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GRUPO CORPO. Práticas Corporais e Educação Física: os debates nos artigos do Grupo Corpo (FACED/UFBA). - 2ed. Salvador: Grupo Corpo, 2019, 79p.

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Grupo Corpo / Faculdade de Educação / Universidade Federal da Bahia Salvador/BA

GRUPO CORPO –

Práticas Corporais e Educação Física: os debates nos artigos do Grupo Corpo (FACED/UFBA). - 2ed. Salvador: Grupo Corpo, 2019, 79p.

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CORPO

EDINEI GARZEDIN Último dia de julho de 2020 Que pulsa. Impulsiona.

Corpo invocante Receptáculo Desejante.

Hipotônico Hipertônico Desestabilizante. Corpo que é letra

Falante. Corpo que impede

Que impele Que leva e traz Que faz e desfaz Que se desmancha Transborda Faz borda. Corpo da modernidade Escravizado Acobertado Sexualizado Assujeitado Capitalizado. Corpo Inquietante Atuante Reagente Envolvente. Corpo Corpus Presentificação De vida E de morte. Personalização Da ação Da reação. Corpo Humano Desumano Agressivo Compassivo. Que busca Encontro Desencontro O corpo é O corpo está É mutante Acompanhante. Equilibra-se Dentro e fora Se arvora. Atrai Retrai Sobressai Se vai…

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ... 5

LAZER: CONCEITOS E USOS SOCIAIS ... 6

EDUCAR PARA O ÓCIO CRIATIVO E ATIVIDADES DE LAZER ... 6

A DIMENSÃO HUMANA IMPORTA AO LAZER ... 9

O “ANSEIO” PELA SOCIABILIDADE EM MEIO AO LAZER PANDÊMICO ... 12

O CORPO INFANTIL NA RODA: A CAPOEIRA COMO LUGAR DA PRÁTICA DE LAZER NA INFÂNCIA CONTEMPORÂNEA ... 15

POLÍTICA PÚBLICA DE LAZER: A CONTRATAÇÃO DE PROFISSIONAIS DIVERSIFICADOS NA PERSPECTIVA DE ATENDER AS PARTICULARIDADES DOS CONTEÚDOS DO LAZER ... 18

HISTÓRIA DO ESPORTE, DAS PRÁTICAS CORPORAIS E DO LAZER ... 21

JIU-JITSU OLD SCHOOL E MODERNO: CONSIDERAÇÕES SOBRE O DEBATE ... 21

O ACESSO DAS MINORIAS AO INSTITUTO PONTE NOVA – IPN (ESCOLA AMERICANA) ATRAVÉS DAS PRÁTICAS CORPORAIS ... 25

O COTINGUIBA ESPORTE CLUBE COMO ESPAÇO DE LAZER E SOCIABILIDADE NA CIDADE DE ARACAJU – SE: DÉCADAS DE 1980 E 1990 ... 28

O DEBATE SOBRE GINÁSTICA NAS TESES DA FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA... 32

OS BASTIDORES DE UMA PESQUISA: A TRAJETÓRIA PROFISSIONAL DO PROFESSOR NAGIB MATNI E A GÊNESE DA ESEFPA ... 35

OS PROFESSORES LEIGOS DE EDUCAÇÃO FÍSICA NOS RITUAIS FESTIVOS COM PRÁTICAS CORPORAIS ... 38

SEGREDOS E RAZÕES DA FORMAÇÃO DOS PROFESSORES DA PRIMEIRA TURMA DO PRIMEIRO CURSO DE LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO FÍSICA DA BAHIA ... 41

“RAINHAS EM TRAJES DE COURO!” OS PRIMÓRDIOS DA PARTICIPAÇÃO DE MULHERES NAS VAQUEJADAS DA BAHIA ... 43

RECORDAÇÕES DO COTIDIANO DA ESCOLA NORMAL DA BAHIA ... 46

PRÁTICAS PEDAGÓGICAS, ATUALIDADE E OUTROS TEMAS ... 49

A GINÁSTICA COMO UMA PRÁTICA NO AMBIENTE LABORAL ... 49

ALAVANTÚ PRA TU, ANARRIÊ PRA EU… VAI TER SÃO JOÃO, MAS CADA QUAL NA SUA CASA ... 52

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APROXIMAÇÕES SOBRE A RELAÇÃO DA MASCULINIDADE TÓXICA E OS CORPOS DOS HOMENS NEGROS ... 55 AS CATEGORIZAÇÕES DA GINÁSTICA EM ACADEMIA E

SUAS CONCEPÇÕES ... 58 AS LUTAS E O CONTEXTO DA PANDEMIA: REFLEXÕES SOBRE UM

CENÁRIO ... 61 EDUCAÇÃO E EDUCADORES FRENTE À PANDEMIA: UMA REFLEXÃO ... 66 ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO EM EDUCAÇÃO FÍSICA COMO ESPAÇO-TEMPO DE APRENDIZAGEM ... 69 UMA NOVA RESSIGNIFICAÇÃO SOCIAL? ... 72 TOXICIDADE PARA ALÉM DA SUBSTÂNCIA ... 75

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APRESENTAÇÃO

O amigo e coordenador do Grupo CORPO/UFBA, professor Coriolano Rocha Junior, deu a mim a honrosa tarefa de apresentar este e-book intitulado

Práticas Corporais e Educação Física: os debates nos artigos no Grupo CORPO (FACED/UFBA), mais uma produção importante deste coletivo.

Não bastasse a amizade e o carinho que nutro pelo nosso Cori, preciso somar ao gozo pela tarefa, a paixão simbólica que tenho pela Bahia, por Salvador e toda sua magia expressa, inclusive, nos corpos dos seus cidadãos. Mas, do ponto de vista mais racional, destaco a história de excelentes produções que o Grupo CORPO/UFBA vem desenvolvendo ao longo dos últimos anos, consubstanciada na forma de artigos em periódicos, trabalhos em congressos e reuniões científicas, dissertações, teses e produções como este e-book. Sem dúvida, hoje, o Grupo CORPO-UFBA se destaca no cenário acadêmico da Educação Física nordestina e brasileira.

O e-book é organizado em temas recorrentes na produção teórica do Grupo CORPO-UFBA, tais como Lazer: conceitos e usos sociais; História do Esporte, das Práticas Corporais e do Lazer; Práticas Pedagógicas; e outros assuntos ligados à atualidade.

O resultado do trabalho coletivo é a farta discussão sobre questões gerais da Educação Física, do Esporte e do Lazer que abordam subtemas como o corpo infantil, a capoeira, as políticas públicas de lazer, o jiu-jitsu e as lutas em geral, os estudos de instituições, a ginástica, as trajetórias de vida, a festa, o feminino, a vaquejada, a masculinidade, a negritude, entre outros.

Trata-se de um trabalho que fortalece as discussões no campo da Educação Física, do Lazer, do Esporte e da Educação, e, merece destaque, a abordagem de questões relacionadas aos tempos atuais de pandemia que estamos vivenciando.

Um viva ao Grupo CORPO-UFBA!

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LAZER: CONCEITOS E USOS SOCIAIS

EDUCAR PARA O ÓCIO CRIATIVO E ATIVIDADES DE LAZER

Dayane Ramos Dórea

O ócio criativo é um conceito considerado como uma ideia muito inovadora, criado pelo professor e sociólogo italiano Domenico De Masi, que o considera como um fator importante para estimular a criatividade de todas os seres humanos enquanto seres sociais. De Masi (2000, p. 144) entende que para aguçar a criatividade “precisa de vínculos, de desafios, não de barreiras burocráticas” e, para isso, as instituições de ensino precisam reconsiderar suas metas e práticas educacionais, visando atender as demandas sociais e motivar o desenvolvimento da criatividade em meio à ambiguidade cultural.

Educar para o ócio significa ensinar a escolher melhor um filme, um show, uma peça de teatro, um livro, assim como ensinar a ficar bem quando se está sozinho, além de ensinar o gosto pelas coisas belas, escolhendo o melhor lugar até para repousar, distrair e se divertir. Portanto, é preciso ensinar aos indivíduos não só como trabalhar, já que isso é algo realizado naturalmente, mas, principalmente, ensinar a melhor forma para realizar os seus lazeres, uma vez que grande parte das pessoas não sabe como se distrair ou descansar.

