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AFERINDO O GROUNDING* DE CONTRAPOSSÍVEIS SEM O AUXÍLIO DOS

3 GROUNDING COMO SOLUÇÃO DO PROBLEMA DOS CONTRAPOSSÍVEIS

3.4 AFERINDO O GROUNDING* DE CONTRAPOSSÍVEIS SEM O AUXÍLIO DOS

A questão que se traz à baila é justamente a da necessidade desses mundos impossíveis como primeiro mecanismo de uma argumentação que se baseie em fatos impossíveis ou não ocorridos no mundo atual. Ao serem retomadas as tabelas de mundos onde a verdade de P, Q e da relação de implicação lógica que pode se dar entre os termos, se a trivialidade é evitada com a ampliação do espaço modal, a inteligibilidade das sentenças assim unidas é recuperada apenas quando uma relação mais fina (P⊂Q) é colocada como critério para ordenação. Sem ela, pareceria igualmente plausível a alguém situado em w cogitar como falsa ou verdadeira a implicação sem qualquer orientação acerca do que está assim afirmando.

Em poucas palavras, sem esse critério de ordenação ditado por P⊂Q, a trivialidade da verdade da implicação é afastada, mas o problema atinente à falta de prioridade explicativa entre P e Q não se resolve.

Atente-se aqui para o fato de que se grounding (base da qual se partiu para a proposta de uma subnoção não-factiva como a de grounding*) for tomado em termos estritamente “canônicos” e marcado assim pela necessidade, deve-se admitir que ele não “funcionará” como ferramenta de resolução. Afinal, dificilmente se poderá infirmar

que entre as essências que dariam origem ao impossível desenho de Hobbes e ao espanto das crianças haja uma relação de fundamentalidade explanatória. Mais uma vez, é justamente porque não se dá uma tal relação entre essências que se poderá crivar de falso o exemplo de contrapossível já utilizado à exaustão no decorrer do texto.

Diga-se nesse particular, que o traço da necessidade não é unânime entre os filósofos que tratam do tema grounding. Stephan Leuenberger (2014) apresenta discordância quanto ao ponto, bem sustentando que livre dessa amarra, a noção se credencia como uma ferramenta mais flexível e útil em Filosofia. Parte-se assim dessa mesma premissa para indicar que a necessidade não é um traço que se possa observar em grounding*.

No mais, a utilização da noção sem o recurso a mundos possíveis ou impossíveis inscreve-a como uma concepção neo-atualista da modalidade, acompanhando a linha de entendimento de diversos filósofos, dentre os quais deve- se destacar mais uma vez Fine (1994). Conforme destaca Vetter (forthcoming), o neo- atualismo se caracteriza por não mais atribuir às noções de necessidade e possibilidade como noções primitivas, a partir das quais o arcabouço do cálculo modal é construído. Elas passam a se ajustar a outras noções metafísicias mais fundamentais, sendo certo que no caso de grounding será o conceito de essência ou natureza que determinará como elas se caracterizam. Válida é a transcrição do trecho em que Vetter (forthcoming, pág. 2) aborda tal inversão de perspectiva:

It has long been an unquestioned assumption that necessity and possibility (and, perhaps, the counterfactual conditional) are at the core of the larger modal package, and that other parts of the package have to be accounted for in terms of them. (The ‘conditional analysis’ of dispositions and the ‘modal account’ of essence, both to be discussed shortly, bear witness to this assumption of priority). The new actualists reverse the order of explanation within the broader modal package and claim that it is necessity and possibility (and, perhaps, the counterfactual conditional) that have to be accounted for in terms of some other part of the package.

But why reverse the order of explanation?

The broader modal notions that the new actualists appeal to are typically more discriminating than necessity and possibility: an essence or a disposition is always the essence or necessity of some particular object; a necessity or possibility is not. It is this relativization to objects that makes the notions of essence and dispositionality particularly appealing to the new actualists. Some (such as Kit Fine) argue that the traditional direction of explanation fails to capture the finer distinctions that can be made with a notion such as essence; a natural reaction is to reverse the direction of explanation and begin with essence or dispositionality. Moreover, it seems

that, if modality in general is grounded in essences and dispositions, and thus in properties, of objects, then modality itself is a matter of how things stand with objects; it is anchored in the objects of our world. The new actualism does not reduce modality, it merely locates it in the actual world.

De fato, a reelaboração tardia (posterior aos trabalhos de Bolzano) de

grounding liga o estabelecimento de tal relação a essências ou naturezas dos objetos

que figuram nos fatos por ela ligados, sendo dela decorrente o traço de necessidade que a grava e caracteriza (com a ressalva já estabelecida que grounding* aqui cogitado não ostenta esse atributo da necessidade). Importante deixar claro que mesmo aqueles que apontam a necessidade ou necessitação como característica da relação não lhe reservam um papel mais fundamental que a própria essência, e não postulam o realismo modal para aferição do que seja possível, necessário ou mesmo impossível.

