III. MIGRAÇÃO FEMININA PERSPECTIVAS E CONCEITOS –
3.4 Alguns aspectos relevantes para o estudo das mulheres migrantes
O desenvolvimento das abordagens integradoras abre o caminho para uma visão integrada e dinâmica das migrações internacionais.
Para estudar a migração feminina, uma abordagem integradora apresenta-se como a mais adequada, porque tem em conta os condicionalismos estruturais que influem sobre o indivíduo e a acção individual como capacidade que o indivíduo tem para agir sobre o ambiente cultural e social que o rodeia.
A pouca tradição de estudo da migração feminina, a sua dependência de um modelo migratório masculino, decalcado da experiência migratória da Europa do pós-guerra e as diversas perspectivas que procuram explicar as migrações internacionais, impediram por exemplo, que no estudo sobre as migrações internacionais se tivesse em conta a representação que é feita dos sexos e como essa representação tem efeitos principalmente para as mulheres.
De facto, a representação que se faz dos sexos numa determinada sociedade tem efeitos para as mulheres que nela estão inseridas. Mas, que efeitos pode ter para as mulheres quando, pela experiência da migração elas se movem em mais do que uma sociedade ? Assim, quer na sociedade de origem, quer na sociedade receptora, a representação que é feita das mulheres vai determinar e condicionar muitas das suas acções. Nas migrações internacionais, a persistência de um modelo migratório baseado numa determinada visão da migração da Europa do pós-II Grande Guerra Mundial, impediu que esse elemento de ordem estrutural, cuja importância nos debruçaremos mais adiante, fosse considerado, como era, por exemplo, o subdesenvolvimento económico, a pobreza, etc. O género, que é essa representação que é feita dos sexos, implica forçosamente uma reflexão sobre a migração feminina, sob uma nova perspectiva.
Definimos, sucintamente esta categoria de análise:
“‘Gender’ (…) is a cultural term and refers to the different roles which society ascribes to men and women and therefore distinguishes between ‘masculine’ and ‘feminine’ stereotypes”160.
Trata-se pois de um “termo cultural” para definir os papéis que são socialmente atribuídos ao homem e à mulher. Corresponde, pois, a um aspecto de ordem estrutural de uma determinada sociedade e que vai influenciar o quotidiano dos indivíduos.
160 HEYWOOD, Andrew, “Political Ideologies- An Introduction”, Macmillan, 1992, p. 226 100
Apesar da sua relevância, o género tem sido, durante muito tempo, negligenciado, assim o foram alguns aspectos da experiência migratória feminina, pelas razões que
anteriormente referimos.
“On the whole, gender has rarely been considered a significant analytical category within European literature on migration, which has remained gendered blind. Migrants have been treated as asexual categories and feminists researching women have often focused on nationals rather than immigrant women.”161
A ausência desta categoria de análise no estudo das migrações deve-se, em grande parte, ao facto de os diversos campos disciplinares como a história e a sociologia, serem eles próprios produzidos por homens e que têm ignorado a dimensão do género na sociedade.162
Nas migrações internacionais, a importância da categoria do género deve-se ao facto de a representação que é feita das mulheres numa determinada sociedade e, no caso da mulher migrante, na sociedade de origem e na sociedade receptora determinar suas decisões e estratégias. Ao mesmo tempo, essa representação pode dificultar em maior ou menor grau a sua mobilidade, não só a partir do país de origem, como também no país receptor.
“Despite the enormous influx of women into the labour market (…) the idea persists that their place is in home. It is not surprising that female migrants should have been exclusively viewed as spouses, mothers and housewives.”163
Culturalmente, um dos principais papéis que é atribuído às mulheres é o da prestação de cuidados seja a descendentes dependentes, os filhos e, por vezes, os netos, seja a ascendentes dependentes como os pais, avós e, frequentemente, os sogros.
