I. DINÂMICAS MIGRATÓRIAS NA EUROPA E EM PORTUGAL
1.1 A Europa continente de migrantes
1.1.1 A Europa como destino
A partir do segundo conflito mundial e de resto toda segunda metade do século XX a realidade migratória da Europa foi marcada, grosso modo, por duas tendências: por um lado, o surgimento e reforço de correntes migratórias intra-europeias, por outro, o aparecimento da Europa como destino de emigração para movimentos migratórios provenientes de territórios extra-europeus. Na origem de ambos estes movimentos estão sobretudo razões de ordem económica, mas também, nalguns casos, razões sociais e políticas.
As correntes migratórias intra-europeias estabeleceram-se, neste período, desde os países do Sul da Europa – Itália, Grécia, Portugal, Espanha, Turquia e Ex-Jugoslávia - , que surgiam como países emissores de mão-de-obra, para os países do Centro e Norte da Europa – Alemanha, Benelux, França e Reino Unido.
Contudo, o que se torna verdadeiramente novo para Europa, é o facto de este tradicional continente de partida começar, desde a segunda metade do século XX, a assumir-se cada vez mais como um importante destino de emigração, por razões económicas ou não, de milhares de pessoas de origens não-europeias, seja de países da periferia da Europa, nomeadamente da África do Norte, seja, mais tarde dos do Extremo Oriente, da Ásia, da América Latina e de outras regiões de África.
O surgimento, neste período, destas correntes migratórias intra-europeias e extraeuropeias, nomeadamente as provenientes do Norte de África em direcção à França, está
fortemente associado à conjuntura vivida na Europa no pós-II Grande Guerra Mundial. Depois do segundo conflito mundial, a Europa encontrava-se devastada pela guerra e tinha pela frente a tarefa de reerguer-se das cinzas. O Plano Marshall constituiu um alento para a reconstrução económica da Europa, mas as perdas populacionais nos países mais atingidos pela guerra e o abrandamento do crescimento demográfico na Europa, levaram a que a necessidade de mão-de-obra fosse particularmente sentida. 25 BARATA, Óscar Soares, op. cit., p. 117
“Com efeito, o abrandamento do crescimento demográfico devido às condições demográficas existentes antes da guerra e às perturbações causadas pela guerra, bem como o novo arranque da economia (modernização da indústria, reconstruções, etc.) estiveram na origem de uma necessidade de mão-deobra. Nestas condições, o ajuste demográfico e económico realizou-se através da imigração
essencialmente proveniente dos países do sul da Europa (Itália, Espanha, Grécia, Portugal, Turquia, Ex- Jugoslávia) ou do Magreb para os países do Ocidente e Norte da Europa.”26
No contexto social e económico da Europa do pós-guerra, o recurso à imigração surgiu como a alternativa possível para fazer face à carência de mão-de-obra e assim, desde o final dos anos 50 até meados dos anos 70, muitos países europeus abriram as suas fronteiras à imigração, apelando e mesmo recrutando directamente nos países de origem dos migrantes, a mão-de-obra de que necessitavam.27
“Assim, a imigração constituiu uma mão-de-obra complementar, que veio ocupar postos de trabalho pouco qualificados e pouco remunerados na indústria e nos serviços. (…) A migração internacional, frequentemente considerada como solução temporária, surge como uma resposta a necessidades conjunturais, totalmente determinadas pela situação do mercado de trabalho existente.”28 Assim, neste período, a imigração na Europa era essencialmente uma imigração de carácter laboral. Para os migrantes, o crescimento económico e a carência de mão-deobra nos países receptores29 funcionaram como o principal atractivo.
“A partir do final dos anos 50 até aos anos 70, as condições do mercado de trabalho nos países de acolhimento foram o principal motivo da imigração para os países do Ocidente e do Norte da Europa (Alemanha, Benelux, França e Reino Unido).”
Além da conjuntura vivida nos países receptores, as realidades económicas e sociais vividas nos países de origem destes movimentos, contribuíram para o estabelecimento destas correntes migratórias fossem elas intra-europeias ou extra-europeias.
