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A titularidade de direitos sobre a obra audiovisual

No documento A titularidade sobre os bens imateriais (páginas 69-73)

2 A TITULARIDADE SOBRE BENS PROTEGIDOS POR DIREITOS AUTORAIS

2.1 O S DIREITOS AUTORAIS : OS DIREITOS DE AUTOR

2.1.7 A titularidade de direitos sobre a obra audiovisual

A legislação autoral brasileira, até a edição da Lei nº 9.610, de 1998, não tratava da obras audiovisuais, mas sim das obras cinematográficas. A partir dessa lei, cria-se um regime próprio aplicável às obras audiovisuais, sonorizadas ou não, inclusive as cinematográficas314.

A obra audiovisual é o “resultado da fixação de imagens com ou sem som, que tenha a finalidade de criar, por meio de sua reprodução, a impressão de movimento,

310 Art. 5º, XXVIII (b), da Constituição Brasileira de 1988. 311 SAIZ GARCÍA, 2000 p. 274

312 Trata-se de uma subordinação artística e não uma subordinação jurídica propriamente dita. Nesse sentido,

VÁZQUEZ LÉPINETTE, 1996, p. 124; HUGUET, André. L'ordre public et les contrats d'exploitation du droit d'auteur. Paris: LGDJ, 1962, p. 89 e ss.

313 VÁZQUEZ LÉPINETTE, 1996, 124-125. 314 Art. 5º, VIII, Lei 9.610/1998.

independentemente dos processos de sua captação, do suporte usado inicial ou posteriormente para fixá-lo, bem como dos meios utilizados para sua veiculação”.315

Como uma forma de manifestação da atividade criativa do espírito humano, a obra audiovisual é protegida desde sua criação. A atribuição de direitos sobre essas obras, devido à complexidade que implica, foi objeto de longas reflexões na doutrina nacional e internacional316. A criação audiovisual resulta da fusão de uma pluralidade de atos de criações e de pessoas aportando suas contribuições individuais, combinados para originar uma obra final única e autônoma. Cada obra intelectual que se realiza no conjunto, destaca-se de sua existência individual (ainda que algumas obras possam ter exploração separada).

A obra audiovisual, em geral, caracteriza-se como obra em co-autoria, ao mesmo tempo em que evidencia o caráter de obra derivada. Contudo, a lei autoral de 1998 determinou um regime próprio em relação a esse tipo de obra. Independentemente das obras que incorpora, a obra audiovisual é protegida como obra original317.

2.1.7.1 Os sujeitos de direitos

Devido à complexidade presente em muitas situações no que tange à identificação dos autores ou co-autores de uma obra audiovisual, algumas legislações nacionais, regulam a matéria, estabelecendo o regime de co-autoria e determinando quem são os co-autores da obra audiovisual. Nesse sentido, a legislação brasileira optou por estabelecer um regime de co- autoria da obra audiovisual e estipulou como co-autores desse tipo de obra o autor do assunto ou argumento literário, musical ou lítero-musical e o diretor, bem como os criadores dos desenhos utilizados na obra audiovisual, no caso de a obra se consubstanciar em desenhos animados318.

A lei não considera co-autor o produtor da obra audiovisual, ela apenas se refere a ele como a pessoa natural ou jurídica que toma a iniciativa e que têm a responsabilidade econômica da primeira fixação da obra, independentemente da natureza do suporte

315 Art. 5º, VIII, i, Lei nº 9.610/1998.

316 ASCENÇÃO, 1997; MIRANDA, 1983, t. 16; SAIZ GARCÍA, 2000; VILLALBA, LIPSZYC, 2001, p. 79. 317 Sobre o tema MIRANDA, 1983, t, 16, p. 146-147. Sobre a co-autoria das obras audiovisuais, POLLAUD-

DULIAN, 2005, p. 225 e 238.

318 Art. 16 e p.u., da Lei nº 9.610/1998. Segundo a Convenção de Berna, em seu art. 4 (a), protegem-se os

direitos dos autores das obras cinematográficas cujo produtor tenha sua sede ou residência habitual em algum dos países da União. Segundo VÁZQUEZ LÉPINETTE, trata-se de um rol taxativo, de forma que em nenhum caso serão considerados co-autores outras pessoas que realizem alguma contribuição intelectual indubitável à obra. (VÁZQUEZ LÉPINETTE, 1996, p. 179)

utilizado319. Com efeito, ainda que não seja considerado co-autor, ao produtor se atribuem

direitos e obrigações relativos à produção, exploração e uso das obras audiovisuais, de acordo com a leitura dos artigos 81 a 86 da Lei 9.610, de 1998.

Quanto à qualidade de titular, asseguram-se aos co-autores os direitos patrimoniais de autor. Contudo, no tocante a titularidade de direitos, a legislação autoral determina que somente seja titular dos direitos morais sobre a obra audiovisual o seu diretor320. Assim, a lei

exclui os demais co-titulares os direitos morais sobre a obra em seu conjunto.

2.1.7.2 A co-titularidade dos co-autores da obra audiovisual

A obra audiovisual caracteriza como uma obra em co-autoria, contudo, regulada por um regime especial. Em relação a este tipo de obra a lei estabelece quem são qualificados como co-autores. São assim qualificados o autor do assunto ou argumento literário, musical ou lítero-musical e o diretor, bem como os criadores dos desenhos utilizados na obra audiovisual, no caso de a obra se consubstanciar em desenho animado.

