4. FALANDO SOBRE OS DOCUMENTOS E AS ENTREVISTAS
4.1. AD e as entrevistas
Considerando que, habitualmente, a AD de vertente francesa trabalha com a linguagem escrita e não a da oralidade, faz-se necessário apresentar alguns aspectos com os quais nos de-paramos e como estamos nos situando nessa discussão.
Ao nos dedicarmos a este trabalho, procuramos inicialmente os documentos que pudes-sem nos fornecer material para a análise e que possibilitaspudes-sem responder às questões de pes-quisa que nos pusemos, inicialmente. Entretanto, verificamos que o que havia disponível não esclarecia nossos questionamentos nem aquietava nossas dúvidas. Pusemo-nos então a reali-zar entrevistas com servidores do colégio a fim de coletar material que nos permitisse cons-truir um corpus que desse conta das nossas perguntas de pesquisa.
Sabemos que outras linhas de pesquisa da linguística trabalham com entrevistas e orali-dade mas como nossa escolha de aporte se deu na linha baseada em Michel Pêcheux, precisá-vamos nos manter coerentes com essa escola sem, entretanto, desprezar o material que coleta-mos.
Buscamos então outras experiências com a oralidade, dentro da perspectiva da AD. E o que encontramos, embora não tenha o mesmo tipo de abordagem, se aproxima do que nos
propusemos a fazer.
Onice Payer (2005), em seu trabalho "Discurso, memória e oralidade" considera que os dados obtidos em pesquisa de campo feita através da oralidade devem “ser considerados como fatos discursivos, uma vez que os discursos que se encontram na oralidade são, também eles, historicamente produzidos” (PAYER, 2005: 47). A autora considera então que a oralidade também é historicamente produzida e também “um lugar sócio-histórico de produção e de cir-culação de sentidos”(PAYER, 2005: 47), já que esses discursos também se envolvem e dialo-gam com as demais práticas discursivas na sociedade em que se inserem. O outro aspecto que a mesma autora destaca diz respeito à memória como uma construção possível, o que se en-quadra em nossa perspectiva, e não numa memória pré-existente com um conteúdo que “já está lá, pronto para ser resgatado”(PAYER, 2005: 47). Payer assinala que há uma tensão entre o retorno das lembranças e o esquecimento que ela distingue como dois níveis da memória discursiva: “memória constitutiva” e “memória formulada”. A primeira se constitui no indizí-vel, aquilo que não se pode dizer ou lembrar e a segunda aquilo que se narra, que se diz, que é contado, de fato. Aqui podemos fazer uma aproximação com Bahktin (1997) que nos alerta para o dialogismo presente na linguagem, demonstrando que toda fala sempre responde a uma outra e que estamos inseridos num contexto de falas que nos antecedem e sempre nos remete-mos a elas.
A mesma autora considera ainda que o trabalho com a oralidade, à semelhança do que a AD prega em relação ao discurso escrito, deve levar em conta as condições de produção do discurso oral que se abordará. O que difere, no entanto, é que, para além da transcrição, da preocupação em traduzir de maneira fiel o que o entrevistado disse, a referida autora propõe que se leve em consideração que o discurso oral não deve ser tomado como mais um apêndice para o que já está escrito e sim como um “outro lugar de fala”, uma outra “posição discursiva”, outros “pontos de partida das interpretações”, “outras racionalidades” (PAYER, 2005: 48). Levando-se às últimas consequências, segundo sua experiência de pesquisa, a auto-ra assinala que pode-se atauto-ravés da oauto-ralidade encontauto-rar-se a ”diferença na pesquisa: um outro sujeito na/da história” (PAYER, 2005: 48) .
Considerando-se esses aspectos e entendendo que a forma como a oralidade constrói o discurso difere da do discurso escrito, julgamos necessário contextualizar as entrevistas feitas de modo a deixar bastante claro quais as condições de produção dos discursos que tomaremos
para nossas análises.
Contextualizamos aqui a realização de cada entrevista, em seus diferentes momentos (dentro da própria pesquisa). Em primeiro lugar, entendemos que as situações de entrevista foram criadas por nós. No nosso caso, propusemos a entrevista diretamente a todos os nossos entrevistados, nos moldes e segundo os passos já explicitados anteriormente. Há que se consi-derar também o fato de a pesquisadora integrar o corpo docente do Colégio Pedro II – campo de nossa investigação. Temos certeza de que isso interfere na medida em que os entrevistados (quase todos) são ou foram colegas de trabalho e têm uma relação, pelo menos profissional, já estabelecida com a entrevistadora. Não afirmamos que isso nos trouxe apenas facilidades, mas também dificuldades, na medida em que quando se fala para alguém que conhece o assunto, corre-se o risco de não se dizer tudo o que se pensa, considerando que o outro (entrevistador) já sabe o que se pensa sobre isso ou aquilo. De novo a responsividade da linguagem de que nos fala Bahktin (1997). Ao falar para alguém que faz parte do corpo docente, muitas vezes o entrevistado omite vários aspectos ou opiniões por considerar que são do conhecimento de to-dos que integram o quadro. Fosse a pesquisadora de fora do CPII, certamente o diálogo se da-ria em outras bases. Apenas duas das seis entrevistadas não tinham contato anterior com a pesquisadora.
