• Nenhum resultado encontrado

A razão e o incondicionado.

No documento O real e o conhecimento (páginas 107-112)

Após terminar a sua analítica transcendental, Kant finalmente trabalhará a razão218 enquanto faculdade cognitiva distinta do entendimento. No nível mais

elementar, a razão possui a dimensão lógica de fundamentar as nossas conclusões por silogismos. Por isso, diferentemente do entendimento, não serve para submeter nossa intuição a regras, mas se dirige especificamente a conceitos e juízos219. Para

realizar sua tarefa, busca sempre as condições dos juízo, as premissas sem as quais não pode atribui-lhe a verdade. O juízo, antes de se converter na conclusão de um argumento, é um condicionado sem cujas condições, suas premissas, não constitui conhecimento.

Saindo do nível mais elementar e entrando no campo da razão pura, dado o condicionado, é necessária e simultaneamente requerida, por exigência da razão, a

série completa de suas condições, a sequência de justificações que, movendo-se no

sentido das condições, passa indefinidamente de uma para outra em direção a algo incondicionado, seja a estrutura da sequência completa ou alguma condição absolutamente primeira. Kant aparenta ter em vista algo como: se só podemos justificar a proposição D a partir de outra C, então D é verdadeira se e apenas se pudermos afirmar previamente o mesmo de C; mas para afirmarmos C precisamos antes afirmar B, que nos leva por sua vez a A e assim sucessivamente. Ascendemos

217 Op. cit., cap. 5, p. 113.

218 Para abreviar o curso desse capítulo já um tanto longo, não abordaremos os conceitos da reflexão que Kant

introduz do apêndice da analítica. Cremos, contudo, que os pontos principais, segundo nossos propósitos, já foram elencados.

do condicionado inicial D para a série de suas condições, ou seja, C, B, A e todas as demais que se seguirem. Que todo condicionado tenha condições é proposição analítica, mas o conceito de incondicionado é sintético. A diferença em relação às noções do entendimento reside na falta de emprego empírico dessa palavra.

Se a unidade transcendental da apercepção está no centro do entendimento, na razão é o incondicionado que se situa no centro da reflexão como aquilo que integra o todo da experiência na totalidade de suas condições. A série progressiva dos condicionados, ao contrário da de condições, é empírica e se apresenta num devir, motivo pelo qual não se precisa considerar sua série completa220. Por outro lado, se

a forma dos juízos ensejava a descoberta das categorias, pode-se esperar que a forma dos raciocínios revelará as ideias, ou conceitos puros da razão, que transcendem a possibilidade da experiência221. Kant escreve:

Assim, o conceito transcendental de razão é apenas o conceito de totalidade das condições relativamente a um condicionado dado. Como, porém, só o incondicionado possibilita a totalidade das condições e, reciprocamente, a totalidade das condições é sempre em si mesma incondicionada, um conceito puro da razão pode ser definido, em geral, como o conceito do incondicionado, na medida em que contém um fundamento na síntese do condicionado.

Haverá tantos conceitos puros da razão quanto as espécies de relações que o entendimento se representa mediante as categorias: teremos, pois, que procurar, em primeiro lugar, um incondicionado na síntese categórica de um sujeito, em segundo lugar, um incondicionado na síntese hipotética dos membros de uma série e, em terceiro lugar, um incondicionado na síntese disjuntiva das partes de um sistema.222

E completa:

Por conseguinte, todas as ideias transcendentais podem reduzir-se a três classes das quais a primeira contém a unidade absoluta (incondicionada) do sujeito pensante, a segunda, a unidade absoluta da série das condições do fenômeno e a terceira, a unidade absoluta da condição de todos os objetos de pensamento em geral.