Em regra, são os co-autores da obra audiovisual são os co-titulares de direitos patrimoniais sobre a obra audiovisual, contudo, há uma presunção a favor do produtor de que ele é a pessoa legitimada ao exercício desses direitos. Diante disso, aos co-autores assegura-se a faculdade de utilizar, em gênero diverso, da parte que constitua sua contribuição pessoal, se não houver convenção em contrário321. Cumpre observar que, do mesmo modo que ocorre

com a obra derivada, os titulares de direito sobre a obra audiovisual gozam dos mesmos diretos que o titular de uma obra original322.

No tocante aos direitos morais, eles somente são conferidos ao diretor da obra audiovisual, excluindo-se assim os demais co-autores, ou seja, o autor do assunto ou argumento literário, musical ou lítero-musical, e os criadores de desenhos, no caso de desenhos animados323.

319 Art. 5, XI, Lei 9.610/1998. Distintamente, na legislação francesa são os co-autores os titulares dos direitos

morais sobre a obra. (Art. L. 121-1 do Código de Propriedade Intelectual Francês). POLLAUD-DULIAN, 2005, p. 238.

320 Art. 25 e art. 24, I a VII, da Lei nº 9.610/1998. 321 Art. 85, Lei nº 9.610/1998.

322 Art. 14 bis, Convenção de Berna. 323 Art. 25 e 16, Lei 9.610/1998.

2.1.7.3 O produtor de obra audiovisual

Quando ao produtor da obra audiovisual, ele se refere à pessoa que toma a iniciativa e que têm a responsabilidade econômica da primeira fixação da obra, independentemente da natureza do suporte utilizado324. Ele não é qualificado como co-autor.

Em vários países, a legislação estabelece a favor do produtor uma presunção relativa de cessão do direito exclusivo de exploração da obra audiovisual325. Em outros, estipula-se

uma presunção a favor do produtor de legitimação do exercício de direitos sobre a obra, que o exime de provar o título em virtude do qual ele exerce os direitos de exploração sobre a obra, nos moldes da Convenção de Berna326.

O legislador brasileiro parece ter seguido os mesmos moldes da Convenção de Berna. Com efeito, ainda que ele não seja considerado co-autor, ao produtor atribui-se o exercício de direitos relativos à produção, exploração e uso das obras audiovisuais, de acordo com a leitura dos artigos 81 a 86 da Lei 9.610, de 1998.

É o produtor quem tem a responsabilidade econômica da primeira fixação da obra audiovisual, devendo atender as regras estabelecidas quanto à contratação da produção e o uso da obra audiovisual327. Se ele não concluir a obra audiovisual no prazo ajustado ou não iniciar

sua exploração dentro de dois anos, a contar de sua conclusão, poderão os co-autores da obra audiovisual utilizar-se livremente, em gênero diverso, da parte que constitua sua contribuição pessoal328.

324 Art. 5, XI, Lei 9.610/1998. Distintamente, na legislação francesa são os co-autores os titulares dos direitos

morais sobre a obra. (Art. L. 121-1 do Código de Propriedade Intelectual Francês) (POLLAUD-DULIAN, 2005, p.238).

325 Tais como França e Venezuela (LIPSZYC, 1993, p. 128; VILLALBA, LIPSZYC, 2001, p. 79).

326 Art. 14 bis, §2, b, da Convenção de Berna. Este também é o caso da Argentina (LIPSZYC, p. 128;

VILLALBA, LIPSZYC, 2001, p. 79)

327 “Art. 82. O contrato de produção audiovisual deve estabelecer: I - a remuneração devida pelo produtor aos co-

autores da obra e aos artistas intérpretes e executantes, bem como o tempo, lugar e forma de pagamento; II - o prazo de conclusão da obra; III - a responsabilidade do produtor para com os co-autores, artistas intérpretes ou executantes, no caso de co-produção”. “Art. 81. [...] § 2º Em cada cópia da obra audiovisual, mencionará o produtor: I - o título da obra audiovisual; II - os nomes ou pseudônimos do diretor e dos demais co-autores; III - o título da obra adaptada e seu autor, se for o caso; IV - os artistas intérpretes; V - o ano de publicação; VI - o seu nome ou marca que o identifique” (Lei nº 9.610/1998).

2.1.7.4 A titularidade dos autores de contribuições individuais

Cumpre observar que para a produção de obra audiovisual, é necessária a autorização dos autores e artistas-intérpretes e executantes de obra literária, artística ou científica que sejam utilizadas na obra audiovisual. A autorização de uso pode ser exclusiva ou não, no entanto, em caso de exclusividade, a autorização dependerá de cláusula contratual expressa. Observando-se que a exclusividade não poderá ser por tempo indeterminado, tendo em vista que a lei determina às partes um limite de dez anos de exclusividade após a celebração do contrato329. Contudo, no tocante aos direitos conexos assegurados aos artistas intérpretes e

executantes, de acordo com a Lei nº 6.533, de 1978, não se admite a cessão desses direitos330.

Quanto aos direitos autorais de execução musical relativos a obras musicais, lítero- musicais e fonogramas incluídos em obras audiovisuais, eles serão devidos a seus titulares pelos responsáveis dos locais ou estabelecimentos de freqüência coletiva, tais como, cinemas, hotéis, meios de transporte de passageiros, ou pelas emissoras de televisão que as transmitirem331.

A complexidade que permeia a obra audiovisual não se limita a lidar com os direitos de autor, mas inclusive com direitos que lhes são conexos como os direitos dos artistas intérpretes e executantes, os direitos dos produtores de fonogramas e dos organismos de radiodifusão. Desse modo, analisa-se como está regulada a titularidade em relação a esses direitos.

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