No mesmo texto (Vetter, forthcoming) outras posições neo-atualistas acerca da modalidade são destacadas e tratadas com maior detalhe do que o requerido para os fins desta dissertação. Enquanto Kit Fine constrói a modalidade de modo bastante aristotélico (onde cada classe de conceitos e/ou objetos de nosso mundo contribui para o estabelecimento de um domínio de necessidades e/ou possibilidades – essencialismo de objetos), há aqueles como Michael Jubien que identificam a fonte da necessidade e possibilidade na essência das propriedades (essencialismo de propriedades), e, finalmente, os disposicionalistas que atribuem às essências as disposições, reservado a estas o trabalho modal, como seja o de necessária ou possivelmente produzir uma manifestação x a partir de um dado triggering y. Destaca- se, entre aqueles que defendem o disposicionalismo, Stephen Mumford. Ainda em sede de modalidades aléticas, há aqueles que fundam nas leis da natureza a base para a aferição do que seja necessário ou possível fisicamente. São filósofos que apresentam dissenso em relação aos disposicionalistas, como é o caso de Michael Tooley e Rodrigo Cid (2019).

Dito isso, será realmente que se esteja obrigado a lançar mão do aparato lógico-modal consistente na estipulação de mundos para extrair conclusões fundadas quando se mostra disponível o grounding*? A princípio tudo nos indica que não. Como dito, as pesquisas recentes em torno de grouding não-factivo e suas aplicações em

sede normativa passam ao largo da utilização dos mundos impossíveis69, sendo esse

apenas um dos exemplos que se pode ditar. A proposta de um grounding não factivo que trata da modalidade sem a utilização de uma semântica de mundos ainda credencia quem dela se utilize a adotar uma postura completamente abstencionista em relação a mundos possíveis ou impossíveis, evitando uma relevante querela70.

Dispensável que se cogite a existência de cenários onde hipóteses impossíveis ou não ocorridas estejam presentes para indicar que delas não se segue como conclusão fundada fatos e/ou proposições outras, justamente por não haver entre elas essa relação de explanação que constitui grounding*. Sem uma relação predicativa metafisicamente estabelecida, sem uma relação de explicação entre tais fatos, até mesmo a inteligibilidade das sentenças pode ser colocada em jogo, como por exemplo: ‘a vitória da Viradouro no Carnaval de 2020 se funda no fato de que o número 2 é primo’. A vitória possui uma série de outros fundamentos que em dado contexto de discussão evitam quaisquer considerações matemáticas mesmo verdadeiras. Uma tal afirmativa, além de falaciosa, beira o abuso da linguagem, como alguém que procurasse fundamentos jurídicos para a característica de um genoma.

É nesse sentido que se pode legitimamente afirmar que o já tão batido exemplo de sentença, que propõe uma relação de grounding* é intuitiva e efetivamente falsa:

Subjuntivamente71, o fato de que Hobbes desenhou um círculo-quadrado funda

o fato de que as crianças famintas da América do Sul se assombraram com a descoberta.

Por óbvio não há uma relação de fundamentalidade ou prioridade explanatória entre o primeiro fato (impossível) e o suposto assombro das crianças famintas da América do Sul (ou de qualquer outro lugar). Como grounding* é não-factivo e a princípio não importa se o fato fundante ocorre ou não no mundo atual, impossível que seja, torna-se legítimo prosseguir no exame de sua prioridade explanatória em

90 Berker (2018) apresenta alguns exemplos da utilização de grounding não-factivo que não se servem do expediente dos mundos impossíveis.

70 O abstencionismo é abordado nesta dissertação na subseção 1.2, do capítulo 1, pág. 17 e seguintes. 71 ‘Subjuntivamente’ aqui é utilizado de forma a manter na sentença a conjunção ‘porque’, indicativa da relação de grounding. Sem ela a sentença deveria ser escrita ‘As crianças famintas teriam se assombrado caso Hobbes tivesse desenhado um círculo-quadrado’.

relação à segunda parte da sentença / proposição, quando se constata com facilidade que ela é falha.

A trivialidade da verdade de contrapossíveis é mais do que superada, é esmiuçadamente examinada através de um exame mais fino dos termos em jogo. No caso do exemplo acima, ela é superada e demonstrada como intuitivamente falsa, evitando não só o quod libet como indicando o porquê da falha, como seja a falta de fundamento da afirmação de que crianças famintas se assombrariam com uma fantástica descoberta da Geometria.

