e com o passar dos séculos foram surgindo mais e mais necessidades e cada vez mais, a escrita foi tendo a sua devida importância.
Segundo Ong (1987), a grande maioria das grafias existentes desde os primórdios se baseiam de forma direta ou indireta a alguma forma pictográfica.
Supostamente, a primeira grafia propriamente dita é a escrita cuneiforme e ela surgiu através de uma necessidade iminente: a necessidade de se comunicar. Inicialmente, a escrita cuneiforme surgiu para controlar as transações comerciais e os dados eram registrados na argila.
Com o passar do tempo, a sociedade sofreu um processo de urbanização e consequentemente houve a necessidade de criar códigos fixos para facilitar a compreensão de todos e aumentar a lucratividade.
IMPORTANTE:
Nos dias de hoje, quando pensamos em alguma língua, a primeira coisa que vem a nossa cabeça é a estrutura do alfabeto. Não devemos nos esquecer que em uma língua, o alfabeto pode ser dividido em fonético e gráfico. Levando em consideração a língua espanhola, o alfabeto gráfico são aquelas letras que nós já conhecemos e o alfabeto fonético representa um sistema de transcrição específico para representar os sons de uma língua.
Veja bem, o estudo do alfabeto fonético nos faz entrelaçar ainda mais a escrita com a oralidade porquê de uma certa forma vemos a escrita dependente da oralidade e vice-versa.
De acordo com Ong (1987), o alfabeto fonético foi inventado inicialmente pelos semitas e logo em seguida foi aperfeiçoado pelos gregos. Com esse aperfeiçoamento, o sistema de escrita se tornaram mais flexíveis e por outro lado, o estudo dos sons passou a ser abordado de uma forma mais sincrônica com a grafia.
A Escrita Tomada de Forma Consciente
Dando um salto e falando da Idade Média, percebemos que também nesse período a escrita também era considerada um grande tabu. Saber escrever, naquela época, era um privilégio para poucos, ou seja, era reduzido para os grupos mais nobres como a igreja, exemplo.
Como vimos anteriormente, os textos dessa época tinham um valor muito religioso e eram regulados pela igreja. Vimos anteriormente também que o Trovadorismo foi uma escola literária foi desenvolvida na Idade Média e a principal característica dessa escola é que ela era composta basicamente por músicas.
A sociedade daquela época fez com que os analfabetos acreditassem que os documentos escritos eram bruxaria para não despertar o interesse dos mesmos. Isso se deu principalmente com os papéis comerciais para que os analfabetos não conhecessem as cifras.
Figura 11 : A escrita na Idade Média
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A Escrita nos Dias de Hoje
Enquanto antigamente as pessoas confiavam na palavra do outro, nos dias de hoje acontece exatamente o contrário. Ong (1987) afirma que uma pessoa alfabetizada nos dias de hoje geralmente acredita que a escrita tem mais força do que a palavra: já imaginou comprar uma casa sem assinar papéis?
Se pensarmos desde outra perspectiva, acontece exatamente o oposto nas culturas mais antigas, onde o que prevalecia era a oralidade.
Eles poderiam inclusive conhecer a escrita, porém, “não confiavam nela”.
Em síntese, podemos afirmar que o grau de credibilidade no que diz respeito à escrita pode variar de acordo com a experiência de cada povo.
No século em que vivemos, ou seja, no século XXI, estamos passando por uma transformação ainda mais profunda que é a substituição gradual pelos dispositivos eletrônicos. Para a nova geração, isso é encarado de forma natural visto que à medida que eles nascem e crescem, novos softwares estão sendo criados e atualizados para satisfazer as necessidades do indivíduo.
Figura 12 : Dispositivos eletrônicos
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Devemos levar em consideração que o uso descontrolado dos recursos tecnológicos nem sempre pode ser positivo para o indivíduo. É certo que o acesso à internet e o uso de mensagens instantâneas facilitam as nossas vidas por causa da correria do cotidiano, porém, não devemos nos tornar escravos dos recursos tecnológicos.
Figura 13 : Tecnologia
Fonte: @pixabay.
As pessoas mais velhas que estão acostumadas com o papel sofrem de uma certa forma com o avanço tecnológico porque muitos deles ainda preferem o uso do papel, principalmente para anotações pessoais.
