IV. A Reserva de Vagas na Iniciativa Privada
4.5. A Resistência Empresarial no Brasil à Inclusão da Pessoa com Deficiência
4.5.1. As Tentativas de Alteração da Forma de Cálculo da Reserva de Vagas e de Exclusão de
4.5.1.1. A Tentativa de Exclusão na Função de Vigilante
Uma das funções maior alvo de tentativas de exclusão via judicial é a função de vigilante, inclusive há em trâmite na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 6.144/2013 buscando alterar o cálculo das empresas de vigilância para reserva de cotas apenas nas funções administrativas. O cargo de vigilante é um dos que há mais resistência no cumprimento da cota. Para o desempenho de tais funções, há necessidade de preenchimento de diversos requisitos previsto no art. 16 da Lei nº 7.102/83 e na Portaria nº 387, de 28/8/06, do Departamento de Polícia Federal, dentre os quais, ter sido aprovado em curso de formação de vigilante e ter sido aprovado em exame de saúde física, mental e psicotécnico.
Por conta desses requisitos, houve interpretação restritiva de parte da jurisprudência
203 MULTA ADMINISTRATIVA. DESCUMPRIMENTO DO ART. 93 DA LEI Nº 8.213/91. CRITÉRIO DE
CÁLCULO PARA AFERIR O NÚMERO DE EMPREGADOS PORTADORES DE DEFICIÊNCIA OU REABILITADOS PELO INSS. O critério de cálculo para aferir-se o montante de cotas para pessoas portadoras de deficiência previsto no art. 93 da Lei nº 8.213/91 deverá observar o número de empregados registrados na ativa, desconsiderando-se os empregados cujos contratos estão suspensos por motivo de aposentadoria por invalidez, auxílio-doença e auxílio-doença acidentário. (TRT 4ª Região. Processo nº 0020074-34.2013.5.04.0018. Empresa: TRANSPORTES COLETIVOS TREVO S.A. Relatora Rejane Souza Pedra)
204 À míngua de qualquer ressalva na própria lei ou no decreto regulamentador, que permita interpretação restritiva
à reserva de cotas, e, sendo taxativa a norma, não há margem para comportar exceções, tornando imperiosa a aplicação da reserva legal, na sua completa acepção. (TRT 3ª Região. Data: 21/08/2013. Relator Emerson José Alves Lage. 1ª Turma. Processo nº 00759-2012-057-03-00-9-RO. Empresa: LÍDER INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE ESTOFADOS LTDA. Publicacao: 28/08/2013)
205 Orientação nº 6 da Coordigualdade – “1. Na elaboração dos termos de compromisso de ajuste de conduta que
versem sobre o cumprimento do artigo 93 da Lei nº 8.213/91, deverá ser considerado o número total de empregados da empresa, não devendo ser inserida cláusula que excepcione qualquer função ou atividade. 2. - Os casos de impossibilidade de inserção de pessoas portadoras de deficiência devem ser analisados quando da verificação do cumprimento do TAC.” (Aprovada na III Reunião Nacional da Coordigualdade, dias 26 e 27/04/04)
206 Orientação nº 1 da COORDIGUALDADE – “Quando a aplicação do percentual legal resultar em número
fracionário, este será elevado até o primeiro número inteiro subseqüente.” (Aprovada na III Reunião Nacional da Coordigualdade, dias 26 e 27/04/04).
do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região207 no sentido da impossibilidade de colocação
de pessoas com deficiência para ocupar cargos de vigilante. O principal argumento utilizado era de que as habilidades exigidas no curso de qualificação para vigilantes são incompatíveis com as restrições de uma pessoa com deficiência, confundindo aprovação em exame de saúde física, mental e psicotécnico com aptidão plena.
O Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE, através da Comissão de Acompanhamento, Elaboração e Análise de Atos Normativos emitiu o Parecer nº 117/2008/CONADE/SEDH sobre a matéria entendendo reconhecendo a possibilidade de o cargo de vigilante poder ser ocupado por pessoa com deficiência, rechaçando o posicionamento de exigência de aptidão plena porque os “exames devem ser adaptados à deficiência da pessoa, considerando a utilização elementos tecnológicos assistivos, dentre os quais as ajudas técnicas, de modo que possa demonstrar sua capacidade e saúde física e mental, em igual condições com as demais pessoas sem deficiência”208.
