Cibernética Social
4.6 A virtualidade nas interfaces
A questão da falta de controle da variedade é muito importante para que se entenda a possibilidade de pensar em uma prática arquitetônica que leve em questão os pontos acima apresentados, isto é, que permita a construção de conversações em seu espaço. Com abordagem semelhante, Baltazar123
apresenta o conceito de interfaces e sua relação com a virtualidade.
4.6.1 O conceito de Interface
Quando pensa-se em interface, corriqueiramente o que vem à mente são as “interfaces digitais”. De fato, a palavra surge no fim do século XIX e se difunde na década de 1960, primeiramente na área de computação e então para outras áreas124. Zielinski125, por exemplo, usa o termo interface para descrever os
limites comuns das pessoas como meio e dos aparatos como meio. O autor acredita que a função da interface é exatamente separar diferentes mundos. No caso dos aparatos e das pessoas, tal limite separa e conecta os mundos dos sujeitos ativos criativos e o mundo das máquinas e dos programas.
Se interface significa “um ponto onde dois sistemas, sujeitos, organizações etc., se encontram e interagem”126 Baltazar127, por sua vez, utiliza o termo para
descrever os pontos de encontro entre o indivíduo e o ambiente. Para a autora, arquitetura e as tecnologias de informação e comunicação podem se comportar como uma interface entre o mundo e o indivíduo, evoluindo este ambiente para além de padrões de representação sociocultural pré-estabelecidos. Esta arquitetura-interface possibilitaria a criação de espaços emergentes A Cibernética como arcabouço para a avaliação dos museus
123 BALTAZAR, Ana Paula. Architecture as Interface: Forming and Informing Spaces and Subjects, 2001.
124Apple Inc. Dictionary. Version 2.1.3 (80.4)
125 ZIELINSKI, Sigfried. Arts ans Apparatus (A Flusserian Theme). Plea for the Dramatisation of the
Interface, 2008
126 Apple Inc. Dictionary. Version 2.1.3 (80.4). “a point where two systems, subjects, organizations, etc., meet and
interact”.
103 construídos a partir da interação das pessoas128. Pensar em arquitetura como
interface implica pensá-la como um meio para a produção de experiências ao invés de pensá-la como produção de produtos acabados para o uso.
4.6.2 O que é virtualidade?
Flusser associa a virtualidade à possibilidade do “surgir acidentalmente”. O autor trabalha no escopo do que chama de imagens técnicas, que são as imagens produzidas pelos aparelhos129. Ele afirma que os pontos que formam
tais imagens “não são em si, ʻalgoʼ, mas apenas o chão no qual algo pode surgir acidentalmente”130. O fato de algo poder surgir acidentalmente aponta
para a direção das possibilidades - e desta maneira entre o “provável” e o “improvável”, seus limites. O provável é o caminho natural de desinformação do mundo - tendência entrópica do mundo de se uniformizar, até que, desta maneira, perca toda a forma131 O improvável, por sua vez, se relaciona à
novidade, ao desconhecido e é a tendência contrária à entropia. A arte, por exemplo, segundo o autor, tem o objetivo de produzir situações improváveis132.
De maneira análoga, Flusser avalia a evolução da vida como a evolução das suas virtualidades. A evolução é “um jogo de permutações das virtualidades contidas no programa do ovo”133.
Imagine um oceano de possibilidades. Esta já nos é uma imagem bem familiar. Este oceano de possibilidades lança ondas espumantes, que em algum lugar alcançam o topo. As ondas tentam, como queiram, se tornarem reais. As possibilidades procuram se realizar. Elas inclinam Capítulo 4
128 BALTAZAR, Ana Paula. Architecture as Interface: Forming and Informing Spaces and Subjects, 2001, p.
28
129 FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta. Ensaios para uma futura filosofia da Fotografia, Rio de
Janeiro: Relume Dumará, 2002.
130 FLUSSER, Vilém.O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume,
2009, p. 24
131 FLUSSER, Vilém.O universo das imagens técnicas ... p. 24-25.
132FLUSSER, Vilém. Habit: The true aesthetic criterion, 1990.