O sujeito pensante é objeto da psicologia; o conjunto de todos os fenômenos (o mundo) é objeto da cosmologia, e a coisa que contém a condição suprema da possibilidade de tudo o que pode ser pensado (o ente de todos os entes) é objeto da teologia.223

220 A332/B389.

221 A320-321/B377-378. 222 A379-323.

A CRP rejeita o conceito de auto justificação, enquanto necessidade absoluta ‘interna’ a objetos, como vazio e sem sentido224, mas se o incondicionado só pode

consistir no elemento que conclui a série ascendente de condições do raciocínio ou, em paralelo, na sua sequência completa, então como compreender a incondicionalidade do incondicionado? Não deveria o objeto que conclui a dita série, na ausência de algo que o justifique, de algum modo ‘carregar’ em si sua própria necessidade? Mas a própria presença do condicionado imediatamente nos impõe, como exigência analítica, as suas condições, as quais, por exigência da razão, necessitam do incondicionado para sua inteira inteligibilidade, muito embora não possamos de fato apontar precisamente qual objeto poderia de fato concluir a busca ascendente por condições. O entendimento real da necessidade do incondicionado requereria que captássemos como satisfeitas todas as suas condições, as quais se sucedem indefinidamente quando as procuramos determinar.

De todo modo, o conceito de totalidade de condições serve apenas para integrar o conjunto de nosso conhecimento dando-lhe a coerência de um sistema de relações internas entre seus vários elementos. Para determinar os tipos relevantes de relação, Kant apela naturalmente para as categorias responsáveis, a de substância, que implica o acidente, de causa, que implica a conseqüência, e de comunidade, que aponta para a alteridade mútua entre os vários elementos do saber enquanto partes do mesmo todo. O sujeito, objeto da psicologia, é a substância de que o conhecimento é acidente; o mundo, enquanto sistema dos objetos, se faz tema da cosmologia e constitui o conjunto completo dos elos de causa e de conseqüência entre seus integrantes; por fim, Deus, assunto da teologia, é o conceito pelo qual os campos do sujeito e do objeto voltam a se conciliar numa realidade compartilhada e inteligível.

O uso do termo “ideia” na CRP, todavia, não devemos confundir com sua aplicação clássica e platônica. Como aponta Onora O’Neill (2015):

Kant rejeita firmemente todo pensamento de que as Ideias da Razão correspondem a arquétipos reais e adota uma posição que é irreconciliável com qualquer forma da concepção platônica das Ideias como padrões para o conhecimento e para a matemática’, a essa terminologia emprestada

‘acaba por disfarçar a concepção kantiana completamente diferente das

Ideias da Razão, que são concebidas como preceitos para se procurar a

unidade do pensamento e da ação, ao invés de arquétipos que garantem que a unidade será encontrada225.

Kant sintetiza sua noção do papel das ideias ao distinguir nas formas a priori o papel constitutivo do papel regulativo. Relembremos a discussão das formas da intuição, na qual o espaço foi colocado simultaneamente como regra e como elemento percebido da apreensão “externa”226, ou da discussão dos conceitos puros, na qual

todas as categorias, exceto as de modalidade, contribuem ao mesmo tempo como lei e como conteúdo objetivo do juízo227 e da experiência, e teremos exemplos evidentes

do que seria um a priori constitutivo que simultaneamente regula e faz parte do que é afirmado do objeto. A respeito das Ideias da razão, vale apenas a sua aplicação regulativa, visto que:

Para agora determinar adequadamente o sentido desta regra da razão pura, deverá notar-se, em primeiro lugar, que ela não pode dizer o que seja o objecto, mas sim como deverá dispor-se a regressão empírica para atingir o conceito completo do objecto. Pois, se dissesse o que é o objecto, seria um princípio constitutivo, o qual nunca é possível mediante a razão pura. Não podemos, pois, de modo algum, ter a intenção de dizer que a série de condições para um dado condicionado é finita ou infinita; porque, desse modo, uma simples idéia da totalidade absoluta, que não é engendrada a não ser nessa ideia, pensaria um objecto que não pode ser dado em nenhuma experiência, atribuindo a uma série de fenómenos uma realidade objectiva independente da síntese empírica. A idéia da razão, portanto, limitar-se-á a prescrever uma regra à síntese regressiva de condições, pela qual esta transitará do condicionado para o incondicionado mediante todas as condições subordinadas umas às outras, embora o incondicionado jamais se alcance. Pois o absolutamente incondicionado nunca se encontra na experiência.228

