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Discurso e formação discursiva

No documento Rio de Janeiro (páginas 64-70)

3. FALANDO SOBRE MEMÓRIA E DISCURSO

3.2 Discurso e formação discursiva

Nossa análise será pautada na Análise do Discurso da vertente francesa que tem em

Mi-chel Pêcheux seu principal pensador. Entendemos o discurso como acontecimento e como pa-lavra em movimento, como “efeito de sentido entre interlocutores” (ORLANDI, 2003: 21).

Consideramos que a linguagem não é transparente e que o sujeito discursivo não domina to-talmente os sentidos do que diz ou expressa. Tomaremos os textos que escolhemos para com-por o corpus dessa análise como materialidade simbólica e neles analisaremos os sentidos que produzem. Para a Análise de Discurso a linguagem não é apenas uma forma de comunicação nem tampouco seus interlocutores se encontram em situações opostas de interlocução. “Eles estão realizando ao mesmo tempo o processo de significação e não estão separados de forma estanque” (ORLANDI, 2003: 21).

É importante assinalar ainda que precisamos “considerar a historicidade do processo de constituição da própria instituição, ou seja, o modo como a instituição, ao se constituir como tal, discursivizou-se” (MARIANI, 1999: 47). Também tomaremos os textos procurando não desconsiderar “a heterogeneidade constitutiva da produção dos discursos” (MARIANI, 1999:

49). Interessa-nos não o que a instituição diz, mas por que o faz desse modo e não de outro.

A AD da vertente francesa, nosso aporte teórico-metodológico para esta análise, entende o discurso como “efeito de sentido entre interlocutores” (ORLANDI, 2003: 21). Considera-mos que o sentido não é dado a priori, mas se constrói no momento da interlocução, determi-nado pelas condições em que é produzido e pelo contexto em que é enunciado. Assim, segun-do Orlandi, “o discurso é assim palavra em movimento, prática da linguagem: com o estusegun-do do discurso observa-se o homem falando” (ORLANDI, 2003: 15). Alguns outros conceitos da AD serão fundamentais, em nossa análise, tais como sujeito discursivo, formação discursiva e ideologia.

Vamos buscar em Foucault, algumas orientações para o conceito de Formação Discursi-va (FD). Contrapondo-se a outras formas de análise linguística, Foucault caracteriza o discur-so como uma instância outra onde um jogo (discursivo) se dá. Para além do aspecto gramati-cal e do aspecto lógico do que se diz, o autor entende que há coisas que acontecem no próprio discurso e não fora dele. Entende o discurso não como uma transposição de objetos que acon-tecem em outras instâncias, como o pensamento humano, por exemplo, e sim como lugar de disputa e de construção de sentido que tem uma vida própria, diríamos assim.

Foucault compreende três sistemas, quais sejam: o primeiro, no nível do real; o segun-do, que é constituído das relações secundárias ou reflexivas, no nível do pensamento; e o

ter-ceiro, que é o das relações discursivas – que acontecem no nível do discurso e do campo enunciativo. Assim, o que buscamos fazer nesse tipo de análise que nos propomos a empreen-der é trazer as especificidades do discurso e suas relações com os outros dois sistemas – o do real e o do pensamento. Acrescenta ainda que as relações discursivas não são nem internas nem externas ao discurso, elas se dão no limite, determinando

o feixe de relações que o discurso deve efetuar para poder falar de tais ou quais objetos, para poder abordá-los, nomeá-los, analisá-los, classificá-los, explicá-los, etc. Essas relações caraterizam não a língua que o discurso utiliza, não as circunstâncias em que ele se desenvolve, mas o próprio discurso enquanto prática (FOUCAULT, 1986: 52).

O discurso, para este autor, é uma prática que forma, inclusive, o objeto de que fala. E o que ele nos propõe fazer, nesse tipo de análise enunciativa, é exatamente buscar as leis que re-gem as diversas enunciações e o lugar de onde elas vêm. Para isso, é preciso levar em conta quem fala, qual o status desse indivíduo que fala e ainda de onde vem o discurso, de que lu-gar. A situação em questão é que pode definir a posição do sujeito em relação aos objetos so- bre os quais fala, determinando assim o que pode ou não ser dito. Entretanto, o sujeito discur-sivo pode também ocupar diferentes posições numa mesma FD e num mesmo discurso. Da mesma maneira, as FDs se transformam, não sendo estáticas e atemporais. O contexto social e histórico age sobre essas FDs e, consequentemente sobre os discursos.

Entendemos, então, a Formação Discursiva como um campo enunciativo, que com-preende o domínio da memória, e que é constituída por enunciados formulados em outras ins-tâncias e que são constantemente retomados pelos que enunciam. Uma FD não ocupa também todo o espaço que lhe é facultado pelo sistema de formação dos seus objetos, ela é sempre in-completa e lacunar, podendo, também, fazer aparecer novas possibilidades dentro do mesmo campo.