Ora, numa situação de migração, esse papel da prestação de cuidados que é atribuído às mulheres, gera expectativas da sociedade de origem e da sociedade de destino em relação ao compromisso daquelas em desempenharem esse papel ou providenciarem nesse sentido.
A expectativa existente em relação ao papel das mulheres numa determinada sociedade, seja o da prestação de cuidados ou outros, é um aspecto de ordem estrutural dessa sociedade e que é igualmente interiorizado pelas próprias mulheres.
161 KOFMAN, Eleanore, et al, op. cit., p. 18 162 GASPARD, Françoise, op. cit.
163 Ibidem, p. 129 101
Quanto à capacidade de acção do indivíduo, que referimos, esta reside, principalmente na competência que tem para optimizar recursos no sentido da prossecução dos seus objectivos. Num contexto migratório, também são necessários recursos, seja para o estabelecimento no país receptor, seja para a obtenção de um emprego, etc. Deste modo, as redes surgem como um importante recurso que o migrante pode optimizar para agir no ambiente em que se move. Neste contexto, o conceito de rede corresponde a interacção social.
A importância das redes sociais, em particular, nas migrações internacionais,
intensificou-se com o processo de globalização que veio alterar grandemente a dinâmica espacio-temporal das migrações internacionais.
“Globalization, defined as a proliferation of cross-boarder flows and transnational networks, has changed the context for migrations.”164 Consequentemente, a globalização favoreceu o aparecimento das comunidades transnacionais, ou seja, de grupos cuja identidade (as referências e as pertenças) não estão baseadas apenas num único território.165
“We define ‘transnationalism’ as the process by which immigrants forge and sustain multi-stranded social relations that link together their societies of origin and settlement (…) An essential element is the multiplicity of involvements that transmigrants sustain in both home and host societies.”166
Nestes espaços transnacionais, as redes facilitam as conexões transnacionais em que os migrantes se movem; através dessas redes, os migrantes participam em mais do que uma sociedade.167 As redes sociais são o eixo principal de articulação da realidade transnacional168, pois conectam migrantes e não-imigrantes.
“By binding migrants and nonmigrants together in a complex web of social roles and interpersonal relationships, these personal networks are conduits of information and social and financial assistance.”169
164 CASTELS, Stephen, “Migration and Community Formation under Conditions of Globalization”, International Migration Review, Center for Migration Studies of New York, p. 1143
165 CASTLES, Stephen, op. cit., p. 1157
166 BASCH, GLICK SCHILLER et BLANC-SZANTON, 1994, citado em PORTES, Alejandro, “Globalization from Below: The Rise of Transnational Communities”, Princeton, University, September, 1997, p. 4
167 KOFMAN, Eleanore, et al, op. cit., p. 29
168 ARIZA, Marina, “Migración, familia y transnacionalidad en el contexto de la globalización: algunos puntos de reflexión”, Revista Mexicana de Sociologia, vol. 61, n.º 4, Oct-Dic., 2002, p. 58 169 BOYD, Monica, “Family and Personal Networks in International Migrations: Recent Developments and New Agendas”, International Migration Review, volume xxiii, n.º 3 p.639.
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Neste sentido, as redes (formais ou informais), em ambiente transnacional, aparecem como recursos para o migrante.
“Networks constitute an important resource for migrants who use them to gain employment, housing and other resources in the migration setting.”170 Estas redes, consolidadas nesta realidade transnacional, explicam a participação simultânea dos migrantes na sociedade receptora e na sua comunidade de origem. “Social networks comprising households, friends and community ties are crucial for an understanding of settlement patters, employment and links with the homeland.”171 O migrante faz uso destas redes como recurso para fazer escolhas, delinear estratégias, alcançar objectivos.
O conceito de rede torna-se essencial para captar as diferenças entre a migração feminina e a migração masculina.
