CAPÍTULO II – CONCEITOS E DOUTRINAS DO PODER
2.6 A indivisibilidade em mutação
Dentre as características que chamam a atenção, em se tratando do poder soberano, é o fato de não se admitir classicamente sua divisão. Ou seja, o poder soberano somente se fará presente de forma única e total, não podendo ser repartido ou partilhado com outros poderes eventualmente existentes, sob pena de completa descaracterização. Cabe a um único ente soberano – neste caso, o titular do poder soberano – se revestir de diversas atribuições e competências para o exercício desse poder.
Contudo, essa característica tem sido relativizada a partir de formulações propostas que, mesmo reconhecendo a originalidade desse traço característico da soberania, procuram conformar a existência de Estados soberanos com um
36Mesmo antes, Jellinek (1981, p. 361) afirmava a existência de uma limitação à soberania, invocando as bases
do conceito de auto-obrigação do Estado e autonomia moral. Destacava que “Sólo sobre la base de este conocimiento, se hace posible desterrar del concepto de la soberanía la errónea concepción de su caráter ilimitable y transformarlo en un concepto jurídico que corresponda a nuestras actuales concecpciones del Derecho. Únicamente esta transformacióm es capaz de suministrarle un contenido positivo y de sacarlo del círculo de las negaciones en que por tanto tiempo ha vivido. Soberanía no indica ilimitabilidad, sino tan sólo facultad de determinarse por sí mismo exclusivamente, y por tanto, la autolimitación del poder del Estado, no obligado jurídicamente por poderes extraños para instituir un orden dado sobre la base del cual solamente la actividad del Estado adquiere un carácter jurídico. Expresada en una fórmula breve significa, por tanto, la soberanía la propriedad del poder de un Estado, en virtud de la cul corresponde exclusivamente a este la capacidad de determinarse jurídicamente y de obligarse a sí mismo”.
ordenamento que transcende a questão da territorialidade – o Direito Internacional37.
Este que seria, em última instância, a garantia da própria coexistência relativamente pacífica e ordenada de diversos poderes soberanos.
Mesmo porque, não se pode negar que o conceito de soberania vem evoluindo à medida que o direito internacional evolui, assumindo um caráter relativo desde a concepção do sistema internacional de segurança coletiva, o qual procura, de certo modo, impor ao poder soberano certa limitação, seja no seu âmbito interno quanto internacional, em resposta à crescente necessidade da sociedade internacional.
2.6.1 Soberania interna e externa
Mesmo presente a resistência que qualquer tentativa de segmentação da soberania encontra – graças à característica de indivisibilidade que lhe foi outorgada desde o início – pode ela se manifestar tanto na ordem interna quanto externamente, sendo o somatório dessas duas vertentes que lhe emprestam unicidade, modernamente traduzida como sinônimo de independência e autodeterminação.
A soberania pode ser vista como atributo do poder do Estado, emprestando- lhe independência no plano interno, e tornando-o interdependente no plano externo. Enquanto residindo nos órgãos dotados de poder de decidir em último grau, seria o poder político soberano no seu âmbito interno, ao passo que, externamente, é necessário a manutenção, com os demais Estados, de uma relação de igualdade.
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Questão bastante interessante diz respeito às teorias criadas em torno de uma possível antinomia entre normas internacionais e normas internas. De fato, a relação entre o direito interno e o direito externo passa por discussão da espécie, sobretudo quanto à prevalência de um em relação ao outro. Assim, tiveram ensejo as correntes monista e dualista que tentam justificar, cada uma a seu modo, a superioridade de um regramento em relação ao outro ou mesmo a possibilidade de convivência harmônica entre ambos.
É interna, portanto, a manifestação do poder soberano enquanto exercido em sede nacional e visando à manutenção da paz social, mediante execução de políticas internas de estímulo, orientação e coordenação. É a manifestação de poder mais perceptível por parte de um Estado.
Como assinalado Canotilho (2002), a “[...] soberania no plano interno (soberania interna) traduzir-se-ia no monopólio de edição do direito positivo pelo Estado e no monopólio da coação física legítima para impôr a efectividade das suas regulações e dos seus comandos. Neste contexto se afirma também o carácter
originário da soberania, pois o Estado não precisa de recolher o fundamento das
suas normas noutras normas jurídicas” (CANOTILHO, 2002, p. 90).
