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O processo cognitivo como a priori performativo

No documento O real e o conhecimento (páginas 176-181)

Lonergan busca determinar o que seria um a priori estritamente regulativo ao estudar não os vários produtos da atividade cognitiva, sejam conceitos ou proposições, mas a performance cognitiva em si mesma, as atividades a que todo ser humano normal se dedica em sua busca por respostas, um processo cognitivo e heurístico e não uma mera estrutura cognitiva. Ele chega, ao término de uma investigação que levou quase metade do volume de Insight para ser concluída, ao seguinte modelo tripartite, que resume nossas análises pregressas e as sintetiza num esquema conveniente. O processo cognitivo, em seu sentido estritamente intelectual, se divide para Lonergan em três partes – sensação, entendimento e razão - de três etapas cada 300: I. Nível da sensibilidade Apresentações sensíveis, imagens perceptivas. Representações imaginativas, imagens livres. Elocuções, que expressam relações dos dados para conosco. II. Nível do entendimento Questões para a inteligência Intelecções Formulações, que expressam as relações dos dados entre si. III. Nível da

razão ajuizante

Questões para a reflexão

Reflexão Juízo, que afirma o conteúdo

formulado.

O processo cognitivo, em seu sentido estritamente intelectual, se divide para Lonergan em três partes – sensação, entendimento e razão - de três etapas cada. Na primeira, dados e imagens perceptivas são apreendidas pela faculdade imaginativa, cujo conteúdo específico expressamos por meio de elocuções da linguagem. Na

300 Cap. 9, p. 275.

segunda, o conteúdo dessas imagens e elocuções nos inspira a fazer questões para a inteligência, as quais motivam o surgimento de insights e sua posterior formulação numa linguagem técnica tão livre quanto possível do resíduo empírico. Na terceira, o conteúdo formulado é submetido às questões para a reflexão crítica, cujo objetivo consiste em averiguar se as condições para um juízo racional e crítico estão satisfeitas; caso todas as questões sejam respondidas devidamente, ocorre o juízo. No contexto de dados da experiência e suas explicações, só poderíamos falar de Ser, por conseguinte, no contexto do juízo crítico e racional que liga por fim o dado a sua explicação.

Essa estrutura, conforme aponta a citação acima, não é revisável segundo nenhum significado cogente do termo “revisar”. Revisamos (1) quando encontramos novos dados não previstos por uma explicação, (2) quando inteligimos e formulamos outras hipóteses alternativas e (3) quando reavaliamos criticamente a explicação disponível colocando-lhe novas condições. A própria atividade de revisar, por conseguinte, pressupõe a estrutura a priori dos atos cognitivos conforme delineada por Lonergan, dividida entre os níveis da experiência, do entendimento e da reflexão crítica. Essa estrutura, depreende-se, apreendida pelo exame atento dos atos cognitivos em variados contextos, passa no teste do juízo racional e, diferentemente das teses do intuicionismo ingênuo e do fundacionalismo, é aplicável a si mesma sem maiores dificuldades ou aporias. Ademais, é de uma simplicidade desarmante.

Por consequência, não de algum conteúdo teórico conceitual prévio, mas do exame atento do fenômeno da intelecção e do desenvolvimento da teoria cognitiva, chegamos aparentemente ao a priori performativo da consciência sensível, inteligente e crítica. Se surgem hipóteses alternativas a uma tese posta em dúvida, tanto as novas hipóteses quanto as próprias dúvidas emergem de acordo com a normatividade da consciência no seu padrão intelectual de operação. Uma dúvida ou critica bem fundamentada, por sua vez, deve se basear em dados mal explicados, teses alternativas promissoras e na incapacidade inconteste da explicação corrente de ter todas condições conhecidas para o juízo crítico satisfeitas. Dúvidas que ocorram fora desse padrão possuem valor meramente metódico ou simbólico, apontando para a necessidade de se expandir ainda mais o saber já adquirido.

O próprio processo cognitivo, se o termo “revisar” possui algum significado concreto, não pode ele mesmo ser objeto de revisão. A estrutura a priori dos atos

cognitivos constitui o limite dentro do qual nascem, desenvolvem-se e são preteridas todas os conteúdos possíveis da cognição. Se se diz que tal estrutura, apesar de cogente, ainda é muito pouco para o filósofo comprometido com a busca por um critério universal de conhecimento, perguntamos, com Giovanni Sala, se não se está na verdade a confundir um critério de verdade com outro de infalibilidade.

