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A materialização da responsabilidade penal ambiental

4. AS RESPONSABILIZAÇÕES APLICADAS À SAMARCO

4.3 A materialização da responsabilidade penal ambiental

A responsabilidade penal ambiental se materializou, no caso em tela, pelo

oferecimento de uma denúncia308, proposta pelo Ministério Público Federal em face

da Samarco e de suas controladoras, além de uma outra pessoa jurídica, a saber, VOGBr Recursos Hídricos e Gotecnia Ltda e de mais vinte e duas pessoas físicas. O Ministério Público Federal imputou à Samarco, Vale e BHP Billiton Brasil, doze crimes ambientais. No que tange à VOGBr e seu engenheiro foi imputado, a ambos, o crime de elaboração de laudo ambiental falso. Enquanto que em face das outras vinte e uma pessoas físicas, além dos crimes em que incorreu a Samarco, o

parquet lhe imputou os seguintes delitos previstos no Código Penal: homicídio

doloso qualificado por motivo torpe, por meio indicioso ou cruel e por meio que impossibilitou a defesa das vítimas e lesões corporais; crime de inundação e por

crime de desabamento ou desmoronamento309.

A denúncia foi recebida em 16 de novembro de 2016, pelo Juízo da Vara Única de Ponte Nova/MG, dando ensejo à ação penal nº 0002725- 15.2016.4.01.3822. Em relação a tramitação da referida ação penal destaca-se que em abril de 2019, o TRF da 1ª Região ao julgar o HC nº 1033377- 47.2018.4.01.0000, trancou a ação penal originária, no que tange aos crimes de

homicídio e lesão corporal imputados aos executivos das mineradoras310.

Salienta-se que a ação penal em questão não resultou em nenhuma prisão, até o momento, e somente nove pessoas físicas, das vinte e duas denunciadas,

307

IBAMA diz que Samarco não pagou nenhuma multa aplicada pelo órgão após desastre em Mariana. G1–Política. Brasília, 29 de jan. 2019. Disponível: < https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/01/29/ibama-diz-que-samarco-nao-pagou-nenhuma-multa- aplicada-pelo-orgao-apos-desastre-em-mariana.ghtml > Acesso em: 14 de nov. 2019.

308

Denúncia disponível em: < http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/denuncia-samarco > Acesso em: 14 de nov. 2019.

309

MPF, Ministério Público Federal. Tragédia em Mariana: Justiça recebe denúncia do MPF e instaura ação penal contra os 26 acusados. Brasília, 18 de nov. 2016. Disponível em: < http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/noticias-mg/tragedia-em-mariana-mg-justica-federal- recebe-denuncia-do-mpf-e-instaura-acao-penal-contra-os-26-acusados > Acesso em: 14 de nov. 2019.

310

MPF, Ministério Público Federal. Caso Samarco: Nota sobre o trancamento da acusação de homicídio na ação penal. Disponível em: < http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/noticias- mg/caso-samarco-nota-sobre-o-trancamento-da-acusacao-de-homicidio-na-acao-penal> Acesso em: 14 de nov. 2019.

figuram no polo passivo311. A última decisão do processo analisada até o

fechamento deste trabalho, datada de 20 de setembro de 2019312, além de resolver

algumas questões processuais, foi responsável por excluir do polo passivo oito réus, totalizando apenas os nove supracitados.

311

RODRIGUES, Leo. MPF recorre da exclusão de 8 réus de ação penal da tragédia de Mariana. Agência Brasil. Rio de Janeiro: 30 de set. 2019. Disponível em: < http://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2019-09/mpf-recorre-da-exclusao-de-8-reus-de-acao- penal-da-tragedia-de-mariana > Acesso em: 15 de nov. 2019.

312

Decisão disponível em:

<https://processual.trf1.jus.br/consultaProcessual/processo.php?proc=27251520164013822&secao=P NV&pg=1&trf1_captcha_id=560c5a9742d2ed06abec75f4454bcf99&trf1_captcha=vc7r&enviar=Pesqui sar > Acesso em: 15 de nov. 2019.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho buscou analisar as esferas de responsabilidade que são desencadeadas pela ocorrência de danos ambientais, com o enfoque no caso Samarco, em virtude do rompimento da barragem do Fundão, em 05 de novembro de 2015.