Para Dumazedier (2014, p. 34), as funções do lazer são: descanso, diversão, entretenimento, recreação e desenvolvimento, as quais “são solidárias, estão sempre intimamente unidas umas às outras, mesmo quando parecem opor-se entre si”. O lazer sob a função do descanso se configura como um reparador das tensões – físicas e nervosas – provocadas pelo trabalho e pelas tarefas cotidianas, recarregando as energias para novamente expor-se aquelas tensões (DUMAZEDIER, 2014).

As funções de diversão, entretenimento e recreação estão associadas à fuga da realidade, a ruptura do cotidiano por meio de atividades lúdicas. E a função do desenvolvimento ocorre quando o indivíduo, livre de suas obrigações profissionais, religiosas, sociais e familiares, busca, espontaneamente, atividades que desenvolvam sua personalidade no âmbito pessoal e social, fomentando a aquisição de novos conhecimentos. Por isso esta última função do lazer é salutar no incremento da cultura popular, uma vez que favorece, voluntariamente, novas formas de aprendizagem (DUMAZEDIER, 2014).

O lazer promove o desenvolvimento pessoal e social do indivíduo, principalmente se utilizado como estratégia adicional ao contexto educativo. Para tanto, há que estruturar uma política de democratização cultural às atividades de lazer, rompendo com as barreiras impostas social e economicamente, haja vista constituírem “um dos canais possíveis de transformação cultural e moral da sociedade, senso assim, instrumentos de

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mudança […] que podem ser acionados qualquer que seja a ordem social dominante” (MARCELLINO, 1995, p. 36).

Assim, é imprescindível reconhecer os conteúdos do lazer, de acordo com as alternativas a que ele se propõe, sem perder de vista as relações culturais que o sujeito estabelece com as atividades de lazer, as quais também motivam sua opção de escolha, seus interesses. “A classificação mais aceita é a que distingue seis áreas fundamentais: os interesses artísticos, os intelectuais, os físicos, os manuais, os turísticos e os sociais” (MARCELLINO, 1996, p. 18).

Os interesses físicos referem-se às atividades que se relacionam com interesses dos indivíduos, isto é, atividades físicas ligadas à mídia televisiva e de grande popularidade social, a exemplo da ginástica, musculação, esportes convencionais e outros. Os interesses artísticos aportam as diferentes manifestações artísticas como museus, cinema, teatro, biblioteca – entendidas como eruditas, sem negar a arte presente na cultura popular como as tradições folclóricas, rodas de samba, etc. – entendidas como populares (DUMAZEDIER, 1979; MELO, ALVES JR, 2012).

Os interesses manuais tratam-se do prazer encontrado na manipulação de objetos, como bordado, pintura, carpintaria, costura, cuidado com os animais, etc. Os interesses intelectuais são atividades que potencializam o raciocínio, a ação intelectual, a exemplo dos jogos de dama, xadrez e gamão. E os interesses sociais são práticas de lazer que envolvem grupos e promovem a sociabilidade, a exemplo das excursões, encontros em bares e festas (DUMAZEDIER, 1979; MELO, ALVES JR, 2012).

Mas infelizmente, a sociedade consumista acaba tolhendo as atividades de lazer em favor de inúmeras horas de trabalho, ou restringindo-as aos modismos da indústria cultural. Nesse sentido, a educação para o ócio criativo surge na perspectiva de reconstruir e ressignificar a experiência humana de forma enriquecedora, a partir da vivência de situações prazerosas e satisfatórias. O ócio criativo leva em consideração as singularidades do indivíduo enquanto expressão de sua identidade, sendo que sua vivência independe da atividade em si, do tempo, do nível econômico ou da formação acadêmica de quem o pratica. Antes de tudo, o ócio criativo relaciona-se com o sentido e o significado atribuído por quem o vive, conectando-se ao mundo das emoções mais profundas.

Toda atividade humana é permeada pela criatividade, conferindo fluidez à nossa existência enquanto ser social, possibilitando mudanças na forma de experienciar o cotidiano com novas perspectivas de atitudes, valores e emoções ligadas ao lazer, uma vez que “a experiência de mudança estimula por sua vez a criatividade” (DE MASI, 2000, p. 104). Portanto, é salutar refletir acerca de uma educação que promova a experiência do ócio criativo aos indivíduos, provocando questionamentos, tratando das obviedades e das insensibilidades do lazer.

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O ócio criativo enquanto atividade de lazer evoca a manifestação do potencial criativo humano, fortalecendo a comunicação interativa e interdependente com o outro, além de atribuir iniciativas aos próprios sujeitos, ampliando suas capacidades de reconstrução dos conhecimentos estético-expressivos e solidários. Destarte, educar para o ócio criativo suscita a dimensão da arte, da liberdade e da fantasia, a partir das potencialidades criativas e estéticas, intrínsecas ao sujeito, que lhe propicia a ascensão da capacidade crítica de ver e de apreender o mundo, a fim de recriar, produzir e dar novos sentidos e significados às experiências sociais.

REFERÊNCIAS

DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Entrevista a Maria Serena Palieri. 3. ed. Trad. Léa Manzi. Rio de Janeiro: Sexante, 2000.

DUMAZEDIER, Joffre. Lazer e cultura popular. São Paulo: Perspectiva, 1976. ________. Sociologia empírica do lazer. São Paulo: Perspectiva, 1979. MARCELLINO, Nelson Carvalho. Estudos de lazer: uma introdução. Campinas, SP: Autores Associados, 1996. (Coleção educação física e esportes).

________. Lazer e humanização. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 1995. (Coleção Fazer Lazer).

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A DIMENSÃO HUMANA IMPORTA AO LAZER

Sueli Abreu Guimarães

Este texto tem por escopo propor algumas reflexões que favoreçam o reconhecimento da relevância do lazer como fenômeno humano capaz de emancipar o homem e promover integração pessoal e social, fomentando o desenvolvimento de postura crítica, consciente de si, do outro e do mundo. Abordar o lazer colocando no centro do debate a dimensão humana surge como oportunidade de promover diálogos ao despertamento da consciência em um processo de existência-insistência- resistência, entendendo a necessidade de viver sem dar vez a alienações e oportunismos, exercitando o sentir, pensar e agir.

Os primeiros estudos sobre o lazer surgiram na Europa, de forma mais efervescente no século XIX, atribuindo ao tema o caráter de fenômeno social identificado após a Revolução Industrial, período marcado pelas relações de trabalho bastante tensionadas. É cediço que na sociedade moderna destacou-se bastante a predestacou-sença de máquinas que produzem em série; o relógio que controla o tempo; a velocidade e os avanços tecnológicos corresponsáveis pelo aumento do tempo livre; dentre outros, de modo que “A necessidade de Lazer cresce com a urbanização e a industrialização.” (GAELZER, 1979, P.32) O tempo de não trabalho (remunerado), inimaginável noutras épocas, surge como grande conquista, depois de muitas lutas, pois já se concebe importância deste à manutenção da vida, cumprimento de obrigações familiares, religiosas e lazer.

Diante da conquista de tempo livre, até mesmo para respiro em relação ao trabalho formal, que não pode ou deve ser escravizante, importa, sobremaneira, estar atento à diferenciação entre tempo liberado e disponível de tempo desocupado, pois não se pode considerar este como lazer. Sabe-se que o tempo de lazer não é contrário ao de trabalho, mas com este se relaciona. Neste sentido, pode-se deduzir, por exemplo, que grevistas e desempregados não possuem condições de desenvolver atitudes favoráveis ao lazer, contando com sérios obstáculos na busca de “parcelas de alegria”. Não é à toa que Dumazedier (1979, p.44) assevera que “Historicamente, o direito ao lazer é definido em relação ao trabalho profissional; os homens é que o reivindicaram: o direito à preguiça é o grito de um homem erguido contra a redução do trabalhador ao papel de produtor”, isto é, desde cedo o homem se recusa a ser mero instrumento por “entender” que para “estar vivo” é necessário muito mais.

Mister se faz observar, então, que tempo e atitude importam e a depender de como se apresentam o lazer se delineia ou não. Debates abertos acerca do lazer enquanto fenômeno humano e não como mero substrato do trabalho tem se tornando, cada vez mais, necessários e urgentes, nos diversos espaços sociais, a fim de evitar dissociações, fragmentações, ainda muito comuns, afastando homo faber do ludens.

