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A cidade de La Plata19 está localizada a aproximadamente 60 km na direção sudeste da cidade de Buenos Aires. Foi fundada em 1882, com o objetivo estratégico de dotar de uma autonomia política definitiva à capital argentina, depois de quase sessenta anos de guerras e lutas civis entre grupos pertencentes às elites urbanas e grupos do campo, conhecidos, respectivamente, como os ―unitários‖ e os ―federais‖. Ambos os grupos disputavam o domínio das coordenadas simbólicas do poder que os associavam com o controle objetivo da cidade capital e do incipiente comércio de ultramar que ela representava. Centro versus interior foi o leitmotiv desta longa disputa ―nacional‖ nunca resolvida e protagonizada, principalmente naqueles anos,

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Segundo o Censo Nacional de 2001, La Plata tem 574.369 habitantes distribuídos em uma superfície total de 926 Km2. Fonte: Censo Nacional de 2001. Buenos Aires: Instituto Nacional de Estadísticas y Censos.

pelos chamados ―caudilhos‖ da Província de Buenos Aires e de outras regiões do interior do país20, tradicionalmente ligados à mobilização das massas rurais frente aos partidários de um centralismo iluminado com base na elite nativa progressista que habitava o porto de Buenos Aires (Svampa 2006: 46).

Em um período relativamente curto de tempo (1880-1910), um capitalismo de base agrária e latifundiária dependente impõe-se como modo de produção dominante na formação econômico-social do país. Nesta formação, subsistem e se reproduzem relações de produção não capitalistas, seja nas economias regionais da área periférica ao ―pampa úmido‖ seja dentro deste último. As relações sociais agrárias garantiram à aristocracia terratenente a apropriação da renda absoluta do solo. A incorporação à segunda onda de ―mundialização‖ da economia (1870- 1900), sendo a Argentina um país privilegiado em recursos naturais e na produção de alimentos em grande escala, e, além disso, receptor de inversões e tecnologias de ponta (transportes, frigoríficos, etc.) provenientes dos países capitalistas centrais, permitiu a edificação de um Estado liberal-conservador dinâmico, capaz de direcionar uma revolução produtiva e promover a massiva imigração estrangeira, a constituição de um grande sistema de educação básica laica, o desenvolvimento de uma sociedade de massas com divisão social capitalista do trabalho nas grandes cidades e a identificação popular com os símbolos conservadores de ―Ordem e Progresso‖.

Mas as circunstâncias internas mencionadas não eram suficientes. Do ponto de vista econômico, a acumulação do capital girou sobre vantagens do diferencial agrário do aluguel dos campos e do comércio ao estrangeiro; o excesso econômico não foi aplicado para desenvolver o mercado local de acordo com as taxas que exigiam o crescimento da população; o setor industrial local não foi integrado com a economia (Rock 1985). No âmbito político, o sistema de partidos erigiu-se sobre a exclusão da participação de um estado liberal ―oligárquico‖ elitista e de um partido conservador fechado. Estas instituições políticas impediram o desenvolvimento progressivo da ―cidadania política‖ (Godio & Mancusso 2006). Por último, a cultura liberal positivista -se bem que modernizante- desenvolvia e justificava, culturalmente, maneiras de viver ―rentístico-financeiras‖ não baseadas no trabalho e nos valores impulsionados pelos esforços ―produtivistas‖ da imigração. Foi se

20 Na história socio-politica argentina o termo ―caudillismo‖ pode ser entendido com relação à

história socio-politica brasileira como sintese particular do coronelismo (a partir de meados do século XIX) e do caudilhismo (a partir da última década do século XIX) .O primeiro associado, nesta última, ao exercicio da força e do poder sobre territórios e pessoas. E o segundo especialmente associado com o carisma politicamente constituido a partir de relações de dádivas locais.

constituindo, assim, uma ―sociedade agrária‖ em contradição com a nova ―sociedade de massas e do salário‖.

