3. OS ORGANISMOS MULTILATERAIS E A PROTEÇÃO DO INVESTIMENTO
3.4. Acordo Multilateral de Investimentos (AMI)
A proposta do Acordo Multilateral sobre Investimentos - AMI foi uma iniciativa dos países da OCDE.
Segundo Fonseca80, as negociações foram iniciadas no âmbito do Committee
on International Investment and Multinational Enterprises (CIME) e do Committee on Capital Moviments and Invisible Transactions (CMIT) até que, em maio de 1995, o Conselho da OCDE anunciou o início imediato das negociações com o objetivo de celebrar um Acordo Multilateral de Investimentos no encontro ministerial da OCDE de 1997.
O acordo trata, em suma, da proteção, salvaguarda, livre circulação, valorização e não-intervenção nacional sobre toda riqueza financeira de propriedade de pessoas físicas ou jurídicas externas detentoras de ativos situados num país estrangeiro. O país que assinar o acordo não pode dele se desvincular antes de passados cinco anos e, se o fizer, os compromissos assumidos permanecerão válidos por mais 15 anos, no mínimo.
A característica principal do acordo é que ele seria único, reduzindo, assim, a gama de acordos bilaterais existentes ou a necessidade de negociá-los.
No entendimento do AMI, investimentos são todo tipo de bens, tangíveis ou intangíveis, móveis ou imóveis, propriedades (territoriais, águas internas e mares territoriais) e outros interesses de uma empresa (que poderiam ser, por exemplo, patentes, privatização de plantas, animais e partes humanas) que permitam, ao investidor, participar da renda ou das utilidades, direitos de propriedades intelectuais, direitos emanados de contratos reais, como de concessão e licenças, direitos conferidos pela lei de um país e qualquer promessa de capital ou bens para o território de outra das partes do acordo, na perspectiva de obtenção de lucro.
80 FONSECA, Karla Closs. A proposta de acordo multilateral de investimentos no âmbito da OCDE: fatores técnicos e político-econômicos de seu fracasso = The OEDC proposal for a multilateral agreement on investments: tecnical, political and economic factors of its failure. Disponível em: http://conpedi.org/manaus/arquivos/anais/manaus/direito_intern_pub_karla_closs_fonseca.pdf. Acesso em: 14 jun. 2008. Dunning, John. Multinational Enterprises and the Global Economy, (Suffolk, Great Britain: Addison-Wesley Publishers Ltd., 1992, 571-572.
Um dos aspectos previstos nas cláusulas do capítulo referente aos "Direitos do investidor" é a indenização dos investidores e empresas no caso de intervenções governamentais suscetíveis de restringir sua capacidade de lucrar com o investimento.
O AMI prevê textualmente que "a perda de uma oportunidade de lucro sobre o investimento seria um tipo de prejuízo suficiente para dar direito à indenização do investidor". Isso significa que, além de poder investir em qualquer área sem restrição alguma, as empresas teriam o direito de contestar qualquer ação governamental ou pública de interesse do país em questão. "Das medidas fiscais às disposições em matéria ambiental, trabalhista, de desenvolvimento regional, de apoio às pequenas e médias empresas, de reforma agrária ou de proteção ao consumidor". As cláusulas também prevêem indenizações nos casos de greve ou manifestações sociais, quase que obrigando governos a coibirem manifestações internas, tais como "perturbações civis", "revolução, Estado de emergência e outras perturbações semelhantes".
Entre os pontos de destaque do AMI estão:
a) O país que assinar o acordo não poderá promulgar leis ou adotar medidas administrativas que impeçam os investidores estrangeiros de comprar, sem quaisquer restrições, terras nos lugares e nas quantidades que bem entenderem;
b) Nenhuma restrição poderá ser oposta aos investidores estrangeiros que queiram comprar recursos naturais (florestas, cachoeiras, fontes de águas termais, areias monazíticas etc), serviços públicos (telecomunicações, geração de energias) ou ainda divisas estrangeiras;
c) Ao acionar o governo, as firmas estrangeiras podem escolher um foro estrangeiro ou juízo arbitral para julgar a ação;
d) Ficam terminantemente proibidos dispositivos como os que o Brasil adotou durante todo o período de industrialização, para aumentar o coeficiente de trabalho nacional nos produtos das firmas estrangeiras aqui instaladas. Assim, se assinar o acordo, o governo brasileiro não
poderá exigir que a firma estrangeira compre componentes fabricados no país, treine profissionais nacionais ou reserve para eles um certo número de postos de trabalho nas fábricas;
e) O acordo busca proteger o investidor estrangeiro contra tratamento discriminatório dos países receptores de investimentos. As regras de tratamento nacional e tratamento da nação mais favorecida se aplicavam a todas as fases do investimento, desde a fase de pré-investimento até sua entrada no estabelecimento;
f) O acordo proíbe a imposição de requisitos de desempenho pelo Estado receptor de investimentos, ultrapassando as proibições já impostas pelo Acordo TRIMs81;
g) Ainda, proíbe todas as formas de expropriação direta e indireta, inclusive as medidas de efeito equivalente.
