4 A TITULARIDADE DE DIREITOS SOBRE AS MARCAS
4.1 O DIREITO DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL DE MARCA REGISTRADA
4.1.5 A titularidade de direitos sobre marca de certificação
Há registros apontando que as marcas originaram-se na Idade Média. A marca à época era aposta pela autoridade pública, e não pelo fabricante, com o fim de constatar a conformidade dos produtos com os tipos regulamentares796. Com finalidade semelhante, na atualidade, existem as marcas de certificação797 , que são utilizadas para atestar a conformidade de um produto ou serviço com determinadas normas ou especificações técnicas798.
No que se refere às marcas de certificação, o Acordo TRIPS não as define em seu texto. Assim, fica a critério das legislações nacionais regularem sua proteção, contudo, se o fizerem, devem observar as disposições relativas às marcas. Desse modo, ao ajustarem suas normas internas em consonância este Acordo, vários países799 incorporaram a proteção da marca de certificação800, como é o caso do Brasil801.
Conforme mencionado, de acordo com a lei brasileira, as marcas de certificação referem-se a um tipo de marca passível de ser protegida por direito de propriedade industrial802. Em regra, nos distintos países, como é o caso do Brasil, os direitos relativos à
794 Art. 151, I, Lei nº 9.279/1996. 795 Art. 154, Lei nº 9.279/1996. 796 HAMMES, 2002, p. 354.
797 Segundo UZCÁTEGUI ÂNGULO, o termo “marcas de certificação”, em inglês Certification Trade Marks,
foi primeiramente usado na Grã-Bretanha, Seção 37.6 e Anexo 1, do Trademark Act de 1938 (UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006).
798 Lei nº 9.279/1996.
799 Em regra, nos distintos países, como é o caso do Brasil, os direitos relativos à marca de certificação surgem a
partir do registro validamente concedido. No caso do Reino Unido, EUA e Espanha, por exemplo, o registro deve ser realizado na categoria determinada para se caracterizar marca de certificação, e deve observar certas condições e requisitos específicos a esse tipo de marca (Ver UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p. 74-75).
800 Uma profunda análise de direito comparado sobre a marca de certificação é realizada por UZCÁTEGUI
ÂNGULO, 2006.
801 UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p. 57-58. 802 Art. 2º, III, Lei nº 9.279/1996.
marca de certificação surgem a partir do registro validamente concedido803. Para isso, o
requerente da marca deve atender aos requisitos objetivos e subjetivos, assim como as condições exigidas para sua concessão.
Em geral, a essas marcas aplicam-se as mesmas regras relativas às marcas de produto ou serviços, porém, ressalva-se que há disposições que são a elas aplicáveis e que precisam ser observadas. Essas disposições especiais implicam em importantes particularidades no que tange à titularidade de direitos804.
4.1.5.1 Os sujeitos de direitos
A marca de certificação é usada “para atestar a conformidade de um produto ou serviço com determinadas normas ou especificações técnicas, notadamente quanto à qualidade, natureza, material utilizado e metodologia empregada”.805
Com isso, em relação às marcas de certificação, tem-se a figura do certificador. É o certificador que pode requerer a marca. Para isso, ele deve exercer essa atividade (certificar) efetiva e licitamente806, direta ou indiretamente, através de empresas que controlem direta ou
indiretamente. Nesse sentido, a pessoa deve ter competência (capacidade técnica) para exercer a função de certificar807.
Além disso, o requerente da marca não pode exercer atividade que guarde relação direta ou imediata com o produto ou serviço a ser certificado808. Conforme Uzcátegui Ângulo,
a pessoa que certifica precisa ter certos atributos como a independência e a transparência a fim de garantir “a eficácia da função de certificação no mercado e frente ao consumidor final pelos produtos ou serviços certificados”.809
A competência (técnica) e a independência do titular não são levadas em consideração de maneira unânime nas legislações como requisito para o registro ou
803 Contudo, no caso do Reino Unido, EUA e Espanha, o registro deve ser realizado na categoria determinada
para que se caracterizar marca de certificação, o que deve observar certas condições específicas (Ver UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p. 74-75).
804 Art. 128, § 3°, e arts. 147 a 154, da Lei nº 9.279/1996. 805 Lei nº 9.279/1996.
806 Art. 128, § 1°, Lei nº 9.279/1998. Item 1.5. INPI. Resolução nº 51, de maio de 1999. Diretrizes Provisórias de
Análise de Marcas.
807 A competência para certificar apresenta diferentes significados em diferentes países e, em alguns países como
França, Espanha e Reino-Unido, há necessidade de ser acreditado o certificador perante o órgão administrativo correspondente (UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p. 76).
808 Art. 128, § 3°, da LPI
809 Segundo Uzcátegui Ângulo, trata-se da afirmação técnica sobre a presença de um ou mais atributos de valor
manutenção de marca de certificação. Trata-se de uma tendência que se vem consolidando em virtude das exigências do próprio mercado, para dar maior confiança aos usuários e consumidores de produtos e serviços com marca de certificação810.
A lei não estipula que são as pessoas que podem ser titular desse tipo de marca, se pessoas naturais ou jurídicas, de direito público ou privado. Assim, entende-se que qualquer delas pode ser titular desde que cumpra com as exigências do registro. Assinala-se que em alguns países não se admite que a pessoa física seja titular de marca de certificação, como é o caso da França811.
