4. FALANDO SOBRE OS DOCUMENTOS E AS ENTREVISTAS
4.4 A análise dos dados
4.4.1 Condições de produção dos documentos e entrevistas
4.4.1.1 As justificativas para a criação do Pedrinho
Apresentamos um quadro a seguir onde destacamos algumas sequências discursivas das entrevistas e dos documentos analisados que, nas primeiras, apresentam as ideias que os entre-vistados têm sobre o porquê da criação do primeiro segmento no CPII e, nos seguintes, as jus-tificativas oficiais para tal ato institucional, respectivamente. Em seguida, vamos procurar dis-cutir um pouco essas formulações e articulá-las ao contexto que já caracterizamos anterior-mente, procurando problematizar os efeitos de sentido que algumas formulações proporcio-nam.
Entrevistado 1
- O problema é que o Pedro II desde a sua fundação obedeceu à legislação vigente.
- O Colégio Pedro II foi apanhado de surpresa, não podia fazer exame de admissão - Começou a acabar suas turmas.
- Secretaria do MEC não sugeriu nada. Nós fomos obrigados a fazer o Pedrinho porque a lei proibia o exame de admissão. Entendeu? A Lei, draconianamente, imaginando que o exame de admissão era um fator de evasão, da escola média, da escola fundamental, proibiu o exame.
Débora
Anexo K (páginas 201 -207)
- O Pedro II tinha andado um período, assim, de uma certa baixa.
- Tinha caído o número de alunos.
- Eles achavam que tinha caído o nível também.
Mayara (ex-diretora) Anexo L (páginas 208-216)
- Pedro II passava por um momento de crise.
- Classe média não procurava a escola.
- Atribuíam a crise a um processo pedagógico fraco, desgastado.
- Quiseram renovar o quadro do colégio, colocando o primeiro segmento com uma proposta nova.
-Necessidade de acabar com o meio segmento e implantar o primeiro grau todo.
- Proposta política do Professor Tito.
Joana
Anexo M (páginas 217-231)
- Havia um discurso do diretor dizendo que achava importante que o CPII atendesse crianças de uma faixa etária mais baixa para que ingressassem no Pedrão de uma outra maneira.
Dalila (servidora) Anexo N (páginas 232-243)
Professor Tito tinha muita vontade que o Pedro II abrangesse desde o ensino fundamental até a faculdade.
Regina (ex-diretora)Anexo O (páginas 244-257)
Professor Tito queria fazer uma escola modelo da alfa até o fim do ensino médio.
Ivete (ex-diretora) Anexo P (páginas 258-267)
- PII estava destruído, desprestigiado, sucateado, com poucos alunos.
- Ideia do Professor Tito era recuperar o CPII.
- Professor Tito resolveu arriscar com o primeiro segmento como uma forma de botar gente dentro da escola, de reinvestir, de forçar a barra para o governo reinvestir.
- Ele pega uma escola que está destruída, sem aluno, sem seriedade e sem trabalho e ele cria a Secretaria de Ensino, cria uma série de dispositivos de recuperação da qualidade de ensino e, nessa esteira, ele cria o projeto dos Pedrinhos.
PGE 1984 Anexo A
- Por que o Colégio Pedro II resolveu aceitar alunos para as primeiras séries do Ensino de 1º Grau?
- Tal atitude se afigura plenamente consentânea com as tradições desta Casa.
As primeiras letras e a arte de fazer contas foram ensinadas, nas origens desta Instituição, a meninos órfãos.
- Cada dia mais se acentua a necessidade de ampliação da chamada rede de ensino básico, isto é, de alfabetização e de escolarização inicial da população infantil na faixa etária dos 7 aos 14 anos. Ensino oficial e gratuito, como preconiza a Constituição da República.
PGE 1985 Anexo B
- Sugestão - eis como se apresentou ao Colégio Pedro II a ideia de aqui se implantar a escolarização inicial do Ensino de 1o. Grau.
- Desafio – eis como a direção -geral encarou essa mesma ideia.
PGE 1986 Anexo C
- Aproveitando, ainda, aspectos positivos da polêmica Reforma Passarinho, e aceito o desafio de manter, também, as quatro séries de escolarização inicial correspondentes ao antigo Curso Primário, nasceram os Pedrinhos.
FACTA 1983 nov/dez
- Neste 146o. Aniversário ele assinala a conquista da implantação do curso primário, com o qual forma-se um ciclo completo, desde o embrião do ensino até o 2o. Grau,
Anexo D de formação humanística, cívica, moral, cultural e intelectual do educando,
A professora Ana Bernardes, com a eloquência e erudição – já conhecidas e admiradas no Colégio – falou dos benefícios que o Colégio Pedro II vem
proporcionando à Educação e disse que as crianças - do primeiro segmento do 1o.
