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Teoria cognitiva e metafísica.

No documento O real e o conhecimento (páginas 186-190)

Tal correspondência entre os atos cognitivos e a estrutura metafísica do mundo são precisamente o que Lonergan quer dizer com suas afirmações de que o Ser e o

conhecimento são isomórficos e de que a metafísica consiste na estrutura heurística

integral do Ser proporcionado. Mas quais são os conteúdos dos atos cognitivos e,

conseguintemente, da metafísica?

O ser proporcionado é o que há de ser conhecido pela experiência, pela apreensão inteligente e pela afirmação razoável. A estrutura heurística integral do ser proporcionado é a estrutura do que há para ser conhecido, quando o ser proporcionado for inteiramente explicado. Mas, nesse conhecimento explicativo, haverá a afirmação, compreensão e a experiência do resíduo empírico. Admitamos que “ato” denota o que é conhecido na medida em que afirmamos; que a “forma” denota o que é conhecido na medida em que apreendemos, e que “potência” denota o que é conhecido na medida em que experienciamos o resíduo empírico. Da distinção, das relações e da unidade dos conteúdos experienciados, inteligidos e afirmados seguem-se a distinção, as relações e a unidade de potência, forma e ato. Dos diferentes modos de compreender coisas concretas e leis abstratas segue-se a distinção entre formas centrais e formas conjugadas e, como corolário, as distinções entre potência central e conjugada e atos centrais e conjugados. Da unificação estrutural dos métodos pela probabilidade emergente generalizada, segue-se a elucidação estrutural dos gêneros e espécies explicativos e da ordem imanente do universo proporcionado. Tais são os elementos da metafísica

(...)

(...) Mas não será inoportuno situar, mais uma vez, a nossa posição na história da filosofia. Existe um necessário isomorfismo entre o nosso conhecimento e o conhecido ser proporcionado.309

Façamos então outro esquema para reunir todas essas informações adicionais:

Ato cognitivo Conteúdo abarcado

0. Desejo irrestrito de conhecer... Ser transcendente;

1. Percepção...Potência central e conjugada; 2. Entendimento...Forma central e conjugada; 3. Razão...Ato central e conjugado;

1+2+3. Conhecimento proporcionado...Ser proporcionado.

O conhecimento e o Ser a que chegamos no término do processo cognitivo estão proporcionados um ao outro em sua conexão intencional, com cada ato cognitivo se dedicando a captar um conteúdo especifico do Ser proporcionado.

309 Cap. 15, p. 458.

Recordemos que, de acordo com a CRP de Kant, a única parte da estrutura cognitiva que mantinha alguma ligação mais direta com a realidade em si mesma era a impressão sensível, pelo “contato” que mantém com a coisa-em-si, enquanto todas as demais se ocupavam apenas em tornar o conteúdo sensível pensável e sistematizável, mas sem pudessem que desvelar aspectos adicionais do Ser propriamente dito. O conhecimento, dessa forma, tornava-se cada vez mais indireto, porque cada vez mais mediado, ao passar pelas categorias, juízos e pela razão. Aqui, pelo contrário, defende-se uma apropriação progressiva de conteúdos distintos do Ser a cada etapa da cognição, com o juízo coroando o final processo.

Decerto, se o incondicionado não estiver disponível para apreensão pelo juízo crítico, como Lonergan defende que deva estar, e não puder captar nada do Ser “em si mesmo”, então a faculdade de julgar não pode nos prover nada além da representação da síntese entre um sujeito e um predicado. E de fato, a definição de juízo de Kant310 o torna apenas a representação de representações (os conceitos) de

representações (as impressões sensíveis). O problema do saber na CRP consiste em, ao tornar todo o conhecimento matéria de representação, o conhecimento enquanto correspondência ao Ser tornou-se impossível, visto que irredutivelmente mediado e indireto. Se, como apontamos neste capítulo, o conhecimento não consistir em representação e identidade somadas, ele jamais voltará a se encontrar com o Ser. Em grande parte, a diferença entre Kant e Lonergan reside no papel geral do juízo racional, aquilo que ele de fato pode nos prover.

