Dando continuidade ao objetivo de analisar como é construído o dis- curso local no que diz respeito ao ambiente natural, quero focalizar agora as políticas governamentais do período pós-independência. Com a independência em 30 de junho de 1975, o primeiro governo do Estado de Cabo Verde empenhou-se fundamentalmente em reor- ganizar as estruturas administrativas herdadas da colonização e em criar outras para responder às necessidades de funcionamento de um Estado politicamente independente. O Estado é chamado a desem- penhar, nesta etapa, um papel primordial na edificação da sociedade, intervindo de forma preponderante na execução da política nacional nos seus mais diversos setores, do econômico ao social e cultural. É o setor estatal que se encontra em condições de mobilizar os recursos e assegurar o global desenvolvimento econômico e social do país, cha- mando a si os setores básicos do desenvolvimento industrial e agrí- cola, organizando e controlando a produção (ANDRADE, 1996).
O Cabo Verde independente é um país de fracos recursos e com forte dependência externa. Para garantir sua viabilização econômi- ca no mundo moderno, a opção foi construir um discurso de desen- volvimento da nação que estivesse inserido no contexto mundial da época – ou seja, um discurso desenvolvimentista que incorporasse o adjetivo sustentável, assim como as demais nações modernas. O am- biente continua hostil, e a seca e a insularidade vêm sendo agravadas pela desertificação crescente em séculos de ocupação e por um cres- cimento demográfico não condizente com a evolução dos recursos. Para combater tal quadro, torna-se central uma política de “recon- quista da natureza” (LESOURD, 1995) ligada a razões políticas, cul- turais e econômicas.
O que está em jogo é a reconstrução, prática e simbólica, do lugar da natureza nessa sociedade na tentativa de “apagar e suavizar sé-
culos de exploração e de ‘mau uso’ da terra”. Parece haver a ideia de uma chamada “guerra ecológica”, pensada como um projeto mobi- lizador para a construção do Estado e para reforçar a unidade nacio- nal. Além da insularidade, a erosão e a água são os maiores problemas ambientais do arquipélago, somando-se a isso uma história de gestão “imprudente” do meio ambiente.
Como veremos, ainda que de forma tardia, as políticas adotadas pelo governo local aparecem em conformidade com as concepções que imperavam no momento da independência do país. Assim, os planos e os projetos de ações desenvolvimentistas podem ser vis- tos como formas de modulação, apropriação e gestão do espaço que apresentam continuidades por se encontrarem inseridos num mes- mo paradigma desenvolvimentista. Creio que, se pudéssemos resu- mir os principais objetivos presentes nos documentos oficiais (es- sencialmente os Planos Nacionais de Desenvolvimento), teríamos como principais os seguintes aspectos: a preocupação em atingir e assegurar um nível de crescimento econômico; a construção de uma sociedade desenvolvida; o estabelecimento de bases para a integra- ção nacional; e a promoção de meios para a utilização dos recursos humanos e das dimensões físicas e climáticas do território nacional.
Paralela ou contrariamente a esse discurso que traduz uma tenta- tiva de construção do país à luz de modelos internacionais, temos a apresentação de um território com características físicas e paisagís- ticas que constituem um entrave para o desenvolvimento e a inserção do país no sistema econômico mundial. Nesse sentido, as caracte- rísticas negativas apresentadas de forma insistente nos documentos formulados pelo governo local passam a ser assumidas estrategica- mente, agora como um valor que pode ser explorado na demanda por ajuda internacional.
Porém, apesar de fazer a ligação entre as duas esferas – pobreza/ aridez – colocando a pobreza como um problema de grande impor- tância ecológica, o discurso desenvolvimentista já não acusa os po-
bres, como no período colonial, por sua irracionalidade em relação à paisagem, mas os acusa de falta de consciência ambiental. Aque- las representações que vimos – das gentes pobres e de pele escura destruindo a vegetação, desmatando desordenadamente, sendo in- dolentes no que diz respeito à paisagem – só aparecem aqui como referência a um passado que deve ser convertido, daí a necessidade da educação ambiental e de programas nesse âmbito. Por outro lado, não é incorporada aqui aquela visão romântica dos literatos do início do século XX: a do cabo-verdiano herói aposto à paisagem ingrata. A ligação entre pobreza física e humana é estabelecida de maneira direta nos documentos, porém no sentido de que a pressão exercida pelos homens se deve à falta de informação, o que pode ser revertido com a adoção de políticas ambientais que formem e informem.