Grau - não poderiam ser excluídas desses benefícios.
Quadro 4: Das justificativas
Lendo-se o documento "Palavras do Diretor" do PGE de 1984 (Anexo B), na sequência que abre o documento, encontramos
As páginas que ora se oferecem à leitura, à análise e à crítica dos estudiosos em problemas de Educação necessitam de uma breve explicação.
Talvez elas sejam os fundamentos de uma resposta à seguinte indagação: Por que o Colégio Pedro II resolveu aceitar alunos para as primeiras séries do Ensino de 1º Grau? (CPII, 1984a).
A primeira coisa que nos chama a atenção é a forma de justificar a implantação através de uma resposta. Bakhtin (1997: 294) nos diz que todo discurso é responsivo e nos remete sempre a outros enunciados, entendendo que nenhum discurso inaugura a fala, mas sim reme-te-se a outras falas. Essa concepção nos permite dialogar com Eni Orlandi (2003) quando assi-nala também que o “sonho adâmico” (ORLANDI, 2003: 35) de sermos os primeiros a enunci-ar alguma coisa não se realiza. Nossos discursos se relacionam sempre a outros discursos que, por sua vez, se relacionam a outros, constituindo uma enorme teia de discursos que existem antes de nós e aos quais estamos sempre respondendo ou nos remetendo. Esse modo de apre-sentar a justificativa para a criação do Pedrinho, no entanto, nos traz logo a idéia de que não foi sem disputa que o primeiro segmento foi implantado, ou ao menos sem um grau significa-tivo de oposição. A construção discursiva da justificativa aparece em forma de resposta a uma questão: por que criar o primeiro segmento dentro do CPII? Interessa-nos a maneira como o sujeito discursivo diz, e essa escolha pela forma da resposta a uma pergunta nos parece bas-tante significativa porque pressupõe uma pergunta vinda de um interlocutor a quem é dirigido esse texto, seja à comunidade escolar, ou aos "críticos e estudiosos em educação" (CPII, 1984a), como menciona o próprio texto. O indício de oposição à criação é confirmado pelas entrevistas. Todos nossos entrevistados mencionam a rejeição inicial dos veteranos em relação ao Pedrinho. Mas esse é um assunto que abordaremos mais adiante. Por ora, fiquemos com as tentativas de explicar a criação do Pedrinho.
Em segundo lugar, nos chama a atenção a escolha do termo “aceitar” para justificar a implantação do segmento. O termo aceitar nos remete a uma cadeia parafrástica de palavras que poderiam ter sido utilizadas em seu lugar (implantar, introduzir, criar) e mais ainda à pos-sibilidade da negativa: a recusa. Ora, as pessoas aceitam ou recusam convites e até mesmo propostas. Mas o que dizer de medidas institucionais? Pode uma instituição aceitá-las apenas?
O uso do termo remete imediatamente a uma ação passiva, imposta ou sugerida, como prefere o documento. Se a Lei 5692/71 previa o ensino em 8 anos, e se o Colégio Pedro II se manti-nha alheio a essa lei desde então, porque se justifica a criação do Pedrinho como a aceitação
“de uma sugestão” (COLÉGIO PEDRO II, 1984a) do MEC? Sugestão ou força de lei? Locali-zamos aqui o que Eni Orlandi denomina de “esquecimento da ordem da enunciação”, ao des-tacar que "o modo de dizer não é indiferente aos sentidos"
(ORLANDI, 2003: 35). Justificar a criação do Pedrinho como uma sugestão do MEC quando havia uma lei de Ensino que instituía o ensino básico em 8 anos é, no mínimo, curioso. Até porque não é muito comum, especialmente sob uma ditadura, que os poderes centrais façam
“sugestões” aos órgãos públicos e que elas possam ou não ser aceitas. No entanto, observando por outro ponto de vista, não podemos deixar de assinalar o fato de o Colégio Pedro II, não poucas vezes em sua história, ter deixado de cumprir a legislação vigente. A manutenção da jubilação até os dias de hoje é um exemplo disso, assim como a própria permanência do exa-me de admissão, sem falar na retenção no priexa-meiro ano praticada em tempos de "promoção automática" e ciclos. Mas a fala do ex-Secretário de Ensino contradiz a nossa afirmativa e a versão apresentada no documento. Logo no início da entrevista, quando indagado a respeito dos motivos para a implantação do segmento, o professor respondeu que "o problema é que o Pedro II desde a sua fundação obedeceu à legislação vigente" (Entrevista 1, p. 191) e mais adiante afirma que "Secretaria do MEC não sugeriu nada. Nós fomos obrigados a fazer o Pe-drinho porque a lei proibia o exame de admissão" (Entrevista 1, p. 199). O próprio ex-Secretá-rio credita a iniciativa ao antigo Diretor-Geral, o que é confirmado pelos outros entrevistados, como se pode verificar, no quadro 4, à página 92.