26 RUGY, Anne de, “Dimensão Económica e Demográfica das Migrações na Europa Multicultural”, CELTA, Oeiras, 2000, p. 13
27 “In 1945, the newly established National Immigration Office (ONI) aimed to increase the the active population by facilitating migration, yet regulating migratory flows. Many firms circumvented the ONI, however, and continued to carry out their own migrant employments strategies by hiring migrants directly from their countries of origin. By the end of the 1960s, nearly 80% of migrants had entered the country without complying with official regulations.” OBERHAUSER, Ann M., “The International Mobility of Labour: North African Migrants in France”, Professional Geographer, 43(4), Association of American Geographers, 1991, pp. 431 -445
28 RUGY, Anne de, op. cit., p.1329 Ibidem, p.1 29
Com efeito, ao poderoso atractivo da oferta de empregos nos países receptores – factores de atracção - corresponderam o desemprego, a pobreza e os baixos
rendimentos vividos nos países de origem,30 factores que se conjugaram ainda com a percepção de oportunidades reais ou não que existissem nos países de destino – factores de repulsão. Podemos dizer que as circunstâncias vividas nos países receptores e nos países de origem criaram uma situação propícia ao estabelecimento de movimentos migratórios entre esses países.31
Acresce referir ainda que, embora fossem sobretudo razões de ordem económica que estivessem na origem destas correntes migratórias, a proximidade geográfica determinou também o sentido destes movimentos, nomeadamente quando a mesma se dava entre países com diferentes níveis de desenvolvimento das suas economias. Com efeito, a proximidade geográfica entre dois países pode provocar um movimento migratório quando essa mesma proximidade se dá entre as economias designadas de avançadas e as economias designadas de periféricas ou semi-periféricas. Essa proximidade geográfica, quando existe, torna-se determinante, pelas vantagens que apresenta: sempre que a distância é mais curta, os problemas de comunicação, as dificuldades do regresso, os problemas de transporte e os custos de transferências são atenuados.32
Um dos exemplos que ilustra a importância da proximidade geográfica, é o da corrente migratória que se estabeleceu entre a então Alemanha Federal e a Turquia, sendo que a mão-de-obra não qualificada da economia do país menos desenvolvido (economia periférica ou não-periférica), a Turquia, ia suprir necessidades de mão-de-obra na economia industrial (economia mais avançada), neste caso a alemã. 33
Além da proximidade geográfica, também a partilha, entre o país de origem e de destino, de elementos histórico-linguísticos, condicionou, desde logo e de futuro, o sentido dos movimentos migratórios extra-europeus, tendo sido a colonização o modo 30 Ibidem, p. 13
31“As causas de partida são múltiplas e complexas: e embora os motivos do êxodo estejam ligados à incapacidade que o país tem de fixar os seus nacionais, estão sempre presentes ao nível dos emigrantes a busca de melhor vida, para si e para os seus, a fuga ao serviço militar, o exemplo da fortuna dos que regressam, desta vez mais frequente e em menor número.” ROCHA-TRINDADE, Maria Beatriz, “Emigração”, Dicionário Ilustrado da História de Portugal, 163, Alfa, 1985
32 JACKSON, John A., “Migrações”, Ed. Escher, 1986, p. 31
33 “A maioria dos trabalhadores estrangeiros residentes na Suécia vem da Finlândia, na Suíça vêm da Itália, nos Estados Unidos do México e do Canadá, na Argentina do Chile e do Paraguai, na Venezuela da Colômbia, na África do Sul, de Moçambique e do Lesoto e no Reino Unido da Irlanda”. (PETRAS, citado em JACKSON, John A. Migrações, Ed. Escher, 1986, pp. 31-32
de aproximação e permuta cultural. Um dos exemplos mais significativo no quadro desta migração laboral é a migração magrebina para França.