O avanço tecnológico fez com a escrita tivesse uma mudança drástico no que diz respeito à concepção do texto. Graças ao desenvolvimento dos elementos gráficos, novos termos foram sendo criados, como por exemplo o paratexto verbal e o paratexto icônico. Em outras palavras, o texto não apresenta mais a mesma configuração que apresentava antes.
Figura 14 : O surgimento dos emoticons na era tecnológica
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É importante entender que a língua está em constante transformação e que novos recursos de interação verbal e não verbal estão sendo desenvolvidos pelo ser humano para satisfazer essa necessidade de comunicação.
RESUMINDO:
Nesta terceira seção, trabalhamos o desenvolvimento da escrita desde a Antiguidade até os dias atuais. Vimos que a escrita foi bastante criticada pela Retórica Clássica, no entanto, com o passar dos séculos, a escrita foi tomando um novo rumo em sua história. Vimos também que no próprio século em que vivemos estamos passando por grandes transformações no que diz respeito a transição do papel para os meios digitais, os meios tecnológicos.
Texto e Contexto
INTRODUÇÃO:
Estimado aluno, ao término desta seção você será capaz de entender com maiores detalhes a noção de texto, levando em consideração os estudos da Linguística Textual e contexto, proposta desenvolvida por Van Dijk (2012). Com essas ferramentas, você passará a entender a interação entre indivíduos com maior criticidade e os elementos que a compõem.
Texto
Nessa última seção, vamos estudar o significado de texto e contexto e sua evolução ao longo dos anos.
Na verdade, conceituar um texto não é uma tarefa muito fácil quanto parece, várias teorias foram surgindo e como consequência a definição de texto foi sendo aprimorada.
De acordo com a Teoria da Linguística Textual, o texto é unidade linguística que é maior que uma frase. Para que isso aconteça, uma frase tem de combinar com a outra.
IMPORTANTE:
A Linguística Textual (LT) é uma área da Linguística que surgiu na Europa na década de 60 tendo como seus principais precursores Halliday, Ducrot, Harris etc.
As investigações pertinentes à essa ciência mudaram a forma de ver e interpretar um texto visto que elas se basearam em três grandes linhas de estudo:
Figura 15 : Linhas de estudo da Linguística Textual (LT)
Fonte: Adaptado de Rocha (2017).
O fato de a LT definir o texto baseado em três grandes pilares já representa um grande avanço em sua definição visto que o texto era visto como um conjunto de frases.
Em linhas gerais, segundo Favero e Koch (2000), o estudo do texto passou a ter uma perspectiva mais interacional. É interessante destacar que no início da LT, essa ciência se preocupava mais com os aspectos sintático-semânticos da língua e não com o texto como unidade macro.
Isso durou até o começo dos anos 70, quando, segundo Koch (2000) começa a estudar o texto como unidade básica de sentido.
Com o passar dos anos, foi somente a partir da década de 80 que a LT começou a estudar o texto da forma que estuda até os dias de hoje, ou seja, desenvolvendo uma teoria textual consistente.
A partir de então ao Linguística Textual (LT) começa a entender o texto como uma manifestação linguística, sendo que ele representa a materialização máxima da língua, segundo Rocha (2007).
Koch (2014) afirma que a Linguística Textual (LT) vê o texto como uma unificação complexa e que é pertinente às ações humanas. Se pararmos para pensar, realmente o texto é uma unidade complexa visto que além de me preocupar com os fenômenos gramaticais, nós precisamos nos preocupar com o seu sentido e a forma que o enunciador vai interpretar a mensagem em questão.
Em outras palavras e levando em consideração a complexidade textual, entendemos que a LT aborda os seguintes aspectos na composição e na compreensão textual, segundo Rocha (2017):
• Linguístico;
• Paradigmático;
• Semântico:
• Gramatical;
• Lexical.
É a partir dessa grande diversidade textual que um texto deixou de ser estudado unicamente em sua forma escrita, ou seja, o texto passou a ter a sua versão oral.
Figura 16 : Tipos de Texto
Fonte: Adaptado de Rocha (2017).
Isso se dá porque também devemos levar em consideração os seguintes aspectos:
• Processo;
• Ação;
• Interação.
A LT defende que o falante de uma forma geral se comunica através de texto, ou seja, percebemos que a definição de interação mudou um pouco, não é mesmo? Antigamente, ao buscar em uma gramática, encontrávamos que o falante se comunica através da fala, mas isso também mudou graças ao estudo do contexto que será estudado em breve.