Como “verdadeiro” e “infalível” se relacionam com o conhecimento? O predicado “verdadeiro” se relaciona ao juízo, antes de tudo, como verbum mentis (performance da intencionalidade e então, consequentemente, como verbum oris ou proposição. Verdade é uma propriedade do juízo. Que um juízo seja verdadeiro significa que ele atinge o fato ao qual visa, no sentido da tradicional teoria correspondencial da verdade. Precisamente por causa de sua concordância com o ser, o juízo verdadeiro goza da mesma natureza absoluta que o próprio ser.

(...)

Por outro lado, infalibilidade é a virtude de um sujeito, em virtude da qual se está pronto para fazer somente juízos verdadeiros em geral ou em alguma área particular. Nesse caso, certamente, o juízo não seria mais verdadeiro do que o mesmo juízo feito por um sujeito falível, mas o sujeito infalível saberia que seu juízo é em princípio e portanto necessariamente verdadeiro.301

Conhecer, no sentido de fazer nosso juízo acertar seu alvo, é algo da ordem dos fatos. Suponhamos que um sujeito inteligente x, ou antes, toda a raça a que ele pertence, em toda a sua história, nunca tenha consigo formular um único juízo verdadeiro. Poderíamos concluir que o conhecimento é destarte impossível e inalcançável para o sujeito x e sua raça? Se o fizermos, estaremos saltando inadvertidamente do nível das puras questões de fato para o nível das explicações teóricas sem a devida mediação intelectual. Fatos não são argumentos. A única coisa que se pode depreender do fato bruto de que uma raça inteira de seres inteligentes nunca conseguiu formular um juízo verdadeiro é que... eles ainda não obtiveram sucesso, mas podem continuar tentando. A confiabilidade do processo cognitivo continua incólume.

Se afirmamos, num sentido explanatório, que não se pode atingir jamais qualquer conhecimento, só o fazemos de um ponto de vista extra racional. Se o fizermos de um ponto de vista racional, estaremos recaindo no que Lonergan chama de contraposição, ou seja, todo posicionamento que, partindo do processo cognitivo, termina por negá-lo. Estaríamos reunindo dados sobre juízos falhos – cujo

reconhecimento implica pelo menos a afirmação, e portanto a verdade suposta da falha – formulando a impossibilidade de fazer qualquer juízo correto e, por fim, afirmando essa impossibilidade num juízo.

Filosofias que, por sua vez, proponham modelos alternativos do conhecimento, como o intuicionismo ingênuo e seu olhar divino capaz de nos prover conhecimentos de forma absolutamente imediata, ou a busca por representações ou conceitos absolutamente confiáveis ou inescapáveis, também se mostram evidentemente contraposicionais. A grande virtude do processo cognitivo tripartite é ser aplicável a si próprio e não supor nada mais que a simples performance intelectual. As filosofias que não contradigam, mas afirmem ou pressuponham esse processo são chamadas de posições.

A estrutura performativa da consciência, por ser estrutura, também aponta para uma legítima unidade de consciência. Se perguntarmos se somos de fato sujeitos racionais, dotados de unidade de consciência, buscaremos atentar para as ocorrências de nossa vida consciente, reuni-las num esquema hipotético e buscar criticamente afirmá-la num juízo, em outras palavras, a própria busca por uma resposta já parece sugerir a unidade de consciência em todo o seu percurso, que nada mais é que a unidade de sua própria estrutura performativa verificável.

O nível do juízo pressupõe algo a ser ajuizado e nos reconduz assim para o nível da intelecção e da formulação, o qual, por sua vez, requer dados cuja unidade intrínseca não se mostre imediatamente evidente e que se torne objeto de nossa indagação inteligente. A unidade dessa estrutura é a unidade da consciência do próprio sujeito racional. Sua constatação, contudo, não é um caso de proposição necessária e universalmente verdadeira, mas, como coloca Terry J. Tekippe (2003), de um silogismo hipotético:

Sou um conhecedor, se sou uma unidade-identidade-totalidade inteligível, caracterizada pelos atos de perceber, imaginar, inquirir, entender, formular, refletir, captar o incondicionado e julgar.

[Mas eu experiencio atos de perceber, imaginar, inquirir, entender, formular, refletir, captar o incondicionado e julgar.]