No caso português, embora Portugal não fosse, neste período, um país receptor mas sim, e tradicionalmente, emissor de mão-de-obra, a existência de uma imigração
comparativamente significativa de trabalhadores provenientes do Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, com particular destaque para a imigração cabo-verdiana que começou a assumir-se a partir de meados dos anos 60 e, mais recentemente, do Brasil, demonstra igualmente a importância destes factores.
A par desta migração de carácter laboral verificou-se também uma corrente migratória de carácter mais político e social com origem nas antigas colónias europeias, na sequência das independências dadas a estes territórios a partir dos anos 50 e, no caso de Portugal, só após a Revolução de 1974. Muitos nacionais europeus ou descendentes destes deixaram esses territórios e regressaram à Europa, reforçando assim as correntes migratórias em direcção ao Velho Continente.
Foi o caso dos pied noirs, que regressavam das ex-colónias francesas do Magrebe e mais tarde, no caso português, dos retornados dos antigos territórios ultramarinos. No caso de Portugal, a descolonização implicou o êxodo massivo de centenas de milhares de portugueses que residiam nas colónias, em particular depois das independências em Outubro de 1975, pouco depois da Revolução de Abril.
“Por outro lado, em 1975, Portugal recebe algumas centenas de milhar, talvez 500.000, talvez 600.000, nunca se saberá ao certo, de ex-residentes do Ultramar. Foram os chamados «retornados», brancos, mestiços, negros e asiáticos, naturais de Portugal ou das colónias. Chegaram a Portugal e instalaram-se, nas maiores dificuldades imagináveis. Em poucos meses a população cresceu talvez 7% !”34
Em meados dos anos 70, a conjuntura económica europeia alterou-se, quase subitamente. Os dois choques petrolíferos, desencadearam um período de recessão económica na Europa que se traduziu num aumento significativo do desemprego. Este aumento do desemprego foi também agravado pela entrada significativa das mulheres no mercado de trabalho e pela chegada à idade activa da geração do baby-boom, o que aumentou substancialmente a oferta de mão-de-obra.35
Imediatamente, e porque a conjuntura se alterou no sentido da regressão económica, os trabalhadores imigrantes foram os primeiros a serem encarados como personna non
34 BARRETO, António, Tempo de Mudança, Relógio de D’Água Editores, Lisboa, 1996, p. 32 35 RUGY, Anne de, op. cit., p.14
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grata. Os governos dos principais países receptores de mão-de-obra decidiram tomar medidas no sentido da redução das entradas e, nalguns casos, decidiram mesmo fechar, quase em simultâneo, as suas portas à imigração: a França em Julho de 1973, a Alemanha em Novembro desse mesmo ano e a Bélgica em Agosto de 1974.36 Os governos francês e alemão incitaram mesmo os imigrantes a regressarem aos seus países, em troca de compensações financeiras nos seus países de origem.37 A migração para a Europa, porém, não cessou. Ela prosseguiu embora com características diversas, uma vez que a imigração de trabalho foi dando lugar a uma imigração que decorria, desta vez, da reunificação familiar. Depois de terem emigrado sozinhos, o fechamento de fronteiras levou a que muitos destes imigrantes procurassem trazer a família para junto de si.
Em consequência, alteram-se as características da imigração para a Europa: deixa de ser uma migração laboral propriamente dita e já não são homens que migram primeiro sós, mas são as suas mulheres e filhas que a eles se reúnem, pelo que a proporção das mulheres migrantes aumentou substancialmente na sequência da reunificação familiar. Actualmente, o padrão migratório na Europa diversificou-se e podem destacar-se três tendências principais.38 Em primeiro lugar, verificou-se o aumento do número de refugiados e requerentes de asilo, muitos provenientes da Ex-Jugoslávia.
Em segundo lugar, ocorreu uma importante mudança nos países da Europa do Sul que, sendo tradicionalmente de países de emigração, se transformaram também em países de imigração a partir de meados dos anos 70. Finalmente, destaca-se o surgimento dos países do Centro e Leste da Europa como zona de passagem para muitos que procuram chegar à Europa.