Efetivamente, tratava-se de uma via potencial de desenvolvimento econômico, social, político e cultural da comunidade nacional em um contexto histórico concreto (segunda metade do século XIX): uma ―colônia de população‖, com grandes capacidades produtivas agrárias montadas na lógica de crescimento dos países desenvolvidos do capitalismo da época; membro de um pequeno grupo de países que se entraram funcionalmente na modernização da primeira onda da mundialização da economia, hegemonizada pelo imperialismo britânico (1870-1914). Uma ―anomalia‖ de origem por que, a Argentina daqueles anos, ao mesmo tempo era próspera e extremadamente desigual, e ―impávida, se manteve sem resolver seu papel na divisão e na apropriação de áreas periféricas entre os países desenvolvidos do capitalismo‖ (Godio & Mancuso 2006: 55).

A recém criada cidade de La Plata iria servir de Capital à região que tinha mais importância estratégica naquelas disputas: a Província21

de Buenos Aires, uma longa extensão de terras férteis e escassamente

habitadas, quase tão grande como o território da França, que rodeava a cidade de Buenos Aires (recentemente declarada Capital do país em 1880). La Plata se encontrará no centro do impulso ―normalista‖ que o presidente liberal Faustino Sarmiento22 dera à educação duas décadas antes. Precisamente aqui se enraiza primeiro e grande efeito dessa ―anomalia‖ argentina no qual a cidade adquire para si um território simbólico até hoje. Finalmente, a cidade nasce como parte de um modelo pedagógico de grande escala que era pensado para um país de

farmers, de pequenos produtores, e não dos grandes latifúndios reais que

entravam em contradição com a expansão e incorporação de grandes massas aos instrumentos da cidadania política. O programa da chamada ―geração dos ´80‖, em que La Plata se inclui como ícone em um campo de forças, resolveu brutalmente o ―problema indígena‖ através de um processo de repressão-cooptação dos ―gauchos e montoneras‖ do

21 Equivalente ao conceito de ―Estado‖ no Brasil.

22 Como escritor, Domingo F. Sarmiento é um dos maiores exponentes do Romantismo argentino,

devido ao seu papel relevante na chamada Geração de 1837. Sarmiento integrou o chamado ―Exército Grande‖ que derrubou Rosas em 1852. Foi eleito presidente da Argentina para o período 1868-1874, duplicou o número de escolas públicas na Argentina e construiu por volta de cem (100) bibliotecas públicas. A imigração européia também foi fortemente incentivada sobre a idéia de produzir uma ―mudança cultural‖. Nos últimos anos de sua vida, ele aproximou-se do Positivismo, como bem atesta seu último e mais polêmico livro: "Conflictos y armonías de las Razas de América".

interior23. Depois de finalizadas as grandes matanças indígenas da década de ´60 e ´70 do século XIX, e do disciplinamento do ―gaucho irreverente‖ através da sua incorporação aos exércitos de conquista, a cidade e o país deverão se conformar com esta nova violência urbana, agora sob o signo da civilidade prometida, e finalmente ―arrancada‖ ao deserto e à barbárie na origem.

La Plata seria pensada desde seu inicio como…

Un lugar en el que radicar una ciudad que no este muy lejos de Buenos Aires, ni muy próximo tampoco, que puedan ser desviadas hacia él las corrientes comerciales con provechos positivos; que ocupe un local central con relación a la Provincia de Buenos Aires…24

E durante sua inauguração, reitera-se que…

…en la Plaza Principal, se construyeron los palcos en forma de semi-circulo…(…) en los que se leían: Paz y Libertad –Orden y Progreso- Vías de comunicación y vida Municipal –Educación Común y sufragio libre – Amor por la libertad y respeto por las instituciones – La educación común debe acompañar a la universalidad del sufragio –No basta con odiar la tiranía, es necesario amar la libertad, etc, etc.25

Este foi o primeiro - e determinate - ritual de ―teatralização política‖ (Abelès 1997: 251) em que La Plata foi projetada como ―cidade modelo‖ da ―ordem e do progreso‖ liberal-democrático, destinada a ser ícone da modernização econômica e cultural que encabeçava a então governante ―geração dos ´80‖ do século XIX. Este grupo dirigente era herdeiro do ideal humanista-iluminista encarnado por Faustino Sarmiento e a geração dos ´37 do mesmo século, dominada por intelectuais pró-republicanos. Na década de ´80, a cidade era protagonista urbano da consolidação ambigua de um projeto econômico agropecuário-exportador de raiz latifundiária que dominará, com relativo êxito, o país até a década de ´30 do século XX, quando este modelo mercantil entra em crise mundial. O futuro do país era visto, naqueles últimos anos do século XIX, como o resultado da fusão bem sucedida de um estado- nação liberal moderno e uma economia primária definida como o ―celeiro do

23 Chamou-se ―montoneras‖ às unidades militares de extração rural integradas pelos ―gauchos‖ –

pastores mestiços- durante as guerra civis da primeira metade do século XIX. Geralmente, eram uma formação de cavalaria, conduzidas pelos caudilhos locais.

