Tratemos nesse momento dos dados sensíveis, uma vez que eles, ao menos aparentemente, são o que mais se aproxima do conteúdo de uma intuição bruta ainda que possamos referi-los linguisticamente. Duas questões imediatamente se impõem: (a) Qual a sua contribuição para o conjunto do saber? (b) Eles refletem características do mundo ou apenas da faculdade sensível do sujeito? Frise-se que jamais encontramos, senão imaginativamente, dados sensíveis isolados. O mundo ao nosso
254 Também chamados de qualia na filosofia contemporânea.
255 A correspondência, no entanto, entre um espectro sensível, como o luminoso, e nossas palavras não é
perfeito e é análogo ao uso de quantidades descontínuas, números, para trabalhar com quantidades contínuas. Nossas palavras dividem a variação contínua do espectro, “quebrando-o” com palavras descontínuas como vermelho ou laranja muito embora não haja limite claro entre ambas. Mas se isso fosse um obstáculo intransponível, por que não o seria também para a própria matemática das quantidades contínuas?
redor parece antes composto de coisas, corpos ou eventos dos quais abstraímos posteriormente os dados sensíveis, muito embora um fenomenalista fundacionalista afirme que tais estruturas são construídas a partir de agregados de dados sensíveis pela mente.
A respeito da questão “a”, parece haver um processamento bastante elementar de informações, e portanto de significações, já durante a percepção. Numa conversação, sados tão fugidios como a expressão física e facial muitas vezes nos transmitem informações mais relevantes que o próprio conteúdo verbal, como ato de cortejar uma pessoa desejada; no caso dos animais, são certamente a única fonte possível de sua interação mútua. Um aumento da sensação de calor, por sua vez, pode apontar para uma mudança no ambiente ou no estado do indivíduo. Como Rorty apontou, em nenhum desses casos nosso conhecimento adquire um nível de generalidade suficiente para se converter numa teoria científica ou filosófica, mas, não obstante, parecem indicar que os dados sensíveis atuam como signos identificáveis. Que outro papel a sensação de dor teria senão nos alertar para algum risco mais ou menos imediato, objetivo e não só imaginário?
Ademais, no exemplo clássico, a fumaça não só se nos apresenta, como também serve de sinal para o fogo e mesmo animais reconhecem essa associação, como nos atesta seu comportamento na circunstância de um incêndio. A possibilidade de uma compreensão de significado num nível não verbal parece sugerir que a noção de comunicação não se restringe ao que chamamos de linguagem humana falada, gestual ou escrita, mas que talvez a própria natureza possua um caráter semiótico, onde cada coisa não apenas exista para si mesma, mas também constitua um signo em potencial para todas as demais. Se tais informações ainda não constituem o conhecimento teórico, não obstante consistem em legítimos modos de acesso ao Real.
Se hoje temos dificuldades para conceber essa possibilidade, é porque, como Guénon256 já frisou, passamos, a partir da modernidade, a encarar todos os aspectos
qualitativos do mundo que observamos como puramente subjetivos – no sentido de idiossincráticos – e a preteri-los em prol da análise puramente matemática dos dados quantificáveis. Do ponto de vista simbólico, ao contrário, o próprio mundo observado
já seria naturalmente uma linguagem cujos signos consistem em corpos e eventos concretos. Nesse caso, nossa linguagem verbal deveria vir para completar e expandir essa linguagem simbólica do mundo, jamais para a substituir.
Sublinhe-se aqui que podemos conceber a circunstância de que determinados aspectos do mundo não sejam presentemente quantificáveis, mas que o sejam em potencial, faltando-nos apenas as ferramentas técnicas ou conceituais adequadas. Hoje formulamos a aceleração de um corpo em movimento em termos de unidades de medida de tempo e espaço, mas na época pré-histórica esse seria considerado um dado puramente qualitativo e a possibilidade de sua formulação matemática seria impensável. Talvez, os ilustres fundadores da ciência moderna, como Galileu ou Descartes, tenham apenas tido uma pressa indevida ao, com sua ainda incipiente ciência empírica, reduzir o chamado mundo exterior a dados tais como massa, momento, velocidade ou forma geométrica, e a relegar todo resto a um mundo exclusivamente interior e privado257.
Ademais, toda teoria serve como explicação e, portanto, requer algum explicado. O explicado, no caso de algum saber empírico, precisa naturalmente fazer parte do domínio dos fatos. Sem o mundo dos corpos e eventos, com os quais interagimos sensivelmente, teorias empíricas perderiam toda referência identificável aos objetos que elas buscam apreender explicativamente. O papel da sensibilidade - e da linguagem que a acompanha - para o conjunto do conhecimento teórico parece portanto consistir numa complementaridade entre o nível mais elementar da descrição e o mais elaborado da explicação, na qual o primeiro naturalmente antecede o segundo.
