2. FALANDO SOBRE INSTITUIÇÃO
2.2 Do corpo docente e discente
Nesta seção destacaremos algumas diferenças importantes desse novo grupo de profes-sores em relação à tradição da instituição. Na página do colégio, disponível na Internet (http://www.cp2centro.net/primeira.asp), encontramos, como uma das justificativas para o su-cesso e o destaque da instituição no cenário nacional, o fato de contar com “professores-cate-dráticos de notório saber” (ANDRADE, 2009). Segue-se então uma extensa lista de professo-res que passaram pela instituição dentre os quais Joaquim Manoel de Macedo, Gonçalves Dias, José Oiticica, Euclides da Cunha.
Cunha Júnior (2008), em sua pesquisa sobre o Imperial Colégio Pedro II, destaca que
não foi possível reunir muitas informações sobre os critérios objetivos de contratação dos pri-meiros professores do CPII, no período imperial. Entretanto, afirma que eram nomeados pelo governo nos primeiros 10 anos e que a escolha era feita, inicialmente, pelo então Ministro Bernardo de Vasconcellos. “Os objetivos que o governo imperial almejava a alcançar com re-lação ao CPII e à formação secundária por ele oferecida, exigiam que o corpo docente recruta-do para iniciar o trabalho da instituição fosse criteriosamente escolhirecruta-do” (CUNHA JUNIOR, 2008: 33). E acrescenta ainda que “a formação acadêmica, a erudição e a notoriedade foram os principais critérios que nortearam a escolha de Bernardo de Vasconcellos” (CUNHA JUNI-OR, 2008: 35).
Com a criação do primeiro segmento foi necessário contratar professores de 1ª a 4ª. sé-rie de ensino, cuja formação mínima obrigatória era em nível de 2º. grau, contrastando com o perfil docente da instituição até aquele momento. Alguns dos professores e professoras que chegaram ali, convocados por um concurso público estavam recém-saídos do antigo Curso Normal, sem nenhuma experiência de sala de aula e houve até quem não pudesse tomar posse no cargo devido à idade, tendo que aguardar a maioridade para assumir seu lugar no serviço público federal. É verdade que havia também aqueles que já tinham atuado como diretores de escolas municipais, mas eram minoria. É Ivete quem afirma que só poderia se candidatar a uma vaga para o Pedrinho (no primeiro concurso) quem tivesse menos de 35 anos, excetuan-do-se os que já fossem funcionários públicos. Ou seja, o grupo era heterogêneo, mas predomi-nantemente jovem. E foram esses professores que construíram o Pedrinho, dando início à tra-jetória do novo segmento de ensino. Em quase todas as entrevistas esse aspecto foi ressaltado, creditando algumas dificuldades de relacionamento à diferença existente no corpo docente do Pedrinho em relação aos veteranos do Colégio, acrescido de alguma dose de preconceito. Ve-jamos algumas sequências que falam disso. Ivete destaca que o relacionamento
era muito preconceituoso, “as meninas do Pedrinho” era como nós éramos chamadas, né? E o Tito ficava nervoso com o comprimento das nossas saias, queria que a gente usasse jaleco ((risos)) e olha que numa época em que ninguém andava tão pelada assim, no início dos anos 80. (Entrevista 7, p. 265).
Dalila, que é funcionária técnico-administrativa, diz que as professoras do Pedrinho
"eram + ((riso)) assim + a pior coisa que tinha entrado dentro daquela escola, né? /.../ Primei-ro que entraram meninas muito NOVAS! (Entrevista 5, p. 236)
Procurando ainda caracterizar as diferenças entre os segmentos de ensino, temos neces-sariamente que mencionar o corpo discente. Como já afirmamos anteriormente, o acesso ao
Colégio Pedro II até a criação do Pedrinho se dava apenas por intermédio de rigorosos exames de seleção. Entretanto, já nos primórdios da instituição, no período imperial, havia uma quota de vagas para o acesso de alunos desvalidos, como já relatamos. Cunha Junior apresenta o re-gulamento número 8 de 31/01/1838 no qual são apresentados “os requisitos a serem preenchi-dos pelos jovens candidatos”(CUNHA JUNIOR, 2008: 48). Idade mínima e máxima, saber ler, escrever e contar as quatro operações e atestado de bom procedimento, além do despacho favorável do reitor eram as condições para acesso ao colégio. Mais tarde, implantou-se o aces-so por concuraces-so e, até a década de 70 (do século XX), essa foi a forma de ingresaces-so. A tentativa de implantar outro tipo de acesso, já mencionado por nós, aproveitando-se os melhores alunos advindos da rede municipal de ensino não deu certo, mas mesmo essa forma implicava em se-leção – só os melhores alunos da rede municipal ingressariam no CPII. No primeiro segmen-to, em contrapartida, o acesso sempre se deu por sorteio público, não havendo, portansegmen-to, ne-nhuma espécie de seleção dos estudantes. Entendemos que vem daí a vinculação do discurso de criação do Pedrinho com as origens do CPII quando é mencionado o Seminário. Joana mencionou esse aspecto quando se falou sobre a iniciativa do Professor Tito Urbano de criar o Pedrinho.