3.4.1 Objetivos
O principal objetivo do AMI é tornar o investimento internacional mais fácil e mais seguro, facilitando as transações das empresas transnacionais e multinacionais, conferindo-lhes novos direitos.
3.4.2. Histórico
Após a entrada em vigor da Organização Mundial do Comércio – OMC, em 1º de janeiro de 1995, a OCDE deu início às negociações de um acordo multilateral de investimentos (AMI/OCDE), que deveria “pluralizar” as disposições dos acordos bilaterais de investimentos.
O assunto foi tratado em total segredo de 1995 a 1997, momento em que se tornou público por iniciativa de várias entidades, como Public Citizen, Fundo Mundial para a Natureza-WWF, Friends of the Earth82, dentre outros. (Ferreira, 1998, p. 5)83 .
81 Trade related Investmnt Meeasures – Acordo sobre Medidas de Investimento relacionadas com o Comércio, no âmbito da Organização Mundial do Comércio.
A mobilização das entidades gerou inimigos ao acordo em diversos países, entre eles Bélgica, Brasil, Canadá, Estados Unidos, França e Nova Zelândia. Uma boa definição do AMI foi elaborada por Renato Ruggiero, diretor-geral da OCDE, o qual argumentava que "com este documento, nós escrevemos a Constituição de uma economia mundial unificada".
A informação sobre o documento tornou-se acessível ao público no início de 1997. Diante da enorme pressão das entidades, houve uma reunião, em outubro do mesmo ano, quando a OCDE fez uma consulta formal sobre o conteúdo do acordo, visando sua aprovação em maio de 1998, o que não aconteceu.
Desde então, houve uma mobilização das organizações da sociedade civil nunca antes vista, com a participação, não apenas de ONGs, mas também de governos e parlamentos.
3.4.3. Impactos do Acordo e críticas
A falta de transparência nas negociações e a ausência de uma avaliação do impacto social e ambiental das cláusulas do AMI são as principais críticas dos parlamentos, entidades e ONGs de todo o mundo.
Em meio a essa discussão, havia um grande número de matérias relatando a posição dos governos e das ONGs contrários à adesão no AMI.
3.4.4. A evolução das negociações do Acordo Multilateral de Investimentos
As negociações AMI/OCDE estavam previstas para durar dois anos. Em 1997, foram prorrogadas por mais um ano. Em 1998, admitiu-se que as negociações haviam fracassado definitivamente.
A retirada da França das negociações acarretou a suspensão das discussões na OCDE em 3 de dezembro de 1998. Porém, o caso não acabou. O governo francês e a União Européia estimulam hoje a transferência da negociação para a Organização Mundial do 82 Organizações não-governamentais.
Comércio (OMC). Essa é uma “estranha” manobra, dado que a OCDE havia sido escolhida, em 1995, como “fórum de negociação” do AMI justamente porque os países do Terceiro Mundo não haviam aceitado essa discussão no âmbito do GATT.
No mais, importa dizer que o tema dos investimentos foi retomado na OMC. A Declaração Ministerial de Doha, de novembro de 2001, inclui um parágrafo sobre investimentos, o qual deve ser interpretado principalmente pelo que não diz. Tal dispositivo não inclui, na agenda de negociação, o estabelecimento de um mecanismo de solução de controvérsias entre empresas privadas e Estados.
Barreto Filho (apud Kline, 1993) diz que a OCDE está examinando atualmente a possibilidade de elaborar novo instrumento sobre investimentos.