Figura 17 : Texto
Fonte: @pixabay.
É importante reforçar que foi a partir dos anos 90 que a LT começou a abranger outros elementos, como por exemplo o interacionismo e isso fez com que essa linha de pesquisa desenvolvesse os termos:
• Textualidade;
• Textualização.
A textualidade faz com que um texto seja entendido como uma estrutura complexa, ou seja, ele está além daquela definição gramatical que diz que o texto representa uma sequência de frases e/ou palavras.
Por outro lado, nós temos a textualização que está mais relacionado para a lógica do texto. Em suma, a textualidade estuda os elementos da coesão e a textualização estuda os elementos relacionados com a coerência.
Entende-se como coesão uma espécie de ligação entre as partes de um texto, uma espécie de conector de frases e palavras. O fato de trabalhar a coesão em um texto, segundo Koch (2010), faz com que possamos atribuir alguns elementos importantes em sua composição, como por exemplo:
• Legibilidade
A legibilidade é um elemento que faz a estruturação do meu texto, estabelece uma relação entre os termos do mesmo. Em outras palavras, a
legibilidade está relacionada ao uso de palavras adequadas para que um indivíduo se expresse de forma adequada.
Por sua vez, entendemos que a coesão se divide em duas partes:
Figura 18 : Tipos de Coesão
Fonte: Adaptado de Koch (2010).
A coesão lexical se dá quando em um texto há o emprego de sinônimos e antônimos; hipônimos e hiperônimos etc. Por outro lado, a coesão referencial, segundo Koch (2010), se dá quando alguns termos são mencionados no texto e dessa forma a sua linearidade não é perdida. A coesão referencial se divide em:
• Coesão Referencial Anafórica: é quando o termo mencionado está dentro do texto.
• Coesão Referencial Catafórica: é quando o termo mencionado está fora do texto.
IMPORTANTE:
Dentro da intertextualidade pode-se fazer menção a outro texto, podendo estar explícito ou disfarçado. Em outras palavras, seria a superposição de um texto a outro, uma adaptação.
Voltando a falar da textualização, temos a coerência que é construída pelos envolvidos no processo comunicacional e isso depende do/da, segundo Koch (2010):
• Situacionalidade;
• Intencionalidade;
• Aceitabilidade;
• Informatividade;
• Intertextualidade.
Dos elementos supracitados, já estudamos a intertextualidade.
Vejamos agora os que faltam definir. A Situacionalidade se relaciona a uma determinada situação de produção, por exemplo, se alguém pede para escrever o meu endereço, eu não posso escrever um poema, em outras palavras, precisamos saber o que escrevemos e em que contexto isso está acontecendo. A Intencionalidade é um termo que surgiu com a Análise do Discurso (AD) e se relaciona ao efeito discursivo que quero causar nos meus interlocutores, ou seja, qual é a minha real intenção em produzir um determinado texto?
Por outro lado, temos a Aceitabilidade que não vai depender do emissor, mas sim do receptor. Para que um texto seja aceito ou refutado, devemos considerar alguns aspectos, como por exemplo:
• Ideologia;
• Aspectos culturais;
• Pontos de vista;
• Argumentação;
• Persuasão.
Enfim, podemos elencar facilmente uma série de fatores que fazem com que o receptor aceite ou não a informação textual do emissor. Já a Informatividade se relaciona ao nível de informação que o emissor tem acerca de um determinado assunto para passar ao seu receptor, ou seja, será que o emissor tem conhecimento suficiente para passar uma determinada informação?
Figura 19 : Informação
Fonte: @pixabay.
Existem outros aspectos a serem trabalhado, porém, por uma questão de distribuição curricular, ficamos nessas definições supracitadas.
Contexto
Temos como nosso último tópico da nossa unidade o estudo do contexto. Na verdade, ele está sendo retomado porque nós já começamos a estudá-lo logo no início da unidade quando começamos a falar de Greimas.
Por bem, o que vamos falar a partir de agora é a Teoria do Contexto proposta por Van Dijk (2012). Para o autor, o estudo da comunicação, seja ela verbal ou não verbal, é necessário integrar as mais variadas disciplinas de humanidades para entender o seu contexto, ou seja, abordar unicamente a Linguística resulta insuficiente visto que as dimensões da comunicação não podem ser abarcadas somente pela Linguística.
Van Dijk (2012) propõe categorizar o contexto em modelos:
• É armazenado na memória episódica.