Ele era um cara empreendedor+ um cara que batalhava muito porque foi ele que inventou essa história de Pedrinho. Porque ele queria recuperar também a história dos órfãos que o Pedro II teve um momento, né, que tinha a coisa de acolhimento a órfãos e a coisa de trabalhar com a criança de faixa etária /…/
Então ele falava muito disso. Ele SEMPRE falava da história do Pedro II.
Sempre. Recuperava a história do/ Isso é super legal, né? E não é à toa que o Pedro II respira tradição, não é à toa, uma escola fundada pelo Imperador, não tem como você se livrar disso, né? Faz parte aí da/ da/ da instituição, da memória da instituição, do jeito de ser da instituição e você vê isso nos alunos (Entrevista 4, p. 228).
De fato, observamos e temos assinalado o peso que a tradição tem no discurso oficial do colégio e até mesmo na representação que os membros da instituição (docente ou discentes) têm dela. Entretanto, a menção aos órfãos atendidos no espaço físico onde foi criado o CPII adquire um peso quando se fala na criação do primeiro segmento. Há uma busca de resgate dessa gênese para, talvez, tornar a criação do Pedrinho mais familiar e adequada à história do CPII. Mais adiante voltaremos a esse aspecto.
Observando-se ainda a página do colégio, na Internet, logo depois da lista de professo-res, encontramos uma lista de ex-alunos ilustres que são qualificados como “grupo considerá-vel de homens públicos formados pelos paradigmas europeus de civilização e
progresso”(AN-DRADE, 2009). Com a criação do Pedrinho, podemos dizer que o colégio passou a ter seu acesso popularizado de uma maneira mais abrangente, na medida em que, desde o início, o sorteio público foi a forma prioritária de ingresso no segmento, tornando, então, a heteroge-neidade do corpo discente constitutiva do mesmo e não meramente fruto de uma quota. O Pe-drinho já nasce com a marca da diversidade e da heterogeneidade. E parece que até um pouco mais. Regina relata que houve até um convênio com um órgão oficial que atendia menores in-fratores – a FUNABEM. Dado este que, até então, desconhecíamos, mesmo tendo ingressado lá em 1987 e estando na instituição há mais de 20 anos.
O Engenho Novo, a princípio, a história do Engenho Novo, deveria ser um Pedrinho para meninos de rua./.../ É. Porque na época nós tínhamos um convênio com a FUNABEM, FEBEM que era pra meninas, não é isso? E FUNABEM pra meninos. /.../Se eu disser alguma coisa que não esteja dentro dos padrões aí, depois você conserta./.../ Mas então, a Inês, a Inês abraçou essa ideia só que não, não foi possível. Porque aquela história da tradição/ da/ de ser/
de não/ de ser uma escola elitizante, Pedro II é uma escola elitizante, culturalmente, intelectualmente, entendeu? Então a coisa não rolou. Não tínhamos espaço dentro desse contexto de 170 anos, na época 150 pra trazer menino de rua pra cá. Até porque a experiência com a FUNABEM que foi desastrosa./.../ É. Foi desastrosa mesmo. Foi com sofrimento pros alunos da FUNABEM, pros nossos alunos, não, porque eles até ficavam um pouco isolados, mas eles ficaram/ eles sofriam muito (Entrevista 6, p. 254).
E acrescenta que
foi logo na implantação do Pedrinho, em 84. Exatamente coincidiu com a implantação do Pedrinho.
M – Então além do sorteio, teve...
Regina – Não, aí era um convênio a parte. Era um convênio, que nós/ era uma experiência que o Pedro II estava fazendo com alunos da FUNABEM. Tentando integrar esses alunos. /.../ Vieram estudar. Eles tinham turmas só deles. As professoras eram indicadas só para eles, mas foi uma experiência desastrosa. Eu considero assim. Quer dizer, aliás eu quero deixar claro, registrado, que tudo o que eu tô dizendo é uma visão minha. (Entrevista 6, p. 255)
Ivete também destaca que o Pedrinho do Engenho deveria ter um caráter diferente dos demais. Seria uma escola para uma clientela carente, mas que não saiu do papel.
