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Como já foi dito anteriormente, uma das questões que se coloca ao estudo da

mobilização de mulheres na Igreja Católica, é o da associação de determinados problemas

sociais com definições católicas de condição feminina. No entanto, uma questão anterior diz

respeito às condições de emergência dos problemas aos quais mulheres engajadas em

organizações religiosas procuram atender (conforme OFFERLÉ, 1990, p. 40). Assim, é

necessário dar conta dos “princípios de percepção e delimitação da realidade” relacionados

aos problemas e definições e a determinadas condições econômicas e conjunturais. A seguir,

apresentam-se tanto os problemas em nome dos quais as mulheres “pobres” estudadas se

engajam nos clubes de mães e pastorais da Igreja Católica como os registros ou princípios a

partir dos quais são definidos estes problemas.

No caso estudado, a heterogeneidade de agentes e interesses e as respectivas formas de

adesão a vocabulários e ideologias fazem com que se observe tanto a convivência e mesmo o

jogo, entre a “política” e a “caridade”. As mulheres que atuam em pastorais e clubes de mães,

o fazem segundo princípios que remetem à “política”, como a resolução dos problemas pelas

“lutas” por “direitos” junto ao Estado, que dizem respeito à “cidadania. Por outro lado, a

expressão e a resolução dos problemas também se dá pelo princípio da doação, com base na

idéia de que a questão das “necessidades” pode ser solucionada pela “ajuda” daqueles que

“podem”.

Além disso, há uma estreita relação entre definição dos problemas – que, no caso,

remetem à falta, à carência de recursos materiais – e atividades sociais femininas, o que será

dizem respeito ao acesso à moradia, educação e saúde para seus filhos e famílias. O variado

repertório de ação coletiva destas organizações diz respeito a esta diversidade de concepções

de problemas, de princípios de definição e de recursos dos agentes (conforme OFFERLÉ,

1998, p. 102-106). É para atender àqueles problemas que se constituem os clubes de mães e as

pastorais, e seus “serviços ou lutas”, o trabalho “cotidiano” dos clubes, como fazer

alcochoados e roupas, remédios caseiros, pães nos fornos comunitários, a pesagem de crianças

e o acompanhamento de gestantes. Para dar continuidade a estes trabalhos se elaboram

estratégias para a obtenção de materiais, roupas velhas, farinha, lenha, etc. Também é pela

obtenção de creches, escolas e postos de saúde que ocorrem as passeatas, os encontros com

prefeitos e outros representantes públicos. Como se vê nos textos escritos por mulheres que

participaram dos clubes de mães na década de oitenta, algumas dessas atividades são

entendidas como reivindicações junto ao Estado.

Nós, mulheres do Parque Campestre, nos unimos na luta pela escola. (...) A luta foi iniciada pela Associação de Bairro e nós estamos apoiando porque não é justo mandar nossos filhos para a escola em outras vilas quando na nossa vila tem um prédio escolar construído mas que não foi assumido pelo Estado (anônimo).

Enquanto outras entendem mobilizar a solidariedade e a obtenção de doações:

As mães do nosso clube estão muito felizes pois ganhamos o material para fazer alcochoados. Eu também aproveito esta oportunidade para agradecer aos nossos padrinhos do nosso forno, pois eles têm nos dado aquela força com remédios e roupas para as crianças da nossa creche (anônimo).

Assim, foi sendo tomada a decisão de fazermos o pão comunitário devido à necessidade das famílias do núcleo. (...) com o que tínhamos arrecadado, estamos fazendo roupinhas de criança usando as roupas usadas e velhas e dos retalhos estamos fazendo tapetes e as roupas melhores nós reformamos para dar aos mais necessitados (anônimo).

Assim, a formação dos clubes de mães no início da década de oitenta, que propiciou a

invasão e ocupação de grandes terrenos urbanos no município de Canoas (TREIN, 1990,