Foucault nos diz que para determinar uma FD seria preciso definir o sistema de forma-ção das diferentes estratégias que nela se desenrolam. O autor destaca ainda a hierarquizaforma-ção que se efetua entre os elementos que a compõem e que constituem a prática discursiva. Assim, a posição do sujeito determina sua enunciação. Nem todos os tipos de enunciação são possí-veis, somente aquelas que são autorizadas pela posição que o sujeito ocupa, o lugar de onde fala. Nem tudo pode ser dito, portanto. O que é passível de ser enunciado depende dessa posi-ção do sujeito, entendida no âmbito da sua inserposi-ção social, histórica e institucional. O que po-demos falar hoje, em outros momentos não chegava sequer a ser enunciado e vice-versa. E

quando dizemos "poder falar" não estamos nos referindo a atos conscientes de censura impos-tos explicitamente. As coerções sobre o discurso vem do próprio discurso e do campo enunci-ativo em que ele se insere. Entendemos, portanto, que um sistema de formação prescreve o que deve ser relacionado na prática discursiva em relação aos objetos dos quais se fala. Procu-ramos, então, identificar uma regularidade na prática discursiva para conseguirmos definir uma FD. Esse sistema está, necessariamente, inserido no tempo e a ele se relaciona. Por isso uma FD não é algo estático no tempo, e sim algo que se transforma, modificando o discurso que, por sua vez, forma inclusive, como já afirmamos anteriormente, o objeto de que trata.

Foucault define também o enunciado, destacando que é uma formação que cruza um do-mínio de estruturas em que aparecem conteúdos inseridos no tempo e no espaço. "Um enunci-ado tem sempre margens povoadas de outros enuncienunci-ados" (FOUCAULT, 1986: 113), enten-dendo que estas não são o que chamamos comumente de contexto. O contexto diz respeito a uma relação abrangente que se reflete na rede verbal. As margens, em contrapartida, são do campo do discurso e se localizam nos limites entre o que é enunciado e o que se deixa de enunciar. O enunciado, por sua vez, não é neutro nem livre já que faz parte de um conjunto maior e com este se relaciona. Todo enunciado reatualiza outros enunciados. Na verdade, es-tão eles integrados ao jogo enunciativo, apoiando-se no conjunto maior e, ao mesmo tempo, deles se distinguindo.

A enunciação – ou ato de enunciar - não se repete, ela é única nas condições em que se dá (espaço, tempo, situação histórica) mas o enunciado sim, ele pode ser repetido e tem uma existência material, substância, suporte, lugar e data.

Foucault assinala ainda que o enunciado não é visível de imediato, mas também não é oculto. O trabalho de análise deve fazer aparecer o enunciado, considerando que "as coisas di-tas dizem bem mais do que elas mesmas" (FOUCAULT, 1986: 127) O autor alerta ainda para a necessidade de conversão do olhar e da atitude para que se veja o enunciado em si mesmo. A análise das FDs deve estar centrada na descrição dos enunciados. E para que se chegue às FDs é preciso mapear esses enunciados que são aquilo que a constituem e lhe dão corpo.

Buscar a lei de raridade e o princípio de rarefação são algumas das tarefas que devemos cumprir para encontrar o enunciado e, por fim, a FD que o originou. Já que os enunciados são raros, segundo Foucault, buscá-los e interpretá-los é também "multiplicar os sentidos que o habitam" (op.cit.)

O que nos propomos a fazer, então, em nossa pesquisa, é buscar esses enunciados para tentar definir a que formação discursiva eles se alinham e se há formações discursivas em confronto no material que coletamos. Tentaremos, assim, fazer emergir os enunciados dos tex-tos- materialidade discursiva sobre a qual nos debruçaremos – e mapear de onde vêm essas formulações e em que campo enunciativo se encontram.

Entendemos que a formação discursiva determina, de certo modo, o que pode e deve ser dito a partir do lugar de fala do sujeito, que é determinado histórica e socialmente. A formação discursiva se constitui num conjunto de enunciados que apresentam regularidades e são defi-nidos pela sua relação com a formação ideológica. Nas palavras de Foucault,

no caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva (FOUCAULT, 1986: 43).

A formação discursiva reúne um conjunto de enunciados possíveis, mas as FDs não são estáticas, sofrendo transformações e estando em contínuo movimento, sendo inclusive atra-vessadas por outras FDs e pelo contexto histórico. As fronteiras das FD são mutáveis e é no dizer que os sentidos se produzem e que novos sentidos se instauram.

Retomando então a AD francesa, temos que o discurso é atravessado pela ideologia e que o sujeito que enuncia o faz sendo assujeitado por esta última que determina o seu dizer. E ainda consideramos o sujeito discursivo não como o indivíduo em si e sim o sujeito da lingua-gem e, como tal, “interpelado pela ideologia” (BRANDÃO, 2004: 110). O sujeito discursivo existe e fala dentro de um contexto social e é marcado pela posição que assume na sociedade.

