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5. Cientificismo canibal

5.3 A voz que serve a Deus

As gramáticas valorizavam a etimologia como estudo da língua, pois por meio dela era possível conhecer a natureza das coisas, fossem elas coisas ou homens. Como se as palavras, após pronunciadas, em uma era primordial, se materializassem nas próprias coisas. Essa ideia de palavra evoca as letras metafísicas usadas na criação do mundo, segundo o mito hebraico, como vimos no capítulo anterior. A diferença aqui, embora cristãos e judeus partilhem o Gênesis, é que a voz ou o verbo divino tomou a dianteira na tarefa da criação sem a intervenção protagonista das letras metafísicas. A palavra divina cria ao ser pronunciada, por isso, Tomás de Aquino resgatou a advertência de Santo Agostinho quanto ao fato de que, por ser Deus imóvel, não havia em Deus o cogito. O pensar pressupõe movimento antes mesmo da fala, portanto, o pensar é ato humano e faz da palavra humana diferente da palavra divina64. Para Tomás de Aquino, a palavra humana não cria, apenas expressa o entendimento da coisa (ratio), por meio da contemplação da verdade. O exercício do entendimento da coisa (ratio) passaria pela identificação da coisa já existente no conhecimento humano guardado na alma como verdade divina e somente depois de percorrido este caminho interno se tornaria palavra humana quando dita. Por isso, a fala seria própria do pensamento. A fala seria um esforço do pensamento (ratio) de encontrar na alma a verdade para pronunciá-la65.

Em seu De differentia verbi divini et humani, Tomás de Aquino (1993, p. 6) se dedicou a explicar a palavra humana e sua origem, contrapondo-a com a palavra divina. Para ele, o intelecto era tripartido, e a palavra humana, por ser fruto do intelecto e não da alma, era mero acidente. A palavra verdadeira seria apenas a palavra de Deus, guardada nas almas humanas no ato de sua criação. Assim, todas as coisas já teriam sido nomeadas por Deus ao terem sido criadas e seus nomes !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

64 Sic ergo verbum nostrum prius in potentia quam in actu. Sed Verbum divinum Semper est in actu, et ideo nomen

cogitationis Verbo Dei proprie non convenit. Dicit enim Augustinus, III De Trinitatis, “Ita dicitur illud Verbum Dei, ut cogitando non dicatur, ne quid quasi volubile in Deo credatur”. Et illud quod Anselmus dicit, quod “dicere summo Patri, nihil aliud est quam cogitando intueri”, improprie dictum est. Quaestio IV, art. 4. Sancti Thomae

Aquinitis, De diferencia verbi divini et humani.

guardados em nossas almas desde aquele momento. Ao conceber um intelecto tripartido a partir do qual teríamos capacidade para falar, Tomás de Aquino elaborou as distinções entre sentido e fala, sendo o sentido unicamente interior, fruto das três operações do intelecto: a intelecção propriamente dita; o conhecimento da espécie da coisa, previamente aprendido; e a potência do intelecto que dá ao intelecto capacidade de conhecer mais. A fala é a palavra exterior, aquela que sai de quem fala mediante sua voz. Assim, a palavra sempre procede do intelecto, somente existe no intelecto e é semelhante ao conhecimento da coisa (ratio) que o intelecto possui sobre a coisa. Esta palavra formada no intelecto é a palavra proferida, a palavra exterior, ou seja, a fala. Aquela que é formada e expressa na alma, a palavra interior, possui em si a natureza da coisa que fomentou a palavra exterior, não sua semelhança, mas o próprio entendimento da coisa.