Quanto à questão “b”, lembremos que a separação entre res cogitans e res
extensa, entre um mundo exterior de coisas extensas e outro interior de sensações e
pensamentos, ainda exerce profunda influência no pensamento contemporâneo. Há sinais, no entanto, de seu desgaste. O físico Wolfgang Smith, em sua obra seminal
The quantum Enigma (2005), aponta para o fato de que teorias físicas requerem dados
quantificáveis para serem formuladas e testadas, mas que tais dados só se tornam captáveis graças à participação de nossa sensibilidade, como ocorre na leitura de
257 No entanto, pode-se dizer que negar valor ou existência a tudo que não possa ser quantificado constitui
ainda hoje um dos vícios do pensamento dito científico e contemporâneo. É a ciência deixando de ser crítica e se tornando despótica e ideológica, deixando, pois, de ser genuína ciência.
informações na tela de um computador ou com a medida de uma barra de mercúrio em um termômetro.
O dado quantificável só se torna disponível num necessário, porém reconhecidamente insuficiente, veículo sensível. Modelos teóricos também são imprescindíveis para interpretação dos dados, distinguindo os relevantes dos não relevantes e lhes dando inteligibilidade, mas isso não diminui nossa necessidade do seu aspecto sensível. Há portanto, uma mútua dependência, sob o aspecto cognitivo, entre o que Smith chama de objetos corpóreos, como colheres, pedras e colisores de partículas, e objetos físicos como átomos de hidrogênio, moléculas, fótons e quarks. Vejamos mais um raciocínio:
P1) Algum x é objeto físico e é conhecível;
P2) Para todo x, se é objeto corpóreo, é também completa ilusão subjetiva;
P3) Para todo x, se é objeto físico e é conhecível, requer algum instrumento y para ser conhecido;
P4) Para todo x, se é instrumento, é objeto corpóreo;
P5) Para todo x, se requer algum instrumento y para ser conhecido e y é completa ilusão subjetiva, é também completa ilusão subjetiva;
H1.1) ‘a’ é objeto físico e é conhecível (baseada em P1);
H1.2) Se ‘a’ é objeto físico e é conhecível, requer algum instrumento y para ser conhecido (de P3);
H1.3) ‘a’ requer algum instrumento y para ser conhecido (de H1,1 e H1);
H1.4) Se ‘a’ requer algum instrumento y para ser conhecido e y é uma completa ilusão subjetiva y, então também é uma ilusão subjetiva (de P5);
H1.1.1) ‘a’ requer o instrumento ‘b’ para ser conhecido (baseada em H1,2). H1.1.2) ‘b’ é instrumento (de H2);
H1.1.3) Se ‘b’ é instrumento, é objeto corpóreo (de P4);
H1.1.4) Se ‘b’ é objeto corpóreo, é também completa ilusão subjetiva (de P2); H1.1.5) ‘b’ é objeto corpóreo (de H1.1.2 e H2,2);
H1.1.6) ‘b’ é ilusão subjetiva (de H1.1.4 e H1.1.5);
H1.1.7) ‘a’ requer o instrumento ‘b’ para ser conhecido e ‘b’ é completa ilusão subjetiva (de H1.1.1 e H1.1.6);
H1.1.8) ‘a’ requer algum instrumento y para ser conhecido e y é completa ilusão subjetiva (de H1.1.7);
H1,5) ‘a’ requer algum instrumento y para ser conhecido e y é completa ilusão subjetiva (de H1.1.1 até H1.1.8);
H1,6) ‘a’ também é uma completa ilusão subjetiva (de H1,4 e H1,5);
C1) Se ‘a’ é objeto físico e é conhecível, então ‘a’ também é uma completa ilusão subjetiva (de H1 até H1,5);
C2) Para todo x, se x é objeto físico e é conhecível, então x é uma completa ilusão subjetiva (generalização de C1).
