• Nenhum resultado encontrado

Ciência e liberdade.

No documento O real e o conhecimento (páginas 74-76)

Passemos agora a outro conjunto de questões. Dessa vez, não se trata de dúvidas, mas de dois fatos inegáveis cuja presença mútua constitui um problema bastante complexo: a) a ciência é - assim como a lei natural que só ela elucida - como o desvela o seu rápido desenvolvimento já no tempo de Kant; por outro lado, b) a lei moral também existe e, espera-se, deve orientar o curso da ação e da escolha humanas. Como escreve Eric Weil (2012):

A questão não consiste em saber se a ciência é possível, mas como ela o é, em outros termos, como ela pode ser compreendida. Em última análise,

129 Nesse ponto, há que se fazer uma distinção entre a metodologia cética, legítima forma de filosofar, e aquilo

que seria mais precisamente chamado ou de um dogmatismo negativo e ingênuo. Outrossim, não se deve confundi-la com o uso indevido e frívolo da dialética cuja esterilidade Platão já havia combatido na sua República (537e-539a). Evidentemente, Kant aqui se refere a essas duas últimas alternativas. Tais distinções se tornarão mais explícitas na Dialética Transcendental.

130 Em alemão, vernunft. 131 Em alemão, empfindung. 132 Em alemão, denken.

133 Disso podemos extrair uma primeira ambiguidade da CRP: ela lida especificamente com o conhecimento

científico ou com a cognição em geral? A amplitude da obra nos leva a crer que se trata da segunda hipótese, a qual não deixa de incluir em si a primeira.

isso será elucidado por referência a outro grande fato, o da razão moral, e, por implicação, da liberdade, fato dado com a existência imediatamente certa da lei; quanto a este último, a questão não consiste, tampouco, em saber se existem uma lei moral e, por implicação, da liberdade, mas o que elas significam para aquele que encontra em si mesmo esse fato da razão.

E existência desses dois fatos cria um problema, o problema da filosofia kantiana. A filosofia é sistemática ou não é, e dois fatos fundamentais não poderiam coexistir lado a lado sem que o pensamento para o qual existem os ligue entre si em um discurso coerente.134

Como veremos mais detalhadamente ao longo desta dissertação, na ciência da natureza, segundo nosso autor, espera-se poder ligar eventos temporalmente sucessivos mediante leis necessárias e segundo uma categoria pura de causalidade. Todavia, a lei moral parece apontar para uma realidade bastante distinta, visto que implica a liberdade de escolha de um agente autônomo, capaz de iniciar, por si mesmo, cadeias causais de eventos sem coisa alguma que o determine previamente. Com efeito, se nossas escolhas fossem sempre previamente determinadas, como a queda de objetos por força da gravidade, a palavra “liberdade” se esvaziaria de conteúdo. Que a lei moral não nos imponha seus ditames senão pela força persuasiva da razão é uma de suas propriedades fundamentais, a qual nos leva a conceber o homem diferentemente de como o faríamos se o considerássemos somente segundo as leis e o ponto de vista das ciências naturais e da razão teórica que as origina.

Em grande medida, é com base nessa questão que se farão as famosas distinções entre fenômeno e coisa-em-si e, consequentemente, entre as razões especulativa e prática. Com efeito, se a CRP servirá como “tribunal” das pretensões de conhecimento teórico, limitando-as num sentido positivo, então o ponto onde termina necessariamente o avanço de nossa capacidade de entender e de sintetizar o entendido se confunde o com princípio de nossa liberdade e de todo o mais que escapa à nossa ciência. Somente a razão prática, por sua implicação, nos põe em contato com o mundo enquanto realidade ontológica e não como mera representação dele pelas faculdades da sensibilidade, do entendimento e da razão. Kant aponta:

(...) se, porém, a razão especulativa tivesse demonstrado que esta liberdade era impensável, esse pressuposto (referimo-nos aqui ao pressuposto moral) teria necessariamente que dar lugar a outro, cujo contrário envolve manifesta contradição. Por consequência, a liberdade e com ela a moralidade (cujo contrário não envolve qualquer contradição se a liberdade não tiver sido pressuposta), teria de ceder o lugar ao mecanismo

da natureza. Como, porém, nada é mais preciso para a moral a não ser que a liberdade não se contradiga a si própria e pelo menos se deixe pensar sem que seja necessário examiná-la mais a fundo e que, portanto, não ponha obstáculo algum ao mecanismo natural da própria ação (tomada em outra relação), a doutrina da moral mantém o seu lugar e o mesmo sucede à ciência da natureza, o que não se verificaria se a crítica não nos tivesse previamente mostrado a nossa inevitável ignorância perante a coisa em si e não tivesse reduzido a simples fenômeno tudo o que podemos teoricamente conhecer.135

Aqui temos uma das motivações para distinção entre fenômeno e coisa-em-si, a qual será progressivamente detalhada ao longo de toda a Crítica. Mas quais as características essenciais de nossas faculdades cognitivas, além de sua tendência a tudo transformar em “mecanismo”, que as fecham num domínio de simples aparências ou representações? Prossigamos elencando os conceitos e definições da CRP para progressivamente chegarmos a nossa resposta. No momento, podemos dizer que a metafísica, pelos pífios resultados que nela enxerga nosso filósofo, existiria apenas como disposição natural latente da razão (metaphysica naturalis)136. Seria preciso,

contudo, um esforço crítico para delimitar o uso da razão e prover os meios para elevar a metafísica ao status de ciência, pois, do contrário, só lhe restaria permanecer como uma técnica engenhosa para discutir afirmações infundadas. A CRP não passa de um estudo crítico, e por isso prévio e introdutório, para o estabelecimento de uma aguardada metafísica sistemática.

No documento O real e o conhecimento (páginas 74-76)