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poder de la clase obrera organizada –, o bien deben encontrarse nuevas fuerzas

1.2. A INDISSOCIABILIDADE ENTRE ESPAÇO E TEMPO

Neste trabalho, consideramos de fundamental importância fazer uma análise histórica que possibilite uma compreensão das origens e dos processos que vieram a produzir os principais problemas que atingem o espaço urbano brasileiro na atualidade, e que vieram a gerar o modelo de cidades segregadas nas quais a pobreza urbana cria e recria maneiras de subsistir e resistir através de diferentes formas de territorialização.

Compreendemos, assim como Santos (2013), que o espaço exerce um papel como estrutura social e a historicidade tem relevância fundamental em uma análise espacial consistente. Para o autor, se não houver uma preocupação analítica que permita a distinção no espaço total de seus elementos constitutivos e que não leve em conta a dimensão temporal, será difícil entendê-lo tal como ele é: um objeto real em permanente evolução.

Santos (2013) explica que a estrutura espacial é uma estrutura subordinada-subordinante, como o são as demais estruturas sociais. O “espaço, embora submetido à lei da totalidade, dispõe de certa autonomia que se manifesta por meio de leis próprias, específicas de sua própria evolução” (p. 181). Bem como as outras instâncias, o espaço não é “inocente”, já que serve à reprodução social. Ele tem uma história e testemunha ela – através das rugosidades7 –, ao passo que, numa relação dialética, influencia o futuro. Isso ocorre porque o espaço serve como memória dos modos de produção do passado. “Ele sobrevive, pelas suas formas, à passagem dos modos de produção ou de seus momentos” (p. 182), sendo “capaz de agir e reagir sobre as demais estruturas da sociedade e sobre esta como um todo” (p. 182). Por isso, não pode ser visto apenas como um reflexo do modo de produção atual.

7 Para Santos (2013), “As rugosidades são o espaço construído e o tempo histórico manifestados e incorporados ao espaço através da paisagem, oferecendo, mesmo sem tradução imediata, restos de uma divisão de trabalho internacional, manifestada localmente por combinações particulares de capital, das técnicas e dos trabalhos utilizados. [...] O espaço portanto, [...] testemunha um momento de um modo de produção pela memória do espaço construído, das coisas fixadas na paisagem criada. Assim, o espaço é uma forma, uma forma durável, que não se desfaz paralelamente à mudança de processos; ao contrário, alguns processos se adaptam às formas preexistentes enquanto que outros criam novas formas para se inserir dentro delas” (p. 173).

O espaço organizado, portanto, possui uma inércia dinâmica, já que as formas são tanto resultado dos processos, como condição para novos processos. A estrutura espacial não é passiva, mas ativa, embora devamos relativizar sua autonomia, bem como das demais estruturas sociais.

Essa inércia ativa ou dinâmica se manifesta de forma polivalente: pela atração de que as grandes cidades têm sobre a mão-de-obra potencial, pela atração do capital, pela superabundância de serviços, de infra-estruturas, cuja repartição desigual funciona como um elemento mantenedor das tendências herdadas (SANTOS, 2013, p. 185). A estrutura espacial é, portanto, o passado e o presente, pois mesmo que funcionando de acordo com as leis do atual, carrega consigo o passado. Para compreender isso, podemos tomar como exemplo a convivência de dois distintos grupos de poder que exercem sua influência na estruturação das cidades no Brasil: as elites locais que se utilizam das relações de favor calcadas no patrimonialismo de raízes coloniais (MARICATO, 2011) convivendo e relacionando-se com investidores e corporações transnacionais. Ao passo que no presente, o espaço também é o futuro, pois o que vai sendo construído já tem em si finalidades atribuídas. Ou seja, o espaço é uma acumulação desigual de tempos, onde as “variáveis (de tipos diferentes, de idades diferentes) formam um precipitado, um fato novo, dotado da capacidade de criar ou estabelecer novas relações: uma nova qualidade” (SANTOS, 2013, p. 256).

Sobre a importância fundamental da articulação entre tempo e matéria para a análise espacial, Santos (2013) destaca que:

Através do espaço, a história se torna, ela própria,

estrutura, estruturada em formas. E tais formas,

como formas-conteúdo, influenciam o curso da história, pois elas participam da dialética global da sociedade (p. 189, grifo no original).

E mais adiante, complementa:

Tudo o que existe articula o presente e o passado, pelo fato de sua própria existência. Por essa mesma razão, articula igualmente o presente e o futuro. Desse modo, um enfoque espacial isolado ou um enfoque temporal isolado são ambos insuficientes. Para compreender uma ou qualquer situação necessitamos de um enfoque espaço- temporal (p. 252).

A noção de um espaço quadrimensional é tida como uma ideia promissora, por reforçar “a noção de espaço relativo, ou seja, do espaço considerado como um sistema de relações ou como um campo de forças; assim o tempo se impõe como uma dimensão essencial” (SANTOS, 2013, p. 252). Levando em conta o papel que o espaço exerce como esse testemunho de uma história escrita por processos do passado e do presente através de processos e funções8 e que, portanto, é um campo de forças dotado de aceleração desigual, devemos compreender que a evolução espacial ocorre diferentemente nos diferentes lugares.

O lugar é, pois, o resultado de ações multilaterais que se realizam em tempos desiguais sobre cada um e em todos os pontos da superfície terrestre.

Daí porque o fundamento de uma teoria que deseje explicar as localizações específicas deve levar em conta as ações do presente e do passado, locais e extralocais (SANTOS, 2013, p.

258, grifo nosso).

Com base nessas ideias, organizamos a escrita desta primeira parte. De modo que possamos avaliar os processos que forjaram ao longo do tempo os problemas socioespaciais que consolidaram no Brasil o modelo atual de cidade segregada, produtora em massa de favelas e ocupações irregulares, como é o caso de nosso sujeito de pesquisa (cf. Capítulo 3). Trabalharemos com os levantamentos dessa pesquisa percorrendo um histórico que traz consigo o peso crucial do discurso ideológico. Por isso, optamos por considerar especialmente a ideia de planejamento urbano, explorando de maneira ampla as ações e discursos do Estado e das elites, e o papel que vieram exercendo no transcorrer da história, com o intuito de evidenciar os interesses ocultos e decisivos para a produção do espaço urbano brasileiro.

8“Isto é, o espaço se define como um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e do presente e por uma estrutura representada por relações sociais que estão acontecendo diante de nossos olhos e que se manifestam através de processos e funções” (SANTOS, 2013, p. 153).

1.3. PLANEJAMENTO URBANO: IDEOLOGIA, DOMINAÇÃO E