“(…) resulta evidente que a abordagem por redes se afigura uma metodologia particularmente adequada ao estudo da diferença sexual. Com efeito, ela permite ao investigador delinear a morfologia e o conteúdo (material e simbólico) da esfera relacional feminina, bem como analisar a experiência feminina enquanto centro da rede relacional das relações entre a esfera privada e as instituições; permite analisar a relação entre a mulher e o grupo de referência primário (a família, os parentes, etc.), bem como os caminhos e as trajectórias das mulheres migrantes e a mobilidade feminina no que respeita ao grupo familiar.”172
As redes, utilizadas como um recurso pelas mulheres migrantes permitem, por exemplo, que elas correspondam às expectativas do papel que lhes atribuído de prestadoras de cuidados a dependentes ascendentes e descendentes, simultaneamente no país de destino e no país de origem. Às expectativas, como mulher, associam-se as expectativas como migrante, pelo que a família espera também a assistência financeira.
“Women in particular have played nurturing roles (nurses, carers and domestic labour) and sustained households in societies of emigration and immigration.”173
A família/unidade doméstica aparece como uma das componentes importantes da rede social baseada na migração.174 As redes familiares e de parentesco aparecem como um 170 KOFMAN, Eleanore, et al, op. cit., p. 29
171 KOFMAN, Eleanore, et al, op. cit., p. 29
172 PISELLI, Fortunata, “Mulheres migrantes: uma abordagem a partir da teoria das redes”, Revista Crítica de Ciências Sociais, n.º 50, Fevereiro, 1998, p. 117-118173 KOFMAN, Eleanore, et al, op. cit., p. 29 174 BOYD, Monica, op. cit., p. 642
recurso que as mulheres migrantes utilizam para, por exemplo, prestarem cuidado e assistência aos seus, através do espaço transnacional. As redes permitem, assim, atenuar o impacto que a mobilidade feminina tem na estrutura do seu universo familiar. Finalmente, destacamos o conceito de agência. Trata-se de um conceito identificado com o termo “agency”, mas essa identificação não parece ser a mais correcta, porque “agency” refere-se à simples acção, por oposição a estrutura. A precisão do termo e o significado encontrámo-los numa definição, em língua portuguesa, onde o termo aparece num sentido distinto de “agency”(acção).
“Entendemos a agência como espaço onde se encontram as estruturas e os agentes; é uma fusão de circunstâncias estruturais e capacidade propulsora. A agência é duplamente condicionada, desde cima, pelo equilíbrio entre restrições e limitações por um lado; recursos e facilitadores propiciados pelas estruturas por outro; e, desde baixo, pelas aptidões, talentos, habilidades, conhecimento e atitudes dos membros da sociedade; bem como organizações, sejam elas colectividades, grupos ou movimentos sociais.”175
Este conceito interligamo-lo com os já referidos conceitos de género e de redes. Apresentámos o conceito de género como um elemento de ordem estrutural que influi na vida das mulheres, migrantes ou não-migrantes. Em relação ao conceito de rede referimo-lo como recurso de que o migrante dispõe para mitigar o impacto da mobilidade.
O conceito de agência para o estudo da mulher migrante, por seu lado, permite perceber como é que, por um lado, o género pode influir na potencial mulher migrante e no seu percurso e, por outro, como é que, apesar desses constrangimentos e com esses constrangimentos culturais, as mulheres gerem e optimizam recursos para poderem delinear um projecto migratório, realizá-lo e minimizar as consequências da mobilidade. O conceito de agência surge, assim, como a síntese destas duas realidades: o género e os recursos disponíveis. Ou seja, como é que as mulheres migrantes, sob esses
constrangimentos, fazem uso dos recursos que têm disponíveis no espaço transnacional.
175 JÚNIOR, Cláudio Dias, “Capital social e violência: uma análise comparada em duas vilas de Belo Horizonte”, Tese de Mestrado, Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Belo Horizonte, Dezembro de 2001, p.2
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IV. MULHERES MIGRANTES NO ESPAÇO