4. FALANDO SOBRE OS DOCUMENTOS E AS ENTREVISTAS
4.4 A análise dos dados
4.4.1 Condições de produção dos documentos e entrevistas
4.4.1.3 Presença do Pedrinho no Colégio Pedro II
4.4.1.3.2 Designando o Pedrinho
Neste tópico pretendemos trazer à baila as designações que a unidade de primeiro seg-mento recebeu nos diferentes segseg-mentos analisados por nós. Tomando-se a sequência discursi-va encontrada no editorial da revista FACTA de março de 1984, encontramos a notícia:
“Inau-guração do “Pedrinho” foi uma festa!”(CPII, 1984c: 3). A designação “Pedrinho” aparece aqui de maneira oficial no impresso institucional, indicando que este apelido foi criado no momen-to de criação da Unidade. Concluímos que essa designação tem cermomen-to caráter oficial já que é encontrada em documentos como o PGE e a própria FACTA. Isso, para nós, faz diferença.
“Pedrinho” não foi um apelido dado pelos professores ou alunos ao longo do tempo, pela ne-cessidade de designar o segmento no dia-a-dia da nova Unidade. Pelo que constatamos nas entrevistas, a Unidade já nasceu assim designada. Por mais que se diga que o diminutivo cum-pre o papel de dizer que é uma escola para crianças e assim, demarcar a diferença entre o que já havia e o que surge de novo no CPII, Rocha apresenta algumas reflexões sobre esse aspecto que julgamos oportuno trazer.
O diminutivo Pedrinho, explicado sempre como demonstração de afetividade por esse segmento, também carrega a importância proporcional das primeiras séries do Ensino Fundamental, de seus docentes e alunos no conjunto do Colégio. O requisito mínimo de formação – em nível de Ensino Médio – e a predominância do corpo docente feminino (a quase totalidade), além do prestígio acadêmico menor de que goza o professor que trabalha com séries iniciais, fazem com que, em diferentes momentos, a assimilação dessa parte do corpo docente aos demais, bem como sua relação com a direção administrativa do colégio passe por problemas em que sua posição menos prestigiada no campo do poder transparece (ROCHA, 2000: 101).
A maioria de nossos entrevistados, quando falamos sobre essa designação, atribuiu ao aspecto carinhoso da relação com as crianças e à consagração dessa nomenclatura pelo lado positivo. Entretanto, não podemos deixar de levar em conta os aspectos destacados por Rocha, no excerto acima. Vários fatores contribuem para que nos incomodemos um pouco com a de-signação, embora no nosso dia-a-dia (e em nosso trabalho) também a tenhamos incorporado.
A falta de valorização do trabalho (e dos salários) do professor de primeiro segmento, o fato de ser a profissão majoritariamente feminina e até mesmo a idéia de extensão do papel da pro-fessora em relação ao papel de mãe, caracterizando essa relação quase que como missionária são aspectos que logo se associam ao peso do diminutivo. Considerando-se tudo o que já foi apresentado sobre a relação estabelecida entre os novos professores e a instituição não poderí-amos deixar passar esse aspecto sem ao menos comentá-lo.
Prosseguindo na leitura no documento, destacamos as três designações conferidas ao primeiro segmento de ensino em relação ao Colégio Pedro II, pela ordem em que aparecem no texto: “sua sexta Unidade Escolar”, “Unidade Escolar São Cristóvão II” como denominação oficial e “Pedrinho” como um carinhoso apelido. Inicialmente o Pedrinho é referido pela
or-dem de implantação – sexta Unidade. Depois vem a localização geográfica da unidade segui-da do algarismo romano que a identifica como a segunsegui-da segui-daquela região. É o Pedrinho então uma circunscrição geograficamente determinada – São Cristóvão – e II porque já havia a Uni-dade São Cristóvão I que vinha a ser o Pedrão (como foi designado o segundo segmento e o segundo grau, indistintamente, após a criação do Pedrinho). Por último, aparece a designação que se consagrou efetivamente, e que aparece, inclusive, sublinhada: “Pedrinho”. O Pedrinho, aqui, aparece como mais uma Unidade, por esta notícia, o efeito que se tem é que o CPII esta-va se expandindo e abrindo noesta-vas unidades. O fato de ser uma unidade de caráter bastante di-ferente das demais é omitido. Esse silêncio parece significar muito. Que o CPII abria mais uma Unidade, a sexta, como uma continuidade, e só quando o apelido carinhoso aparece é que se pode entender que se trata de uma Unidade Escolar diferente e não as que sempre caracteri-zaram o colégio. A Unidade Escolar que vai receber as crianças recebe um apelido carinhoso, com a marca do diminutivo e tudo que isso envolve de acordo com as questões que menciona-mos anteriormente trazidas por Rocha (2000).