O Engenho Novo tinha um perfil meio CIEP, era pra ser horário integral, era pra ter assistência médico odontológica, blá,blá, blá. Era uma coisa mais assistencialista, mais pra pobre, entendeu, digamos assim. E + e o projeto foi feito nessa linha. /.../ Só que quando abriu, abriu igualzinho aos outros.
M – Pois é, mas aí o que que aconteceu?
I – Nada, o projeto não foi aplicado.
M- Não foi colocado.
I – A gente abriu como uma unidade comum, porque faltou verba, faltou isso, faltou aquilo. A gente abriu uma unidade comum (Entrevista 7, p. 263).
Quanto à forma de ingresso no Pedrinho, segundo o ex-Secretário de Ensino, também houve polêmica. É o próprio entrevistado que relata que a sua proposta foi a que prevaleceu.
Como nós iríamos fazer a escolha das crianças para o Pedrinho? Prevaleceu o meu ponto de vista. Que não se aplicaria bateria de testes. /.../ Por que aplicar bateria de testes? Nós faríamos um sorteio PÚBLICO daqueles que iriam ficar porque eu não acredito nessas baterias de testes porque o garoto que fez a creche lá fora e teve posse, iria levar vantagem em relação àquele pobre coitado que vinha nu+ cru + pra tentar o Colégio Pedro II. Esse + esse sorteio foi uma felicidade muito grande. Por quê? Porque o aluno se inscrevia, o pai inscrevia o aluno, o sorteio era público, com todos os pais presentes assistindo o sorteio (Entrevista 1, p. 195).
Em relação ao currículo da nova unidade escolar é preciso que se diga que foi construí-do pelo grupo de professores recém contrataconstruí-dos. O mesmo processo parece ter se daconstruí-do nos outros segmentos de ensino naquela ocasião, o que se constituiu num movimento de democra-tização do colégio como um todo que redundou nos Planos Gerais de Ensino. Comparamos esse processo ao vivenciado no CPII quando de sua criação no período imperial e mais uma vez citamos Cunha Junior que nos diz que “a estrutura e o conteúdo do Projeto Pedagógico a ser desenvolvido no CPII estavam apresentados no Regulamento n.8. Seu êxito havia sido tes-tado pela experiência e pela prática em colégios de países esclarecidos” (CUNHA JUNIOR, 2008: 30).
No período imperial, o modelo importado acenava com a garantia de êxito aqui no Bra-sil uma vez que já havia sido testado em outros países. França (2008) acrescenta ainda que “o então Imperial Colégio Pedro II, cujo nome vinha homenagear o Imperador menino, no dia de seu décimo segundo aniversário (2 de dezembro), espelhava-se na estrutura do Collège Henri IV, de Paris” (FRANÇA, 2008: 77).
A partir dessas diferenças apresentadas, torna-se necessário destacar alguns outros as-pectos importantes que dizem respeito ao contexto de criação dos diferentes segmentos de en-sino, que procuraremos fazer na próxima seção.
Apresentamos a seguir um quadro que permite visualizar melhor as especificidades dos momentos de criação do Colégio Pedro II e do primeiro segmento de ensino, em particular. O quadro destaca alguns aspectos em que a nova unidade de primeiro segmento se diferencia da
centenária instituição. Procuramos apresentar algumas construções discursivas que se referem ao segmento no tocante aos temas abordados ou então caracterizar de que forma se constituiu a escola destacando aspectos como criação, princípios pedagógicos na criação, corpo docente e discente e formulação do currículo. Logo em seguida, passamos a caracterizar o momento político e social em que o país vivia quando da criação do primeiro segmento.
Colégio Pedro II Primeiro Segmento do CPII
Criação “Em 1837, Bernardo Pereira de Vasconcelos, grande ministro do Império, apresentou à assinatura do Regente Pedro de Araújo Lima o decreto que reorganizava
completamente o Seminário de São Joaquim que recebeu o nome de Colégio Pedro II, em homenagem ao Imperador menino, no dia de seu aniversário – 2 de dezembro.” (PGE 1985)
Portaria No. 51 de 20/2/1984
“Com a denominação de Unidade São Cristóvão II, fica criada, junto à Diretoria-Geral, uma Unidade Escolar específica, incumbida de ministrar o ensino das quatro primeiras séries do 1º Grau.” (PGE, 1985)
Princípios Servir como modelo de instrução pública e atender a elite da época.
Completar o Colégio Pedro II.
formação em nível de segundo grau e experiências variadas no ensino (ou
Solicitação de vaga feita por escrito e posterior decisão do ministro. O custo era alto. Havia vagas para órfãos pobres.
Ingresso por sorteio público.
Quadro 2: Os primórdios do CPII e do primeiro segmento