Sua fala é, portanto, sempre impregnada e determinada pelas condições em que é produzida e por isso o sujeito não pode ser considerado como “a fonte absoluta do sentido” (BRANDÃO, 2004: 110). Através de sua fala, outras falas se fazem presentes. Para a AD a idéia de que o sujeito enunciador seja o primeiro a enunciar alguma coisa não passa de ilusão.

A noção de ideologia, por outro lado, é concebida a partir da linguagem. Entendemos a ideologia como “a condição para a constituição do sujeito e do sentido” (ORLANDI, 2003:

46) e assim temos que todo discurso é necessariamente ideológico. O sujeito é interpelado pela ideologia e seu dizer está sempre impregnado pela formação ideológica em que se insere, determinada pelas condições sociais do seu momento histórico, classe social etc. Portanto,

todo o discurso é passível de interpretação, apesar de, muitas vezes, o sujeito acreditar que apenas parte dele pode ser interpretado. O apagamento da interpretação gera uma ilusão de naturalização, como se o sentido já estivesse posto a priori. Orlandi afirma ainda que “as pala-vras recebem seus sentidos de formações discursivas em suas relações” (ORLANDI, 2003:

46). Ainda segundo a autora,

por esse mecanismo – ideológico – de apagamento da interpretação, há transposição de formas materiais em outras, construindo-se transparências – como se a linguagem e a história não tivessem sua espessura, sua opacidade – para serem interpretadas por determinações históricas que se apresentam como imutáveis, naturalizadas (ORLANDI, 2003: 46).

A impressão de que o que é dito é natural e não poderia ser de outro modo é irreal. Na verdade, tudo o que é dito é passível de interpretação a partir do contexto em que é enunciado.

Orlandi afirma que esse apagamento é ideológico e que é assim que opera a ideologia. Acres-centa ainda que o sujeito é interpelado por ela para se constituir como sujeito e poder enunciar e que as palavras têm seu sentido determinado pelas formações discursivas e suas relações. E é justamente nesse encontro que se dá o interdiscurso, ou seja, a memória discursiva. A autora afirma que “o sentido é assim uma relação determinada do sujeito afetado pela língua – com a história” (ORLANDI, 2003: 47).

Dessa forma, ao analisarmos as sequências discursivas, não trabalhamos com a ideia de indivíduo, mas de sujeito discursivo que enuncia do seu lugar de fala, demarcado pelo tempo histórico, pela ideologia e cujo discurso se alinha a uma formação discursiva (FD) determina-da e que pode ser atravessado por outras FDs de acordo com a situação de enunciação.

Identificamos, muitas vezes, nos textos em questão, diferentes formações discursivas se manifestando, já que uma característica do sujeito é sua incompletude, e que ele se constitui enquanto sujeito no momento mesmo em que fala, sendo assujeitado pela ideologia, como já explicitamos anteriormente.

Para a AD, as condições de produção precisam ser levadas em conta porque dizem res-peito às condições existentes fora do dizer mas que determinam histórica e socialmente o que se diz. A posição do sujeito do discurso determina o que ele pode e deve dizer. Já vimos com Foucault que não se pode dizer tudo em qualquer tempo. Certa coerção é exercida pelo pró-prio discurso sobre o que é dito e assim, ao analisar os enunciados precisamos levar em conta a posição do sujeito dentro (ou não ) de uma instituição e o contexto social e histórico.

Instrumentalizados por esses conceitos, buscamos evidenciar algumas redes de sentido construídas a partir da criação do primeiro segmento de ensino e suas relações com a memória institucional. A partir da leitura de alguns documentos oficiais que falam da implantação do Pedrinho, procuramos determinar que redes de sentido foram criadas e a que formações dis-cursivas em disputa se relacionam nos discursos ali encontrados, partindo da materialidade dos textos institucionais selecionados. Dialogando com esses documentos, temos também o texto transcrito de algumas entrevistas que realizamos, buscando ouvir outras vozes e ampliar as redes de sentidos a que já nos referimos.

Entendemos ainda que a articulação dos conceitos de representação, identidade, discur-so e memória são muito importantes para este nosdiscur-so trabalho. Devemos dizer então que com-preendemos representação como a maneira como o CPII vem sendo enunciado, discursivizado e a imagem que projeta para fora da instituição. Sentido esse que nos chega antes da própria instituição. Williams (2007) define o termo como a representação dos ausentes no sentido de amostra ou espécime típico. Assim, observamos que mesmo entre os que não conhecem de perto o CPII, a imagem que se sustenta primordialmente é a de uma escola tradicional, cons-truída para as elites e onde só os melhores teriam vez. E assim, vimos problematizando essa representação que o colégio faz de si, que se sustenta em enunciados como muitos dos já cita-dos aqui e que ratifica a identidade institucional construída, identidade constituída numa me-mória discursiva que se apresenta dentro e fora de seus quadros.

Na seção que se segue, abordaremos a construção da memória que empreendemos, par-ticularmente, através das entrevistas que realizamos.

No documento Rio de Janeiro (páginas 64-70)