A leitura do raciocínio acima - uma tentativa nossa de esmiuçar e traduzir o argumento de Smith numa outra linguagem que, admitimos, foi por nós escolhida - nos leva a questionar dois pontos centrais: (a) que seria uma “completa ilusão subjetiva” e (b) por que algo que dependa de uma completa ilusão subjetiva para ser conhecido deva também ser ilusão? Primeiramente, Smith intende obviamente mostrar como não podemos conciliar um antirrealismo acerca do mundo mediado pela sensibilidade e senso comum humanos com um realismo acerca do mundo enquanto objeto da ciência física, ou vice e versa. Sem objetos corpóreos, jamais teríamos acesso aos dados para cuja explicação formulam-se as teorias físicas e sem os objetos físicos jamais poderíamos fazer tantas previsões precisas a respeito dos objetos corpóreos. Ou (1) somos realistas a respeito de ambos e os consideramos diferentes estratos ou camadas da mesma realidade, ou (2) somos antirrealistas a respeito de ambos e os consideramos meras construções humanas258. O chamado
mundo corpóreo se mostra, conseguintemente, contínuo ao chamado mundo físico. A expressão “completa ilusão subjetiva” é um mero artifício nosso. Queremos por ela indicar a noção inteiramente hipotética de qualquer conteúdo inteligível cujo único conteúdo objetivo seja o fato de ser uma ilusão em todos os demais aspectos, uma mentira, portanto, sem qualquer elemento de verdade além do fato de ser mentira. Trata-se evidentemente de uma hipérbole, um conceito-limite criado para facilitar a exposição do argumento. Note-se que mesmo obras de ficção não constituem mentiras pura e simplesmente, podendo incorporar vários ensinamentos
258 Vale dizer que a interpretação da mecânica quântica de Copenhague, ao sugerir que o mundo quântico
de ordem moral, científica, histórica, etc259 que nos impedem de as considerar “puras
ilusões subjetivas”.
A premissa P5 é mero corolário da noção artificial acima explicada. Ela incorpora um dificuldade bastante real, um problema provavelmente irresolvível: se o campos da experiência humana e o da explicação científica forem totalmente descontínuos um em relação ao outro, e se apenas por intermédio da experiência humana elaboramos as explicações científicas, então como poderemos algum dia afirmar que de fato nossa ciência nos desvela algum conteúdo real, alguma parcela, ainda que infinitesimal, do Ser?
Se entre camadas inteiras - contrariamente a conteúdos específicos e particulares - da nossa vida intencional, do nosso tender para o que queremos conhecer, distinguimos ora algumas como conhecimentos objetivos, ora outras como vivências subjetivas, qual o critério dessa distinção? A própria crença em propriedades primárias quantificáveis distintas das secundárias e meramente subjetivas, herança do pitagorismo renascentista, logo se viu abalada pela inteligência superior de um Kant, o qual sem receio relegou ambas as classes à condição de fenômenos. O gênio maligno não só está vivo, como até hoje nos atormenta.
Sim, podemos de fato distinguir entre o “espaço lógico das razões” e o âmbito de nossa experiência pessoal. Não cremos, contudo, que esteja realmente claro que tal distinção, que aparenta ser puramente formal e metafísica, deva nos levar à separação radical entre ambas as esferas. Indo ainda mais longe, nada nos parece impedir de pensar que ambas estejam de fato entrelaçadas e que, em vez de nos expressar em termos de dois campos separados, o objetivo e o subjetivo, de fato tenhamos o (1) objetivo do subjetivo e o (2) subjetivo do objetivo. Expliquemo-nos portanto.
O primeiro consistiria obviamente nos aspectos inteligíveis da estrutura física, psicológica e intelectual comum a todos os homens e mulheres, incluindo o que nesta dissertação chamamos de processo cognitivo. O segundo apontaria para o fato, tão caro ao idealismo crítico, de que somente pela interação com seres conscientes pode a realidade manifestar-se de fato, não só com todas as suas propriedades quantificáveis, mas também com seus atributos qualitativos, ou seja, cores, figuras,
259 Ademais, quantas vezes não se tem a impressão de que os personagens das grandes histórias são até mais
sons, corpos, enfim, tudo o que torna este universo vivo e não apenas um mero esquema discursivo. O mundo, idealmente, deveria tornar-se mais real na medida exata em que essa consciência se expande para novos horizontes. Parafraseando uma anedota hegeliana, um universo sem consciência seria como a noite onde todas as vacas são pretas.
Tudo parece apontar, até o presente momento, que o conhecimento, mesmo científico, tem como condição necessária a presença efetiva, concreta ou simplesmente intencional, do objeto cognoscível perante o sujeito cognoscente e não apenas nossa representação dele. Se apenas contamos com sua representação, jamais poderemos dizer se apenas o apreendemos ou se de fato o criamos. Num sentido extremamente básico, ainda que não necessariamente o único, Ser é ser presente para um sujeito consciente. O ato intencional tem a virtude de atualizar ou virtualizar as várias presenças mediante o controle do foco de sua atenção.
Mesmo o conteúdo da ciência histórica, centrada em eventos passados, só se torna possível na medida em que se podem evocar tais eventos por meio dos documentos que restaram das épocas pregressas e da reconstrução imaginativa e conceitual do historiador. Outrossim, se algum livro, fechado há milênios, contivesse a prova de algum teorema matemático, esse só se tornaria novamente objeto de conhecimento atual se se tornasse antes objeto de atenção, visto que precisaríamos lê-lo para extrair-lhe o conteúdo. A percepção, portanto, necessariamente faz parte do processo cognitivo e sem ela teríamos explicações, mas nenhum explicado.