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Atos e conteúdos cognitivos.

No documento O real e o conhecimento (páginas 158-164)

Adentremos então nas páginas de Insight e tentemos extrair-lhe os argumentos centrais. Talvez a virtude do pensamento de Lonergan se baseie numa simples, porém muito acertada observação: em todas as nossas análises anteriores, buscamos compreender ou (1) o conceito, ou (2) estrutura formal, ou (3) a possibilidade do conhecimento em geral. Mesmo que hajamos nos disposto, desde a introdução, a compreender o conhecimento enquanto processo ordenado, até agora gastamos a maior parte dos nossos esforços sem tocar profundamente nesse assunto. Antes de responder as labirínticas perguntas anteriores, deveríamos ter tentado apreender o

como do conhecimento, o padrão das maneiras pelas quais ele ocorre em seres

humanos normais.

Primeiro, a questão não é se o conhecimento existe, mas qual é justamente a sua natureza. Em segundo lugar, embora o conteúdo do conhecimento se não possa descurar, abordar-se-á, todavia, apenas na forma esquemática e incompleta, requerida para fornecer um critério discriminante ou determinante dos atos cognitivos. Em terceiro lugar, o objetivo não visa estabelecer uma lista de propriedades abstratas do conhecimento humano, mas ajudar o leitor a efetuar uma apropriação pessoal da estrutura concreta, dinâmica, imanente e recorrentemente operativa nas suas próprias atividades cognitivas.278

278 Introdução, p. 27.

Em outras palavras, mais que um volumoso tratado de teoria do conhecimento, epistemologia e metafísica, Insight é um estudo que visa a, por meio de verdadeiros exercícios para a inteligência, levar o leitor a se apropriar de sua própria estrutura cognitiva tal como ela se dá. Como o próprio título do livro já o indica, o conceito central é, traduzido, o de intelecção. Todo investigador ou pesquisador não se limita a colecionar eternamente evidências ou fatos sobre o tema de seu estudo. Tal como o ofício do detetive, trata-se de reunir todas as pistas numa perspectiva explanatória única.

Por intelecção entende-se, pois, não qualquer ato de atenção, advertência ou memória, mas um ato superveniente de compreensão. Não é uma intuição recôndita, mas o acontecimento habitual que ocorre com facilidade e frequência no moderadamente inteligente, raras vezes e dificilmente no estúpido. Em si mesma é tão simples e óbvia que parece merecer a escassa atenção que comumente se lhe concede. Ao mesmo tempo, é função tão central na atividade cognitiva que captá-la nas suas condições, no seu funcionamento e nos seus resultados é conferir uma unidade básica, mas surpreendente, a todo o campo de investigação e opinião humanas.279

Quantas vezes não passamos pela experiência de, frente a algum problema complexo, aparentemente além de nossa capacidade, por exemplo, uma questão de matemática, sentirmo-nos como se nos chocássemos contra um muro intransponível? De repente, no entanto, de forma inesperada e não controlada, percebemos um influxo de compreensão atravessar o limiar de nossa consciência e nela penetrar, permitindo a passagem de um estado de não entendimento para outro de compreensão. Certo dito, atribuído a Albert Einstein, reza: “penso noventa e nove vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio, e a verdade me é revelada.”. Fazendo abstração do aspecto metafórico da mensagem, claramente ela se refere a tais momentos de revelação e descoberta.

Inicialmente, começa-se com algum problema ou questão desafiadora para a qual esgotamos nossos recursos ou estratégias de resolução convencionais. Em seguida, nalgum momento impossível de determinar previamente, ocorre o “Eureka!” arquimediano capaz de partir o nó górdio que enfrentávamos. Trata-se de uma experiência ricamente documentada, porém raramente tematizada ao longo da história da filosofia, como no caso em que, segundo o antigo relato, a queda de uma

279 Prefácio da edição canadense, p. 21.

maçã serviu de estopim para que Isaac Newton postulasse a lei da gravidade. Nesse caso, a constatação da queda em si não configura a intelecção, mas o momento exato em que o fato da queda passou por radical reinterpretação.

Paralelamente ao estudo da justificação do conhecimento, precisamos empreender a descoberta das condições de toda descoberta possível. Em outras palavras, Lonergan buscará obter uma intelecção acerca da própria intelecção. Se as várias ciências e campos do saber supomos evoluírem, então parece razoável presumir não apenas que as intelecções ocorram com relativa frequência, mas também que se acumulem dando origem a perspectivas cada vez mais abrangentes nos campos de estudo onde ocorrem.

Ademais, ainda que num sentido mais fraco, nosso autor pretende que a intelecção seja a fonte do que Descartes chamava de ideias claras e distintas e do que Kant chamava de entendimento sintético a priori. Mais precisamente, a intelecção não é um conteúdo conceitual ou proposicional, mas um evento cognitivo que nos provê conteúdos inteligíveis formalizáveis em conceitos e proposições. A clareza auferida atesta a ocorrência da intelecção, que é a priori no sentido específico de ir além do conteúdo dos dados disponíveis e sintética por lhes conferir inédita inteligibilidade e unidade explicativa. Se dizemos “num sentido mais fraco”, é porque não se chega pela intelecção a qualquer reino de representações, ideias ou intuições absolutas ou inescapáveis. Toda explicação só tem valor provisório. O próprio caráter dinâmico, por consistir em ocorrências, e cumulativo da intelecção exige que a todo momento reavaliemos antigas descobertas à luz de novas.