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Nota-se que a visão restrita, parcial, do que compreende o lazer serve para alimentar a perspectiva funcionalista que se ocupa de destacar aspectos românticos, moralistas, compensatórios e utilitaristas, repletos de carga moralizante, em favor de quem estrategicamente se coloca no poder e dele se nutre (MARCELINO, 2007, P.23). Ao contrário, se compreendido como aspecto relevante na constituição e para existência do homem que não é somente físico e biológico, mas também, mental, psíquico e espiritual, haverá de se identificar a natureza sui generis do lazer, de tamanha complexidade, mas que se realiza ao considerar a singularidade de cada um. Afinal,

Ninguém nega que há mais tempo liberado. Transformá-lo em tempo livre e vivenciá-lo como lazer, eis a questão. Na transtornante mudança de valores, o homem hodierno sente dificuldade em situar-se. A moral antiga, individual e social, caracterizada pela repressão, dá lugar a uma ética da expressão. O id adquire maior liberação sobre o ego e este sobre o superego se a psicanálise for lembrada (ROLIM, 2003, p.62).

Não se pode olvidar que o lazer “É um estado mental ativo associado a uma situação de liberdade, de habilidade e de prazer” (GAELZER, 1979, p.54), por isso, torna-se pertinente, instigar a reflexão constante de que o tempo do divertimento, da busca pela realização do prazer, do exercício da liberdade, ainda que limitado, enfim, do incessante esforço em si fazer expressar é resistência. O lazer possibilita dupla ruptura “a cessação de atividades impostas pelas obrigações profissionais, familiares e sociais e, ao mesmo tempo, o reexame das rotinas, estereótipos e ideias (sic) […] o lazer talvez venha a provocar uma mudança fundamental na própria cultura” (DUMAZEDIER, 1973, p.265).

O despertar para a complexidade da natureza do lazer, da necessidade de se adotar postura autônoma, numa sociedade que valoriza, sobretudo, o espetáculo se torna um verdadeiro convite a não alienação. Em vista disso, a dimensão humana tem elevada importância, na busca de possíveis caminhos ao engajamento social e usufruto de valores também contestadores do sistema vigente (UVINHA, 2007, p.62), o qual parece querer alimentar a crença de que ao lazer (e à cultura) está relegado um papel periférico (MELO, 2003,P.16) por entender, provavelmente, o quanto são perigosos para a manutenção do status

quo.

O lazer não é somente permissão (numa hora marcada e concedida pelo não trabalho), mas, sobretudo, direito de exaltar sentidos e emoções, carregados de ludicidade (mas não somente), irresignados diante da carga cultural controladora que tenta, a todo custo, esvaziar o desejo do ser se autodeterminar, de fazer valer espontaneidade, criatividade, criticidade. Neste viés, “se o lazer for realizado no nível conformista, estará presente a passividade e, caso se trabalhe nos níveis crítico e criativo, poderá ser caracterizado como uma vivência ativa” (ISAYAMA, 2007. p.40), favorecendo transformações e aperfeiçoamentos.

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São muitas as possibilidades de lazer para aquele(s) que se sente(m) “liberado(s)” para tal experiência e “pode(m)” (possuem condições em sentido lato) experimentá-la em “proporção” e “profundidade”. A busca pela realização do prazer num momento de atividade, contemplação, descanso e outros, de forma desinteressada ou não, escolhida(s) pelo agente têm valor em si, para ele e ao outro; oxigena relações; constrói uma teia social rica em leituras, favorece o desenvolvimento individual e coletivo; enfim, serve de combustível aos avanços culturais significativos em que a valorização da diversidade e da diferença não é favor, mas um direito fundamental que precisa ser exercido para que a sociedade evolua.

REFERÊNCIAS

DUMAZEDIER, Joffre. Lazer e cultura popular. São Paulo: Perspectiva, 1974. ______________. Sociologia Empírica do Lazer. Tradução: Silvia Mazza e J.Guinsburg. São Paulo: Perspectiva/SESC, 1979.

GAELZER, Lenea. Lazer: benção ou maldição? Porto Alegre: Sulina, 1979. ISAYAMA, H.F. Reflexões sobre os conteúdos físico-esportivos e as vivências de lazer. In. MARCELLINO, N.C (org). Lazer e Cultura. Campinas, Alínea, 2007. 31-46.

MARCELLINO, Nelson Carvalho. Lazer e Cultura : algumas aproximações. In. MARCELLINO, N.C (org). Lazer e Cultura. Campinas, Alínea, 2007. 9-30. MELO, Victor Andrade de. Lazer e Minorias Sociais. São Paulo: IBRASA, 2003.

ROLIM, Liz Cintra. Educação e lazer: a aprendizagem permanente. São Paulo: Ática, 1989.

UVINHA, Ricardo Ricci. Turismo e Lazer: interesses turísticos. In.

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O “ANSEIO” PELA SOCIABILIDADE EM MEIO AO

LAZER PANDÊMICO

Lizandra Lima

A escolha da escrita por esse tema surge em meio a reabertura de centros esportivos e recreativos, bares, restaurantes e afins em meio a pandemia do Sars-CoV-2 no Brasil. Apesar de ser um tema angustiante, é gritante a necessidade de nos debruçarmos para a ação da sociedade em momento real.

Os ritos do lazer vêm sendo objeto de estudo de longa data em diversas áreas do conhecimento. Isso se dá principalmente pelas suas características dualísticas que habitam entre as tensões sociais e as necessidades do relaxamento e divertimento que ocupam esse espaço.

Michel de Certeau, no seu livro A invenção do Cotidiano (1980), evidencia que enquanto o lugar configura-se como matéria, tangível e delimitada, o espaço é a ação viva, produção, usufruto, ocupação e operacionalidade deste lugar. “O espaço é o lugar praticado” (CERTEAU, 1998, p. 202). Desse modo, ao pensar no lazer, o espaço que o cabe já ganhou diversas características com o passar do tempo e das culturas.

Dentre os espaços conhecidos destinados ao lazer, o lar já abrigou por vezes o foco desta vivência. Atualmente em uma crescente ação de tornar o contexto do lazer cada vez mais privado e pessoal, esse entrelace, se configurou com significativa repercussão nos modos sociais, na ascensão dos condomínios clubes, por exemplo.

Adentrando ainda mais esse ambiente, autores como Witold Rybczynski (2000) e Joffre Dumazedier (2012) mostram diversos passatempos e lazeres vividos no espaço do lar, desde a leitura de livros até mesmo o consumo da mídia televisiva e cinematográfica. Rybczynski (2000) chega a especular que um adulto, na década de 1980, consumia a mídia televisiva por cerca de 21 horas semanais, praticamente o mesmo tempo de uma jornada de trabalho.

As residências, no século XXI se encontram ainda mais equipadas e preparadas para atender aos anseios de lazer. Enumeras tecnologias vem surgindo há décadas a fim de aprimorar ainda mais as práticas de entretenimento e descanso nos lares mundo a fora. O IBGE (2018) aponta que cerca de 79,1% dos brasileiros tem acesso a internet, destes 95,7% apontam usufruir dos smartphones como meio de interação cibernética como chamadas de voz e vídeo ou acesso a redes sociais.

Em essência, a história nos mostra que somos seres sociais natos. Evoluímos sob os moldes da interação e da formalidade de nossa cultura, aprimorada e desenvolvida através da nossa linguagem. O humano existe enquanto ser a partir dos seus princípios sociais. Moldamos nossa tecnologia e

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nosso habitat de modo a fomentar e assegurar esta capacidade social, seja de forma cibernética ou presencial.

Embora o lar tenha seu espaço garantido ao lazer, agora a privação da ideia de liberdade inerente as escolhas de entretenimento e divertimento desconfigura esse espaço atrelando a ele uma sensação de obrigatoriedade de permanência que difere do esperado ao lazer.

Se antes o anseio era por ter um tempo de descanso em sua residência, ou pôr uma série, ou a leitura do livro preferido em dias, hoje a busca incessante por uma possibilidade de externar esse espaço supera a ideia preventiva. A ideia de um benefício no presente, aparentemente, valida mais do que um ganho futuro.