Na mesma revista (Anexo D) há ainda uma chamada para a notícia que anuncia a cria-ção do primeiro segmento. A chamada é: “O colégio terá curso primário” e em seguida apre-senta alguns detalhes da implantação que ocorreria no ano seguinte. Destacamos a chamada da notícia. Embora a nomenclatura oficial dos níveis de ensino, normalmente, demore a ser incorporada na fala dos educadores e da população, em geral, levando as pessoas a se referi-rem aos diferentes graus de ensino pela nomenclatura anterior, nos causa estranheza esse títu-lo. Afinal a nomenclatura já tinha sido alterada há 12 anos, quando da promulgação da Lei 5692/71, por um lado e, por outro, a revista era um meio de comunicação oficial da instituição com sua comunidade interna. Podemos justificar a escolha da expressão "curso primário"
como uma forma de facilitar o entendimento de quem lê e ainda de abreviar o título. De fato, se tivéssemos como título “O Colégio terá o primeiro segmento do primeiro grau” teríamos uma chamada menos efetiva do ponto de vista da função que um título tem nesse tipo de pu-blicação e que demandaria, talvez, algumas explicações para garantir seu entendimento. En-tretanto, uma chamada como "O Colégio terá o primeiro grau completo" propiciaria um efeito de sentido muito diverso. Sentido esse que remeteria a uma idéia de completude do CPII, de inclusão do Pedrinho e de afirmação de uma novidade que (mesmo não sendo muito bem re-cebida) viria a povoar o colégio outra vez, completando-o. O efeito de sentido seria muito di-ferente. Mas o que foi enunciado diz outra coisa. Deixa claro a posição que o sujeito
discursi-vo tem em relação à criação do Pedrinho. E muito embora a FACTA nos editoriais que lemos procure sempre enaltecer a administração do CPII cumprindo exemplarmente a tarefa descrita por Feitosa (de passar uma imagem positiva da instituição) nesse título parece haver um desli-zamento que nos leva a perceber o lugar menor reservado ao primeiro segmento pela publica-ção oficial.
Que efeito de sentido pode ter provocado uma notícia como essa, naquela ocasião, na comunidade interna? Apesar de termos claro que esse era o nome do primeiro segmento antes da Lei 5692/71, não podemos deixar de pensar nos sentidos que a palavra primário traz. A nosso ver, a designação escolhida para o Pedrinho, nessa notícia em particular, provoca um efeito de sentido não muito compatível com a imagem de grandeza que o CPII ostenta nos seus discursos oficiais. Se reunirmos a designação Pedrinho, o curso primário e as professori-nhas primárias (como eram comumente chamadas, mas não presente nos documentos) estare-mos constituindo um campo discursivo onde o o primeiro segmento é colocado numa posição de menos valor e de menos poder também, como já mencionamos anteriormente.
Aproveitamos para chamar atenção também para a sequência apresentada na FACTA, referente à fala da representante do MEC que esteve presente à inauguração do Pedrinho. A construção "Vocês são flores ornamentando e dando alegria a esta Casa" (CPII, 1984c) embo-ra possa ser entendida como um elogio às crianças que acessam o colégio, produz também um outro efeito de sentido que corrobora, a nosso ver, os aspectos que demonstramos no parágra-fo anterior. Também aqui, ao Pedrinho é reservado um lugar bem diferente do que a institui-ção reivindica para si, nos discursos mais recorrentes. Se pensarmos no significado que o ver-bo ornamentar traz (de adorno, enfeite, de acessório) podemos contrapor aos vocábulos e ex-pressões escolhidos para falar do CPII enquanto instituição de ensino ("referência educacio-nal","centro de sociabilidade cultural", "personagem da História da Educação no Brasil", for-madora dos "agentes históricos do poder constituído, grupo considerável de homens públicos formados pelos paradigmas europeus de civilização e progresso" (ANDRADE, 2009). Fala-mos de efeitos de sentido que são produzidos por esses enunciados, não falaFala-mos de intenções.
Mais uma vez, lembramos que o sujeito discursivo não é a pessoa física que produz o enunciado e sim aquele que, de uma determinada posição social, histórica e institucional enuncia o que pode ser enunciado dentro da FD a que se alinha em função dos aspectos que destacamos. Entendemos que a menção é feita nesse sentido numa referência às crianças que
são vistas (no senso comum) como beleza, graça, inocência, mas percebemos também que esse enunciado permite uma interpretação como a que demonstramos acima. Ornamentos são detalhes que embelezam, valorizam, mas não são necessariamente indispensáveis. Levando essas construções discursivas às últimas consequências, diríamos que ensino mesmo só se en-contraria no Pedrão. Quanto ao Pedrinho... talvez não se esperasse muita coisa. O que nos pa-rece mais claro é que a criação do Pedrinho no CP II foi, de certo modo, tão inusitada que as pessoas que tiveram que lidar com ela não sabiam nem muito bem como fazer. Aliás, observa-mos isso, muitas vezes, no CPII ainda nos dias de hoje, quando o Pedrinho ainda parece ser um corpo estranho e com uma dinâmica meio incompreensível e às vezes incompatível com a lógica que rege os outros segmentos da instituição.