Agora, as teses da estética também deixam sua marca no estudo da razão, que não pode conceber por si um objeto verdadeiramente incondicionado. Compreender, para a razão, é sempre compreender pela via das condições, o que obstrui inelutavelmente o acesso a algum incondicionado real. Somente a experiência, se não

225 Cap. 9, p. 343. Nesse caso, defender uma posição platônico-aristotélica do conhecimento parece implicar

naturalmente ao menos uma fuga parcial da posição kantiana. As formas, ou ‘lembradas’ por ocasião da experiência ou descobertas por abstração, possuem na filosofia clássica validade objetiva independente das condições subjetivas de seu reconhecimento. Em Kant, o acordo entre o formal e o particular sensível se dá como efeito da atividade do intelecto e em virtude de sua própria estrutura, semelhante à água, que precisa forçosamente se adequar ao formato da jarra.

226 P. 76 deste capítulo. 227 P. 88.

fosse sensível, poderia nos dar a conhecer, por seu misterioso olhar, algo real e sem condições. A própria série das condições, da qual não temos conhecimento senão pelo nosso sucessivo movimento empírico e ascendente, jamais se nos apresenta em sua inteireza, motivo pelo qual jamais podemos determinar-lhe precisamente sua extensão e sua incondicionalidade. Se a dialética transcendental é o estudo que visa a nos libertar das garras da dialética vulgar, já sabemos que a ilusão a que essa última nos submete consiste em tomar o meramente regulativo pelo constitutivo, erro que as grandes inteligências do passado, na falta da Crítica para lhes apontar o caminho, não puderam e nem poderiam reconhecer. Contudo, o que está fora dos limites da experiência possível e que se tenta abarcar pelas ideias da razão é justamente a coisa-em-si, muito embora só o façamos por analogia, como aponta Kant:

Com efeito, a existência dos fenômenos, que não é de forma alguma fundada em si mesma, mas sempre condicionada, exige que procuremos algo de distinto de todos os fenômenos, por conseguinte um objeto inteligível, em que não se verifique contingência. Porém, uma vez que tomamos a liberdade de admitir uma realidade subsistente por si, fora do campo de toda a sensibilidade, teremos de considerar os fenômenos apenas como modos contingentes de representação dos objectos inteligíveis por seres que são eles próprios inteligências; e então resta-nos apenas a analogia, pela qual utilizamos os conceitos da experiência, para formar qualquer conceito das coisas inteligíveis, das quais em si não temos nenhum conhecimento.229

Concebemos o que está fora dos limites da experiência por apelo ao uso analógico das categorias, ou seja, quando usamos regras da síntese dos fenômenos na ausência completa de dados sensíveis - a matéria do entendimento - dos quais eles normalmente compõem. Mas se nosso filósofo está usando o termo “analogia” de modo preciso, a que tipo de analogia ele se refere?230 Trata-se de mera atribuição

arbitrária ou haveria verdadeira proporcionalidade, alguma semelhança em meio a diferenças, entre os conceitos puros, as ideias e os númenos? Cremos que haja proporcionalidade entre as categorias e os ideais da razão, visto que os segundos derivam das primeiras ao se acrescentar o conceito do incondicionado. Uma substância, ou causa, ou totalidade incondicionadas não deixariam simplesmente de ser substância, causa e totalidade pela soma de uma qualidade, ainda que essa seja a incondicionalidade. Mas e quanto às ideias e os númenos? Há proporção possível

229 A566/B594.

entre uma regra da síntese dos raciocínios - ou do comportamento – e algo não empírico?

No documento O real e o conhecimento (páginas 107-112)