• Nenhum resultado encontrado

Sensibilidade e linguagem

No documento O real e o conhecimento (páginas 126-130)

Levantemos agora duas questões adicionais relacionadas: (1) qual a relação entre nossas faculdades de percepção sensível e de expressão e pensamento linguísticos para a formação do conhecimento? (2) O conhecimento é um fato de se dá primeiramente no âmbito privado e individual ou no público e intersubjetivo? Uma das contribuições da filosofia analítica contemporânea consiste justamente em frisar o caráter linguístico, e portanto público e social, da exposição e, principalmente, justificação de todo o chamado conteúdo do conhecimento, o que impede a princípio

249 Introduction, p. 12.

que apelemos a qualquer forma de acesso pré-verbal e privado ao conteúdo do conhecimento teórico250. Rorty (1979) também faz o seguinte apontamento:

A existência de sensações cruas – dores, quaisquer sentimentos que bebês tenham ao olhar objetos coloridos, etc. – é a objeção óbvia a essa doutrina251. Para contrapor essa objeção, Sellars invoca a distinção entre

atenção-como-comportamento-discriminativo e atenção como o que Sellars chama de estar “no espaço lógico das razões, de justificar e estar pronto para justificar o que se diz”. Atenção no primeiro sentido é manifestado por ratos e amebas e computadores; é um simples assinalar confiável. Atenção no segundo sentido é manifestada apenas por seres cujo comportamento nós entendemos como a afirmação de sentenças com a intenção de justificar a afirmação de outras sentenças.252

O curioso dessas afirmações é que não apenas justificar é um ato linguístico, como também o próprio ato de intuir, na espécie humana, parece eivado de linguagem. De fato, ao nos depararmos com um objeto qualquer, seu nome frequentemente acorre para o foco de nossa atenção, sendo expresso verbal ou mentalmente. Por outro lado, o nome de um objeto frequentemente atua como um recurso mnemônico, pois, ao lê-lo ou escutá-lo, normalmente evocamos mentalmente sua imagem ou mesmo definição. Por outro lado, ao percebemos alguma coisa, no nosso campo sensorial, a qual somos incapazes de reconhecer, apontamo-la e podemos perguntar “que é isto?”. Essas percepções e eventos mentais se mostram tão familiares, porém céleres e sutis, que difícil se torna estudá-las e aprofundá-las, sendo um campo de pesquisa naturalmente fenomenológico.

O mais importante, contudo, consiste no fato de que conhecimento, quando intectual, e pelo menos desde o tempo da filosofia grega, se faz questão de justificação racional. O nível da sensibilidade e da imaginação, como nos atesta o próprio comportamento animal, permite-nos fazer várias distinções pragmaticamente úteis,

250 Nesse ponto, uma ambiguidade parece se insinuar. O ato justificacional é necessário para o conhecimento

em geral ou apenas do científico? Levando-se em consideração o senso comum, o qual faz uso, porém não de modo sistemático, da capacidade de articular razões, mas deixando largas partes de seus raciocínios não formuladas e dependentes do contexto no qual surgem, podemos dizer que a necessidade de justificação é comum a ambas, mas que apenas se torna matéria de análise no conhecimento científico, que almeja justificar não só seu conhecimento do objeto como também as suas metodologias.

251 Ou seja, a tese de Wilfrid Sellars de que toda percepção de universais ou mesmo de particulares é um caso

de aplicação da linguagem e não de acesso cognitivo direto.

mas não bastam para configurar o que chamamos de conhecimento por justificação lógica e racional. Elaboremos outro raciocínio para tentar esclarecer esse ponto253:

P1) Se conheço racionalmente, posso justificar minha crença;

P2) Se posso justificar minha crença, é porque posso construir argumentos; P3) Se posso construir argumentos, disponho de linguagem para construí-los; P4) A linguagem faz parte da esfera pública;

P5) Se a linguagem faz parte da esfera pública, então nenhuma atividade que a implique é fato explicável apenas por atos individuais e privados;

P6) Ter intuições é ato privado e individual. H1) Conheço racionalmente;

H1,1) Posso justificar minha crença (de H1 e P1); H1,2) Posso construir argumentos (de P2 e H1,1); H1,3) Disponho de linguagem (de H1,2 e P3)

C1) Se conheço racionalmente, disponho de linguagem (de H1 até H1,3);

C2) Nenhuma atividade que implique a linguagem é fato explicável apenas por atos individuais e privados (de P4 e P5);

C3) Conhecer racionalmente não é fato explicável apenas por atos individuais e privados (de C1 e C2);

C4) Conhecer racionalmente não é fato explicável apenas pela posse de intuições (de C3 e P6).