Devido a um certo episódio, um determinado indivíduo gravou aquela situação especificamente.
• Podem ser pessoais e únicos.
Para o autor, um contexto é de caráter pessoal visto que a percepção de mundo entre indivíduos pode variar segundo o compartilhamento ou não de experiências vividas ao longo dos anos.
• Podem estar relacionados com os saberes socioculturais.
A questão da cultura pode influenciar bastante um determinado contexto. Por exemplo, por não ser hindu, a vaca não significa um animal sagrado para mim, portanto, não compartilho esse contexto sociocultural.
• Podem representar eventos.
Esses eventos são aqueles que se relacionam dentro da esfera comunicacional do nosso cotidiano, ou seja, se uma pessoa me diz bom dia, eu devo responder bom dia e não boa noite.
• É formado diante de uma interpretação.
Cada um de nós temos a possibilidade de raciocinar de distintas formas e isso pode estar relacionado com o coletivo ou com as nossas crenças e experiências de mundo individuais. Em outras palavras, podemos interpretar algo sob diversos pontos de vista.
• Pode colocar em evidência opiniões e emoções;
• Está composto através de esquemas etc.
Dentro do contexto e segundo Van Dijk (2012), também devemos levar em consideração a forma que os indivíduos produzem e interpretam um determinado texto, ou seja, estaríamos falando agora da Psicologia Cognitiva, mesmo sabendo que não existe uma teoria específica para o uso do contexto.
Ainda sobre a Psicologia Cognitiva, Van Dijk (2012) faz referência a alguns aspectos que são relevantes para o entendimento do contexto, ele os divide em três instâncias:
• Cenário;
• Participantes;
• Ação.
O cenário é exatamente onde a situação discursiva ocorre, ou seja, pode ser na rua, na praça, no supermercado etc.
Figura 20 : O cenário no processo de interação entre indivíduos
Fonte: @pixabay.
Esse termo também é conhecido como cena da enunciação e também é mencionado por Maingueneau (2005).
Com respeito aos participantes, é exatamente o número de envolvidos na cena em questão, quais são os seus papéis no processo comunicacional. Esse termo também é debatido por Maingueneau (2005). E por último, temos as ações, que são exatamente os eventos comunicativos, ou seja, por que se deu essa interação, em que circunstância etc.
NOTA:
Nos estudos de texto e contexto, é normal que alguns autores estejam falando a mesma coisa, mas com uma terminologia um pouco diferente, como é o caso de Maingueneau (2005) e Van Dijk (2012).
O que foi visto nesta unidade sobre texto e contexto é apenas uma breve introdução visto que essas teorias não podem ser abordadas com detalhes em poucas páginas.
RESUMINDO:
Nesta última seção, você estudou a definição de texto e contexto. O texto foi definido seguindo os critérios da Linguística Textual, pois acredita-se que a sua teoria é mais completa. Você estudou que devido a evolução da língua a definição de texto foi mudando ao longo dos anos e dentro da mesma teoria que antes via o texto somente como um elemento semântico e agora passou a ser um elemento fruto da interação entre indivíduos. Por fim, você estou o contexto e a sua respectiva relação com o ser humano e com o ambiente que o cerca e que a sua composição se deve a uma série de fatores.
REFERÊNCIAS
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CAMPBRA. Trovadorismo - cantiga galego-portuguesa. Disponível em:<https://www.youtube.com/watch?v=Q_1EDSpz-fE> Acesso em: 17 de abr. 2020.
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KOCH, Ingedore G. Villaça. Linguística textual: introdução. 5. ed. São Paulo:
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GRAMSI, A. (1975). Cuadernos de la cárcel. Puebla-Era: Universidad Autónoma de Puebla-Era.
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GREIMAS, Algirdas J.; COURTÉS, Joseph (2008) Dicionário de semiótica.
Trad. Alceu D. Lima, Diana L. P. De Barros, Eduardo P. Cañizal, Edward Lopes, Ignacio A. da Silva, Maria José C. Sembra, Tieko Y. Miyazaki. São Paulo: Contexto.
GREIMAS, Algirdas. J.; FONTANILLE, Jacques. Semiótica das paixões. São Paulo: Ática, 1993.
HYMES, D. Language in Culture and Society. New York: Harper and Row, 1964.
KOCH, Ingedore. A coesão textual. 19. ed. São Paulo: Contexto, 2010.
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