Voltemo-nos para o Ser proporcionado. A potência é, na filosofia aristotélica, a propensão para atualizar alguma forma, manifestando-a. Aqui, “potência” tem um sentido mais amplo, pois se trata também da propensão para a explicação dos conteúdos da percepção. A matéria para o conhecimento são os dados com que iniciamos nossas pesquisas, os quais, antes de alcançarmos a devida explicação teórica, apresentam-se de maneira não unificada, aparentemente coincidente, irrelacionada ou até caótica. Do ponto de vista do método genético, a ciência física, ao estudar a estrutura atômica e as possibilidades de combinação atômica, confere a matéria para as várias composições moleculares estudadas pela química, as quais,

310 Ver p. 92.

por sua vez, conferem a matéria para as composições dos organismos vivos estudados pela biologia, e assim sucessivamente.

A forma é tudo aquilo que pode sistematizar o conteúdo da matéria, conferindo, caso se atualize, unidade, identidade e totalidade ao que antes se mostrava puramente coincidente e casual. A forma é, portanto, do Ser o aspecto eminentemente inteligível, o qual se apreende pela intelecção em resposta a perguntas para o entendimento. Pelo método genético, a biologia, por exemplo, consiste em conteúdos formais – as várias espécies – que sistematizam conteúdos deixados assistemáticos pela química, a qual faz o mesmo com a física. Conhecer a forma, ente abstrato e geral, significa encontrar as relações dos dados entre si e não conosco, o que implica que a apreensão da forma requer que se descarte provisoriamente o resíduo empírico dos dados da percepção, tais como o contínuo e a singularidade dos objetos ou de tempos e espaços particulares.

Se não houvesse o aspecto formal do Ser proporcionado, todas as definições teriam caráter meramente nominal, convencional e não explanatório. Teríamos tão somente nomes definidos em termos das relações dos dados para conosco; com nossos sentidos, procedimentos ou necessidades. Explicar x, em última análise, colapsaria com o mero apontar para x e encontrar sua utilidade prática, deixando o entendimento sem um objeto que seja só seu. Caso, entretanto, só contássemos com a matéria isolada, teríamos provavelmente alguma variedade de empirismo sensualista, de heraclitismo ou de nominalismo.

Juntos, potência e forma se aproximam bastante do conceito clássico de “essência”, aquilo que nos responde qual o quid do objeto, o que ele é. Se o Ser proporcionado terminasse apenas com ambos, a filosofia mais completa seria alguma forma de essencialismo objetivo ou subjetivo, ou seja, que projetasse as formas para “fora” de nós, como o platônico, ou para “dentro” de nós, como o kantiano. Atestar existência de objetos se limitaria a apontar alguma matéria, conteúdo da percepção, que presumivelmente carregasse uma forma qualquer.

Por tais motivos, o nível do juízo racional e da reflexão crítica vem para acrescentar o aspecto do Ser proporcionado da atualidade, da existência efetiva sem a qual o conteúdo formal não passaria de simples hipótese. Perguntar pelo “se fato é assim ou não” consiste em buscar pela atualidade do conteúdo apreendido pela intelecção e formulado conceitualmente, resultando por fim no juízo que coroa o

processo cognitivo. É apenas ao chegar neste nível que se pode falar propriamente em termos de um realismo crítico do tipo pretendido por Lonergan.

Não admira que o realismo tantas vezes se veja tratado com desdém por certos filósofos. Afirmar um realismo tal como o aqui exposto implica (1) reconhecer a especificidade de cada etapa do processo cognitivo sem exceção e (2) acreditar na eficácia combinada de todas elas, num gigantesco estudo de esforço a um só tempo racional e introspectivo. Muito mais simples que o caminho proposto por Lonergan se mostra a identificação o realismo com alguma variedade do intuicionismo ingênuo e o real, com alguma variedade do “já agora lá fora”. Por outro lado, os últimos a terem tentado semelhante alternativa antes de Lonergan talvez tenham sido os há muito idos Aristóteles e São Tomás, tamanha a naturalidade em se confundir os padrões biológico extrovertido e intelectual de consciência.

No documento O real e o conhecimento (páginas 186-190)