133 FLUSSER, Vilém. Vampirotheutis Infernalis, 2011, p. 49. “It is a game of permutations of the virtualities
104 com força em direção a realidade [Wirklichkeit]134. As ondas que
alcançam este objetivo podem ser chamadas de “virtual”. Eu sugiro que virtual significa emergir do possível [Möglichen] e quase totalmente se transformar em realidade [Wirkliche]135.
Pierre Lévy posiciona o “possível” e o virtual” em posições antagônicas. Embora compartilhem a característica de estarem em estado latente, ocorrem em ordens diferentes. O possível está relacionado a ordem da substância, i.e. o que é palpável, enquanto o virtual está na ordem do acontecimento. Estas duas ordens, substância e acontecimento, contém instâncias diferentes, i.e. possível e real, atual e virtual, que são, na prática, complementares e igualmente importantes136.
O real assemelha-se ao possível e o atual responde ao virtual137.
Problemático por essência, o virtual é como uma situação subjetiva, uma configuração dinâmica de tendências, de forças, de finalidades e de coerções que uma atualização resolve. A atualização é um acontecimento, no sentido forte da palavra138.
Desta maneira, abre caminho para que acontecimentos não programados que influenciam a “configuração dinâmica” na qual se situam, de modo que se relaciona com o processo. De outra ordem, a realização acontece entre “possíveis predeterminados”139, estando fortemente articulado à matéria (o
real).
A Cibernética como arcabouço para a avaliação dos museus
134 Michael Hanke já aponta a dificuldade em se traduzir o termo “Wirklichkeit” para o português, uma vez
que a nossa língua não faz a diferenciação entre “Wirklichkeit” e “Realität”. Ele afirma ser decisão do próprio Flusser de traduzir o termo para “realidade”. HANKE, Michael. Vilém Flussers Sprache und Wirklichkeit vom 1963 im Kontext seiner Medienphilosophie, n.d.. “Realität” reforça a substância de “Wirklichkeit”, enquanto “Wirklichkeit” reforça o processo de “Realität”. Diferenciação encontrada em
http://www.wer-weiss-was.de/theme170/article1582251.html, acesso 06.05.2011.
135 FLUSSER, Vilém. Von Virtuellen, 1993. Stellen Sie sich den Ozean der Möglichkeiten vor. Das ist ein uns bereits
ziemlich gezäufiges Bild. Dieser Ozean der Möglichkeiten wirft schäumenden Wellen, die irgendwo nach oben greifen. Die Welle versuchen, wenn Sie wollen, wirklich zu werden, die Möglichkeiten versuchen, sich zu realisieren, sie neigen mit Kraft in Richtung der Wirklichkeit. Die Wellen, die diesem Ziel am nächsten kommen, kann man “virtuel” nennen. Ich schlage Ihnen also vor, virtuell bedeutet das, was aus dem Möglichen auftaucht und beinahe ins Wirklich umschlägt. 136 LÉVY, Pierre.!O que é o virtual?!São Paulo: Ed. 34, 1996. p.137.
137 LÉVY, Pierre.!O que é o virtual?,1996. p.137. Ênfase do autor. 138 LÉVY, Pierre.!O que é o virtual?,1996. p.137.
105 Referindo às ordens estipuladas por Piérre Lévy, a substância - onde se situam o potencial140 e o real - e o evento - onde se situam o virtual e o atual - Baltazar
afirma que, via de regra, o processo de projetar utiliza o evento como referência para a produção da substância e o evento é assumido como uma camada separada que pode ser sobreposta ao produto final a posteriori. O problema, levanta a autora, é que, se quando projetamos, levamos em conta somente a substância, então a gama de usos possíveis (atualizações) será limitada141.
Ainda que tenhamos a intenção de projetar espaços “flexíveis”, possibilitando diversos usos, e mesmo que integremos todas as possibilidades que tenhamos em nosso repertório, e que elas sejam muitas, ainda sim, não possuímos tantos estados que permitam que todos os usuários utilizem o espaço - ativem, à sua maneira, a ordem do evento. Neste momento, acabamos por exercer o controle, agindo como o professor na sala de aula, e consciente ou inconscientemente, retiramos do espaço possibilidades de outros usos - as suas virtualidades; aqueles que não imaginamos, ou nem sequer conhecemos, diminuindo, então, a variedade possível do sistema.