Então o que nos levaria a cenas de aglomerações, reencontros e buscas incessantes de reviver uma suposta normalidade estando ainda no ápice da crise de saúde pública?

Marx, na Crítica da Filosofia do direito de Hegel – Introdução (2010), nos proporciona uma análise, outrora já associada até ao encanto pelo futebol, que pode ser revista sobre essa leitura do momento atual na perspectiva do lazer: Para esse momento, seria o lazer o ópio do povo? Uma sociedade pressionada por variadas tensões (covid 19, fechamento de postos de trabalho, crise financeira, incertezas econômicas e políticas) se encontra atualmente em um anseio desesperado por um momento de respiro e vê, nas práticas sociais tradicionais de lazer, formas de obter esse suposto relaxamento das tensões momentâneas. A privação do lazer já era apontada por Dumazedier (2014) como um agente determinante de insatisfação. A não realização deste lazer na sua melhor performance de liberdade de escolha, geraria a mesma demanda. Se configuraria assim um estado de abstinência do cume dos sentidos do lazer?

Arrisco-me a dizer que hoje a busca seria por um lugar para esta sociabilidade nos moldes de meses passados, uma busca cega por um formato opioide de lazer. Ainda que já tenhamos a mão, a perspectiva de lazer outrora almejada e fonte de grandes investimentos. Estaríamos assim a busca de um lazer bem específico: o lazer de consumo, ligado a aspectos mercadológicos onde o usufruto de produtos e serviços tende a ser mais evidenciado do que a própria ação de lazer em si.

Nesses moldes, apesar de nos chamar atenção e de gerar incomodo e espanto, a busca gritante por ocupar espaços destinados a lazer e demandas sociais, ainda que estando no ápice de uma crise de saúde pública, apresenta padrões de uma sociedade consumista e mercadológica, ainda que em seu discurso paute a ideia de um contato social. É perceptível que, para além dos padrões de consumo, este é mais um retrato das tensões e conflitos inerente ao lazer e de como a sua existência e prática se torna, cada vez mais, uma necessidade social.

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AGÊNCIA IBGE NOTÍCIAS. PNAD Contínua TIC 2018: Internet chega a 79,1% dos domicílios do país. Disponível

em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013- agencia-de-noticias/releases/27515-pnad-continua-tic-2018-internet-chega-a-79-1-dos-domicilios-do-pais. Acesso em: 6 jul. 2020.

CERTEAU, M de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 3ª ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1998.

DUMAZEDIER, J. Lazer e Cultura Popular. 4ª ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2014.

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2010.

RYBCZYNSKI, W. Esperando o fim de semana. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

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O CORPO INFANTIL NA RODA: A CAPOEIRA COMO LUGAR DA

PRÁTICA DE LAZER NA INFÂNCIA CONTEMPORÂNEA

Edinei Gonçalves Garzedin

A infância, o corpo, o lazer e a capoeira. Como se dá essa mistura na contemporaneidade?

De imediato, pensemos que as vivências do mundo infantil acontecem através de seu corpo e é na brincadeira que mora o volume dessas vivências. Ou seja, é nos momentos de lazer que a criança oportuniza a seu corpo viver esses momentos.

Para Dumazedier (1973, p. 32), o lazer envolve três funções: descanso; divertimento, recreação e entretenimento; desenvolvimento. A partir desta colocação, podemos pensar que essas funções podem ser associadas imediatamente ao mundo infantil. Para a infância, divertimento, recreação e entretenimento são condições essenciais para que o sujeito se constitua.

Cheibub (2015), tratando do lazer como direito social, aporta esse direito na Constituição Federal de 1988 (citado nos artigos 6º, 7º, também nos artigos 217 e 227). A partir desta garantia estabelecida, temos aí a infância como demandante deste direito, pois como fase da vida humana, inclui-se no mesmo. Para reafirmar o referido direito na infância, surge ainda, em 1990, sancionada, a Lei federal 8.069, conhecida como ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente – reconhecendo a criança como sujeito de direitos, dentre eles o direito ao lazer.

Infância e lazer vivem a necessidade de ocuparem seus lugares na vida social. Brincadeira (lazer) é coisa séria para as crianças, assim como deve ser para toda a sociedade. Em atividades de lazer a criança vive a cultura, através das brincadeiras protagonizadas ao longo da história da humanidade. O que se observa, porém, é que essas brincadeiras vêm perdendo espaço no tempo contemporâneo, tempo que impõe a velocidade das coisas, solapando o corpo infantil. Marcellino (1990), baseando-se em Huizinga (1971) e Winnicott (1975), ressalta o jogo e a cultura, aliados ao lúdico, bem como a brincadeira na participação cultural, como essenciais na formação dos pequenos, em sua carga de herança de cultura e também para desenvolvimento da criatividade.

Buscando um laço que ate a infância ao lazer, encontramos um recorte muito particular, no contexto cultural da cidade de Salvador, quanto à expressão do corpo: a capoeira. A capital baiana, terra onde tem início a história do Brasil, apresenta uma modelagem de costumes muito singular, calcada na cultura africana. Nela, encontramos essa prática em lugares bem distintos, desde escolas até as ruas da cidade.

Partindo então da inquietação que as questões do corpo infantil na contemporaneidade suscitam em quem trabalha com crianças, surgiu o desejo de estudar aspectos que envolvem o universo cotidiano destas, entrelaçando

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esse corpo em seu discurso, recortando para o aspecto do lazer – tema desconsiderado no panorama da infância por se pensar que ele já faz parte da vida infantil –, trazendo para a roda de discussão a capoeira. Essa luta/dança/jogo, predominante na cultura soteropolitana, pode ser o laço que vai unir o corpo à questão do lazer para a criança pois agrega movimentos muito particulares, favorece o desenvolvimento psicomotor, mas, antes de qualquer coisa, é extremamente atrativo para os pequenos pois tem a música aliada a esses movimentos e “tempera” o universo da brincadeira, no contexto da cultura.

Essa prática ancestral do movimento coloca o corpo dos pequenos em cena, carregada de significados embebidos de cultura, insere as crianças no universo da arte popular, transporta-as para um passado recheado de história, além de inseri-la no contexto da diversidade e da pluralidade que marca o espaço da cidade de Salvador. A prática da capoeira como lugar de lazer toma corpo e adquire sentido a partir de vários aspectos: nasce subversiva, assim como o lazer, pode ser praticada em qualquer lugar, sem exigir aparelhos ou aparatos, está imersa e embebida de cultura, geralmente é buscada num tempo fora do tempo de trabalho…enfim, apresenta características variadas que a colocam na esteira das práticas de lazer. Conforme Rocha Junior e Santos (2019, p. 173):

É dessa maneira que a capoeira, justo por sua multiplicidade de manifestações e expressões, ganha sentido como interesse cultural do lazer, que na verdade não pode ser enquadrada em uma linha, pois nela cabem sentidos variados, que a fazem ganhar valor e justificar-se como atividade de lazer.

A partir do exposto, pensemos: por que as crianças buscam a prática da capoeira, colocando o corpo em cena, num contexto contemporâneo onde muitas outras formas de lazer (aspecto lúdico, brincar) são oferecidas, especialmente através dos aparatos tecnológicos? O que elas procuram na capoeira? Por que vão à capoeira?

O objetivo proposto nesse trabalho é analisar os sentidos/significados que crianças praticantes da capoeira, na cidade de Salvador, atribuem a essa atividade como prática de lazer, na infância contemporânea.

REFERÊNCIAS

CHEIBUB, Bernardo Lazary. As contribuições da produção científica para o entendimento do lazer como direito social. In: GOMES, Christianne L.. In: ISAYAMA, Hélder F. O direito social ao Lazer no Brasil. Campinas, SP: Autores Associados, 2015.

DUMAZEDIER, Jofre. Lazer e cultura popular. São Paulo: Perspectiva, 1973. ROCHA JUNIOR, Coriolano P. da Rocha; SANTOS, Romilson Augusto dos Santos. Capoeria e jogos corporais. In: GOMES, Christianne Luce;

DEBORTOLI, José Alfredo Oliveira; SILVA, Luciano Pereira da. (Orgs.). Lazer, Práticas Sociais e Mediação Cultural. Campinas, SP: Autores Associados, 2019.