A partir da constatação técnica da questão da paisagem e do clima em Cabo Verde como um problema, os estudos apresentam projetos que visam a uma melhoria no quadro de aproveitamento do solo e do clima no arquipélago. O que se verifica é uma tentativa de reverter o processo de encarar a paisagem local como negativa, sempre vis- ta como um entrave ao desenvolvimento, e adotar uma nova relação com esse meio no sentido de melhor aproveitar as características ge- ográficas e climáticas do país em favor da vida da população local.
O primeiro passo foi dado logo após a independência em 1975, com a implementação do Programa de Reflorestamento nas princi- pais ilhas agrícolas; em continuidade, foi estabelecido o Programa de Ação Nacional de Luta contra a Desertificação e de Mitigação dos Efeitos da Seca (PAN) e, mais recentemente, o Plano de Ação sobre a Biodiversidade e a criação do SIA, o Sistema de Informação Ambien- tal. Estes foram os principais programas implementados pelo go- verno cabo-verdiano, sempre em conformidade e em parceria com programas de organismos internacionais europeus desenvolvidos em outros países, principalmente no continente africano.
Junte-se a esse processo uma crescente tendência ao desenvolvi- mento turístico, alternativa que vem funcionando como uma opor- tunidade de estabelecimento de uma nova relação entre o homem e a paisagem em Cabo Verde.
O cabo-verdiano não vê beleza no seco, ele logo associa às crises. Vemos na seca toda a desgraça do país, tudo de negativo tem a ver com a seca. Mas vivemos com a seca e devíamos ser preparados para aceitá-la, porque não há jeito. Não se pode deslocar Cabo Verde de onde está. Temos que fazer uma educação virada para a convivência com a seca, temos que valorizar o seco como bonito! Devemos nos reconciliar com a seca e viver bem com ela. A solu- ção está no turismo, que é o potencial de Cabo Verde, pois com ele começa-se a criar uma nova olhada sobre a seca: o turista acha bonito aquilo que o cabo-verdiano nunca valorizou e aí começa a surgir uma nova visão da beleza do país. O turista vem, não en- contra o verde e acha bonito assim mesmo! Eu, enquanto cabo- -verdiano, vou para outros lugares e só acho bonito porque é ver- de. A reconciliação é necessária para que haja desenvolvimento! [...] A questão da beleza, somos nós que criamos a ideia de beleza atrás da paisagem que nos interessa, ela é sempre relativa. Mas aqui tem a ideia de associar a beleza natural ao verde, exatamente o que não temos. A ideia de não explorar o árido como beleza é burrice. A seca pode ser revertida como recurso favorável, depen- de da pedagogia que nós temos que fazer; mostrar o belo através do árido. As pessoas têm que ser convencidas disso (SEMEDO, José Maria, comunicação pessoal).
É nesse contexto que será inserida a problemática da proteção e da conservação ambiental no país, intimamente aliada à questão do desenvolvimento turístico. Ao tratar disso, veremos uma mudança de foco no que diz respeito à relação entre o discurso governamental e técnico e a paisagem do arquipélago, no sentido de pregar uma re- conciliação entre os dois níveis, o humano e o físico. Em lugar de con- tinuar agredindo os ecossistemas, privilegia-se o estabelecimento da
convivência com eles, que consiste em “jogar” com as variabilidades naturais e não em negá-las. Ao invés de buscar soluções impossíveis, a preferência recai na elaboração de estratégias adaptativas que sa- tisfaçam tanto as variabilidades naturais quanto as econômicas.
Em termos práticos, essa nova tendência de “pedir à nature- za o que ela pode dar” vem se traduzindo em uma série de projetos ambientais,7 incentivos e investimentos ao turismo interno e, princi-
palmente, externo. Neste momento há projetos que vão desde a cria- ção e a melhoria de aeroportos até a ampliação da rede hoteleira. Há sempre um intercâmbio com países considerados experientes, espe- cialmente as Canárias.