Apesar de C4 nos parecer uma conclusão razoável, dadas as críticas à noção de intuições diretas, ainda podemos questionar o argumento acima. Por exemplo, podemos realmente dizer, como em P4, que a linguagem é puramente do âmbito público? O que isso realmente quer dizer? Acaso, quando dizemos “estamos com sede”, é toda a sociedade que está, em uníssono, sedenta? Evidentemente não. Ou o sujeito individual se aproveita, em seu próprio interesse, da estrutura pré-existente e disponível da linguagem para obter alguma vantagem privada do mundo a seu redor? A comunicação de fato deve se dar entre indivíduos, mas se o sujeito isolado

253 Desta vez, usaremos também a expressão “H1.1, H1.2... H2, H1.1.1... H1.1.2...” para expor um pensamento

não compreender o conteúdo de sua própria mensagem, com ele poderia transmiti-la com sucesso a outrem?

Talvez o que queiramos dizer ao afirmar que a linguagem é do âmbito público é que sua função comunicativa dependa essencialmente de seu aspecto social e intersubjetivo, todavia, a linguagem, obviamente, também é o veículo de pensamentos e reflexões no âmbito privado os quais muitas vezes preferimos manter em segredo, como uma posse nossa. Supondo, inclusive, que todos os falantes e conhecedores da língua portuguesa desaparecessem por algum motivo, restando no mundo apenas um único homem versado em português, acaso ele perderia a capacidade aplicar seu idioma até mesmo como veículo de seus próprios pensamentos?

O que queremos decerto dizer com P4 e P5 é que toda tentativa de explicar o significado das construções de uma linguagem deve explicitar justamente as condições que permitem, por exemplo, que uma dada sentença A possa ser compreendida pelos sujeitos a, b, c.... etc., sem distinções. Ou seja, o conteúdo de uma teoria do significado deve ser abstrato. Mas que o conteúdo de uma teoria, nesse como em qualquer campo do saber, deva ser abstrato é um aspecto necessário, contudo não suficiente para criar uma aparente oposição entre os aspectos público e individual da linguagem, como a que ocorre em P5.

Ademais, ainda resta apontar, por exemplo, a influência tremenda que poderosos intelectos individuais, como Dante Alighieri, Camões ou Lutero, no desenvolvimento das formas expressivas de suas respectivas línguas pátrias, o italiano, o português e o alemão. Uma língua específica, o árabe, tem como modelo básico o texto do Corão, o qual nasceu do trabalho de um iletrado, Maomé, o qual se diz, na fé islâmica, haver sido instruído por um anjo. Que textos específicos tenham tamanho peso e autoridade para culturas linguísticas inteiras é fato digno de nota. Outrossim, a atividade dos poetas e escritores de todas as línguas parece ser um fator de fundamental importância para o nascimento de novas formas expressivas dentro do idioma com que trabalham.

Parece-nos que, se a esfera pública nos permite especificar a língua em seu aspecto abstrato e intersubjetivo, a esfera individual torna-se o campo de sua inventividade e originalidade, seu aspecto artístico e progressista. Nesse caso, o corpo social mais amplo se converte no âmbito onde as várias formas expressivas nascentes vão sendo gradativamente adotadas ou rejeitadas, num processo, talvez,

semelhante a uma seleção natural. Se há oposição entre os aspectos social e privado da linguagem, não pode se dar senão dialética e criativamente.

Que dizer, então, da premissa P6, a qual coloca o ter intuições como ato exclusivamente privado? No presente momento histórico, no qual a ciência ainda não nos permite invadir as mentes alheias e testemunhar em primeira mão como elas experimentam o mundo a seu redor, P6 parece coerente. Todavia, dizer que a atividade intuitiva de um pessoa, como seu olhar para um quadro ou provar um bolo, é uma experiência pessoal e intransferível, certamente não implica que o conteúdo intencional desse mesmo ato, aquilo que é visto, ouvido, saboreado, cheirado ou tocado, também o seja.

Podemos e de fato compartilhamos verbalmente informações acerca de nossas impressões do mundo e se a linguagem, cuja significação deve se dar intersubjetivamente, pôde invadir o campo de nossas sensações pessoais, isto deve se dar em virtude de um conteúdo objetivo que lhes é inerente. Ainda que não tenhamos presentemente - se é que um dia teremos - acesso aos dados sensíveis alheios em seu aspecto inteiramente qualitativo254, eles assemelham-se o suficiente

para podermos concordar, por exemplo, que a bandeira do Brasil contém as cores verde, amarelo, e azul. Com efeito, felizmente nunca se precisou de algum decreto governamental para fazermos essa constatação255.

No documento O real e o conhecimento (páginas 126-130)