PARA UMA ABORDAGEM SISTEMÁTICO-TEOLÓGICA DO SACRO-RELIGIOSO ENTRE OVAKWANYAMA
4.2. A comunhão dos Santos e o alcance do pecado
As orações pelos defuntos fundamentam-se na comunhão dos santos404 e na amplitude e infinitude da misericórdia de Deus. Na verdade, desde sempre a Igreja ofereceu sufrágios pelos defuntos405. Sentimo-nos em comunhão com os nossos irmãos
402 Cfr. CIC, nºs 246; 248; 264; G. F. YAKULEINGE, Anúncio e vivência do Evangelho, 29-30. 403 Existe uma perspectiva de teólogos que fazem equivalências de nomes, sobretudo de Jesus
Cristo, como Ancião, Antepassado ou Proto-antepassado. Mas teremos a ocasião de refutar esta perspectiva a seu tempo nesta dissertação; contudo, ela foi sintetizada por J. BAUR, 200 Anos de
Cristianismo em África, uma História da Igreja Africana (Lisboa: Paulinas 2002) 474-477.
404 A comunhão dos santos tem os seus fundamentos na comunhão e na união íntima no seio da
Santíssima Trindade. A comunhão da Igreja é reflexo da unidade da Trindade. Os membros da Igreja ou os filhos de Deus estão unidos ao Pai no Filho pelo Espírito Santo. É. LAMIRANDE, La communion des
Saints, Je Sais – Je Crois Encyclopédie du Catholique au XXème siècle, Deuxième Partie, Les Grandes Vérités du Salut (Paris : Librairie Arthème Fayard, 1962) 47-48.
defuntos e acreditamos na misericórdia divina, que pode acolher os nossos irmãos por quem oramos e oferecemos o santo sacrifício eucarístico406.
Jesus Cristo é o único Mediador e Intercessor por excelência dos homens diante do Pai. Os apóstolos e mártires de Cristo, pelo derramamento de sangue, Santa Maria e santos Anjos estão mais próximos/ligados aos homens em Cristo. A eles são associados os que se notabilizaram pela perfeição nas virtudes cristãs407. Daí a importância da sua intercessão, a qual participa da intercessão de Cristo, tal como a sua santidade participa da santidade de Deus, três vezes santo (Is 6, 3). O recurso à intercessão dos santos é expressão da comunhão entre a Igreja celeste e a peregrina408.
O recurso de ovakwanyama a antepassados e aos espíritos não representa a idolatria nem é superstição. Pois não se trata nem de prestar honras e veneração aos antepassados ou aos espíritos em lugar de Deus409, nem de crer haver eficácia em si na acção dos antepassados ou espíritos410. É um recurso, é uma ajuda que os vivos pedem aos seus antepassados411, os quais, percorrendo as peripécias do tempo, convenceram os que pedem ajuda, com as suas virtudes e verticalidade perante as vicissitudes históricas. Na verdade, ovakwanyama, ao recorrerem aos antepassados412, pedindo a cura para um recém-nascido sem sinais vitais, ou pedindo a tranquilidade para a festa ou para a casa nova, não acreditam na exclusiva eficácia destes intercessores, mas fazem-no porque estão convencidos de que eles se encontram na assembleia dos anciãos, mais próximos do Ser (Deus)413, de cuja vida todos os seres participam.
406 Cfr. CIC, 1055. 407 Cfr. LG, 50, Redemptoris Missio, 5. 408 Cfr. CIC, 2635. 409 Cfr. CIC, 2113. 410 Cfr. CIC, 2111.
411 São estes nossos irmãos cuja fé só Deus conheceu. Cfr. Oração Eucarística IV.
412Este recurso aos antepassados pressupõe a convicção de que eles ainda estão vivos e fazem parte
da comunidade humana. Podíamos dizer com Langa que os «mortos não deixaram de existir, apenas
mudaram a forma de existir, eles aí estão ao nosso lado e solicitam toda a nossa atenção em muitos sentidos. Mas não se pense que esta “ressurreição” e “existência” post mortem são pensadas de uma maneira fisicista como muitos cristãos pensam a Ressurreição de Cristo». A. LANGA, Questões Cristãs
à Religião Tradicional Africana, 154.