Marcamos data e local em momento oportuno para o entrevistado. Uma das entrevistas precisou ser remarcada porque houve um imprevisto. Tudo isso interfere necessariamente nos discursos produzidos, no que cada um pensou ou conjeturou a respeito da entrevista e de suas finalidades e ainda do que cada um teria a contribuir com a pesquisa. Surpreendemo-nos como alguns dos entrevistados se mostraram um pouco tensos com a entrevista já que iam fa-lar sobre algo tão distante no tempo, mas tão presente em suas vidas e até mesmo perturbador, muitas vezes.
Solicitamos aos entrevistados a autorização para gravar as entrevistas. Houve, em mais de uma entrevista, momentos de emoção compartilhada por entrevistado/entrevistador quando o assunto tocava a ambos, o que aparece indicado nos anexos que trazem a íntegra da transcri-ção de cada uma delas.
Realizadas as entrevistas, passamos à tarefa de transcrevê-las. Essas transcrições foram feitas todas pela própria pesquisadora – momento privilegiado de ouvir incansavelmente as falas dos entrevistados e de perceber os novos significados que se construíam através dessas
falas. Mais adiante, no próximo item, nos debruçaremos sobre as transcrições, então, não nos antecipemos.
Antes de prosseguir apresentando a contextualização das entrevistas, devemos reafirmar nosso entendimento da lacuna que deixamos em aberto neste trabalho. Ouvimos apenas servi-dores do Pedrinho. Nos marcos do tempo que dispúnhamos não nos seria mesmo possível ou-vir os servidores do Pedrão (segundo segmento e segundo grau) que atuavam no colégio no ano de 1984. Assim, reiteramos que a perspectiva adotada por nós fez emergir memórias da criação do Pedrinho, na visão dos professores que nele atuaram e não na visão dos veteranos que os receberam. Sabemos que é uma visão parcial que procura dar voz a um segmento que, a nosso ver, foi um tanto apagado dentro do CPII, pelo menos durante algum tempo.
A primeira entrevista que realizamos, cuja transcrição consta no anexo J, foi realizada em dezembro de 2009. Foi feita com o Secretário de Ensino da época em que o Pedrinho foi implantado que, depois, veio a ser Diretor-Geral do CPII até o ano de 2007. A entrevista teve duração aproximada de 45 minutos. O professor foi aluno do Colégio Pedro II e na década de 60 retornou como professor. Sua trajetória se dividiu entre a Universidade do Estado da Gua-nabara (hoje UERJ) e o CPII. Na Universidade, chegou a vice-reitor. E no CPII, depois de um tempo cedido ao Ministério do Interior, retornou em 1980, durante a administração do Profes-sor Tito Urbano da Silveira, quando atuou na Secretaria de Ensino. Em 1994 foi eleito em vo-tação direta para Diretor - Geral do CPII. Em 2004, escreveu o livro Histórias do Velho Colé-gio Pedro II, em que narra episódios diversos de sua trajetória dentro do CPII e dias depois da nossa entrevista lançou outro livro intitulado O Colégio Pedro II de ontem, hoje e futuro: uma visão e análise crítica e prospectiva, sobre a história do CPII.
Os nomes dos entrevistados que se seguem foram modificados para guardar o sigilo de suas identidades e alguns dados como datas e unidades em que atuaram foram omitidos pela mesma razão.
Débora foi a segunda entrevistada (Anexo K). Sua entrevista aconteceu no dia 26 de março do corrente ano, na Unidade São Cristóvão I e teve a duração aproximada de 15 minu-tos. Sua entrevista foi curta talvez por inexperiência da pesquisadora. A professora, por sua vez, mostrou-se um pouco constrangida por não lembrar de muitas coisas devido ao seu pouco envolvimento com o CPII na ocasião. Débora ingressou em 1984, quando cursava a universi-dade e trabalhava em outra rede de ensino, o que justifica o envolvimento diminuído naquele
momento com a nova escola. Esta professora ainda atua, em sala de aula, na Unidade São Cristóvão I, tendo passado por diferentes séries e atividades dentro da Unidade Escolar. Está prestes a se aposentar.
A terceira entrevistada foi Mayara (Anexo L) e sua entrevista aconteceu na residência da própria, durando cerca de 30 minutos, no dia 08 de abril de 2010. A entrevistada é profes-sora aposentada, ingressou no primeiro concurso e ocupou diferentes cargos na instituição ao longo de sua trajetória, tendo, inclusive, dirigido uma Unidade Escolar de Pedrinho durante alguns anos, e tendo atuado, também, em diferentes unidades escolares.