Outrossim, isso nos permite compreender porque toda teoria se mostra subdeterminada pelos fatos que ela visa explicar. O ato do entendimento precisa captar e explicar a unidade subjacente aos dados e, como o todo é sempre maior que o agregado coincidente de suas partes, o intelecto apreende justamente aquilo que não se dá imediatamente, a saber, o conteúdo formal e explanatório do fenômeno analisado. Por constituir a explicação dos dados, não pode fazer parte de seu conjunto e, desse modo, os complementa. Disso não se depreende que simplesmente impomos o conteúdo formal à realidade “externa”, mas sim que diferentes atos ou fases do processo cognitivo ocupam-se de diferentes conteúdos. Enquanto captamos o dado no próprio contexto sensível ou cultural em que nos encontramos, a sua inteligibilidade plena requer atos de descoberta adicionais e subsequentes.

A matemática, por sua pura abstração, nos permite apreender com mais facilidade como problemas motivam descobertas, que levam a novos problemas e assim sucessivamente. Vejamos dois exemplos do próprio Lonergan acerca de como as intelecções nos levam a pontos de vista gradativamente superiores. Em primeiro lugar, como se chega à definição – explicativa, não meramente nominal - de um círculo? Segue uma sequência possível de pensamentos:

1. Alguma imagem sensível concreta, nesse caso uma roda, nos chama a atenção.

2. Detemo-nos mais atentamente no nível imaginativo. Percebemos que rodas são basicamente círculos de várias figuras com algum número variável x de aros, de igual medida, ligando seu centro a sua circunferência.

3. Se questionados sobre o que é um círculo, contamos a princípio com elocuções do tipo “curva que se fecha”. Nesse ponto, verifica-se que sabemos aplicar corretamente o nome “círculo” nos vários contextos rotineiramente relevantes.

4. Perguntamos o que, precisamente, faz da roda uma roda.

5. Tentamos então imaginar rodas com um número cada vez maior de aros;

6. Intelecção: se os aros, na forma de raios, tivessem, além de mesma medida, número ilimitado e fossem, junto com a circunferência, linhas extremamente “finas”, cada raio corresponderia a algum ponto “minúsculo” da circunferência e seu conjunto total formaria o círculo completo;

7. Definição explicativa: círculo é todo conjunto completo de pontos coplanares e equidistantes de algum ponto central.280

Vejamos: (a) se nos bastasse a capacidade de aplicar corretamente o nome “círculo”, poderíamos nos contentar com as três primeiras etapas. Até esse ponto já dominamos a sua definição nominal; (b) a quarta etapa constitui o primeiro ato legitimamente intelectual. Não se trata de impor um conceito ou essência ao objeto,

280 Cap. 1, p. 46. Preferimos, para facilitar a explicação, nesse e noutros exemplos condensar com nossas

mas de questionar qual a sua essência ou natureza; (c) o intelecto começa a pôr a faculdade imaginativa a seu serviço, ampliando a gama de dados disponíveis. Encontra-se uma imagem relevante; (d) ocorre o insight, uma súbita passagem do nível imaginativo para o conceitual, aplicando conceitos como “linha” e “ponto” numa hipótese explicativa; (e) convencidos do valor explicativo de nossa hipótese, chegamos a uma definição explicativa da natureza do círculo; finalmente, (f) novas descobertas podem levar a formulações capa vez mais precisas e abrangentes. Nada implica a impossibilidade de outras descobertas adicionais.

Vale destacar que são possíveis casos de definição explicativa sem definição nominal, como por exemplo a geometria de David Hilbert em que apenas dois pontos determinam uma reta e, desse modo, compreende-se tudo o conteúdo explicativo das noções de linha e de reta sem apelar para nenhum esclarecimento nominal posterior. Trata-se então de definição implícita. A definição de Euclides de linhas retas como aquelas situadas uniformemente entre extremos, ao contrário, é apenas nominal. Também se ilustrou acima como o nível das imagens e o nível dos conceitos se torna mediado pela intelecção. Uma vez encontrada a imagem relevante, a roda nesse caso, bastará um ato de desvelamento para que cheguemos a seu conteúdo formal.

Também se esclarece no exemplo da roda a gênese dos símbolos enquanto distintos dos meros sinais convencionais. O símbolo é toda imagem capaz de favorecer ou facilitar nosso entendimento de algum conceito de ordem superior. A roda nos leva ao entendimento do círculo assim como os pássaros, por sua superação relativa da força gravitacional, podem representar a liberdade do intelecto ou do espírito frente às limitações dos membros do corpo. É uma representação que estimula a intelecção e a expansão do entendimento, diferentemente de simples sinais como setas que nos indicam ou proíbem caminhos no trânsito diário. A busca dos matemáticos por notações técnicas cada vez mais abstratas, como a troca dos algarismos romanos pelos arábicos, mostra por outro ângulo que mesmo a inteligência mais abstrata se serve do nível das imagens como seu veículo.