Inicialmente, vislumbrou-se que a Constituição Federal de 1988 representou, na seara ambiental, um papel inovador na ordem jurídica pátria ao positivar normas com um viés mais protecionista em detrimento dos diplomas constitucionais anteriores. Esse papel inovador se traduziu, também, conforme demonstrado no capítulo 1, na expressa previsão da tríplice responsabilidade, na medida em que o causador do dano ambiental pode sofrer sanções, concomitantes, na esfera civil, administrativa e penal.

Verificou-se, ainda, que o licenciamento ambiental e os princípios da precaução e prevenção são três institutos importantes dentro da seara ambiental que, uma vez observados, impossibilitam ou, pelo menos diminuem ao máximo, o desencadeamento da tríplice responsabilidade.

Ao analisar o caso Samarco, pôde-se verificar que os referidos institutos não foram suficientes para impedir a incidência da tríplice responsabilidade em face daquele empreendedor minerário, eis que, o rompimento da barragem do Fundão, foi tão danoso que recebeu a titulação de maior desastre tecnológico ambiental da história do Brasil.

Esse desastre, que pode ser classificado como tecnológico, pelo fato de não ter decorrido da natureza, mas de uma ação antrópica, que no caso em tela, se transmuta para a figura dos empreendedores minerários, ocasionou, também, danos diretos ao meio ambiente. Os supracitados danos, deram azo ao desencadeamento das três esferas de responsabilidade ambiental: civil, administrativa e penal.

Em que pese o processo responsabilizatório ainda estar em fase de execução, o arcabouço utilizado como fonte metodológica, incluindo principalmente dados oficiais do judiciário, pesquisas e notícias divulgadas pela mídia, indicou que a responsabilização civil ambiental se materializou, basicamente, por meio de Ações Civis Públicas e Termos de Ajustamento de Condutas. A responsabilização administrativa, por sua vez, através de multas. Enquanto que a responsabilização penal ambiental se materializou através de uma ação penal, ainda em trâmite.

Apesar de a responsabilidade civil ter sido desencadeada pelos danos ambientais, as Ações Civis Públicas e os Termos de Ajustamento de Condutas, firmados nos bojos daquelas também abarcaram responsabilizações advindas de outros danos coletivos, em virtude de seus objetos envolverem não apenas o meio ambiente e pelo fato de o desastre, em questão, ter sido tecnológico e de grande magnitude. Acerca dos danos ambientais destacaram-se a destruição de áreas de mata atlântica e de vegetação nativa, além de áreas de proteção permanente e contaminação do Rio Doce e outros corpos hídricos.

Também foi objeto de análise, os danos causados à população de forma reflexa, em virtude dos danos ambientais, e os danos coletivos à referida população pelo impacto direto da lama na estrutura socioeconômica de suas comunidades. Como exemplo dos danos em comento, destacaram-se a destruição, por completo, da estrutura urbanística dos subdistritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, além da impossibilidade de abastecimento de cidades que se valiam do Rio Doce e de outros corpos hídricos que foram contaminados pelos rejeitos.

Dessa forma, vislumbrou-se que a responsabilidade civil ambiental além de ter provido sanções à Samarco de cunho exclusivamente ambiental, promoveu, de forma indireta, também, sanções coletivas não ambientais, mas igualmente importantes para a reparação integral do evento danoso. Dentre as ambientais foi destacado, por exemplo, o desembolso, por parte da Samarco, de quantia para a preservação de nascentes e em relação aos outros danos coletivos, a obrigação de promover o reassentamento de famílias diretamente atingidas pela lama.

A responsabilidade administrativa ambiental, em âmbito federal, se materializou através da imposição de multas, mas ainda não obteve concretude em virtude do empreendedor minerário, em questão, ter se socorrido da seara recursal, impedindo, até o encerramento deste trabalho, o pagamento das referidas sanções.

Verificou-se que a responsabilidade penal ambiental apesar de também ter sido desencadeada após a ocorrência dos danos ambientais, assim como a administrativa, não possui concretude até a data de encerramento deste trabalho, Isso porque a ação penal que materializou a referida responsabilidade, e que abarca diversos crimes ambientais, ainda está em trâmite.

Conclui-se, que as três esferas de responsabilidade são cabíveis em face dos empreendedores minerários caso danos ambientais advenham dessa atividade e que a Samarco, enquanto empreendedor minerário, está sofrendo a referida tríplice

responsabilidade em virtude dos danos ambientais causados pelo rompimento da barragem de Fundão, enquanto maior desastre tecnológico ambiental do Brasil.

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