Continuando a analisar as justificativas apresentadas, já no segundo documento, de 1985 (Anexo C), observamos a seguinte sequência que inicia o texto:
Sugestão – eis como se apresentou ao Colégio Pedro II a ideia de se implementar a escolarização inicial do Ensino de 1º Grau.
Desafio – eis como a Direção Geral encarou essa mesma ideia (CPII, 1985).
O par de vocábulos que abre o texto: sugestão/desafio, justificando a criação do Pedri-nho provoca efeitos de sentidos que julgamos pertinentes considerar. O colégio se encontrava esvaziado e o MEC (pelo texto) acena com uma sugestão de implantação de um novo segmen-to (já previssegmen-to por lei havia pelo menos 13 anos), o colégio aceita a “sugestão” (COLÉGIO PEDRO II, 1984a) e a encara como um “desafio” (COLÉGIO PEDRO II, 1984a). Entende-mos que aceitar a imposição de implantação de um primeiro segmento e simplesmente cum-prir uma lei não produz um sentido de engrandecimento da instituição, mas aceitar um desafio tão novo e sem precedentes na história do colégio, sim. A forma como a situação é discursivi-zada nos parece bastante coerente com o discurso pelo qual o CPII se apresenta nas mais dife-rentes situações. A marca principal é a da tradição, da excelência e neste caso se acrescenta a marca da superação que vem ratificar o discurso ufanista que vimos procurando demonstrar como o escolhido para caracterizar o colégio.
Assim, retomando-se a fala do ex - Secretário, o Pedrinho aparece como uma solução quase que obrigatória para o problema que o CPII estava enfrentando. Não como um opção ou sugestão, mas como a única solução para preencher suas salas de aula outra vez, outrora dis-putadas.
Julgamos oportuno acrescentar que, em nossa pesquisa, não encontramos nos documen-tos oficiais (atas de reuniões) nada que indicasse alguma discussão anterior à criação do pri-meiro segmento antes do ato institucional que o criou. E que, segundo o mesmo entrevistado não houve nenhuma discussão anterior nos fóruns do colégio.
M - É porque eu tenho procurado os documentos da implantação. A portaria, o documento oficial que instituiu o Pedrinho eu li, sim, tive acesso. Mas, assim, é que eu encontro pouca coisa, então eu não sei se não tem mesmo muita coisa.
C - Não tem. Mesmo. Foi feito na marra. (Entrevista 1- p. 199).
Voltando ainda ao PGE de 1984, a primeira justificativa para a criação do Pedrinho evo-ca a memória institucional e a tradição do colégio. E busevo-ca nos primórdios anteriores à pró-pria criação do CPII, sua resposta: o Abrigo dos Órfãos de São Pedro. Consultando-se a pági-na do Colégio pági-na parte que contém seu histórico vamos encontrar a referência ao Abrigo dos Órfãos de São Pedro como a mais remota origem do CPII.
A origem do Colégio Pedro II remonta à primeira metade do século XVIII, ao Abrigo dos Órfãos de São Pedro, obra de caridade da antiga paróquia do mesmo nome, no centro da cidade do Rio de Janeiro. O Bispo D. Antônio de Guadalupe fundou o Colégio dos Órfãos de São Pedro em 1733, por Provisão da Câmara
Eclesiástica e o transformou em Seminário de São Joaquim, também por Provisão Eclesiástica, em 1739, sendo localizado em antigo casarão da Rua Larga, atual Av. Marechal Floriano. O Rei D. João VI, por Decreto de 1818, extinguiu o Seminário de São Joaquim, sendo suas dependências utilizadas para o aquartelamento dos soldados do Corpo de Artífices e Engenheiros da Divisão Portuguesa, recém chegada o Brasil.
O Príncipe Regente D. Pedro, atendendo “às súplicas de vários moradores”, restabelece o Seminário de São Joaquim, em 1821, em seu prédio de origem.