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MARCELINO, Nelson Carvalho. Pedagogia da animação. Campinas, SP: Papirus, 1990.

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POLÍTICA PÚBLICA DE LAZER: A CONTRATAÇÃO DE

PROFISSIONAIS DIVERSIFICADOS NA PERSPECTIVA DE

ATENDER AS PARTICULARIDADES DOS CONTEÚDOS DO

LAZER

Silvana Regina Echer

O lazer, na Constituição da República Federativa do Brasil (BRASIL, 1988) é tratado como um direito social de todo cidadão e cidadã, porém, na prática, o acesso a ele é dificultado para uma parte significativa da população, devido as inúmeras barreiras culturais, econômicas e sociais. Uma das formas de superar essas barreiras é a inclusão do lazer na agenda de elaboração e implementação de políticas públicas.

O lazer, como prática social, é muito amplo, complexo e abrange conteúdos diversificados, que têm como objetivo a busca pela satisfação, do prazer de quem o pratica, abrindo um leque de opções para escolha, podendo atingir todos os aspectos que caracterizam o ser humano (MARCELLINO, 1998).

Para fins de análise, segundo Dumazedier (1979) os conteúdos culturais do lazer são divididos em categorias de interesses: Os artísticos, são os que ressaltam a busca pelo imaginário, pelo sonho, o encantamento, o belo e o faz-de-conta. Exemplos: canto, música, pintura, teatro, cinema, etc. Os intelectuais, são representados pela busca por conhecimento, informação racional e objetiva. Exemplos: xadrez, jogos de salão e leituras, palestras, etc. Os interesses manuais, são atividades ligadas ao prazer de manipular, explorar e transformar a natureza, materiais e objetos. Exemplos: jardinagem, artesanato, carpintaria, culinária, etc. Os físicos, predominam o desejo de exercitar-se, colocar-se em movimento. Exemplos: caminhadas, academia, ginástica, yoga, esportes coletivos, individuais, etc. Os sociais visam a sociabilidade, expressa no contato com as pessoas. Exemplos: festas, passeios, rodas de conversa, etc. Camargo (1989) acrescentou o interesse turístico onde se busca a quebra da rotina espacial ou temporal. Exemplos: Conhecer novos lugares, novas culturas, viagens, etc. Schwartz (2003) também apresenta outro conteúdo: o virtual, que caracteriza-se por atividades de lazer que utilizam tecnologia como as do computador, videogame e televisão, por exemplo.

Tendo em vista os conteúdos do lazer, o ideal seria que cada pessoa praticasse atividades que abrangessem os vários grupos de interesses, procurando exercitar no tempo disponível: o corpo, a imaginação, o raciocínio, a habilidade manual, o relacionamento social, o intercâmbio cultural e a quebra da rotina, quando, onde, com quem e da maneira que quisesse. No entanto, o que se verifica é que as pessoas geralmente restringem suas atividades de lazer a um campo específico de interesse e geralmente não fazem isso por opção, mas por não terem tomado contato com outros conteúdos. Nesse sentido, o papel da política pública é ampliar o acesso, procurando diversificar ao máximo as atividades oferecidas, em termos de conteúdos.

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Assim sendo, o lazer é um campo interdisciplinar que abrange, no âmbito da sua atuação, profissionais das mais diversas áreas como: educação física, turismo, dança, arte, lutas, hotelaria, pedagogia, terapeutas-ocupacionais, trabalhadores sociais, psicólogos, assistentes sociais, entre outros, e também podem ser pessoas da comunidade que possuem conhecimento de vivências práticas em uma destas áreas. De acordo com diversos autores que se dedicam aos estudos da temática (MARCELLINO, 2007, 2003; ISAYAMA, 2003; STOPPA & ISAYAMA, 2001), a maior incidência de atuação no campo do lazer no Brasil é de profissionais da área da Educação Física, justo por esta ter em seu de conhecimento, estudos acerca dos movimentos esportivos, recreativos e da cultura corporal.

Para trabalhar em programas da política pública do lazer há possibilidade de contratação de agentes sociais que são os protagonistas da elaboração e efetivação das ações, com conhecimento e experiência a respeito das atividades que desenvolverão. A figura do agente social está no professor de educação física, educador popular, capoeirista, bailarinos, artistas plásticos, músicos, atores, artesãos, entre outros.

Tendo em conta esses aspectos centrais do pensamento sobre lazer, uma questão se coloca: as políticas públicas de lazer têm conseguido contratar profissionais com características diversificadas para atender as particularidades dos conteúdos do lazer nos programas desenvolvidos?

As resoluções da II Conferência Nacional do Esporte[1] indicam as competências desses profissionais agrupando-os em duas categorias: a – Educação Física: desenvolver as atividades do âmbito de sua atuação privativa, conforme regulamentação dessa profissão b – Agentes Comunitários de Esporte e Lazer: interagir com as demais áreas sociais e profissionais, mobilizando, organizando, animando, arregimentando as atividades esportivas e de lazer junto à comunidade.

Entendo que, apesar de abrir a possibilidade de profissionais de outras áreas, a Conferência ainda dá destaque a uma única categoria profissional, a da Educação Física, cuja abrangência é focada no interesse físico. Esse fato tem relação com a aproximação administrativa do esporte com o lazer nas políticas públicas brasileiras. O contexto acima relatado motiva-me a encontrar elementos e proposições que possam ser alternativos. Trago aqui uma possibilidade em relação a esse aspecto que diz respeito aos editais de processos seletivos simplificados para a contratação de agentes sociais (ou comunitários) na perspectiva de diversificar os conteúdos do lazer.

O edital é um chamamento público. Essa afirmação indica que existem instituições públicas que optam pelo modelo de convocar as pessoas interessadas de forma ampliada, para concorrer a partir de critérios publicizados, a cargos públicos. É um procedimento que busca atender ao princípio constitucional da impessoalidade e tenta assegurar a igualdade de oportunidades a todos/as interessados/as em concorrer às atribuições oferecidas pelo poder público, a quem incumbirá identificar e selecionar os mais adequados, mediante critérios objetivos.

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Ao nomear os cargos, geralmente o edital faz a seguinte descrição: Agente Social de Esporte Recreativo, Agente Social de Dança, Agente Social de Ginástica, Agente Social de Artes Marciais, Agente Social de Artesanato e Agente Social de Cultura.

Na expectativa de garantir a contratação de pessoas com habilidades diversificadas, o edital estabelece as competências que deverão ser desenvolvidas junto à população como atividades de lazer.

O processo seletivo do edital é feito através da análise curricular e de uma entrevista. Os critérios geralmente são definidos por pontuação no currículo e na entrevista. Há, ainda, a possibilidade de uma prova prática que consiste em solicitar que cada candidato ministre uma aula referente à vaga a qual postula.

Respondendo à questão lançada no início do texto, as políticas públicas de lazer raramente têm conseguido contratar agentes sociais com características diversificadas, pois ainda predominam a contratação de acadêmicos ou profissionais da Educação Física e/ou as indicações políticas, muitas vezes sem perfil para trabalhar com atividades de lazer.

A realização de concurso público e/ou editais de processo seletivo para a contratação de agentes sociais diversificados para atender as particularidades dos conteúdos do lazer representam instrumentos avançados que apontam possibilidades concretas de ampliação do acesso e de qualificação das atividades ofertadas para uma parcela significativa da população.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de

1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/.htm. Acesso em: 30 de jan. de 2020.

CAMARGO, Luis Otávio. O que é lazer. São Paulo: Círculo do Livro, 1986. DUMAZEDIER, Joffre. Sociologia empírica do Lazer. São Paulo: Perspectiva, 1979

ISAYAMA, H. F. O Profissional da Educação Física como Intelectual: Atuação no âmbito do Lazer. In: MARCELLINO, N. C. (Org.). Formação e

Desenvolvimento de Pessoal em Lazer e Esporte. Campinas, SP: Papirus, 2003. P. 59-80.

MARCELLINO, N. C. Estudos do lazer: uma introdução. Campinas, SP: Autores Associados, 1996.