MAMMARELLA, 1996, PASTORAL DA MULHER POBRE, 1988), tem como origem a

formação, por parte de um irmão marista, de uma rede de solidariedade com base em

década de oitenta, começa a partir da ação de mulheres engajadas em um trabalho que

envolvia o estudo da bíblia, a oração do terço, a confecção e distribuição de acolchoados e

roupas a famílias miseráveis. A partir do depoimento de uma mulher, mãe de uma das

primeiras famílias convertidas ao trabalho missionário do irmão marista e “uma das primeiras

fundadoras dos clubes de mães em Canoas”, que descreve este trabalho, é possível dizer que

essa mobilização se faz a partir de interesses especificamente religiosos: o amor cristão e o

exercício da caridade, que também podem ser entendidos como desenvolvimento e o

entretenimento de laços sociais entre as mulheres, formando a “comunidade”:

nós começamos a chamar o povo, as mulheres, para nos acompanhar; aí começamos a visitar as casas. (...) [“as pessoas”] já eram tão mal de vida também, que (...) [nós] olhávamos o que elas precisavam (...) e convidávamos elas para participarem conosco (...) para nos ajudar, para nos unirmos, para nos amarmos, e para nos dar uma força, que ali nós íamos ter uma força boa, que nós íamos ter muita ajuda de Deus, que através das orações, através do evangelho, que nós íamos nos unir, que nós íamos nos dar tudo bem, com muito amor e muito carinho, [e] o que nós pudéssemos alcançar para elas, nós alcançaríamos (I. In TREIN, 1990, p. 149-150, anexo).

Da mesma forma, quando uma integrante do Clube de Mães “Seguidoras de Cristo”,

da “comunidade Divino Mestre”, Vila União dos Operários, descreve os trabalhos deste clube,

destaca a “ajuda”, o dom e a reciprocidade entre as mulheres:

As mães já repartiram as verduras da horta comunitária três vezes (...) também ajudaram uma mãe a fazer um delicioso mocotó em benefício da mesma que por motivo de doença estava precisando de recursos. Todas as mães participam com alegria no coração, porque elas sabem que mais tarde esses serviços que nós fizemos todas juntas vão servir a nós mesmas (anônimo).

Assim como a atuação de mulheres nas CEBs de São Paulo estudadas por Drogus

(1997) estava referenciada na caridade como dimensão de atividade feminina; a noção de

“ajuda” parece permear o trabalho destas mulheres. Isso se vê no vocabulário que mulheres

envolvidas nos clubes de mães usam para descrever e escrever sobre seu trabalho. É como se

a solução para os problemas que enunciam passa pela boa disposição mais ou menos

generalizada em “ajudar” os “necessitados”. No pequeno texto intitulado “Mutirão em nossa

agraciados (...) seja você também aquele que estende a mão e faz o outro caminhar. Porque só

tem sentido viver quem ajuda e luta contra as injustiças deste mundo” (anônimo).

Ao mesmo tempo, esta noção convive com as de “direitos”, “união”, e “lutas”, que

fazem parte de um registro mais conflitivo, como se vê no trecho de um texto de uma

integrante de clube de mães: “E assim, com o evangelho iluminando nossos caminhos que

vamos achar soluções para os problemas que nos atingem. É [pel]a união de todas as mulheres

que vamos transformar nossas comunidades, nossa sociedade e juntas vamos [nos] libertar”

(anônimo). No entanto, a própria noção de “lutas” não diz respeito somente a conflitos

“sociais”, mas à própria condição de “pobre”, remetendo também ao “enfrentamento das

dificuldades”, como se vê na pequena poesia de uma mãe, intitulada “Vida de Pobre”: “A vida

de pobre é difícil/ se resume em lutas/ mas com a ajuda de Cristo/ bem mais fácil vai ficar

(...)/ luta pelo teu pão/ por casa para morar/ escola para teus filhos/ na vida vale lutar”

(anônimo). Ou ainda na exortação de outra mãe: “[P]eço a Deus que ajude a todas as mães daí

de Canoas, que elas não desanimem na luta [com] que estão enfrentando os problemas”

(anônimo).

A ambigüidade e a conciliação entre as “lutas” e a “ajuda” permeia mesmo as

demandas feitas junto a agentes públicos e instituições governamentais. Ao dirigir suas

demandas aos poderes públicos através do jornal dos clubes de mães, elaborado pelos agentes

externos, as mulheres pedem a “ajuda” do prefeito, que este aja em nome do “direito de

viver”:

Pela necessidade, pela sobrevivência e o bem-estar de nosso povo escrevo pedindo proteção, para que possamos nos sentir mais seguros. (...) por isto senhor prefeito, pelo povo o qual lhe elegeu o nosso protetor não precisamos pedir isto ou aquilo porque confiamos e acreditamos que o senhor vai nos ajudar (anônimo, grifos no original).

Nós temos que ter ruas calçadas ou aterradas porque temos muitas crianças que vão para aulas. (...) Os pobrezinhos vão com o tempo chuvoso. Embarrados muitos vão. Eu tenho que pedir também iluminação para as ruas para evitar os assaltos que nos atingem. Por favor, ajudem-nos! (anônimo).