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Pedrinho como "fato consumado"

No documento Rio de Janeiro (páginas 126-130)

4. FALANDO SOBRE OS DOCUMENTOS E AS ENTREVISTAS

4.4 A análise dos dados

4.4.1 Condições de produção dos documentos e entrevistas

4.4.1.3 Presença do Pedrinho no Colégio Pedro II

4.4.1.3.4 Pedrinho como "fato consumado"

Neste tópico procuraremos discutir um pouco alguns outros aspectos mencionados nas entrevistas que problematizam a existência do primeiro segmento dentro da instituição e seu papel dentro dela. Não trataremos da relação entre docentes porque já fizemos isso, vamos tratar de alguns enunciados que tematizam mais as relações de poder dentro do CPII e a visão que alguns dos entrevistados têm a respeito dessa relação. Trazemos primeiro a fala de Regina que nos diz que "o Pedrinho é o primeiro carro dessa locomotiva/ o primeiro vagão dessa lo-comotiva. E ele não conseguiu ocupar esse espaço. Ele tem que conduzir esse trabalho e eu não vejo isso" (Entrevista 6, p. 250). Regina acredita que o Pedrinho deve dirigir os rumos da escola como um todo. Podemos contrapor a esta a fala de que o Pedrinho veio para enfeitar o CPII. O que percebemos nos dois enunciados é um certo romantismo se pensarmos que uma escola não pode apenas ser ornamento para outra, mas ao mesmo tempo não poderia/deveria conduzir a outra que é muito mais antiga e tradicional.

Na fala de Regina, identificamos o desejo de que o Pedrinho tivesse outro tipo de

trata-mento e fosse alçado à condição de primeiro vagão, direcionando os caminhos da escola como um todo. Entretanto, observamos que os dois enunciados parecem ter a mesma matriz ainda que defendendo posições frontalmente contrárias. Por que o segmento escolar criado depois de mais um centenário de trajetória educativa deveria conduzir os destinos do CPII como um todo? E, por outro lado, por que uma escola criada no período imperial, com mecanismos an-tiquados e arraigados que quase se extinguiu deveria impor seu estilo a todos os segmentos es-colares? A fala de Regina expressa o desejo de que, numa perspectiva de democratização e de modernização da escola, o Pedrão teria muito que aprender com o Pedrinho. Mas podemos também contrapor a esta, a ideia de que talvez, o corpo docente da escola quando da implanta-ção do Pedrinho, também quisesse criá-lo à sua imagem e semelhança – o que, de fato, não aconteceu. O que nos interessa nessa discussão é perceber que a mesma matriz dicotômica se apresenta – um sentimento de Pedrinho versus Pedrão, engendrando uma disputa de poder e de discursos.

Ouvindo nossos entrevistados, falando sobre semelhanças e diferenças de Pedrinho e Pedrão, no tocante às origens, obtivemos

Mayara - O que eu vejo de semelhança é que o Pedro II foi criado para ser um colégio de excelência, não num primeiro momento que diz que o primeiro momento era para ser dos órfãos, né, mas depois ele começou a receber os filhos da elite, né, então era pra ser um colégio de excelência. E quando se diz que o motivo de criar o Pedrinho era resgatar essa excelência, então ele foi criado com esse objetivo: de ser um colégio de excelência, né? (Entrevista 3, p. 213).

Débora - Agora, eu não sei direito qual era a ideia/ assim/ em termos filosóficos, né? O que se esperava do Pedrinho em termos de + da questão pedagógica também, mas eu sei o seguinte: o Pedrão foi criado muito para ser MODELO do Brasil. Não sei se lá na cabeça de quem idealizou tinha essa/ essa esperança porque eu acho que aqui + sei lá/ acho que nunca foi muito assim, né? Eu sempre vi as pessoas buscando um caminho + de tentar atender + à nossa realidade aqui, as crianças daqui, muito preocupadas com isso (Entrevista 2, p.

205).

Na primeira, a ideia de excelência se alinha com o Colégio Pedro II imperial e não, evi-dentemente, com o colégio dos órfãos. E embora a primeira sequência discursiva fale em ex-celência de ensino para o Pedrinho, não nos parece que essa fala encontre eco no discurso ins-titucional na época da criação do segmento. Quanto à segunda sequência, percebemos uma vi-são diferente da apresentada na anterior, em que parece não haver certeza de que o Pedrinho tivesse sido criado para dar continuidade à propalada excelência do CPII. Há um sentido de ruptura com a criação do primeiro segmento.

A ideia de que o CPII não é uma escola de elite mas que elitiza aparece também na en-trevista com Regina que nos diz

A ideia que eu tenho, pela história, é que era uma escola da elite, não é isso?/.../

E o Pedro II não tem essa característica, embora seja uma escola elitizante, entendeu? Ele/ ele não é/ ele não é pra elite, mas ele elitiza o aluno até por ser uma escola humanitária, né? Ele/ ele/ humanista, desculpa. Uma escola humanista porque ele ele abre um leque de opções, o aluno mesmo sendo um aluno de comunidade, como nós temos agora, ele aprende tudo. (Entrevista 6, p.

