4. FALANDO SOBRE OS DOCUMENTOS E AS ENTREVISTAS
4.3. Universo de pesquisa
Apresentamos nesta seção nosso universo de pesquisa, procurando discutir as fontes uti-lizadas e ainda situando os documentos oficiais utilizados bem como as entrevistas reauti-lizadas.
Tomamos para nosso universo de pesquisa os documentos que listamos no item a seguir.
Entretanto, faz-se necessário destacar que dos documentos intitulados Planos Gerais de Ensi-no, tomamos para análise apenas os textos introdutórios de cada um deles, intitulados “Pala-vras do Diretor”.
4.3.1 Os documentos e as transcrições das entrevistas
• Plano Geral de Ensino do primeiro segmento de 1984 – Palavras do Diretor
• Plano Geral de Ensino do primeiro segmento de 1985 - Palavras do Diretor
• Plano Geral de Ensino do primeiro segmento de 1986 - Palavras do Diretor-Geral
• Revista de divulgação FACTA Nov/Dez 1983
• Revista de divulgação FACTA Jan/Fev 1984
• Revista de divulgação FACTA Mar/Abr 1984
E ainda as entrevistas que discriminamos no quadro que se segue:
Entrevistado Cargo Realizada em Observações
Professor Choeri Professor Dez /2009 Foi Secretário de Ensino e depois Diretor-Geral.
Débora Professora Mar/2010 Ainda ativa na Unidade
Mayara Professora Abr/2010 Foi diretora, atuou em 2 unidades.
Está aposentada.
Joana Professora Abri/2010 Atuou em 3 unidades de Pedrinho e
no Pedrão. Está aposentada.
Dalila Servidora Técnico-
Administrativa
Maio/2010 Atuou em duas Unidades de Pedrinho. Ainda ativa.
Regina Professora Set/2010 Foi diretora de Pedrinho e atuou no
Pedrão. Está aposentada.
Ivete Professora Out/2010 Foi diretora de Pedrinho. Não está
mais no CPII.
Quadro 3: Os entrevistados
4.3.2 Sobre nossas escolhas
Como já afirmamos anteriormente, o que encontramos não respondia às nossas pergun-tas sobre a criação do Pedrinho. Ademais, nossa abordagem teórica não pretende trabalhar com uma história da criação e sim com a memória daquele momento, que se manifesta viva e sujeita a novas construções nas lembranças dos servidores que participaram daquele momento fundador. Assim, nossa opção foi fazer dialogar as falas de alguns dos atores sociais que vi-venciaram a criação do Pedrinho com os documentos institucionais que o Colégio produziu no momento inicial de apresentação do novo segmento para a instituição.
Sobre as entrevistas que realizamos é importante dizer que se passaram dez meses entre a realização da primeira e a da última entrevista, como já afirmamos anteriormente. Nossa perspectiva na pesquisa já tinha necessariamente se modificado, dado o amadurecimento da investigação e da realização do trabalho. Então, é inegável que nosso olhar diferente tenha proporcionado um outro desenvolvimento para estas e tenha influenciado até mesmo o traba-lho de transcrição.
Inicialmente nos acercamos dos Planos Gerais de Ensino em busca de alguma informa-ção sobre a criainforma-ção do primeiro segmento. Deparamo-nos então com uma espécie de carta in-trodutória, assinada pelo então diretor-geral e intitulada "Palavras do Diretor". Esse texto cumpre o papel de apresentar o Plano Geral de Ensino sendo encontrado presente em todos os PGEs (dos diferentes segmentos de ensino). No texto que apresenta o PGE do Pedrinho en-contramos, entretanto, um teor diferente já que há a tentativa de justificar a criação do primei-ro segmento dentprimei-ro da instituição. Entendemos que os documentos intitulados "Palavras do Diretor" foram motivados pela necessidade da administração apresentar à comunidade inter-na, as modificações pedagógicas que estavam sendo implantadas e, no bojo delas, a criação do Pedrinho. Assim, não são documentos que se encontrem habitualmente nas publicações ofici-ais da instituição. Nasceram, provavelmente, da necessidade de apresentar os planos de ensino dentro da perspectiva de reformulação do currículo do colégio, criando uma marca daquela administração e situando a comunidade escolar na nova política a ser colocada em prática a partir daquele momento, incluindo-se aí a criação do primeiro segmento.