Tal raciocínio não é pertinente somente para a análise da estrutura física dos museus. Ele pode ser aplicado também ao desenvolvimento de “interfaces interativas”, porque de maneira semelhante, interfaces físicas, digitais ou híbridas são responsáveis pela criação de situações mais ou menos flexíveis, isto é, controladas por seus criadores: arquitetos, curadores e artistas; ou abertas a experiência dos usuários. Além disso, interfaces digitais e espaços físicos se influenciam ou não mutuamente – ao potencializar ou restringir a participação na co-produção do espaço.
Por isso precisamos de outras estruturas que vão além de construções baseadas na realização da substância, isto é, da matéria. Precisamos de estruturas que se baseiem na experiência, na transformação constante do Capítulo 4
140 em sua versão traduzida para o Português, tal relação acontece entre possível e real e virtual e atual
(LÉVY, Pierre.!O que é o virtual?,1996. p.137).
106 espaço e da obra de arte. A partir do momento em que o museu assume a postura de construir interfaces, ao contrário de produtos pouco flexíveis, o museu se torna uma arquitetura de relações.
Assim, os arquitetos ʻdeixam de ver a arquitetura como a edificação pura e simples (o objeto e sua materialidade) e passam a abordá-la como um conjunto de interações que acontece entre os habitantes, mediados pela edificaçãoʼ142.
E claro, quando entramos neste registro, é impossível prever resultados e atitudes. Mas para isso é necessário uma mudança de foco do design como solução de problemas para o design como “uma passagem inventiva da solução para o problema”143, levando em consideração a virtualidade inerente
ao design.
Se considerarmos a utilização do espaço como parte de um sistema complexo que envolve interfaces e pessoas, então podemos imaginar o porquê de o conceito da variedade ser tão pernicioso para o avanço da arquitetura para a virtualidade. Assume-se, em princípio, que, em sistemas complexos - possuidores de uma grande variedade, os estados atuais assumidos são sempre menores que os estados em potencial144. A variedade, como já exposto
anteriormente, é assumida como dada ao sistema e não pode ser adquirida. Desta maneira, o conceito de variedade está associada a dicotomia potencial/ real, como ser visto na diferença entre possível e virtual desenvolvida por Deleuze em Différence et répétition e sua elaboração feita por Lévy145. Como
delineia Lévy
o possível já está todo constituído, mas permanece no limbo. O possível se realizará sem que nada mude em sua determinação nem em sua natureza. [...] O possível é exatamente como o real: só lhe falta existência. A realização de um possível não é uma criação, no sentido pleno do termo, pois a criação implica também a produção inovadora de uma idéia ou de uma forma. A diferença entre possível e real é, A Cibernética como arcabouço para a avaliação dos museus
142CABRAL FILHO, José dos Santos. Arquitetura irreversível. o corpo, o espaço e a flecha do tempo, 2007. 143 BALTAZAR, Ana Paula. Towards a Virtual architecture: pushing cybernetics from government to
anarchy, 2007. p.1243.
144 SCHWANINGER, Markus. Complex versus Complicated...pp. 84. 145 LÉVY, Pierre.!O que é o virtual?,1996. P. 15-16.
107 portanto, puramente lógica146.
Analisados sob este ponto de vista, podemos concluir que, na verdade, os estados reais apresentados estão inscritos nas potencialidades do sistema e diretamente ligados à substância - isto é, resultados concretos finais. O fato de “um possível” já estar inscrito no programa do sistema (para utilizar o termo adotado por Flusser147) retira deste estado a possibilidade da novidade como
criação compartilhada e não planejada dentro deste sistema, mantendo a tendência entrópica e a da difusão do provável.
A criação compartilhada de fato só acontece quando a possibilidade da atualização de virtualidades é possível. Enquanto a realização é a “ocorrência de um estado pré-definido”, a atualização compreende “a invenção de uma solução exigida por um complexo problemático”148.