253)

Aqui, a ideia que aparece é a de uma escola que prepara abrindo um leque e que, dessa forma, elitiza, na medida em que leva o aluno, qualquer que seja sua origem, a alcançar um patamar mais alto na sua formação, podendo "aprender tudo". Elitizante aqui parece querer di-zer que a escola cumpre seu papel de formação, proporcionando ao aluno aquilo que, muitas vezes, ele não teria se não estivesse na escola. Entretanto, parece que permanece a ideia de formação de elite como sendo a educação que prepara e que permite que se possam alcançar cargos ou posições de destaque no cenário nacional, corroborando o discurso oficial da escola.

Ivete, por sua vez, afirma ser o Pedro II um "fato consumado", garantido pela sua pre-sença na Constituição Brasileira pela implantação do primeiro segmento, o que ela atribui a uma visão muito clara do ex-diretor geral. Chama atenção ainda para o lugar que o Pedrinho adquiriu na comunidade alertando para o números de inscritos para os sorteios públicos. E atribui esse número ao trabalho de qualidade que os Pedrinhos desenvolvem, o que, segundo ela, contribuiu para que o colégio recuperasse sua credibilidade.

Já Mayara afirma que um dos objetivos do Diretor-Geral com a criação da Unidade Es-colar teria sido a transformação da escola e que teria sido atingido, na plenitude, naquele pri-meiro momento institucional, hoje não mais. Para ela, hoje o Pedrinho encontra-se de novo abafado pelo Pedrão, opinião que Regina parece compartilhar também, de acordo com o seu relato. Vejamos os dois.

Mayara - /…/ eu acho que o que o Professor Tito queria, aconteceu, né? Houve uma mudança e tal, mas eu acho que, com o tempo, pelo menos, ultimamente, nos últimos anos, eu acho que houve uma mudança aí no colégio/ essa é até a sensação que eu tenho/ que + parece que houve uma reversão, né, que o tipo de gestão da atual direção, eu considero uma gestão não participativa, né, e a ausência de pessoas com a + do primeiro segmento de pessoas, junto a essa gestão, né, fez com que aquilo que o Professor Tito não queria, que era que o primeiro segmento fosse abafado pelo Pedrão, eu vejo que isso está acontecendo. Atualmente eu acho que a voz/ que o Pedrinho não tem mais voz (Entrevista 3, p. 212).

Regina - Eu acho que a tradição dos 170 anos ainda é maior que/ é muito maior do que o nosso/ a nossa vontade. Eles são maiores, é/ o tempo e a tradição são maiores do que todo esse nosso empenho em sobreviver. Sobrevivemos, mas não como deveríamos ter sobrevivido, entendeu? Eu acho que o professor do Pedrinho ainda é acuado, ainda é/ ainda é assim + digamos + visto como um professor primário, que não é, porque nós temos professores do Pedrinho doutores + mas ele é um doutor diferente do doutor do + Pedrão (Entrevista 6, p.

250).

Entretanto, sabemos também que, apesar da autonomia que foi concedida ao Pedrinho, havia total controle do que ali se passava e já relatamos até medidas tomadas pela Direção Geral para enquadrar professores que destoavam. A própria Ivete conta como um grupo foi

"posto na geladeira". A criação de cargos fora do Pedrinho pareceu encobrir, na verdade, uma tentativa de conter alguns professores que questionavam, davam trabalho se insurgindo contra as medidas institucionais. Sabemos também que, no início, sem a existência do departamento do segmento, o Pedrinho não tinha nenhuma representação nas instâncias do CPII e ficava à mercê do Diretor-Geral. Segundo os relatos, ele sempre se posicionava defendendo o Pedri-nho e muito preocupado com tudo que lhe dissesse respeito, entretanto sabemos também que estar nas mãos de um diretor, para o bem ou para o mal, é sempre uma maneira de não ter (de fato) autonomia, ou ao menos de ter uma autonomia bem relativa.

A fala de Mayara atribui também ao Diretor-Geral uma intenção de inovar o colégio com a criação do Pedrinho. Sabemos que havia necessidade de alguma intervenção que reco-locasse o colégio no cenário educacional e que algumas medidas foram fundamentais para isso. A criação do Pedrinho parece ter sido uma das principais. Entretanto, não nos parece cla-ro que a intenção fosse de renovação no sentido das novidades pedagógicas. Já mostramos em outros momentos o quanto de tensão as novidades trazidas pelo Pedrinho provocaram proble-mas dentro da escola e o quanto a administração oscilava entre permitir inovações e freiá-las, num movimento até compreensível se analisarmos a história institucional e o apreço e com-promisso que as administrações escolares demonstram com a história e a memória do CPII.

Regina aponta algumas dificuldades encontradas pelo corpo docente do Pedrinho (e mesmo do Pedrão) para inovar ainda nos dias de hoje, o que atesta o quanto a tradição do colégio im-perial ainda pesa no discurso e nas práticas escolares da instituição.

Neste tópico procuramos discutir algumas falas que tematizam a influência do Pedrinho no CPII e as diferentes visões que se tem disso. Usamos a expressão de Ivete para caracterizar o Pedrinho como um fato consumado dentro do CPII, o que nos parece claro hoje. No

próxi-mo item vapróxi-mos apresentar e analisar a história do Pedrinho e da crise do CPII contada no do-cumento de 1986 (Palavras do Diretor).

No documento Rio de Janeiro (páginas 126-130)