Que dizer da diferença entre potência, forma e ato centrais e conjugados? Vejamos:
Ora, na raiz do método clássico estão dois princípios heurísticos. O primeiro é que as coisas semelhantes são compreendidas de modo semelhante, que uma diferença na compreensão pressupõe uma diferença significativa de dados. O segundo é que as semelhanças relevantes para a explicação não residem nas relações das coisas com nossos sentidos, mas nas suas relações entre si. Em seguida, quando se aplicam esses princípios heurísticos, surgem classificações por semelhança sensível, depois correlações e, por último, a verificação de correlações e de sistemas de correlações. Mas as correlações verificadas implicam necessariamente a verificação de termos implicitamente definidos pelas correlações; e não envolvem mais do que tais termos implicitamente definidos enquanto relacionados, pois o que é rigorosamente verificado não é esta ou aquela proposição particular, mas a proposição geral e abstrata, para a qual convergem séries de séries de proposições particulares. Por conseguinte, existe uma estrutura heurística fundamental que conduz à determinação dos conjugados, isto é, de termos implicitamente definidos pelas suas relações explicatórias e empiricamente verificadas. Tais termos enquanto relacionados são conhecidos pela compreensão, e portanto são formas. Denominemo-las formas conjugadas.311
311 Cap 15, p. 414.
Elaborar conceitos de valor intectual e não só pragmático implica abandonar os termos definidos em termos de suas relações para conosco, os conjugados experienciais, e buscar as suas correlações verificáveis, que ocorrem apenas entre si. Quando encontramos uma correlação tal como “força equivale à medida da massa multiplicada pela da aceleração” – F=MxA – isso não significa que compreendemos, isoladamente, o significado de cada termo envolvido. Que a correlação seja verificável e verificada, contudo, indica que dispomos de uma definição implícita desses mesmos termos, pois verificar uma correlação implica decerto verificar os elementos correlacionados. O conteúdo desse tipo de intelecção, a correlação, como o conteúdo de toda intelecção, é formal, motivo pelo qual Lonergan a nomeia forma conjugada. Como a potência é sempre a potência para a forma e o ato é sempre o ato da forma, então deve haver potências e atos correspondentes às formas conjugadas. Daí o conceito de potências, formas e atos conjugados.
Além disso, a estrutura heurística que conduz ao conhecimento das formas conjugadas torna necessária outra estrutura que induz ao conhecimento das formas centrais. Obtêm-se os conjugados explicativos ao considerar dados semelhantes a outros dados, mas os dados que são semelhantes também são concretos e individuais; e, enquanto concretos e individuais, são compreendidos na medida em que neles se apreende uma unidade, uma identidade e um todo, concretos e inteligíveis. Nem se pode dispensar ou transcender essa apreensão. (...) Portanto, enquanto a ciência se desenvolver, é indispensável a noção de unidade inteligível. Contudo, tanto no seu termo como no seu desenvolvimento, as conclusões científicas precisam ser apoiadas pelas provas; as provas para tais conclusões residem nas mudanças, e sem unidades concretas e inteligíveis nada há para mudar, pois a mudança não é a substituição de um dado por outro, nem a substituição de um conceito por outro; consiste na mesma unidade concreta e inteligível que proporciona a unificação aos dados sucessivamente diferentes; e, portanto, sem unidade não há mudança, e sem mudança falta uma boa parte da prova, senão mesmo toda, para conclusões científicas. Por último, a ciência é aplicável a problemas concretos; mas nem o conhecimento descritivo nem o explicativo se podem aplicar a problemas concretos sem uso do demonstrativo “este”, e tal demonstrativo só pode ser usado na medida em que existe ligação entre conceitos enquanto individuais; somente a noção da unidade concreta e inteligível dos dados fornece essa ligação e, portanto, essa noção é necessária à ciência enquanto aplicada.
Ora as unidades concretas e inteligíveis são conhecidas pela compreensão; são, por conseguinte, formas. Mas são assaz diferentes das formas conjugadas e, portanto, deve reconhecer-se um outro tipo de forma, que designaremos por “forma central”; e, tal como a forma conjugada implica
uma potência conjugada e um ato conjugado, também a forma central implica uma potência central e um ato central.312
O conhecimento intelectual parte da simples descrição e avança para a compreensão da unidade inteligível dos dados, a qual não seria possível se não pudéssemos reconhecer que certos dados compartilham a mesma natureza formal que outros dados. Se assim não se desse, precisaríamos de uma nova teoria da gravidade para cada corpo que caísse. Contudo, se podemos relacionar os dados em termos de sua natureza abstrata, não obstante os dados são, simultaneamente, concretos. Além disso, os dados são ultimamente reunidos em conjuntos reconhecíveis, totalidades dentro das quais mudanças podem ser observadas e que, segundo a sensibilidade, consistem em corpos e eventos.
Mas mudanças demandam tanto permanência quanto impermanência, pois algo deve ser o sujeito da mudança. Mudar não é trocar um dado por outro, pois dados não se trocam, apenas se sucedem e se somam nas anotações. Para sairmos do campo da extroversão sensível e adentrarmos o da explicação racional, precisamos substituir a noção vaga da corporalidade dos objetos sujeitos à mudança para chegar às coisas enquanto feixes de relações inteligíveis. De um ponto de vista inteligível, como se daria a permanência de algo apesar das mudanças que venha a sofrer?
Recorramos aqui a um símbolo visual: se divirdirmos o desenho de uma circunferência em três marcas, representando pontos, equidistantes, poderemos desenhar um triângulo equilátero, pois o triângulo, enquanto objeto inteligível, nada mais é que o resultado das relações – nesse caso, as retas – entre cada ponto. Movendo cada marca, o triângulo poderá deixar de ser equilátero para se tornar escaleno ou isósceles e é certamente a mesma figura geométrica, o triângulo, que sofre a transformação. Semelhantemente, a chamada forma central é, portanto, correspondente à forma substancial aristotélica, na medida em que abandona a noção de corporalidade e se atém a noção de objeto enquanto conjunto de relações inteligíveis entre dados individuais reunidos num todo complexo. As relações podem sofrer alterações não obstante a coisa permaneça essencialmente a mesma, importando apenas que as relações entre os dados se deem apenas entre si e não para conosco.
312 Cap. 15, p. 415.
Faz-se necessário, depreende-se, que haja uma formalidade não só ao nível das (1) correlações abstratas de dados, ou seja, das leis verificáveis, mas também quanto ao aspecto (2) das coisas que dizemos estarem submetidas a essas leis, as formas conjugada e central, respectivamente. Em seguida, deve-se distinguir entre a existência efetiva da forma central e a ocorrência da forma conjugada - ou seja, entre
atos centrais e conjugados – e entre a individualidade e as relações entre os dados –
as potências central e conjugada. Vejamos:
A distinção entre as formas centrais e as conjugadas leva à distinção entre atos centrais e conjugados. O ato central é a existência, pois o que existe é a unidade inteligível. O ato conjugado é a ocorrência, pois o que ocorre define-se explicativamente, ao apelar para a forma conjugada.
De modo semelhante, surge uma divisão do resíduo empírico entre potência central e potência conjugada. Uma vez que a forma central é a unidade inteligível dos dados enquanto individuais, a potência central pode ser identificada com a individualidade do resíduo empírico. Por outro lado, as formas conjugadas são verificadas em contínuos, conjunções e sucessões espaciotemporais, e, portanto, esses aspectos do resíduo empírico devem atribuir-se à potência conjugada.313
Daí a distinção entre potências, formas e atos conjugados e centrais como os elementos metafísicos do Ser, segundo Insight.