Em relação às pessoas de direito privado, para elas poderem requerer o registro de marca devem comprovar que exercem a atividade efetiva e lícita812, no entanto não podem
exercer atividade que guarde relação direta ou imediata com o produto ou serviço a ser certificado813.
4.1.5.2 A titularidade da marca de certificação
Uma importante característica da marca de certificação como sinal distintivo está ligada a sua titularidade, ou seja, o titular da marca não é a pessoa que usa a marca sobre os próprios produtos ou serviços814.
Existe uma absoluta separação, e que deve ser permanente, entre a figura do titular da marca e seus usuários815. Essa separação, conforme mencionado, busca garantir a eficácia
da atividade certificadora, sua transparência e independência, frente ao consumidor final pelos produtos ou serviços certificados.816
A titularidade da marca de certificação é determinada de modo bastante ampla na lei, admitindo como titular, em regra, as pessoas naturais ou jurídicas, de direito público ou privado. No entanto, com as ressalva de que o titular não fabrique ou comercialize produtos
810 UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p. 102.
811 Art. L.715-3, do Código de Propriedade Intelectual Francês (UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006).
812 As pessoas jurídicas de direito privado para que possam gozar do uso exclusivo de uma marca precisam ter
adquirido personalidade, isto é, que sejam legalmente reconhecidas (BENTO DE FARIA, 1906 p. 116). A falta de personalidade jurídica pode prejudicar os direitos das pessoas físicas organizadas (na forma de sociedade de fato), em especial em razão das restrições impostas às marcas coletivas (Art. 128, § 2°, Lei nº 9.610/1996).
813 Art. 128, § 3°, da
814 UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p. 73-74. Exclui-se o uso da marca de forma direta por parte do titular.
(“princípio da transparência” DAWSON apud UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p. 146)
815 UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p.148 816 UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p. 83.
ou serviços idênticos ou similares para os quais requeira o registro da marca817, em virtude do
princípio da não-utilização da marca por seu titular.
Quaisquer pessoas, que não o titular, que fabriquem ou comercializem o produto ou serviço objeto de certificação, e que cumpram com as exigências e condições para certificação podem utilizá-la, nos termos das medidas de controle impostas pelo titular818.
Em razão disso, o titular da marca, na ocasião do pedido, deverá apresentar além dos documentos e informações em relação às características do produto ou serviço objeto de certificação, as medidas de controle que serão adotadas por ele em relação ao uso da marca819.
Quanto à transferência da marca, em alguns países, a legislação expressamente não admite a transmissão de marca de certificação820. A legislação brasileira, como é o caso de
outras leis, não estabelece expressamente a possibilidade de transmissão de marca de certificação.821 No entanto, ela parece não autorizar a transmissão sucessória, ao estabelecer
que quando a entidade titular de marca de certificação deixa de existir extingue-se a marca822.
Além disso, não se admite por terceiros o registro de marca de certificação que já tenham sido usadas e cujos registros tenham sido extintos, antes de expirado o prazo de cinco anos, contados da extinção do registro823.
Assim, têm-se várias particularidades pertinentes aos distintos regimes de proteção de marcas. Essas peculiaridades, em geral, não encontram respaldo nos distintos regimes de proteção dos bens imateriais, como por exemplo, a questão de se conceder direitos somente às pessoas jurídicas.
Diante desse estudo, tem-se que a análise dos distintos regimes de proteção de bens por direitos de propriedade intelectual, em suas particularidades, permite associar alguns tipos de bens e modo de atribuição da titularidade de direitos, especialmente para fins de aplicação das normas.
No entanto, por outro aspecto, observa-se que, em relação a determinados bens, em si mesmos, exige-se uma análise separada em virtude das distintas regras que regulam os bens.
817 Na Espanha, além de proibir que o titular seja usuário da marca em seus próprios produtos e serviços, proíbe-
se que o titular da marca de certificação esteja vinculado economicamente com os usuários desta, conforme a Lei 17/2001 e D-486. Isso pode ser fundamento para o cancelamento de marca, caso tenha sido registrada (UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p. 79).
818 Art. 148, Lei nº 9.279/1996. Comentários sobre o regulamento de utilização da marca Ver UZCÁTEGUI
ÂNGULO, 2006, p. 76-77.
819 Art. 148, Lei nº 9.279/1996.
820 Em alguns países, é expressamente proibida a transmissão da marca de certificação, como é o caso da França,
(UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p. 78), e do Uruguai. (BUGALLO MONTAÑO, 2005, p. 169)
821 Assim como os legisladores dos EUA, Itália, Espanha e Venezuela (UZCÁTEGUI ÂNGULO, 2006, p. 78). 822 Art. 151, I, Lei nº 9.279/1996.
Isso parece ter principalmente devido às (novas) modos de organização das pessoas e o interesse dessas pessoas organizadas sobre o uso do bem. Como exemplo disso, tem-se as regras relativas às marcas coletivas, obras coletivas, derivadas, em co-autoria e audiovisuais. O que dissociou a maneira de regular os bens não por seus aspectos objetivos, mas sim subjetivos.
Com isso, considera-se que são muitas as questões que merecem ainda ser refletidas em relação à titularidade sobre os bens imateriais.