2. O DIREITO DE PROPRIEDADE: do individualismo ao interesse
2.1. FUNDAMENTOS JUSFILOSÓFICOS DO DIREITO DE PROPRIEDADE: a propriedade como matriz
2.1.3. A propriedade como fundamento da liberdade
A relação da propriedade com a liberdade é tão próxima que restrição do acesso pleno à primeira implica em redução desta. Como se viu anteriormente, a relação de domínio entre homens e as coisas é, em grande medida, devido à própria natureza humana em suas dimensões morais e sociais. Logo, o direito de propriedade está para além de uma mera construção ou criação jurídica derivada da cultura, dado que ela tem suas bases na própria estrutura humana. Essa vontade de se assenhorar das coisas que estão em seu entorno é consequência da compreensão do homem da sua possibilidade de controlar a si mesmo e logicamente controlar o seu entorno, como bem salienta Hervada (2008).
De fato todo discurso sobre a propriedade enseja uma reflexão que transcende ao estritamente jurídico, uma vez que a propriedade determina a forma com que os homens se relacionam com as coisas que integram a sua realidade e por consequência como se relacionam com os outros homens em relação a essas mesmas coisas. Logo, discutir sobre propriedade, como dito por Richard Pipes (2002) vai muito além de uma mera discussão jurídica, dado que para esse autor a propriedade é a pedra angular da sociedade civil. O homem está imerso e se desenvolve dentro dessa realidade, logo em estreita relação com a propriedade e tudo que dela deriva.
Para Locke (1998) e Rousseau (1999) a propriedade é um direito nuclear em relação ao qual todos os outros são amarrados. Pode-se dizer que a propriedade se caracteriza como a vértebra que sustenta os demais direitos e que justifica a existência da sociedade como a conhecemos. Por isso a sua garantia por meio de uma disciplina jurídica sólida e ao mesmo tempo harmônica com os demais ramos do direito se impõe como medida necessária ao estado de paz social pretendido pelo direito.
Ao perceber a amplitude desse direito muitos autores, assim como os acima citados, não poderiam deixar de tratar da relação entre a propriedade e a liberdade. Ressalta-se que a tese lockeana em muito contribuiu para o conhecimento da relação entre propriedade e liberdade. Pode-se inferir de seus
textos que a liberdade tem como fundamento a propriedade uma vez que o homem por ser seu próprio senhor e o proprietário de sua própria pessoa, assim como dono de suas ações e do produto de seu trabalho é livre. Para Locke (1998) a chave da propriedade se encontra no domínio que o homem tem sobre a sua pessoa, entendida a pessoa como agente consciente e inteligente que governa sua vontade conforme as leis da razão.
Assim, a propriedade primeira era a propriedade de si, ou seja, o homem como dono de si mesmo, como alguém que age segundo a sua racionalidade e não obedece ordens de outrem. Sendo dono de si o homem é livre. Logo, pode-se concluir que a propriedade fundamenta a liberdade. Trata-se aqui da liberdade que é tão contrária à escravidão. Locke (1998) também afirma que o homem por ser proprietário de si é também proprietário de seu trabalho. Logo, como ser livre o homem tem para si o fruto de seu trabalho que é potencialmente gerador de riquezas que se expressam através de propriedades.
Seguindo esse raciocínio, percebe-se que a propriedade fundamenta a liberdade, pois que a liberdade se realiza plenamente por meio da garantia daquela. É pelo exercício do direito de propriedade que há a geração e aquisição de riquezas necessária à sobrevivência do homem no estado de sociedade. Sobre esse viés, Locke (1998) salienta que a propriedade deve ser respeitada pelos governantes de forma que a máxima liberdade de todos exige a restrição do poder soberano. Logo, há a necessidade de limitar os poderes do soberano para a garantia da liberdade do homem, para garantir a possibilidade de se assenhorar legitimamente das coisas, ainda que apenas de si e de seu trabalho. Por isso, comumente, encontramos nas ordens jurídicas ocidentais contemporâneas a propriedade ao lado da liberdade como direito fundamental. Este, entendido como direitos naturalmente concebidos ao homem que se prestam à proteção do indivíduo diante da atuação do Estado (BOBBIO, 2004), numa estrita concepção clássica.
Com efeito, o instituto da propriedade privada está presente em quase todas as sociedades do mundo. Na Constituição Federal Brasileira de 1988, a propriedade é um direito fundamental que gravita ao lado de direitos como a vida, a liberdade, a igualdade, dado que todos esses compõem o seu artigo 5º, caput. Em reforço à tutela genérica da inviolabilidade do direito de propriedade, contido na Constituição, o inciso XXII do citado artigo, explicita que é garantido o direito de
propriedade. Dessa proteção constitucional, o que se lê é que o direito de propriedade é garantido em caráter erga omnes, ou seja, enquanto direito que deve ser respeitado por todos os outros que façam parte da sociedade, incluindo o Estado. Segundo Rizzardo (2004, p. 169), “A propriedade envolve a sensação e a convicção de ser alguém dono da coisa, abstraída qualquer possibilidade de terceiros interferirem no poder de comando e de soberania sobre a mesma coisa”.
Os argumentos que mantêm o caráter fundamental da propriedade vão para além de seu reconhecimento constitucional. A proteção do direito de propriedade se prende à sua função de proteção de seu titular uma vez que a propriedade fundamenta a liberdade do sujeito enquanto meio necessário à sua existência. Há, assim, uma função da propriedade que consiste em garantia de autonomia privada do ser humano, de desenvolvimento de sua personalidade. Isso, porque o ser humano só pode se desenvolver de forma digna se for pelo menos dono de si e de seu trabalho.
Não se pode imaginar, sobretudo no mundo ocidental, a possibilidade do desenvolvimento do cidadão de sua personalidade dentro de um sistema escravocrata. A proteção da liberdade e dos direitos da personalidade tais como o direito ao corpo, a dignidade, a privacidade e a intimidade, por si já justifica a manutenção da propriedade como instituição dentro do Estado. Sendo dono de seu trabalho há, por conseguinte, a possibilidade de serem todos os homens proprietários daquilo que conquistarem por ele (FARIAS e ROSENVALD, 2010, p.179).
Apesar de certo que a propriedade não é por si só garantidora da liberdade e dos direitos civis dos indivíduos, ela se apresenta como o dispositivo mais eficaz na segurança desses direitos (PIPES, 2002). Por isso, a história da propriedade a conta como instituição jurídica garantidora da liberdade do homem em relação ao poder; em relação aos senhores feudais, reis, imperadores, quaisquer governos. Por isso, foi colocada entre os direitos individuais na Declaração dos Direito do Homem e do Cidadão de 1789. Por isso, hoje se impõe como direito fundamental em nosso texto constitucional (BRASIL, 1988); como garantia individual determinada após o fim do regime militar inaugurado pelo golpe de 1964.