Os símbolos são281, sem dúvida, escolhidos por convenção; no

entanto, algumas escolhas, ao contrário de outras, são muito profícuas. É

281 Aqui cabe uma ressalva: se Lonergan se refere à escolha dos símbolos no contexto de seu uso numa ciência,

podemos concordar. Se, no entanto, ele quer dizer que o símbolo, em sua essência de símbolo, é fruto da vontade humana isolada ou mesmo grupal, já não o acompanhamos. Ou uma imagem favorece a operação de

fácil achar a raiz quadrada de 1.764. Mas é muito diferente chegar à raiz quadrada de MDCCLXIV.

(...)

Por que isso acontece? Por que as operações matemáticas não são apenas a expansão lógica de premissas conceptuais. Imagem e questão, intelecção e conceitos, todos, no fundo, se combinam. A função do simbolismo é oferecer a imagem relevante; e o simbolismo é adequado na medida em que os seus padrões imanentes, tal como os padrões dinâmicos, se ajustarem bem às regras e às operações que foram apreendidas pela intelecção e formuladas em conceitos.282

Entretanto, a imagem em si não evocaria a intelecção não fosse a pergunta anterior pela natureza ou essência do dado. A pergunta serve como espécie de motor para todas as etapas intelectuais do processo acima descrito. A pergunta, por surgir espontaneamente, indica a presença de algum desejo natural pelo conhecimento que só poderia se dar dentro do padrão propriamente intelectual da consciência. A pergunta, por conseguinte, e não a imagem ou algum conceito prévio, marca a transição do pensamento para o nível do entendimento propriamente dito. Se a pergunta é o fator principal para a emergência da intelecção, então faz sentido dizer que há um desejo de conhecer, um eros da mente que subjaz à todas as etapas do processo cognitivo - desde a experiência até o juízo racional - e que lhe serve de motor.

Se contarmos com uma matemática extremamente simples que contenha os conceitos de “um”, “mais”, “menos” e “igual”, saberemos somar e subtrair. Caso perguntemos em quanto resulta a fórmula “1-1”, porém, não teremos resposta até que descubramos o conceito adicional de “número 0”. Descoberto o zero, veremos também que “1-1=0”, mas não saberemos resolver “1-2” até que cheguemos ao conceito de número negativo. E assim sucessivamente vamos conquistando um domínio cada vez maior do nosso objeto de estudo por perguntas e respostas. O processo cognitivo é pois dinâmico, criativo, cumulativo e expansivo.

A intelecção opera a abstração entre o aspecto formal e o meramente empírico do conhecimento. Dois detalhes, contudo, merecem menção. Em primeiro lugar, há uma variedade de intelecção chamada de inversa por Lonergan, na qual descobrimos

nosso entendimento ou não favorece e, se favorece, isso deve se dever a suas virtudes intrínsecas em cada caso concreto e não por mera convenção.

282 Cap. 1, p. 54. Isso evidentemente não implica dizer que o caráter representacional do símbolo se iguale ao

conteúdo formal da intelecção. Um, como já sugerimos, constitui o veículo do outro, seu suporte sensível e linguístico, mas, como diz o velho provérbio oriental, “o dedo que aponta para a Lua (o símbolo) não é a Lua (a forma)”.

que nossa busca por uma dada resposta é inútil. Essa intelecção pode se caracterizar por descobrir, a respeito de uma dada questão, que ela simplesmente não possui resposta por ser mal formulada, como é o caso quando se pergunta qual o valor x do maior número natural existente e se percebe em seguida que não há nem pode haver solução cabível. Outra possibilidade é perceber a inadequação dos recursos conceituais disponíveis para resolver um dado problema, como ocorreria caso tentássemos resolver algum problema sobre o comportamento humano usando apenas as leis da física. Uma intelecção, pois, pode tanto nos dar a resposta de enigmas quanto nos mostrar a futilidade de nossa busca283.

Em segundo, o conteúdo explicativo de uma intelecção precisa, quando formalizado, valer para todas as instâncias de dados da mesma espécie, pois, do contrário, precisaríamos por exemplo conhecer todos átomos de hidrogênio do universo para apreender o elemento químico de mesmo nome. A intelecção opera a distinção entre um conteúdo puramente formal e inteligível e outro puramente empírico, objeto de pura experiência e não de entendimento propriamente dito. O primeiro é objeto da inteligência enquanto o segundo é mera questão de fato. Consequentemente, elementos como tempos e lugares específicos, a individualidade ou singularidade dos itens analisados ou os agregados puramente coincidentes ou casuais de dados compõem o chamado resíduo empírico, aquele aspecto dos dados não abarcável pela intelecção284.

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