Procuramos tomar o material discursivo dos textos a partir da perspectiva do lugar de fala do sujeito discursivo, da atividade desempenhada (de direção do CPII), procurando assim
entender as transformações que se operam no discurso de acordo com a conjuntura interna e externa. Vale dizer ainda que os PGEs são constituídos de informações sobre a estrutura e fun-cionamento da nova Unidade e do currículo a ser praticado por ela, aspectos esses que não abordaremos em nosso trabalho.
Quanto ao outro tipo de documento analisado por nós - a FACTA - boletim oficial bi-mensal do Colégio – na seção que se segue, explicitaremos suas funções e sua existência na instituição.
4.3.3 As FACTAs
Como já citamos anteriormente, a FACTA é o boletim oficial do CPII, desde outubro de 1970, quando saiu o primeiro número. Segundo informações colhidas no setor, a FACTA se destina a divulgar os atos institucionais, desde sua implantação. A revista pode ser bimestral ou mensal, de acordo com o volume de informações a serem veiculadas. Costuma sair ao final do bimestre (ou do mês) e o seu conteúdo é basicamente composto de atos administrativos di-versos tais como licenças, concessões de aposentadoria, movimentação de servidores dentro do colégio etc.
Feitosa, apoiada na ergonomia contemporânea que “tem como foco analítico central as atividades de trabalho em situação” (FEITOSA, 1998: 38), caracteriza os escritos de trabalho numa dupla materialidade. A primeira diz respeito à atividade da linguagem em geral (nas mo-dalidades oral e escrita) enquanto a segunda é caracterizada pela “permanência” do escrito (contemplando apenas a modalidade escrita). A autora classifica os escritos de trabalho e men-ciona os “institumen-cionais, que têm como principal função construir, tanto para o público interno quanto para o público externo, uma imagem positiva da organização” (FEITOSA, 1998: 42), o que em nosso entender, parece caracterizar a publicação com a qual estamos trabalhando aqui.
Vale dizer que a FACTA, em nosso entendimento, se constitui num escrito de trabalho que desempenha a função citada acima, de construir para seus leitores uma imagem positiva da organização, ou pelo menos, durante certo período, desempenhou. A revista é periódica e circula internamente sendo distribuída a todos os setores e unidades escolares. Constam
des-sas revistas os atos institucionais como concessão de licença a docentes ou técnicos, remane-jamento de servidores, concessão de pensões etc. Entretanto, durante o período com o qual es-tamos trabalhando, o CPII não dispunha de outro veículo de divulgação, e contava com um profissional da área de comunicação nesse setor. Então, as FACTAs, nesse período, apresenta-vam notícias ou notas sobre alguns eventos ocorridos na instituição. Daí termos encontrado três exemplares que noticiam a criação do Pedrinho e também a sua inauguração. Esses três números da revista nos interessam por conterem informações sobre a criação do primeiro seg-mento e por serem produzidas por uma instância institucional diferente da dos docuseg-mentos in-titulados “Palavras do diretor”. Enquanto estes últimos foram gerados no poder central do CPII, no corpo do projeto pedagógico, aquelas se constituem em escritos de trabalho instituci-onais que visam dar ciência aos servidores de atos internos, de caráter funcional e procuram construir, a nosso ver, uma imagem da instituição para a comunidade interna.
Os números da revista bimestral que tomamos para o nosso corpus de pesquisa são os de Nov/Dez de 1983, quando se encontra a primeira menção feita à criação ao Pedrinho; o de Jan/Fev de 1984, quando é mencionado o concurso realizado para ingresso de professores para o primeiro segmento de ensino; e o número de Março/Abril de 1984, que informa sobre a festa de inauguração do primeiro Pedrinho, o da Unidade São Cristóvão.
Conhecedores da FACTA, pensamos não encontrar ali menção à criação do Primeiro Segmento, mas quando estivemos no NUDOM (Núcleo de Documentação e Memória) do CPII fomos alertados para a possibilidade de haver algo nas revistas, já que naquela época elas continham mais do que os atos institucionais, o que, de fato, se comprovou. Desconhecía-mos o fato de que o boletim tivesse tido outras características no período que nos interessa para a pesquisa, diferentemente de hoje em dia.
Apresentadas essas considerações iniciais acerca do material analisado, passaremos a apresentar a análise dos dados a que procedemos, subdividindo-a em alguns tópicos que sinte-tizam questões que consideramos produtivas nos dois tipos de documentos e nas entrevistas e que nos permitem ampliar nosso olhar sobre a instituição e os discursos que a cercam. Inicia-mos contextualizando documentos e entrevistas nos seus devidos tempos, de forma a ter claro em que condições foram produzidos.