1 I GREJAS C RISTÃS E MUDANÇAS SOCIAIS E IDEOLÓGICAS
1.2 A I GREJA C ATÓLICA NO B RASIL E SUAS RELAÇÕES COM DIFERENTES CATEGORIAS DE LEIGOS , AS IDEOLOGIAS E A POLÍTICA
1.2.2 A GUINADA CONSERVADORA NA I GREJA C ATÓLICA
Enquanto a Igreja progressista no Brasil vivia seu auge, entre o final da década de
setenta e primeira metade da década de oitenta, a Igreja Católica no âmbito internacional
passava por mudanças com relação às orientações pastorais e com relação aos seus grupos
dominantes, em um processo que os autores chamam de “restauração conservadora”, e que
teve diferentes níveis. Como salienta Della Cava (1985, p. 45), estas mudanças dizem respeito
à obtenção, por parte das tendências conservadoras do Vaticano (identificadas com a Cúria
romana e com a estrutura burocrática da administração da Igreja) da reversão de inovações do
Vaticano II. Esta reversão é obtida a partir de diferentes estratégias ao longo da década de
setenta, e acentua-se sob o pontificado de João Paulo II, escolhido por este grupo conservador
para liderar a reação. Estas estratégias envolvem a substituição de bispos progressistas por
conservadores em diferentes regiões da Igreja16, e a sustentação de uma rede conservadora no
plano internacional, como no caso dos conservadores latino-americanos, que contavam com o
apoio teológico, moral e financeiro da ala conservadora da Igreja na Alemanha (DELLA
CAVA, 1988, p. 251-252).
16
A Igreja alemã, uma das mais progressistas, sofreu intervenção direta do papado e sua hierarquia foi substituída por conservadores (DELLA CAVA, 1985, p. 45). Também a Igreja Católica na Holanda sofreu um processo similar (conforme MAINWARING, 1989, p. 271). Na América Latina, a Conferência Episcopal Latino-Americana passou a ter como secretário executivo um conservador, a partir de 1972, Alfonso Trujillo. Este iniciou a substituição de progressistas por conservadores nos quadros do CELAM, em todos os níveis (DELLA CAVA, 1988, p. 251).
Outra estratégia utilizada pelos conservadores foi a desqualificação dos progressistas,
seja de membros do clero secular, como os bispos e padres nicaragüenses repreendidos pelo
Papa (MAINWARING, 1989, p. 274), seja de seus teólogos, como no caso de Leonardo Boff
(MAINWARING, 1989, p. 275). Esta ação é parte de uma tentativa de enquadramento da
Teologia da Libertação, pois,
até o Concílio Vaticano II, era o papado que determinava os limites da teologia. Mas, com o Concílio, ela passou a ser vista como um debate e discurso próprio dos teólogos, ligados às bases populares. (...) Não havia uma teologia, havia muitas. (...) Mas agora, impondo os limites aos teólogos e recuperando para o papado o papel dirigente, este papado apropriou-se da função que sempre havia sido exercida ‘autoritariamente’, do período de 1870 até o início do Vaticano II, em 1962 (DELLA CAVA 1985, p. 47).
Trata-se de uma apropriação da teologia da libertação, tentando defini-la segundo
moldes conservadores (DELLA CAVA, 1985, p. 46; MAINWARING, 1989, p. 271; também
DELLA CAVA, 1988, p. 264-265).
No Brasil, o alto clero conservador, com apoio do Vaticano, passou a criticar o clero
progressista. Com a “abertura política”, os progressistas foram chamados a “voltar ao seu
lugar”, ou a suprimir o caráter político da atuação da Igreja (DELLA CAVA, 1988, p. 255;
MAINWARING, 1989, p. 268). Segundo os conservadores, os progressistas deixavam de
lado a espiritualidade dos fiéis, privilegiavam a atuação junto aos pobres, desprezando as
hierarquias eclesiásticas (ver MAINWARING, 1989, p. 277-278). Neste sentido, a CNBB
parece ter retirado paulatinamente seu apoio aos progressistas: os temas da campanha da
fraternidade, por exemplo, entre 1973 e 1984 disseram respeito “[à] realidade social do povo,
com denúncia do pecado social e promoção da justiça”, e a partir de 1985 disseram respeito a
“situações existenciais do povo brasileiro” (ver LORSCHEITTER, 2002, p. 28).