Na época da Regência Trina, o Ministro do Império José Lino Coutinho mudou, em 1831, a natureza do educandário religioso pela implantação da habilitação para o trabalho, nas práticas de torneiro, entalhador, litógrafo, e pela instrução militar, “exercício das armas”, para a preservação da ordem pública.
Durante a Regência de Pedro de Araújo Lima, o Ministro Interino do Império Bernardo Pereira de Vasconcelos, pelo Decreto de 02 de Dezembro de 1837, fundou o Colégio de Pedro II, em homenagem ao Imperador Menino no dia de seu décimo - segundo aniversário. O Imperial Colégio foi instalado nas dependências patrimoniais do antigo seminário, reformadas pelo arquiteto Grandjean de Montigny (ANDRADE, 2009).
O orfanato é, de certo modo, a herança mais longínqua do colégio mas, na verdade, o que o CPII herdou do orfanato foi apenas o espaço físico (e mesmo assim reformado por Grandjean de Montigny) que abrigou a primeira unidade escolar no centro do Rio. Por que então atender às crianças do primeiro segmento remete necessariamente aos “meninos órfãos”
(COLÉGIO PEDRO II, 1984)? Interpretamos esse deslizamento como uma forma de dar ao projeto de criação do Pedrinho uma perspectiva de continuidade dentro da "forma reconhecí-vel" (DOUGLAS, 1998) estabilizada para a instituição. Ora, se na sua origem o seminário atendia a uma clientela desprovida de posses e o Pedro II se instalou no seu lugar, a nova for-ma de acesso de alunos – o sorteio público – e a consequente heterogeneidade do corpo dis-cente podem ser associados à tal início. Considerando que uma das construções discursivas mais recorrentes na representação do colégio é a de uma escola destinada às elites, que tinha o acesso realizado através de provas de seleção, de que maneira o acesso por sorteio público (não mencionado nos documentos) é assimilado pela instituição? A menção aos órfãos seria uma referência a um papel assistencialista que a instituição teria tido em sua origem e que, com a implantação do Pedrinho, estaria sendo resgatada numa tentativa de aproximar essa im-plantação da centenária história do CPII.
Cunha Junior em sua tese sobre o Imperial Collegio de Pedro II analisa alguns aspectos que nos interessam. As quotas foram criadas, segundo ele, em virtude do uso do prédio do or-fanato.
O governo imperial apoderou-se de um patrimônio que não era seu, mas do Seminário de São Joaquim, cujas rendas provinham, principalmente, do pagamento das mensalidades dos seminaristas que ali estudavam e de doações feitas pela comunidade da cidade do Rio de Janeiro. Como retribuição à população, o CPII deveria admitir gratuitamente um determinado número de alunos, todos pobres (CUNHA JUNIOR, 2008: 54).
Podemos então compreender que o acesso das crianças feito por sorteio público venha evocar a antiga dívida para com o seminário, acenando com uma perspectiva assistencialista na gênese da instituição. Segundo afirma Cunha Junior, entretanto, “tal concessão não era fru-to de uma atitude benevolente e filantrópica do governo, mas uma exigência feita por deputa-dos quando da conversão do Seminário de São Joaquim em Collegio de Pedro II” (CUNHA JUNIOR, 2008: 53). Assim, os “pobres” teriam vez no Colégio como uma forma de devolver à população o investimento no antigo Seminário, então desativado para dar lugar ao CPII, num ato bastante controverso na época.
Na segunda justificativa, encontrada no documento que estamos discutindo, o discurso se remete a uma “necessidade de ampliação da rede”. Esta agora pautada numa obediência ao chamado da lei e ao cumprimento de tarefas institucionais impostas pelos poderes instituídos e hierarquicamente superiores, de fora do Colégio. Um enquadramento à letra da Lei, ainda que um tanto tardio? Verificamos, por outro lado que, embora houvesse naquele momento, de-certo, demanda e pressão para ampliação do oferecimento de vagas na escola pública, uma outra instituição federal como o Colégio Militar, por exemplo, jamais se enquadrou à essa Lei e sempre manteve seu acesso no segundo segmento, através de provas de seleção. Apesar de ser uma escola ligada às forças armadas e, portanto, bastante diferente da maioria dos colégios federais, parece-nos, então, discutível que o enquadramento à Lei 5692/71 fosse um imperati-vo. O próprio Colégio Pedro II mantém o acesso por concurso até os dias de hoje, apesar de naquela época ter que se valer de um artifício para realizar a seleção, como já mencionamos anteriormente.