______. Políticas Públicas de Lazer: Formação e desenvolvimento de pessoal. Curitiba, PR: Opus, 2007.

______. Formação e Desenvolvimento de Pessoal em Lazer e Esporte. Campinas, SP: Papirus, 2003.

STOPPA, E. A.; ISAYAMA, H.F. Lazer, mercado de trabalho e atuação

profissional. In: WERNWCK, C. L. G.; STOPPA, E. A.; ISAYAMA, H. F. Lazer e mercado. Campinas: Papirus, 2001.

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HISTÓRIA DO ESPORTE, DAS PRÁTICAS CORPORAIS

E DO LAZER

JIU-JITSU OLD SCHOOL E MODERNO: CONSIDERAÇÕES

SOBRE O DEBATE

Luan Alves Machado

Este presente texto tem como objetivo trazer considerações sobre o processo de organização do Jiu-Jitsu Brasileiro (JJB), tendo em vista tratar conceitualmente um debate que dentro do campo se faz latente. É importante ressaltar que não há qualquer intenção em se encerrar o debate, apenas trazer contribuições em diálogo com a história conceitual do esporte.

A história que se conta, e que inclusive consta no site oficial da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu, é que este nasceu na Índia e era praticado por monges budistas. Preocupados com a autodefesa, os monges desenvolveram técnicas baseadas em equilíbrio, sistemas de articulação do corpo e alavancas, evitando o uso da força e de armas. Com a expansão do budismo o jiu-jitsu percorreu o Sudeste asiático, a China e o Japão, onde desenvolveu-se e popularizou-se.

No Japão, as lutas se desenvolveram, se organizaram e a partir daí se expandiram para todo o mundo. A história do JJB perpassa centralmente pela migração de japoneses ao Brasil, em específico, de Mitsuyo Maeda, o Conde Koma, que foi quem transmitiu esses conhecimentos de luta agarrada para a família Gracie, que por sua vez sistematizou e organizou o JJB tal como o conhecemos hoje.

O JJB se desenvolveu, se organizou em federações, confederações, clubes, associações, equipes e etc, se expandiu e se internacionalizou. Hoje possui sua organização consolidada em todos os continentes do planeta, uma modalidade que carrega consigo uma identidade brasileira, inclusive no nome.

Contudo, embora o JJB tenha se consolidado como uma modalidade esportiva e se organizado no mundo inteiro com seus gestos e formas padronizados, há um debate recorrente no campo, no qual a comunidade se refere a dois estilos de JJB, o Old School e o Moderno.

O assunto é amplamente debatido no cotidiano do campo, fazendo um breve levantamento de vídeos no YouTube que debatem especificamente a temática, há dezenas de materiais que tratam do tema direta ou indiretamente. Não é possível estimar a quantidade de vezes que o tema é tratado nos cotidianos das academias, equipes e etc, mas qualquer pessoa que em algum momento construiu alguma relação com o campo, já ouviu falar sobre este tema. Até mesmo a revista Tatame, produção específica do campo, já tratou o tema por meio de uma enquete, se referindo como Old School e New School.

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É importante antes de trazer considerações sobre o debate, localizar historicamente o tema. Entender antes de tudo que há lacunas importantes na compreensão do processo histórico de formação do JJB. É perceptível que este esteve associado ao Vale Tudo[1] desde a sua gênese, que esta foi inclusive a principal estratégia de marketing da família Gracie. Vale destacar inclusive, que a maior empresa de MMA[2] do mundo, o UFC, foi fundada por um membro da família, Rorion Gracie, que tinha como objetivo apresentar o JJB ao mundo.

Embora o desenvolvimento do JJB e do MMA estejam intimamente relacionados, há um processo específico de desenvolvimento da primeira modalidade, com competições específicas, com regras, federações e confederações e com ramificações em todos os continentes do planeta. Essas competições possuem um conjunto de regras bem diferente das regras do MMA.

Há aqui uma importante constatação de que embora estejamos falando da mesma modalidade, por esta contemplar uma quantidade muito grande de gestos e movimentos, havia uma necessidade de adequar melhor os treinos ao objetivo do praticante. Quando se tratava do foco no antigo Vale Tudo, o treino se focava muito mais nas técnicas que não necessitavam do uso do kimono[3]. Havia também uma preocupação em não se expor a golpes de contusão, como socos, chutes e cotoveladas. Diferente de quando o foco de treino é nas competições específicas da modalidade, há regras específicas de pontuação, posições de vantagem, o que modifica a forma com que se treina.

É possível compreender o Jiu-Jitsu Old School como um estilo mais focado na lógica do Vale Tudo, e que localizava num momento histórico de organização da modalidade no qual o JJB estava menos desenvolvido e organizado quanto as suas competições desportivas específicas. Já o Jiu-Jitsu Moderno, ou New School é resultado do processo de maior organização do esporte no seu cenário competitivo específico, no qual o praticante poderia alcançar um grande destaque esportivo jogando com as regras específicas da modalidade, com o uso do kimono, sem se preocupar com socos, chutes, cotoveladas e etc, com foco num sistema de regras cuja finalização[4] não precisa necessariamente ser o foco dos treinos.

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Berimbolo, posição símbolo do Jiu-Jitsu Moderno

Representação do Jiu-Jitsu Old School – chave de ombro conhecida como Kimura

REFERÊNCIAS

A História do Jiu-Jitsu. GRACIEMAG: A revista tradicional do Jiu-Jitsu desde 1994. Disponível em: <http://www.graciemag.com/pt/historia-do-jiu-jitsu/&gt;. Acesso em: 10 de dez. 2019.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE JIU JITSU. Confederação Brasileira de Jiu Jitsu. Disponível em: <http://cbjj.com.br/history/>. Acesso em: 10 de dez. 2019.

CRUZ, Eduardo. Rorion Gracie, criador do UFC, comenta a venda

bilionária: “Fizeram a coisa certa”. O GLOBO, 12 de jul. 2016. Disponível em:<https://blogs.oglobo.globo.com/mma/post/rorion-gracie-criador-do-ufc-comenta-venda-bilionaria-fizeram-coisa-certa.html&gt;. Acesso em 10 de dez. 2019.

MAÇANEIRO, G. G. B. Do Judô ao Gracie Jiu-Jitsu: A influência do judô Kodokan na idealização e no desenvolvimento do Jiu-Jitsu brasileiro. TCC

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(Graduação) – Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Desportos. Curso de Graduação em Educação Física. 2012.

MELO, Victor Andrade. Por uma história do conceito esporte: diálogos com Reinhart Koselleck. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v. 32, n. 1, p. 41–57, 2010.

NUNES, A. V.; RUBIO, K. The Japanese immigration influenceon the formation and development of Brazilian judô. International Journal of Sport Studies. Vol. 3 (10), 1087-1094, 2013.

TATAME TV. Enquete TATAME: Jiu-Jitsu old school ou new school?. 2018. (6m23s). Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=e7VnLIm0DF4&gt;. Acesso em 10 de dez. 2019.

NOTAS

[1] Pode ser compreendido como uma luta sem regras ou quase sem regras. [2] A sigla significa Artes Marciais Mistas, do inglês Mixed Martial Arts. É resultado da esportivização do Vale Tudo, quando se consolidou algumas poucas regras mundialmente, dividiu os combates em tempo, e estabeleceu critérios para o julgamento de um vencedor por parte dos juízes, quando as lutas não são finalizadas dentro do tempo.

[3] Traje específico utilizado para a prática da modalidade.

[4] Nomenclatura utilizada no campo, que pode ser compreendida como um golpe que retira o oponente do combate. Aqui são incluídas torções, chaves e estrangulamentos.

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O ACESSO DAS MINORIAS AO INSTITUTO PONTE NOVA – IPN

(ESCOLA AMERICANA) ATRAVÉS DAS

PRÁTICAS CORPORAIS

Rúbia Mara de L. Souza Cunha

O Panorama da construção de uma escola/confessional no sertão foi motivo de discórdias entre a Igreja Católica e protestantes americanos, com vistas a um possível “controle” dos corpos dos sujeitos numa suposta de “hegemonia “ da tradição religiosa no processo de legitimação do trabalho da missão. Busquei, aqui, compreender no contexto da consolidação das iniciativas dos americanos protestantes/maçons como se deu tal aversão dos expoentes católicos/conservadores em aceitar a permanência da instituição americana na região para a incorporação de nova ordem de uma sociedade afinada pelos ideais liberais. Aí, em meio á crise gerada por toda a „”negociação” da Fazenda Ponte Nova pelo vendedor, o Tenente da Guarda Nacional Srº Luiz Guimarães, que sofreu dissabores junto à família e ainda foi excomungado pelo Padre Ramos.