Há então uma redefinição dos conteúdos da teologia da libertação, de forma a
desqualificar a forma como estes teriam sido entendidos pelos progressistas. A “opção
preferencial pelos pobres” continua a ser defendida pelo Vaticano e pelo episcopado como um
pecados pessoais, e não sociais (conforme PETERSON e VASQUEZ, 1998). A idéia de
libertação também é retomada em termos espirituais, como libertação do pecado, e não mais
somente econômico-sociais (PETERSON e VASQUEZ, 1998; MAINWARING, 1989, p.
271).
Por outro lado, há uma revalorização da hierarquia da Igreja, em contraposição à igreja
progressista, que dava grande importância aos leigos na liturgia e na tomada de decisões na
Igreja. Ou seja, mantêm-se a mobilização dos leigos, que teve grande sucesso com a igreja
progressista, mas esta deve passar ao controle do clero17 (PETERSON e VASQUEZ, 1998). A
Igreja volta-se também para a evangelização da classe média no esforço de combater o
pentecostalismo, a partir de uma religiosidade “festiva, participatória, ligada ao mistério e
fazedora de milagres” (DELLA CAVA, 2001) – bem distante dos padrões seculares
consagrados pelo Vaticano II. Há uma continuidade da valorização do catolicismo popular,
como na Igreja progressista brasileira, mas com ênfase nas devoções aos santos, às romarias,
às procissões (DELLA CAVA, 1988, p. 261).
Por outro lado, a Igreja quer desvincular-se de seu papel de agente das transformações
na sociedade, ou melhor, quer dar outro caráter a este papel, algo mais “superior”. Ao invés
de ser mais um ator político, quer ser uma força moral, em vários sentidos: ser aquela que
assegura a existência de valores cristãos e da ética em uma sociedade dominada pela
economia18 (conforme DELLA CAVA, 2001), que media conflitos entre grupos sociais e que
socorre de forma caridosa, como o trabalho de Madre Teresa de Calcutá (DELLA CAVA,
1988).
As CEBs passaram por transformações a partir da reação conservadora. Uma delas
seria o retorno ao caráter de “círculo de discussões bíblicas”, e às práticas devocionais
17
O que certamente está relacionado à ênfase no centralismo papal sob João Paulo II. Ver Della Cava, 1988, p. 262.
18
Segundo Della Cava (2001) este seria um dos fundamentos para a manutenção, por parte dos progressistas em postos de poder na Igreja Católica no Brasil e mais especificamente na CNBB: sua legitimidade como paladinos dos direitos humanos e da justiça social.
tradicionais (DELLA CAVA, 1988, p. 261; HEWITT, 1990, p. 146). Além disto, houve uma
espécie de paroquialização das CEBs. Estas passam a dedicar-se a projetos apolíticos (como
trabalhos com a juventude, e não mais à luta por direitos), ao exercício da caridade (HEWITT,
1990, p. 146; ver também Peterson e Vasquez, 1998). Além disto, os conflitos entre os leigos
sobre o caráter das CEBs – ou as ênfases na participação ou na prática da fé, parecem ter
encontrado um compromisso: aceita-se o discurso de justiça social pelos membros
conservadores das CEBs, enquanto os mais politizados vão formular suas questões políticas
em outras instâncias, como partidos e sindicatos. Neste sentido, as CEBs são mais uma
instância da sociedade em que se difundem valores cristãos que habilitam seus participantes a
atuarem em outras instâncias, o que vai ao encontro com a idéia de Igreja como inspiradora
moral (HEWITT, 1990, p. 147 e 149). No Brasil, houve um desengajamento de instâncias
eclesiásticas e do clero em relação às CEBs. Em primeiro lugar, o financiamento internacional
das atividades das mesmas – feito por instituições internacionais católicas como o Misereor –
diminuiu com as mudanças no Leste europeu, que passou a ser privilegiado pelos
financiamentos de atividades da Igreja (DELLA CAVA, 2001). Além disto, elas também
passam a carecer de recursos humanos das Igrejas – padres e freiras que eram assessores
diminuíram em número, pois foram removidos e não substituídos, o que prejudicou a
continuidade das atividades nas CEBs (HEWITT, 1990, p. 149-150).
1.3 A IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL E SUAS