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3 O PROBLEMA DA REIFICAÇÃO

3.3 A mercadoria e valor de uso e valor da troca

Porém, a natureza imperceptível a olho nu carece de uma observação muito cuidadosa, como a visão que Marx escreveu sobre a economia. E, sucede a esse plano, a visão de Lukács que projeta o cume das discussões em uma nova dimensão ainda não vista sobre a estrutura da mercadoria.

Para Lukács (2003, p. 194):

A essência da estrutura da mercadoria já foi ressaltada várias vezes. Ela se baseia no fato de uma relação entre pessoas tomar o caráter de uma coisa e, dessa maneira, o de uma ‘objetividade fantasmagórica’ que, em sua legalidade própria, rigorosa, aparentemente racional e inteiramente fechada, oculta todo o traço de sua essência fundamental: a relação entre homens. Não pertence ao âmbito deste estudo analisar o quanto essa problemática tornou-se central para a própria economia e quais consequências o abandono desse ponto de partida metódico trouxe para as concepções econômicas do marxismo vulgar. Nosso objetivo é somente chamar atenção - pressupondo as análises econômicas de Marx – para aqueles problemas fundamentais que resultam do caráter fetichista da mercadoria como forma de objetividade, de um lado, e do outro. Apenas quando compreendermos essa dualidade conseguimos ter uma visão clara dos problemas ideológicos do capitalismo e seu declínio.

Para a própria teoria marxiana, o fenômeno do fetichismo se encontra no âmago da questão do próprio significado da reificação, muito embora a sua etimologia seja distante, pois o que interessa para compreender o fenômeno da reificação é o mecanismo psíquico do qual se desenvolve todo o processo (GOLDMANN, 1979).

Sobretudo, os processos mentais dos sujeitos envolvidos nas relações sociais que levam a fetichização da sociedade moderna a uma relação de coisas sem precedentes. Aliás, a própria humanidade busca sua satisfação plena nas leis do mercado.

Para Luckács (2003, p. 194-195):

Contudo, antes que o problema propriamente dito possa ser examinado, temos de esclarecer que a questão do fetichismo da mercadoria é específica da nossa época, do capitalismo moderno. Como se sabe, a troca de mercadorias e as relações mercantis subjetivas e objetivas correspondentes já existiam em etapas muito primitivas do desenvolvimento da sociedade. Mas o que importa aqui é saber em que medida a troca de

mercadorias e suas consequências estruturais são capazes de influenciar toda a vida exterior e interior da sociedade. Portanto, a extensão da troca mercantil como forma dominante do metabolismo de uma sociedade não pode ser tratada como uma simples questão quantitativa – conforme os hábitos modernos de pensamento, já reificados sob a influência da forma mercantil dominante.

Assim, as imposições da troca se posicionam no campo das interações que a própria mercadoria estabelece com o consumidor, e nas razões objetivas se focalizam o valor do uso, e da troca. Assim, no campo das relações subjetivas fica a razão da qual o próprio indivíduo não percebe a interação do valor do uso. A metamorfose da relação mercantil num objeto dotado de uma “objetivação fantasmática” não pode, portanto, limitar-se à transformação em mercadoria de todos os objetos destinados à satisfação das necessidades (LUKÁCS, 2003, p. 222).

Destarte, nas relações conscientes as reações seriam objetivamente claras, o homem restringiria ao próprio valor do uso, o que significa transformar o objeto em objetivo. Isto porque: “As propriedades e as faculdades dessa consciência não se ligam mais somente a unidade orgânica da pessoa, mas aparecem como ‘coisas’ que o homem pode ‘possuir’ ou ‘vender’, assim como os diversos objetos do mundo exterior” (LUKÁCS, 2003, p. 223).

Nesse sentido tal relação parece ser intrínseca ao homem desde a sua existência como ser social fundado pelo trabalho, pela necessidade de interagir com os outros numa relação de troca que sempre existiu. Contudo, o que levou os grandes pensadores a tentar entender essa relação foi exatamente o que parâmetro seria considerado numa relação de troca para se estabelecer o valor do uso ou vice- versa.

Goldmann (1979, p. 119):

O desenvolvimento da produção para o mercado introduziu uma modificação radical nessa estrutura comum à diferentes ordens sociais não capitalistas. Ao lado do valor de uso e em grande escala no lugar deste, criou-se e desenvolveu-se o valor econômico, o valor de troca.

Visto que o que antecede o desenvolvimento do valor de troca ou valor econômico se caracteriza pelo modo de produção, há uma inserção do trabalho antes de tudo nessa atribuição de valor. No aspecto econômico Goldmann (1979, p. 119, grifo do autor) caracteriza de relação de homens com as coisas:

[...] em todas as formas de sociedade os homens produzem – já o dissemos – objetos para seu próprio consumo e para o dos demais membros do grupo. No entanto em todas as formas sociais pré-capitalistas, o motivo consciente que impele os homens a empregar seu trabalho na produção de certos bens, ou a obrigar os outros homens a fazê-lo, é seu valor de uso, a diversidade múltipla dos objetos produzidos que lhes permitem satisfazer as

necessidades humanas. Não há dúvida de que a ordem social da maioria das sociedades do passado baseava-se na opressão brutal, nos privilégios de uma pequena minoria e na exploração de grande número de trabalhadores. Através dessa opressão e dessa injustiça, porém, sempre se estabelecia mais ou menos claramente uma relação real e consciente entre os produtores e o valor de uso dos bens produzidos.

Todos os aspectos, seja qualitativo ou quantitativo, então, são atribuídos ao objeto para o seu valor de uso, assim a relação mercantil que este possa estabelecer com toda sociedade passa a ter um valor que se estima dentro do grupo e este se caracteriza com objetividade dentro do social. Não se estima aquilo que não tem valor de uso, por ser algo que permeia a consciência da própria sociedade de igual relação de consumo.

Nos argumento de Lukács (2003, p. 208):

O movimento das mercadorias no mercado, o surgimento do seu valor, numa palavra, a margem real de todo cálculo racional não somente é submetida a leis rigorosas, mas pressupõe, como fundamento do cálculo, uma legalidade rigorosa de todo acontecimento. Essa atomização do indivíduo é, portanto, apenas o reflexo na consciência de que as ‘leis naturais’ da produção capitalista abarcaram o conjunto das manifestações vitais da sociedade, de que – pela primeira vez na história – toda a sociedade está submetida, ou pelo menos tende, a um processo econômico uniforme, e de que o destino de todos os membros da sociedade é movido por leis também uniformes.

Essas leis naturais adentram a consciência pela conformação da sociedade e se comportam na sua totalidade como leis imutáveis, que tendem a ser regidas nas relações dos bens produzidos nas relações capitalistas. Entretanto, as sociedades pré-capitalistas eram independentes, assim como as leis de mercado também eram, mas essas leis naturalmente tendem a se modificar pelo metabolismo histórico, próprio das sociedades.