Somado a isso, a tradição da escola/fazenda se estabeleceu com uma proposta agrícola a qual se tornou visível a comunidade na socialização dos saberes, pois havia um suposto cuidado com o corpo/alma dos sujeitos matriculados, que foram assistidos na saúde, espiritualmente e intelectual. Daí, concomitante a esse fato, foram forjados pela doutrinação, instrução/civilização para que através da escolarização fossem (trans)formados com as práticas corporais constituídas nas aulas de ginástica, esporte e trabalhos manuais e grêmios, no intuito de “preparar” o novo cidadão.

Tais fragilidades constatadas pelos americanos foram suficientes para que, sem resistências aos “homens do diabo”, os mesmos pudessem “adentrar” as casas de adobe sem cerimônias e, mesmo através de equipamentos agrícolas, instrumentos de trabalho inovadores e “cuidados” proporcionados através de “garantias” de saúde, salvação e fé, sentiram-se encantados e aos poucos foram cooptados no chamamento para nova vida.

Tais modos de articulação e sociabilidades ofertados no IPN favoreceram o ambiente do trabalho difundido pelos missionários que utilizaram vários meios civilizatórios como: o uso de máquinas, carros, avião e tratores, além da luz a gás que eram recursos utilitários como o banho de chuveiro – uma novidade na região. Assim, o hospital, a escola e o templo passaram a ser assegurados como melhorias de vida na modelação de comportamentos na adequação de princípios americanos a um novo público a ser convertido e, nossa hipótese aponta nesse período que, cada acontecimento e cada ação, expressavam atos ritualizados com vistas a dar dignidade ás minorias cujos estilos de vida começaram a ser preestabelecidos pela missão americana na modalização do discurso do homem do campo, apostando numa formação integral dos sertanejos que viviam de forma irregular no seu cotidiano sem documentos e ou legalização de união e nos cuidados com a alimentação “pesada” com muitas misturas.

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Logo, com a figuração de sujeitos/ rurais que transitaram nos espaços criados pelos americanos e daí ocorreu o alargamento dos investimentos com a chegada de engenheiros agrônomos da missão ancorados nos homens na labuta como exemplo o vaqueiro “o cuidador do gado”, o boiadeiro com o manejar e cuidados com o gado que mantinha a sua sobrevivência e, no agricultor que vivia de meia no plantio buscando sobreviver junto aos familiares, mas que foram todos convocados pelos missionários para o trabalho, como uma espécie de “troca” e negociação para o controle de corpos e de uso do tempo em valores. Tais sujeitos começaram a trabalhar e a desenvolver serviços como pagamento de estudos de seus filhos, netos e ou parentes, na “suposta” ascensão social pela demanda dos que se converteram pela fé e incorporados à escola – fazenda, como numa proposta inclusiva.

Portanto, foram incentivadores de forma silenciosa e gradativa para que os alunos se tornassem admiradores dos cânticos devocionais e, seduzidos por mudanças, aderissem ao credo onde o ambiente estimulava a transição de classe social. Por assim, no intuito de se preparar pastores – evangelizadores, médicos, engenheiro e homens de boa fé e reputação moral , a notícia e fama do IPN foi disseminada pela microrregião. Isso se comprova no discurso de ex alunos, como é o caso de Zilene Macedo (bolsista e filha de pequeno agricultor e presbiteriana), que confirma os cuidados recebidos por ela quando adentrou aos 13 anos na escola/fazenda, mas que aprendeu a viver conforme ensinamentos dos presbiterianos e seguiu a vida afora evangelizando e instruindo. Era estranho o não reconhecimento por parte de brasileiros – alunos e professores no tocante à presença dos “vaqueiro” “boiadeiro” e “pequeno agricultor – roceiro” e suas singularidades ao adentrarem a instituição americana, mas tudo se conformava ao serem evangelizados”, instruídos e civilizados pelo viés elitista, mesmo com exigências ao ingressar e ou na permanência no IPN, isto é, no chamamento pela educação, fé.

Outro ex-aluno, Hailton Guimarães, ressaltou o trabalho agrícola ao se reportar sobre o Chico da Horta nas aulas de prática em que se fazia presente demonstrando a sua experiência, além de Isaú, que cuidava do motor e parte elétrica, do velho Aurelino marceneiro dentre outros não identificados. Já nas rememorações de Nilta Lessa (ex aluna da turma de 1955 ) sobre seu pai, um boiadeiro que “cuidava” do gado do IPN, mas foi contemplado com uma bolsa de estudo para sua filha e, passou a ser adepto da fé dos americanos. E além das narrativas de ex- professores Alexandrina Passos, Neemias Alexandre e João Paulino nos episódios cotidianos que retratavam as dificuldades das passagens dos parentes do vaqueiro (representante das minorias) dos filhos/netos como: Antonio Furaco, Chico da Horta e Durico respaldadas por uma (for)mação para o trabalho e para a vida e emancipação humana – ( os pioneiros em servir aos missionários americanos) e, como recompensa a garantia de estudo e trabalho ofertado na fazenda.

Por conseguinte, as práticas corporais incidiram sobre a moral dos indivíduos e no controle dos desejos, comportamentos e vontades, conformando aos propósitos da instituição, então a apropriação de terras pelos missionários fez com que as pessoas migrassem para os arredores da Escola/Fazenda em busca de assistência á saúde, educacional e espiritual

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como luz/solução para a suas vidas. Face ás adaptações pelo viés da modernização, com edificações das casas e dos equipamentos, frutos da civilização trazidos dos Estados Unidos da América na “forma protestante” de ser e de se viver fizeram valer a proposta da missão. Pode se afirmar que os intelectuais escolanovistas da Capital receberam com euforia os representantes de um sistema de produção e de civilização, uma vez que se cogitou nos Estados Unidos – como lugar de “inovação” e perspectivas outras na área da a educação um papel decisivo na manutenção da estrutura política, econômica e cultural, resultantes da união dos líderes dos grupos imigrantes aos brasileiros avessos à supremacia do catolicismo no país. Por fim, as minorias ficam lado a lado com os filhos de fazendeiros para se tornarem “cidadãos” diante da atuação pública dos “guardiães” ou dos professores leigos – atores sociais que operaram mudanças substanciais na vida e na tradição cultural com pertinência pragmática para fazer valer os ensinamentos dos protestantes.

Deste modo, a “fronteira civilizadora no Brasil Tropical” tornou se reflexo da ordem social presbiteriana, replicando num modelo norte-americano (NASCIMENTO, 2008, p.30),e traduziu-se na implementação de paradigma rural, civilizatório e reformista a partir de ponderações econômicas que ditaram a “assunção” das prioridades de atuação em conformidade com a Missão Cristã do Brasil com interferência na formação do sertanejo, uma vez que a civilização exigiu sacrifícios por parte das minorias em prol de um lugar social e, a ser considerado “cidadão”.

REFERÊNCIAS

Iº CONGRESSO RECIONAL DE ESCOLAS NORMAIS RURAIS E DE

PROFESSORES PRIMÁRIOS RURAIS. Cerro Largo/RGS: s.ed., 18,19 e 20 de dezembro 1962.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO. Anais do oitavo Congresso Brasileiro de Educação. Goiânia, junho de 1942. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1944.

CARVALHO, Marta Maria Chagas de. “Por uma história cultural dos saberes pedagógicos”. In: SOUZA, Cynthia Pereira de e CATANI, Denice Bárbara. (Org.). Práticas educativas, culturas escolares, profissão docente. São Paulo: Escrituras Editora, 1998, p. 31-40.

CÉSAR, Elben M. L. História da evangelização do Brasil. Dos jesuítas aos neopentecostais. Viçosa: Ultimato, 2000.

CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.