Retomando a primeira justificativa já citada por nós, o texto assinala que a aceitação da sugestão do MEC não contradiz a tradição e evoca o orfanato como constituinte dos primórdi-os do colégio, na sequência que se segue: “primeiro, porque tal atitude se afigura plenamente consentânea com as tradições desta Casa. As primeiras letras e arte de fazer contas foram en-sinadas, nas origens desta Instituição, a meninos órfãos” (CPII, 1984a). Na segunda, em con-trapartida, encontramos uma justificativa pautada num discurso institucional, que parece bus-car validação evocando instâncias superiores: “segundo, porque, nesta Cidade do Rio de
Ja-neiro, como em muitos centros urbanos do País, cada dia mais se acentua a necessidade de ampliação da chamada rede de ensino básico” (CPII, 1984a). E, citando a Constituição da Re-pública vigente à época, de 1946, o documento se refere ao ensino como “Ensino oficial e gratuito” (CPII, 1984a). De fato, na constituição citada, a caracterização do ensino é feita nes-ses termos. Entretanto, não podemos desconsiderar o interdiscurso que permeava a educação no Rio de Janeiro naquela conjuntura. Ocupava o cargo de governador do Estado do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, tendo como vice o Professor Darcy Ribeiro. A expressão usual no in-terdiscurso educacional da época era ensino “público e gratuito”. Aliás, até mesmo na emenda constitucional de 1969 já se verifica o uso do termo “pública” referindo-se à educação (BRA-SIL, 1969).
Entendemos que os dois termos têm significados bastante diversos e é necessário que se faça uma reflexão acerca destes e de seus usos. Em primeiro lugar, um ensino dito oficial não se constitui necessariamente num ensino público. Oficial remete a quem promove, e público remete a quem recebe ou tem direito a. A nosso ver, são perspectivas bem diferentes e até mesmo podemos dizer que os vocábulos se situam, nesse contexto, em paradigmas opostos.
Um diz de quem promove, o outro a quem é dirigido. Levando-se em conta a não neutralidade da linguagem, a impossibilidade de sua objetividade, entendemos o discurso inserido no seu contexto histórico-social e determinado pelas circunstâncias em que ele se realiza. Sendo as-sim não podemos deixar de considerar que a constituição de 1946 (BRASIL, 1946) expressa-va um discurso possível no momento histórico-social do país em que foi promulgada, fruto de disputas de poder que, entretanto, já não era mais representativo da sociedade brasileira no ano de 1984. Temos, inclusive, bem clara ainda a lembrança do clamor popular por uma As-sembleia Nacional Constituinte que corrigisse as distorções e escrevesse uma constituição mais adequada à nação daquele momento.
No ano de implantação do Pedrinho, o clamor por um ensino público de qualidade era a palavra de ordem dos movimentos populares em relação à Educação. Vinda inicialmente da oposição à ditadura e dos defensores da volta ao estado de direito, essa expressão foi sendo, entretanto, apropriada por outras formações discursivas, e consagrada pela constituição de 1988 (BRASIL, 1988). Não é nosso intuito discutir as duas constituições ou suas apropriações discursivas, mas é preciso entender a que formação discursiva se filiava naquele momento o discurso que ora analisamos. Devemos ressaltar também que o ensino do CPII foi oficial des-de sua gênese, mas não público e tampouco gratuito, no período imperial. A obrigatoriedades-de
de quota para os pobres é uma prova disso. Segundo Galvão,
Tanto os alunos internos como os externos pagariam o honorário que a título de ensino fosse fixado pelo governo. O governo poderia admitir até 11 alunos internos e 18 externos. Coincidentemente isto dava um total de 29 alunos gratuitos que era a mesma quantidade permitida no Seminário de São João Joaquim. Percebe-se também que era outra a noção de público porque estudar em colégio oficial significava para maioria pagar honorários fixados pelo governo (GALVÃO, 2003: 28).
Em nosso entender, a escolha pelo termo “oficial” ao invés de “público” alinha o discur-so à antiga constituição e não ao interdiscurdiscur-so que prenunciou a constituinte de 1988, o que é uma demarcação importante de alinhamento daquele sujeito discursivo a formações discursi-vas mais ligadas à tradição e a um modelo de educação pautado em bases bem distintas das que se viu serem defendidas durante o final do século XX.
Procurando-se observar as sequências discursivas destacadas das entrevistas com as ser-vidoras, percebemos que outros sentidos foram e continuam sendo construídos. A idéia de que
Procurando-se observar as sequências discursivas destacadas das entrevistas com as ser-vidoras, percebemos que outros sentidos foram e continuam sendo construídos. A idéia de que