413 Na verdade, «assim como a comunhão cristã entre os peregrinos nos aproxima mais de Cristo,
assim a comunhão com os santos nos une a Cristo, de quem procedem, como de fonte e cabeça, toda a graça e a própria vida do Povo de Deus». LG 50.
A Eucaristia significa e realiza a comunhão de vida com Deus e a unidade do povo de Deus. Na Eucaristia, Deus em Cristo santifica o mundo e os homens no Espírito Santo prestam culto a Cristo e, por Ele, a Deus Pai414.
Existe uma comunhão entre a Igreja peregrina e a celeste415. Existe comunhão entre os vivos e os defuntos. Pelas exéquias cristãs, sobretudo pela Eucaristia, manifesta-se a comunhão eficaz com o defunto e educa-se para a vida eterna416. A comunidade cristã, e sobretudo a família do defunto, manifesta a sua comunhão eficaz com ele na Eucaristia, enquanto oferecimento do sacrifício da morte e ressurreição de Jesus Cristo ao Pai no Espírito Santo. Efectivamente, o defunto é membro vivo do Corpo de Cristo que, na Eucaristia, comungamos. Ao tomarmos o Corpo de Cristo entramos em comunhão não só com Cristo ou com a Santíssima Trindade, mas também com todos quantos já partiram deste mundo, acreditando em Deus, em especial aquele defunto por quem se celebra a Eucaristia. Ou seja, entramos em comunhão com o Corpo de Cristo e, consequentemente, com todos os que se encontram n' Ele417.
Os santos418 estão unidos mais intimamente com Cristo. Por isso, eles consolidam a santidade de todo o Corpo Místico de Cristo. Eles intercedem junto do Pai pelos vivos peregrinos na terra. Esta intercessão dirigida ao Pai passa pelo Filho no Espírito Santo. Os santos apresentam os méritos alcançados na terra por Jesus Cristo, o único mediador de Deus e dos homens419.
Portanto, qualquer beneficio que se alcance por intercessão de um determinado antepassado, seja para a cura de uma criança, seja para a tranquilidade de festas ou viagens, não vem do antepassado mas de Deus por intercessão deste antepassado. Os
414 Cfr. CIC, 1325.
415 Como dizia Lamirande, nous «sommes invités à participer dès maintenant, dans l’obscurité de
la foi et dans l’espérance, à la vie de l’Eglise céleste. Cette communion s’exprime de façon plus concrète par le culte rendu aux saints, par les prières qui leur sont adressées et par le rôle d’intercesseurs qu’ils exercent en notre faveur auprès du Christ et de Dieu» É. LAMIRANDE, La communion des Saints, 117.
416 Cfr. CIC, 1684. 417 Cfr. CIC, 1689.
418 Nas conclusões do Concilio de Trento, XXV sessão, fala-se da necessidade de educar para a
intercessão dos santos nestes termos: «que instruyan diligentemente a los fieles en primer lugar acerca de
la intercesión de los Santos, su invocación, el culto de sus relíquias e el uso legitimo de sus imágenes, enseñandoles que los Santos que reinan juntamente com Cristo ofrecen sus oraciones a Dios en favor de los hombres». Cfr. E. DENZINGER, El Magisterio de la Iglesia. Manual de los símbolos, definiciones y
declaraciones de la Iglesia en materia de fe y costumbres, versión directa de los textos originales por Daniel Ruiz Bueno, (Barcelona: Editorial Herder, 1963), p. 278.
antepassados em si não têm eficácia, e só podem interceder se estiverem em comunhão com Deus.