Destrinchando o pensamento de Tomás de Aquino em partes mais palatáveis, ou melhor, mais conhecidas pelo nosso intelecto do século XX, vimos que a fala tem como atributos a similitude entre coisa e nome, desencadeada por um processo mental. Em oposição, o sentido verdadeiro de um nome jamais poderia ser pronunciado, apenas vislumbrado no interior das reflexões da alma, em cujo âmago estaria o conhecimento de todas as coisas criadas por Deus. O sentido do nome e a essência da coisa são iguais. Nesta lógica, o nome e a coisa se correspondem, em uma única direção, do divino para a matéria, estabelecendo a ordem de um nome, ou item lexical, para cada coisa existente. Dessa forma, o sentido pertence à alma, a fala ao corpo. Ambos se encontram no pensamento onde opera o processo de entendimento da coisa. A palavra então possui uma dupla materialidade, a sonora e a abstrata66. A materialidade abstrata é indivisível e imutável. A materialidade sonora somente chega a sua expressão após um processo mental que vasculha a alma em busca de significado. O processo mental se distingue em duas etapas. A primeira é a imagem mental da coisa e a segunda é a expressão sonora dessa imagem.

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66 Et si quidem eadem res sit intelligens et intellecta, tunc est ratio et similitudo intellectus a quo procedit. Si

autem aliud sit intellectus et intellectum, tunc verbum non est ratio intelligentis, sed rei intellectae: sicut conceptio quam habet aliquis de lapide est similitudo lapidis tantum. Sed quando intellectus intellegit se, tunc tale verbum est ratio et similitudo intellectus. De differentia verbi divini et humani, Tomás de Aquino (1993, p. 6, tradução

minha)

E se, de fato, a coisa inteligível é igual à intelecta, então o conhecimento da coisa (ratio) se assemelha ao inteligível do qual procede. Se um é entendido e outro inteligível, então a palavra não é inteligível, é coisa entendida: como a concepção que alguém tem de pedra que é unicamente uma semelhança da pedra. No entanto, se o intelecto entende, então, em tal palavra, o conhecimento da coisa (ratio) é semelhante ao entendido. !

Tim Ingold (2015, p. 26), em Lineas, buscou entender os intrincados caminhos dos múltiplos significados de uma palavra e revisitou a Idade Média para entender como compreendiam a palavra os escolásticos. Segundo o autor, a voz humana era, para os escolásticos, a porta-voz da palavra de Deus. Em seu livro, Tim Ingold também trouxe o trabalho de Walter Ong, Orality and literacy, que discorre sobre a experiência de povos ágrafos frente às palavras faladas. Para o autor, os povos de “oralidade primária” não pensam nas palavras separadas de seus sons, para eles, as palavras são seus sons, não coisas transmitidas pelos sons.

A questão que se apresenta para nós é o fato de que, ao tratarmos de homens selvagens, como eram entendidos os índios, dos quais sequer se tinha certeza da humanidade ou da existência de alma em seus corpos, a sua capacidade para a linguagem era também questionada. O entendimento geral era que o homem selvagem não possuía capacidade para a linguagem, pois a linguagem era considerada uma expressão racional da alma e os selvagens apenas podiam comunicar sentimentos, pois eram irracionais. Para tratar desse tema, Roger Bartra (2011, p. 414) comparou o Ensaio sobre a origem das línguas de Rousseau com Sobre a origem e o progresso da linguagem de Étienne Condillac, e concluiu que ambos os autores usaram variações do mesmo exemplo para especular sobre a linguagem dos homens selvagens. Rousseau supôs que o homem selvagem, ao avistar outro homem selvagem, sentiria medo, o que o levaria a chamá-lo de gigante. Étienne Condillac, por sua vez, supôs que os gritos com os quais as crianças abandonadas nos bosques se comunicam expressariam seu medo. O medo seria o motor da ideia que estaria ligada à palavra gigante e aos gritos das crianças. Embora considerassem que havia uma atividade mental (ideia) relacionada à palavra gigante e aos gritos, a linguagem dos selvagens era considerada figurativa, porque exprimia juízos precipitados da realidade não sendo fruto da razão e sujeita ao exagero. Tendo em vista que os índios sul- americanos haviam sido atingidos em sua inteligência pela bile negra que os deixava melancólicos, seria necessário extrair de suas almas, caso tivessem uma, a contemplação da verdade expressa por sua bruta linguagem. A mera suposição de uma alma cristã em um corpo indígena é bastante desconfortável, quiçá uma verdade cristã para a expressão de uma palavra em língua indígena.