Tal tendência iniciou-se na Ilha do Sal desde a reconstrução do aeroporto internacional. O desenvolvimento da Ilha se deu basica- mente em torno do turismo e toda a infraestrutura e o desenvolvi- mento existente estão voltados para a exploração turística. É inte- ressante notar que o Sal é uma das ilhas mais áridas do arquipélago e a reação dos cabo-verdianos é um tanto negativa a esse respeito. Quando fui à Cabo Verde pela primeira vez, acompanhada no avião por um grande grupo de estudantes cabo-verdianos residentes no Brasil, ao nos aproximarmos da aterrissagem no aeroporto do Sal, vários deles vieram me prevenir da feiura e da aridez que iria ver pela janela do avião. “Não se assuste”, “é feio, não tem nada”, “parece o deserto, mas as outras ilhas não são assim” – estas foram adver- tências que ouvi dezenas de vezes enquanto sobrevoávamos a ilha. Quanto a mim, estava maravilhada com a paisagem que via!
Outra particularidade da Ilha do Sal é a sua restrição em termos balneários. São poucas as praias a serem exploradas como recurso 7 programas dedicados à conservação in situ e ex situ da biodiversidade por intermédio do estabelecimento de Áreas protegidas em todas as ilhas que constituem o arquipélago. Assim, foram identificadas seis reservas de recursos naturais, quatro reservas naturais, uma reserva da biosfera e nove paisagens protegidas.
turístico, este sendo restrito basicamente a Santa Maria, a principal praia, e onde se encontra toda a rede hoteleira e de restaurantes. Por tudo isso, os investimentos agora vêm sendo expandidos para outras ilhas: Maio e Santiago, São Vicente e, principalmente, Boa Vista. Esta última oferece uma variedade de belíssimas praias virgens, que têm sido descobertas especialmente por turistas e investidores italianos e alemães. Como afirma José Maria Semedo, “Boa Vista tem maiores recursos, tem grandes espaços, maiores praias. É isso que deve ser explorado”.
Esta perspectiva, que vem sendo enfatizada e traduzida nas polí- ticas ambientais e de incentivo ao turismo, de que é preciso valorizar a natureza e a paisagem locais, abre um grande leque de novas possi- bilidades de relações com o meio. O crescente discurso de que “de- vemos desenvolver a capacidade de conhecer e saber viver nas nossas ilhas” pode vir a reverter toda uma história de valorização dos aspec- tos negativos da paisagem, que culminou numa total dependência econômica externa. A valorização dos recursos naturais disponíveis pela exploração turística pode vir a se constituir na principal fonte de um possível crescimento econômico para Cabo Verde.
Com a proclamação da Independência Nacional em 1975, deu-se um passo decisivo no sentido de criar condições políticas, objetivas e subjetivas e, aos olhos dos próprios cabo-verdianos, renovaram-se as esperanças de novos tempos, de novas chuvas caindo em um chão mais adubado e prometendo colheita mais rica e abundante. A estra- tégia utilizada para o crescimento do país e sua inserção na economia mundial foi a de que um país fraco de recursos e com forte depen- dência externa8 só alcançaria a viabilização econômica optando pelo
discurso moderno e então em moda do desenvolvimento sustentável. Apesar das novas tendências de otimização das capacidades pai- sagísticas do país, é fato que as práticas tradicionais e as concepções 8 sobre esta temática, ver trajano Filho, 2000.
históricas de que a natureza é hostil continuam a imperar na carac- terização local. Nesse sentido, inspiro-me no argumento de Trajano Filho para o caso da Guiné-Bissau (2000)9 de que a percepção de uma
carência difusa e a autorrepresentação marcada pela fragilidade fun- cionaram, e funcionam ainda hoje, para a superação das limitações objetivas do Estado cabo-verdiano nos planos político e econômico desde o início do século, justificando e legitimando a necessidade de recursos e investimentos externos para que os cabo-verdianos po- bres e fracos de recursos naturais, mas corajosos e portadores de um discurso desenvolvimentista moderno, mantenham sempre a atra- ção e o interesse da ajuda internacional.
Passa a ser crescente um discurso que prega a necessidade de “vi- gilância ambiental” não só pelo Estado, mas pela população local. É necessário desenvolver a população sem degradar o ambiente, e as pessoas devem ter consciência das riquezas locais (a cultura, os hábi- tos e a natureza) para conservá-las e aproveitá-las economicamente. Sendo assim, o turismo é visto como uma alternativa sustentável e viável para o desenvolvimento e a inserção do país no mundo mo- derno. “O turismo é o potencial de Cabo Verde” e deve ser explora- do pelo cabo-verdiano: esta é a nova visão que passa a ser difundida pelos técnicos e educadores ligados aos projetos de desenvolvimento do país.