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Dr. Nicolás Achával. Apresentação da ―Reseña Estadística y descriptiva de La Plata. Ministerio de Gobierno de la Nación. Buenos Aires. Novembro de 1985.

mundo‖. O país aparece ou se apresenta como privilegiado receptor de capitais e tecnologias vindas dos países industrializados e grande assimilador de uma massiva imigração estrangeira, principalmente do sul da Europa (Itália e Espanha), sob a administração de uma aristocracia política conservadora, mas ideologicamente renovadora, pelas doutrinas de matriz liberal-positivista.

Nascida, então, em um momento histórico entendido por muitos historiadores do país como a instância ―fundacional‖ do estado-nação argentino (Halperin Donghi 1972, Rock 1985; Romero 2002), os responsáveis pelo projeto desta nova cidade, baseada no higienismo e no racionalismo da época, foram urbanistas e arquitetos europeus contratados para tal fim. Sua construção foi realizada por operários e peões imigrantes, chegados de variados lugares do mundo, os quais também formariam a primeira comunidade de habitantes da cidade. No censo realizado em 188526, consta que, dos 26.327 habitantes da cidade, 15.965 (64,4%) eram, na sua maioria, de nacionalidade italiana, espanhola, polonesa, e 15.401 (62%) eram operários e trabalhadores em geral. Pensemos que dez anos mais tarde, no Censo de 189527 quanado aquela primeira onda de imigração tinha já finalizado, em nível nacional, a cifra de imigrantes era de 25%.

Por sua vez, em La Plata, um número crescente de dirigentes do recém criado aparelho estatal viajava diariamente pelas novas vias férreas que a conectavam com Buenos Aires. O centro urbano, diferenciado claramente do perímetro periférico pela circunvalação que o delimitava, estava, originalmente, rodeado de pequenas fazendas de abastecimento. Pouco a pouco, ao redor do porto de Ensenada, cresceria o bairro industrial de Berisso28, primeiramente ocupado pelos frigoríficos destinados à exportação de carnes vindas dos latifúndios da Província. Mais tarde viriam as fábricas manufatureiras, durante a substituição de importações, ligada ao período de nacionalização do transporte e da indústria química na década de ´30 do século XX e à ―restauração nacionalista‖, ―o primeiro hiato culturalmente relevante, que começa a desconfiar, amarga e acidamente, do destino do país, do destino da exitosa, generosa e próspera Argentina cosmopolita‖ (Mancuso 2006: 208) em que La Plata se auto-criará como metáfora. Definitivamente, nos anos da sua fundação, La Plata parecia ser a realização do sonho de outro líder intelectual desse projeto, Juan Bautista Alberdi, quem tinha escrito em ―Bases e Pontos de Partida para a Organização Política da República Argentina‖ em 1852:

26 Reseña Estadistica y Descriptiva de la Ciudad de La Plata. Buenos Aires: Ministerio de Gobierno

de la Nación. Noviembre de 1985.

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Censo Nacional de 1895. Buenos Aires: Instituto Nacional de Estadísticas y Censos (INDEC). 2001.

28 Segundo o Censo Nacional de 2001, Ensenada possui 51.448 habitantes, enquanto Berisso têm

Aunque pasen cien años, los rotos, los cholos o los gauchos no se convertirán en obreros ingleses... En vez de dejar esas tierras a los indios salvajes que hoy las poseen, ¿por qué no poblarlas de alemanes, ingleses y suizos?... ¿Quién conoce caballero entre nosotros que haga alarde de ser indio neto? ¿Quién casaría a su hermana o a su hija con un infanzón de la Araucanía y no mil veces con un zapatero inglés?