Em termos externos, a manifestação da soberania importa igualdade entre os Estados no âmbito internacional, assim reconhecidos pelos seus pares a partir do momento que dotados de independência. Entre iguais, não há que se falar em superioridade, subordinação ou mesmo subserviência no cenário internacional, devendo – pelo menos em tese – ser-lhes reconhecido e asseguradas condições equânimes em tratativas negociais internacionalmente instaladas, seja no âmbito político, econômico ou social.
Se assim é, uma entidade dotada de ampla aceitação e gozando de livre circulação no cenário internacional, ou seja, com vez e voz no âmbito externo, mas carente de legitimidade tal que lhe permita organizar-se física e institucionalmente, não poderia ser classificada como soberana38.
38Importante contribuição acerca da discussão envolvendo a soberania, sua definição e exercício pode ser
encontrada em Miranda (2004, p. 88), que recorre a Hermann Heller para, após definir tal fenômeno, esclarecer que “[...] os poderes associados à soberania, nos planos interno e externo, podem ser definidos como a capacidade de: decidir acerca da guerra e da paz; nomear os chefes militares e os magistrados; emitir moeda; definir e/ou suspender os impostos; conceder indultos e anistia; julgar em última instância; e usar, de forma legítima, a violência física para manter a ordem interna e defender o território nacional”.
De fato, ao se divisar a soberania como manifestação de poder em duas ordens distintas – interna e externa – busca-se, em último plano, assinalar que continua o poder considerado soberano mantendo seu caráter de unicidade, isto é, uma soberania única, mas passível de ser observada sob dois ângulos diversos.
Essas vertentes - interna e externa - decorrem de um exercício de coordenação, a ser realizado pelo próprio poder soberano, e objetivam sua manutenção e relacionamento com os seus pares, ou seja, com os demais Estados, na teoria, igualmente dotados de soberania.
2.6.2 Soberania quantitativa e qualitativa
A interdependência artificialmente criada a partir da busca – voluntária ou não – dos Estados por relações jurídicas (sobretudo decorrentes de questões de ordem econômica e política) com seus pares, permite que a soberania passe a ser vista, na modernidade, sob forma muito menos rígida e mais prática e útil.
Diante da necessidade de se estabelecer uma rede cada vez maior e multifacetada de laços jurídicos entre os Estados, a soberania foi atingida por uma enorme rarefação que, para Fausto de Quadros (1991), se traduz em fórmulas qualitativa e quantitativa. Exprimindo uma mera suscetibilidade e sendo alheio a qualquer quantificação estaria o aspecto qualitativo da soberania, ao passo que o aspecto quantitativo representaria a soma de poderes soberanos, ou seja, o
quantum de todas as faculdades em que se traduz o poder supremo e
independente.
O primeiro aspecto é o da soberania como susceptibilidade, como aptidão para se afirmar como poder supremo e independente, como raiz, como fundamento, como essência ou conteúdo essencial (“Wesengehalt”) [...] Surge-nos ai um conceito qualitativo de
soberania – qualitativo porque, repetimos, exprime uma mera suscetibilidade e é alheia a qualquer quantificação. [...] O outro aspecto é o da soberania como soma de poderes soberanos, isto é, como medida, como quantum de todas as faculdades em que se traduz poder supremo e independente. Por aqui chegamos ao conceito quantitativo de soberania. (QUADROS apud GOMES, 2004, p.116)
No entender de Gomes, é exatamente essa distinção que possibilita seja superado o paradigma da soberania como algo indivisível, permitindo-se, a partir de então, uma aceitação natural da participação dos Estados em Organizações Internacionais. Para a autora em questão, equivocado seria afirmar a independência, enquanto auto-suficiência do Estado, como sinônimo de soberania, arrematando que “ser independente é não ter relações de dependência; ser soberano é ter a capacidade de utilizar sua independência para tomar as decisões que mais interessam ao seu copo social, se necessário com limitações de independência” (GOMES, 2004, p. 116).
Conhecidas as doutrinas, definições e evolução da soberania, resta perquirir acerca de quais seriam os efeitos da globalização sobre a soberania e seu exercício. Esse é o objeto do próximo capítulo.