Logo, sou um conhecedor. (...)

Mas a evidência para a premissa menor é não uma formulação ou conjunto de formulações; é simplesmente a experiência dessas atividades, como apresentadas acima. De modo que a evidência para a questão reflexiva sobre se gozo experiência sensível é apenas a percepção de fazê- lo; a evidência para a questão reflexiva sobre se tenho insights é apenas a

experiência de ter insights; a evidência sobre se tenho conceitos é a experiência da concepção, e assim continua.302

Já discutimos num capítulo anterior303 acerca da natureza, a nosso ver,

simultaneamente pública e privada do fenômeno “conhecimento” e aqui talvez tenhamos uma boa evidência para essa colocação. Enquanto estrutura lógico discursiva, o argumento acima é compreensível por qualquer ser humano minimamente inteligente que compartilhe conosco a língua portuguesa. Entretanto, apenas a parte de sua verdade que corresponde a sua estrutura lógica, a validade do argumento como um todo, é explicável em termos da sua publicidade.

Uma meta fundamental do conhecimento, contudo, que é poder afirmar racionalmente que “sou um conhecedor”, depende da circunstância, a princípio privada, de podermos ter experiências efetivas, naturalmente íntimas, da performance dos atos cognitivos304. Conhecer, de fato, não é simplesmente “olhar”, mas também

não é um mero jogo de combinar proposições indefinidamente. Trata-se de um fenômeno complexo que inclui todas essas habilidades de forma harmônica e integrada de modo a alcançar o juízos. Se podemos compartilhar conhecimentos apesar de seu aspecto privado, isso deve a, enquanto seres humanos, nossas semelhanças serem muito mais profundas que nossas diferenças, ainda que a discórdia e a violência no mundo pareça provar o contrário.

Façamos, contudo, uma ressalva. Se a única evidência para os atos de “perceber, imaginar, etc.”, consistir na simples experiência desses atos, como aponta Tekipe, não estaríamos correndo o risco de regredir para algum tipo de intuicionismo ou de empirismo a respeito desses estados “subjetivos”, revivendo a distinção epistemológica “interno-externo” a qual Lonergan tanto buscaria evitar? Para mantermos a coerência com seu projeto filosófico, o conhecimento desses estados não deve advir da sua simples experiência, mas dos juízos “eu percebo”, “eu imagino”, “eu concebo”, “eu afirmo”, etc. Mas se tais juízos são possíveis, então não faria sentido dizer que somos dotados de conhecimentos prévios, pré-críticos, da estrutura cognitiva expressos linguisticamente?

302 Cap. 9, p. 82.

303 P. 126.

304 Um neurocientista pode hoje constatar que tais ou quais áreas do cérebro estão ativadas quando

executamos os atos cognitivos, mas ainda não se mostra possível por tal meio dizer se conhecemos ou não conhecemos a verdade de alguma proposição x ou em que consiste esse conhecimento.

Aqui, Rorty e Sellars mandam suas lembranças, pois de fato a linguagem natural está cheia de expressões cumprindo esse papel, tais como “pensar”, “sentir”, “pesar evidências”, e muitas outras. Tudo isso compõe, juntamente com nossas impressões de estarmos desempenhando os atos cognitivos, a chamada experiência desses mesmos atos. Como já apontamos, entretanto, o uso que Lonergan faz do conceito de “dados iniciais” é amplo o bastante para acomodar esse tipo de informação linguística adicional. A diferença maior reside no fato de que a teoria de Lonergan - e consequentemente todas as teorias possíveis - ser a formulação do conteúdo de atos de descoberta que sistematizam esses mesmos dados iniciais. É essa estrutura cognitiva a priori que sem dúvida compartilhamos com outros sujeitos racionais.

Em última análise, a intelecção não está a serviço dos dados iniciais, sejam os de ordem empírica ou linguística, os quais não podemos realmente separar, mas os dados estão a serviço da intelecção, que lhes confere a desejada unidade. O intelecto sistematiza os dados porque vai além deles ao descobrir a possibilidade de sua inteligibilidade teórica. Mesmo quando tentamos compreender teorias pré-existentes, como a da relatividade geral, e assimilar seu vocabulário, o ato de compreensão necessário sempre terá algo intransferivelmente nosso e particular, a saber, as intelecções necessárias ao aprendizado.

No documento O real e o conhecimento (páginas 176-181)