Um arquiteto francês, chamado Pierre Benoit, seria o autor reconhecido do projeto urbanístico de La Plata. Em 1882, finalizaram a construção da cidade conhecida ao longo do país como ―a cidade das diagonais‖. Realmente, ela foi, por um bom tempo, objetivo utópico da nação, onde se aplicaram os princípios higienistas e funcionais de uma cidade progressista, com amplas e ensolaradas ruas e avenidas, praças e espaços verdes generosos e geometricamente distribuídos, serviços higiênicos e equipamentos modernos, luz elétrica e transporte e onde a arte urbana combinava o barroco e o neoclássico em espaços monumentais, arquitetura de palácios que enfatizava a sociabilidade urbana29. Tratava-se de um modelo baseado no ―urbanismo orgânico‖ nascido no século das luzes, formulado a partir do descobrimento do sistema de circulação do sangue do corpo humano feito por William Harvey em 1628 (Sennet 2008: 261-288).

Ao longo da sua coluna vertebral, a Avenida 53, se estendem os prédios públicos municipais e provinciais em um boulevard inspirado no do Champs Elysée. Esta avenida culmina com o Colégio Nacional, que está rodeado pelas principais faculdades da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), fundada posteriormente, em 1905, com o objetivo de favorecer um povoamento ―nobre‖ e ―culto‖ da cidade e de formar as novas elites intelectuais. Os amplos espaços para a prática esportiva, atrás dos prédios educativos, marcavam a centralidade do modelo inspirado no college inglês. Atrás desse espaçoso modelo de civilidade, cresce o Paseo del Bosque, uma enorme extensão de terra atravessada por caminhos, que foi pensada como um parque natural que representa urbanisticamente a relação da civilidade interna com uma natureza benfeitora, estabelecendo os claros limites com ela.

Las zonas no se confundian, La ciudad no se dispersava. No se toleraba la periferia desparejada, sub-equipada, marginada. La ciudad era una creación humana completa

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Com relação ao seu desenho de vanguarda é importante saber que La Plata foi premiada na Exposição Mundial de Paris em 1889, com duas medalhas douradas nas categorias de ―Cidade do Futuro‖ e ―Melhor realização construída‖.

y controlada, y el campo, natural y hermoso por sí mismo, era obra de la naturaleza, con la mano del hombre con sabio regulador.30

Desse modo, construída em torno a um centro geométrico perfeito, no coração, impávida, a ‗Plaza Mariano Moreno‘ constitui a inscrição material de um relato histórico-mitológico (Lévi-Strauss 1986: 63). Do ponto de vista da sua significação como utopia de unidade política em um contexto de lutas hegemônicas da época, não é menos importante o fato de se ter dado à praça central da cidade o nome de Mariano Moreno, já que, usualmente, nas cidades e nos povoados da Província de Buenos Aires, a praça central será, quase sempre, chamada de ‗Plaza San Martin‘, o nome oficial do prócer ícone da independência argentina e de outros países do continente no primeiro quarto do século XIX.

Foto de La Plata em 1981, faltando um ano para o centenário da fundação. No extremo inferior, a imponente Cátedral de La Plata (inspirada em Notre Dame) em frente à Praça Moreno. No outro extremo da praça, o palácio do Governo Municipal. As Avenida 51 e 53 acompanham ambos os lados destes dois prédios em direção ao rio e marcam o espaço de sociabilidade urbana (Foto: Acervo Municipal de La Plata).

Acontece que Moreno naquela época, era o sobrenome de uma figura política emblemática e, ao mesmo tempo, contestada do ponto de vista ideológico. Jacobino confesso, primeriro tradutor do Contrato Social de J.J. Rousseau em 1810, foi advogado, jornalista e político e teve uma vertiginosa

ascensão ao poder durante os primeiros anos da Revolução de Maio, sendo nomeado Secretário de Guerra nesse mesmo ano. Sua morte prematura e duvidosa em alto mar, em 1811, a bordo da galeota ―Fame‖, que o levava à Europa em missão da Primeira Junta de Governo, abortou um posicionamento mais radicalizado das origens republicanas do país. A Praça Mariano Moreno representa, assim, o ―espírito‖ de Buenos Aires habitando a cidade na fundação de La Plata. Ao passo que a Praça San Martin, receptáculo do palácio do Estado, será a testemunha do espírito do interior do país, representado, então, pela Província de Buenos Aires, em disputa com a primeira por uma identidade nativa de governar e fazer negócios com o mundo.