Diante disso, a situação no TST e nos Tribunais Regionais do Trabalho, inclusive no próprio TRT da 10ª Região, começou a se consolidar no sentido de que a norma que estabelece a cota é de ordem pública e não admite exceção em relação à função de vigilante209, sendo essa
207 AÇÃO ANULATÓRIA. AUTO DE INFRAÇÃO. INVALIDADE. Considerando as peculiaridades da profissão
de vigilante, disciplinada na Lei nº 7.102/83, a qual prevê, entre outros requisitos a aprovação em curso de formação de vigilante e em exame de saúde física, mental e psicotécnico, o cálculo do percentual previsto no art. 93, da Lei nº 8.213/91 para as empresas privadas que exploram serviços de vigilância não deve incluir os empregos para os quais se exija o curso de formação de vigilantes (TRT-RO- RO-437- 2007-018-10-00-1- DJ 17.10.2008). Nessa esteira, afigura-se irregular o auto de infração da fiscalização do trabalho que considerou o percentual legal incidente sobre os 1103 empregados registrados da empresa, e não apenas sobre o efetivo, apartados os cargos de vigilantes. Desse modo, forçoso concluir que, diante de absoluta impossibilidade material, eis que carente o mercado de pessoas portadoras de deficiência qualificadas nos moldes da Lei nº 7.102/83, a empresa não tinha condições de dar cumprimento a exigência prevista no art. 93, da Lei nº 8.213/91. Impende considerar que, recentemente, a matéria foi objeto de apreciação por esta egr. Turma, em ação proposta pelo Sindicato das Empresas de Segurança Privada Sistemas de Segurança Eletrônica Cursos de Formação e Transporte de Valores no Distrito Federal - SINDESP/DF em face da União, entendendo-se que, em se tratando de empresa de vigilância privada, o cálculo do percentual previsto no art. 93 da Lei nº 8.213/91 não deve incluir os empregos para os quais se exija o curso de formação de vigilantes. (TRT 10ª Região. Processo nº 00724-2008-001-10-00-0. 1ª Turma. Relatora Des. Maria Regina Machado Guimarães. Julg: 18/02/2009. Pub: 06/03/2009 no DEJT. Empresa: Brasília Empresa de Segurança Ltda.). No mesmo sentido: (TRT 10ª Região. Processo nº 00715-2008-021-10-00-4. 1ª Turma. Relator: João Luis Rocha Sampaio. Julg. 23/04/2009. Pub.: 30/04/2009 no DEJT. Empresa: Santa Helena Vigilância Ltda.); (TRT-RO 00437-2007-018-10-00-1; Acórdão 1ª Turma; Rel. Desembargadora MARIA REGINA MACHADO GUIMARÃES; Redator: Desembargador ANDRÉ R. P. V. DAMASCENO; Publicado em: 10/10/2008); (TST. RR-437-2007-018-10-00-1 - Redator Designado Desembargador André Damasceno - DJ 17.10.2008); (TRT- RO 00724-2008-001-10-00-0; Acórdão 1ª Turma; Relator (a): Desembargadora MARIA REGINA MACHADO GUIMARÃES; Publicado em 27/02/2009)
208 Transcrito integralmente no voto do processo PGT/CCR/Nº 4695/2011 do Ministério Público do Trabalho,
disponível em <http://www.mpt.gov.br/camaraArquivos/CCR_4695_2011_187.pdf>. Acesso 21/12/2015.
209 RECURSO DE REVISTA – EMPRESA DE VIGILÂNCIA VAGAS DESTINADAS A PESSOAS
PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA – ARTIGO 93 DA LEI Nº 8.213/91 – CÁLCULO DO PERCENTUAL – 1- A empresa que contar com 100 ou mais trabalhadores deverá obedecer a um percentual mínimo de empregados portadores de necessidades especiais, segundo o disposto no art. 93 da Lei nº 8.213/91. 2- A referida norma é de ordem pública e não excetua do seu âmbito de aplicação as atividades de vigilância. Recurso de Revista conhecido
a posição do TST. Em síntese, passou-se ao entendimento de que a situação deve ser verificada caso a caso, em razão do grau de deficiência e das limitações apresentadas no plano concreto, não se podendo excluir apenas pelo fato de ser pessoa com deficiência.