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A Estratégia dos EUA para conter os BRICS

4. Capítulo IV – A Ordem Internacional Atual: entre a Multipolaridade e o

4.2 A Estratégia dos EUA para conter os BRICS

A História recente tem demonstrado que as grandes potências ou superpotências que, a um dado momento, pareciam ultrapassar os EUA, ficaram, na verdade, aquém desse objetivo. Neste sentido, Zakaria10 tem, de facto, razão quando aponta a época em que o progresso norte-americano parecia ultrapassado pela União Soviética, primeiro com o lançamento do satélite Sputnik em 1957, e depois quando Iuri Gagarin se tornou o primeiro homem no espaço, em 1961. Ou ainda mais recentemente, quando, nos anos 80, se pensava que a economia e o progresso tecnológico do Japão ultrapassariam os EUA. A verdade, porém, é que, hoje, nenhum destes países é superior aos EUA.

Partindo, pois, desta análise, o paralelismo com a ascensão dos BRICS é incontornável. As dúvidas podem, de facto, surgir em relação ao Brasil ou até à Rússia,

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Fareed Zakaria, The Post-American World: And the Rise of the Rest, Penguin Books, Londres, 2009, p. 210

e seguramente em relação à África do Sul. Mas como fazer a mesma leitura em relação a sociedades gigantescas – a China e a Índia – que avançam rapidamente no desenvolvimento económico, social e até militar, podendo atingir o nível pós-industrial em poucas décadas? Ora, de facto, perante tais potencialidades (quer em termos de massa crítica, quer em termos de dimensão económica e até militar), é evidente que as perspetivas, em relação, sobretudo, à China, ultrapassam largamente as perspetivas do Japão dos anos 80. Só a União Soviética poderia constituir um ponto de comparação, na medida em que o seu poder militar e tecnológico esteve sempre ao nível do poder dos EUA. A questão é que, atualmente, não é apenas a China que se apresenta com elevadas potencialidades, mas também a Índia, a reemergente Rússia ou o Brasil, em menor grau. A própria perceção e posição dos EUA relativamente ao poder destas potências é reveladora de uma mudança. São exemplos disso não apenas a posição em relação à Índia, ou a recente estratégia de segurança nacional de 2010, mas também o mais recente relatório do Pentágono que dá conta do poder militar chinês. Neste mesmo relatório fica bem patente o extraordinário e detalhado desenvolvimento militar da China – muito devido a Taiwan – bem como os receios dos EUA relativamente à forma como a China pretende usar esta força. No relatório pode ler-se: “Over the past decade,

China’s military has benefitted from robust investment in modern hardware and technology. (…). However, there remains uncertainty about how China will use its growing capabilities”11.

Por outro lado, ao mesmo tempo que os EUA demonstram alguma prudência e desconfiança, do lado da China as declarações oficiais de alguns responsáveis chineses dão conta de um crescente protagonismo e, inclusivamente, de um tipo de posição que antes só os EUA tomavam. Veja-se o exemplo das afirmações do presidente do Banco da China, Xiao Gang, ao advertir os EUA para o caminho económico que estão a seguir e ao indicar a solução para os problemas da economia norte-americana: “It is a

recognized structural problem of the global economy that US over-consumption has been a principal source of world demand (…). The US should refrain from launching QE3 [Quantitative Easing – programa de estímulos à economia nacional] and tighten its monetary policy to raise the world's confidence in the value of the dollar”12. Ora, no

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Relatório oficial do Pentágono sobre o poder militar chinês, Military and Security Developments Involving the People’s Republic of China 2011, Agosto de 2011, p. I, disponível em: http://www.defense.gov/transcripts/transcript.aspx?transcriptid=4868

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Xiao Gang, presidente do Banco da China, artigo de 17 de Agosto de 2011, disponível em: http://www.boc.cn/en/bocinfo/bi1/201108/t20110817_1493258.html, acedido no dia 30/08/2011

contexto de uma ordem exclusivamente unipolar, dificilmente dirigentes de outra potência fariam declarações de caráter repreensivo que apontam o caminho à superpotência. Esta tarefa coube sempre aos EUA, e não à China ou à Rússia, sobretudo após o final da Guerra Fria. Zakaria está, portanto, cada vez mais certo quando afirma:

“At a military-political level, America still dominates the world, but the larger structure of unipolarity – economic, financial, cultural – is weakening”13.

Apesar de tudo, a posição oficial do governo norte-americano reafirma o poder estruturante dos EUA na ordem atual. Barack Obama faz questão de o afirmar e de reforçar que o lugar dos EUA continuará a ser enquanto superpotência. Num discurso em Westminster, no parlamento britânico, Obama diz claramente:

“Countries like China, India, and Brazil are growing by leaps and bounds. (…) And yet, as this rapid change has taken place, it’s become fashionable in some quarters to question whether the rise of these nations will accompany the decline of American and European influence around the world. That argument is wrong. The time for our leadership is now. It was the United States and the United Kingdom and our democratic allies that shaped a world in which new nations could emerge and individuals could thrive. That’s why countries like China, India and Brazil are growing so rapidly -- because they are moving toward market-based principles that the United States and the United Kingdom have always embraced.”14

Ao mesmo tempo que os EUA reforçam a ideia de que o poder da América e da Europa é agora mais necessário do que nunca, seguem igualmente uma estratégia inteligente de contenção do poder das potências emergentes, em particular dos BRICS. A valorização de grupos como o G20, em detrimento do G8, ou mesmo a própria valorização dos BRICS e das suas reivindicações (como a reestruturação do Conselho de Segurança da ONU) constituem mudanças assinaláveis relativamente à visão que os EUA tinham do mundo no ano 2000. Atualmente, a estratégia norte-americana revela a inteligência de se basear numa índole de smart power que passa pelo reconhecimento, respeito e apoio ao peso político de países como a Índia, por exemplo. Ora, este smart

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Fareed Zakaria, The Post-American World: And the Rise of the Rest, Penguin Books, Londres, 2009, p. 218

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Barack Obama, presidente dos EUA, Discurso em Westminster, 25 de Maio de 2011, disponível em: http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2011/05/25/remarks-president-parliament-london- united-kingdom, acedido no dia 30/08/2011.

power traduz-se no que Charles Kupchan designa como unipolaridade benigna15 e cuja execução se baseia fundamentalmente na valorização do regionalismo, mais concretamente no apoio ao estabelecimento de potências regionais, de modo a manter e fortalecer o estatuto da superpotência. Nas palavras de Kupchan: “Regional unipolarity

provides order and stability through power asymmetry (...). The preponderance of the leading regional state discourages others from balancing against it (...)”16. A estratégia norte-americana baseia-se, assim, não apenas no apoio desta supremacia regional, mas igualmente num estímulo à competição regional, de modo a gerar um equilíbrio de poder entre as grandes potências e assim beneficiar o estatuto da superpotência. Esta é claramente a estratégia que está a ser adotada em relação à reestruturação de organizações internacionais como a ONU, cujo Conselho de Segurança é hoje palco do regionalismo mais evidente.