A quarta entrevistada é Joana (Anexo M) que concedeu a entrevista também em sua casa, no dia 15 de abril e cuja conversa teve duração aproximada de 40 minutos. Joana tinha experiência na rede particular de ensino ao ingressar no colégio. Atuou, no momento da im-plantação, em setor de apoio ao trabalho docente e chegou a integrar um grupo junto à secre-taria de ensino para preparar a implantação de outra unidade escolar de primeiro segmento, tendo sido remanejada para lá quando de sua implantação em 1986. Também está aposentada do colégio, onde atuou, durante a maior parte do tempo, no Pedrinho de São Cristóvão. Nos últimos anos de trabalho, atuou em outra unidade escolar junto ao Pedrão (segundo segmento). Joana é, na verdade, uma velha conhecida, já que atuamos juntas durante muito tempo em São Cristóvão, em vários projetos dentro da Unidade. Foi uma entrevista longa e divertida, mas apesar de já nos conhecermos há muito, Joana contou coisas que eu desconhe-cia por completo, como a própria íntegra da entrevista pode comprovar, em anexo.
A quinta entrevistada foi Dalila (Anexo N). A entrevista aconteceu no dia 29 de abril de 2010 e teve duração de 30 minutos aproximadamente. Foi realizada na casa da entrevistada que me recebeu apesar de não nos conhecermos anteriormente. Dalila ingressou no Colégio Pedro II, em 1983, através de um concurso para servidores que, na época, participavam da se-leção sem saber em que órgão governamental seriam lotados. Foi alocada na Secretaria de En-sino onde trabalhou diretamente com a primeira diretora da Unidade São Cristóvão II (o Pe-drinho, na época). Quando o Pedrinho foi criado, foi a primeira servidora da nova Unidade Escolar. Quando da criação da Unidade Tijuca, foi transferida, juntamente com a mesma pro-fessora que foi designada para dirigir a nova Unidade Escolar, em 1987. Atua até hoje na mes-ma unidade, tendo desempenhado, ao longo desses anos, diferentes atividades. A entrevista de Dalila teve um caráter diferente porque o primeiro contato foi feito para solicitar a entrevista,
já que não nos conhecíamos antes. Devemos destacar sua generosidade e sinceridade ao parti-lhar suas lembranças e suas emoções.
Regina foi a sexta entrevistada (Anexo O) e também vivenciou experiências diferentes dentro do CPII já que, como Mayara, ocupou cargo de direção e, como Joana, atuou no Pe-drão, tendo passado por diferentes unidades escolares, estando agora aposentada. Sua entre-vista aconteceu no dia 10 de setembro de 2010 e foi realizada na Biblioteca do Pedrão do En-genho Novo. Devo abrir parênteses para agradecer à equipe que nos recebeu lá que foi muito receptiva. Também não nos conhecíamos (Regina e a pesquisadora) e nosso contato foi medi-ado por uma colega da Unidade São Cristóvão. Falamo-nos por telefone e acertamos a realiza-ção da entrevista. Na primeira data marcada, houve um imprevisto e foi preciso adiar o encon-tro, que acabou acontecendo poucas semanas depois.
A última entrevistada, Ivete (Anexo P), há anos se desligou do CPII para atuar, exclusi-vamente, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Embora já nos conhecêssemos anteri-ormente, nosso contato foi motivado pelo interesse em ouvir mais sobre algumas informações específicas a respeito do Pedrinho da Unidade Engenho Novo que só haviam sido menciona-das por uma menciona-das entrevistamenciona-das. Nosso encontro se realizou nas dependências da UERJ, no dia 13 de outubro de 2010 e teve a duração aproximada de 30 minutos, em meio aos muitos afa-zeres da professora que, generosamente, disponibilizou o seu precioso tempo.
Necessário ainda assinalar que todas as entrevistas foram gravadas em áudio, transcritas e em seguida encaminhadas às entrevistadas para revisão e concordância com sua divulgação neste trabalho, à exceção da primeira. Algumas entrevistadas solicitaram pequenas modifica-ções no texto que foram feitas ou até mesmo algumas omissões de comentários de caráter muito pessoal.
Tendo assim contextualizado os entrevistados e a realização das entrevistas, destacamos o fato de que a primeira entrevista se deu em dezembro de 2009 e a última em outubro de 2010 – já na fase final deste estudo. Analistas de discurso que nos propomos a ser, precisamos deixar claro que as condições de produção desses discursos também foram diferentes em cada um destes momentos. Embora o questionário tenha sido o mesmo para todas as entrevistas, nosso olhar e, mais que isso, nossa postura dentro de cada entrevista também foi, necessaria-mente, marcada pelo momento em que ela se realizou. Ao final do processo, já tínhamos reu-nido mais dados e também tínhamos uma visão mais ampla das contribuições, por isso talvez,
nossas intervenções possam ter sido um pouco mais diretivas.
Passamos, então, a discorrer brevemente sobre as transcrições de tais entrevistas.