NASCIMENTO, Ester Fraga Vilas -Bôas Carvalho do. “A palavra impressa como estratégia de difusão do protestantismo no Brasil nas décadas de 50 e 60 do século XIX”. In: ANAIS ELETRÔNICOS DO II CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: HISTÓRIA E MEMÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA, 2002a. Natal. CD Rom, Anais…

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O COTINGUIBA ESPORTE CLUBE COMO ESPAÇO DE LAZER E

SOCIABILIDADE NA CIDADE DE ARACAJU – SE: DÉCADAS DE

1980 E 1990

Viviane Rocha Viana

Estudos sobre o lazer têm recebido atenção especial de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, sobretudo da educação física, o que garante distintos olhares e ratifica a importância de fomentar a discussão. Diante desta perspectiva consideramos relevante a ampliação do olhar para os clubes como espaços privilegiados para ações de lazer e de sociabilidade, neste caso, para o Cotinguiba Esporte Clube, nas décadas de 1980 e 1990, fase em que a sociedade Aracajuana passa a frequentar mais assiduamente os clubes como espaço para o lazer e no estabelecimento de relações sociais (MELINS, 2001).

A escolha deste clube se dá incialmente em virtude de ser o primeiro clube esportivo da cidade de Aracaju (1909) com características voltadas também para atividades de lazer, além de ter sido o clube que por muitos anos obteve notoriedade na cidade pelos resultados nos campeonatos esportivos e pelas festividades nele realizadas, as quais concentravam grande número de frequentadores e associados.

Camargo e Silva (2008) apontam que os clubes no Brasil, chamados em sua maioria de sócio recreativos, podem ser considerados, na sua forma de concepção, uma manifestação democrática de participação popular, visto que enquanto representatividade social eles são o resultado da vontade de determinados grupos de interesses atendendo diferentes segmentos da sociedade, seja de origem de classes trabalhadoras, da iniciativa pública ou privada, bem como originária de imigrantes, ou ainda de elites da sociedade.

Desta forma, os clubes se espalharam pelo país ocupando espaços importantes para a sociedade, em geral, em várias capitais brasileiras, desde o início do século XX. Aracaju, capital do estado de Sergipe, também foi contemplada com a presença destes espaços. Mas vale ressaltar que, de acordo com Oliveira (2015), antes de sua existência em várias destas cidades se faziam presentes confeitarias e cafés, que eram espaços frequentados por intelectuais e boêmios da época e, com o passar dos tempos foram resignificados e ou substituídos por espaços como os clubes.

O entendimento acerca dos clubes sócio recreativos de acordo com Silva (2006) perpassa pela compreensão do surgimento destes espaços enquanto fenômeno urbano que através da dinâmica das relações no lazer e as formas de sociabilidade com a cidade permite uma conexão entre a vida dentro e fora dos clubes.

Como espaço para a prática de esportes, seja como lazer ou de competição, em sua maioria, os clubes também proporcionaram aos seus associados e frequentadores espaços festivos que funcionaram como lugar de fomento às relações de sociabilidade. Os bailes dançantes, as festas de

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carnaval, assim como as matinês nos finais de semana provocaram na população associada e frequentadora dos clubes um sistema dinâmico de trocas, uma relação de interinfluências, contribuindo para a construção de significados e modos de vida das pessoas.

Logo, pensar o cenário, as redes de relações, assim como também as formas de sociabilidade pertencentes ao clube Cotinguiba nas décadas de 1980 e 1990 nos permite estabelecer também as relações existentes com a cidade de Aracaju e a compreender as manifestações da vida urbana.

O Cotinguiba é um dos clubes, esportivo e social, mais importantes da cidade. Foi fundado no dia 10 de outubro de 1909, com o nome oficial de Cotinguiba Esporte Clube. No entanto é relevante destacar que inicialmente o nome escolhido pela comissão fundadora tinha sido Club de Regatas Cotinguiba, pelo interesse da comissão em homenagear o rio que banhava Aracaju, que na época chamava-se Aracaju, porém foi retificado para Rio Sergipe, após anos de pesquisa junto aos órgãos responsáveis (COTINGUIBAOFICIAL).

É o clube mais antigo da cidade e começou sua história esportiva com os esportes náuticos, mais especificamente o remo. Em 1916 foi criada a Liga Desportiva Sergipana, na qual o clube adentrava ao cenário do futebol Sergipano (VIANA FILHO, 2014). O Cotinguiba obteve a primeira colocação no campeonato oficial de Remo, Voleibol, Basquetebol, Pedestrianismo (prática de caminhada em contato com a natureza) e Natação. Também foi o primeiro campeão estadual conquistando os campeonatos de futebol nos anos de 1918, 1920, 1923, 1936, 1942, 1952 e 1957 (VIANA FILHO, 2014).

Também conhecido pela imprensa Sergipana como Tubarão da Praia, em virtude de suas conquistas nos campeonatos esportivos, sendo estas comparadas às características do tubarão enquanto um animal imprevisível, indomável e selvagem, dotado de uma série de características que o fazem uma das mais bem sucedidas “máquinas” mortíferas da natureza e, por sua sede se encontrar num bairro chamado Praia 13 de Julho, o clube organizou a vida sócio esportiva da população à época. Fundado por desportistas e intelectuais representantes das famílias Franco, Leite, Rollemberg, Garcez e Vasconcelos. Seus primeiros sócios e dirigentes deram ao clube, incialmente, o caráter de clube elitista (VIANA FILHO, 2014).

Algumas atividades sociais apontadas por estudiosos de várias áreas do conhecimento nos últimos anos relacionam a sociabilidade e o lazer como aspectos importantes na vida dos sujeitos.

Neste contexto, o aspecto tempo é considerado crucial para as experiências que envolvam as práticas de sociabilidade e de lazer. Nesse sentido espaços como clubes tendem a concentrar um maior número possível de atividades cujo tempo “disponível”, “desobrigado”, “livre” (DUMAZEDIER, 2001; CAMARGO, 1989) são ocupados por frequentadores e/ou associados com práticas físico-esportivas, por exemplo, o futebol, a ginástica e a dança,

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estas que aparecem como atividades oferecidas e praticadas por várias pessoas nos clubes, conforme Silva et al (2012).

O Cotinguiba Esporte Clube, entre 1980 e 1990, foi ponto dede encontro de várias famílias na cidade de Aracaju, assim como também de outros municípios vizinhos. Com o passar dos anos passou a ser um clube frequentado pela classe média, mas em algumas festividades a elite local ainda marcava presença, principalmente nas festas mais luxuosas.

Nestas décadas em questão, o clube oferecia muitas atividades esportivas, como, remo, vôlei, modalidades de ginástica e futebol de salão. Este último que por muitos anos teve destaque na cidade. No entanto, os bailes temáticos, as matinês aos domingos e as festas carnavalescas eram oferecidos com frequência como opções de lazer e como atividades sociais.

O Cotinguiba Esporte Clube foi referência nas atividades esportivas e de lazer das décadas de 1980 e 1990, cujas ações permitiam aos associados experimentarem situações de sociabilidade.

As atividades que envolviam os esportes, como o futsal, o vôlei e o remo, dentre outras atividades como a ginástica, também marcaram presença na vida dos associados e frequentadores do clube que por muitas vezes reuniram-se para tais práticas, mas por consequência também mantiveram relações de convívio social importante.

As festas realizadas no clube, principalmente os bailes temáticos e carnavalescos, também foi um marco histórico e temporal na vida daquelas pessoas. Compreendemos que talvez a proposta do clube tenha sido a de oferecer lazer e sociabilidade, com a promoção destas atividades. Além disso, houve uma compreensão a partir da fala dos entrevistados que o clube também representava a consagração de um ritual de passagem social, marcado pela mudança nos hábitos e costumes culturais dos associados.

REFERÊNCIAS

CAMARGO, Laura Alice Rinaldi; SILVA, Marcos Ruiz da. Os clubes sociais e recreativos e o processo civilizatório brasileiro: uma relação de hábitos e costumes. In: Simposio Internacional Proceso Civilizador, 11, 2008, Buenos Aires. Anais… Buenos Aires: Universidad de Buenos Aires, 2008. p. 68-75. CAMARGO, L. O. L. (1989). O que é lazer. São Paulo: Brasiliense.

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HISTÓRIA do Cotinguiba Esporte Clube – O tubarão da praia. Esporteseblog, 2019. Disponível

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Referências

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