Neste sentido, o racionalismo urbano de La Plata é abstração e concretude de uma variedade de gêneros que transitam pelo inconsciente coletivo ―patriótico‖. O modo como os clubes se instalaram nesse traçado faz parte desse processo em que se forma a cidade. Poucas vezes foi tão precisa a afirmação de Michel De Certau sobre o que ele denomina a cidade-conceito, instaurada pelo discurso utópico-urbanístico. Como nos diz este autor, é sobre a base de uma organização racional e de um não tempo para construir receptáculos formais para...

...a criação de um sujeito universal e anônimo que é a própria cidade: como ao seu modelo político, o Estado de Hobbes, pode- se atribuir-lhe pouco a pouco todas as funções e predicados até então disseminados e atribuídos a múltiplos sujeitos reais, grupos, associações, indivíduos. A cidade, à maneira de um nome próprio, oferece assim a capacidade de conceber e construir o espaço a partir de um numero finito de propriedades estáveis, isoláveis e articuladas uma sobre a outra. Nesse lugar organizado por operações‖ ―especulativas‖ e classificatórias, combinam-se gestão e eliminação. (De Certau 2008: 173).

Deste modo, o traçado urbano ilustra muito bem dois componentes centrais que caracterizaram a época: o modelo político inspirado no centralismo francês e o impulso à imigração européia como estímulo para uma nova práxis cultural em busca de uma aculturação ―empática‖. A necessidade de criar instituições capazes de organizar uma pedagogia das jovens elites emergentes e construir receptáculos formais para esta finalidade tinha como pano de fundo a fórmula de modernidade ―desenhada‖ como urbanidade social e utópica.

Como afirma Armando Silva a propósito do conceito de pregnância

simbólica, que toma emprestado do filósofo Ernst Cassirer, os imaginários

urbanos, carregados de projeções e intenções sociais da ordem simbólica, vão sempre ―referir-se à impotência que condena o pensamento a não poder intuir algo sem relacioná-lo com um ou muitos sentidos‖ (Silva 2001: 44). A cidade

aparece como um grande palco em que os atores, diretores e operários iam tomado seus respectivos papéis em uma peça sobre a grande pátria imaginada a partir daquela cidade.31 Assim, estes conjuntos de signos remetem a ideais e significados presentes no conceito que os habitantes da cidade criaram sobre si mesmos ao longo dos anos, encontrando um ponto de convergência local em torno a um problema que tem atravessado a maioria das sociedades modernas na instituição da ordem política: a governabilidade das massas que nasciam junto a utopias de sociabilidade das novas urbes. No problema da ordem e do disciplinamento social e da constituição de hierarquias culturais, a fórmula civilização ou barbárie, esse ―mito etnogênico‖, buscava também seu lugar e sua eficácia, e se apresenta como uma questão central das ―pequenas elites‖ locais emergentes durante os primeiros anos de construção da sociedade argentina.32

Observemos então esta pregnância em um relato de fundação que circula até hoje na cidade. Ele descreve muito bem o lugar dado à fundação da cidade na auto-imagem criada pelos habitantes ao longo dos anos de existência. Segundo esse relato, nunca confirmado, teria havido um misterioso encontro numa ―tertúlia parisiense‖ entre Benoit e Júlio Verne, em finais da década de 1870, que teria dado como resultado duas ―criaturas‖ ao mesmo tempo: por um lado, a projeção local de La Plata, por parte de Benoit; por outro, a projeção universal em Os quinhentos milhões de

Begúm, uma obra publicada por Verne, em 1879. Algo é certo, a obra existe

no papel, ainda que provavelmente não tenha sido escrita por Verne, mas sim por um tal Grousset, que a teria, por sua vez, vendido a Hetzel, o editor do então já famoso escritor futurista. Porém, concretamente, apenas três anos antes da fundação de La Plata, e quando o projeto se encontrava ainda em período de idealização, este último escreveu sobre uma cidade imaginária em que a ―cada 600 metros existe uma rua de maior largura, que leva o nome de boulevard ou avenida... em suas encruzilhadas figura uma