Por outro lado, ainda recorrendo a grounding*, ter-se-ia como intuitivamente verdadeira a seguinte afirmativa:

Subjuntivamente, a comunidade científica dos geômetras se assombrou porque Hobbes desenhou um círculo-quadrado.

Nesse outro exemplo, o impossível fato de que Hobbes tenha desenhado uma figura geométrica impossível é tido como fundamento do assombro de uma coletividade de pessoas dedicadas ao estudo da Geometria. Ainda que impossível, há um fundamento razoável para que o assombro dos geômetras ocorra. Sabe-se que é um fato impossível, mas caso ocorresse, certamente despertaria a atenção e o assombro de pessoas dedicadas a tais estudos.

A relação de grounding* serve inclusive para o exame da relação entre impossibilidades nas duas partes da sentença. Pouco importa se ocorrem ou não em mundos pouco ou muito distantes do atual. Nesse sentido o seguinte exemplo:

Subjuntivamente, o fato de que 5 + 5 é igual a onze funda o fato de que se eu possuo cinco dedos em cada mão então eu tenho onze dedos no total.

Nesse caso a ser 11 o resultado da soma 5 + 5 (fato impossível) é licitamente fundadora de outro fato impossível (alguém possuir 5 dedos em cada uma das mãos e onze dedos no total). O exame da viabilidade da argumentação passa ao foco mesmo de uma discussão que deve examinar a ocorrência ou não dos termos jungidos. A sentença que reúne tanto antecedente como consequente impossíveis poderia ser admitida em um jogo de linguagem que discutisse as consequências de

uma impossibilidade patente (no caso a soma de 5 + 5 ser igual a 11), ainda que ad

argumentandum tantum.

Embora aqui se adentre um pouco o foco do quarto capítulo, percebe-se que a simplicidade da solução avulta. Não se faz necessário conceber um espaço-modal ampliado, não se mostra necessária uma ordenação sofisticada dos mundos abrigados nesse espaço modal, não são supostas ou propostas entidades ou gêneros de entidades necessários para a verificação de afirmativas flagrantemente falaciosas ou mesmo verdadeiras, comuns nos jogos diários de comunicação. Ao se evitar a utilização de um conceito, evitadas são também as dificuldades que o acompanham e sua “elegância científica” aumenta. A seguir essas dificuldades e objeções serão expostas rumo a uma conclusão.

4 COMPARAÇÃO ENTRE AS SOLUÇÕES

Cuidar-se-á neste capítulo de empreender uma comparação entre as soluções para o problema dos contrapossíveis propiciadas pelos mundos impossíveis (ampliação do espaço modal) e grounding*. Não se tratará da solução conjuntiva que

insere o grounding como um critério de ordenação de mundos (seção 3.3. supra, pág. 93 e seguintes), pois em verdade apenas conjugaria os problemas teóricos dos dois caminhos: aquele que advogue em seu favor terá a dupla dificuldade de apresentar um modo eficiente e não arbitrário de ordenar mundos possíveis e impossíveis, dar conta de sua natureza sem “inflação” teórica e ontológica, sem contar com todas as dificuldades atinentes às objeções dirigidas ao grounding.

Tendo em mente certa generosidade intelectual em relação às duas soluções percebe-se que ambas enfrentam dificuldades “tópicas”.

Inserem-se nesse conjunto as objeções suscitadas por Williamson (seção 1.7., pág. 36 e seguintes) e mesmo as dificuldades que os não vacuístas (aqueles que não atribuem a falsidade invariavelmente aos antecedentes impossíveis de contrafactuais, e não colapsam todos os mundos impossíveis) enfrentam na ordenação do espaço modal ampliado (o que foi abordado em várias subseções supra, mas de forma mais detalhada na seção 1.7.2 – pág. 39 e seguintes). O que se nota das respostas que os não vacuístas elaboram em defesa de sua tese importa na reforma ou reordenação crescente de outros ramos da Filosofia. Tudo deve ser “rearrumado” para acomodar essas entidades atraídas a princípio para a solução de um problema semântico.

Há algo que se insinua no porquê dessa necessidade de “reacomodação” de conceitos e adoção de versões particulares em outros campos do conhecimento, como por exemplo, uma versão própria de bidimensionalismo epistêmico demandada pela solução de Brogaard e Salerno para evitar o vacuísmo dos contrapossíveis (mais uma vez, vide seção 1.7 supra, página 35 e seguintes). É justamente a introdução de entidades fundamentais e por tudo anômalas para a solução de problemas com dimensões semânticas e ocorrência comum em discussões e concepção de hipóteses para os estados de coisas que nos cercam.

É bem verdade que problemas tópicos são igualmente enfrentados por

grounding seja nos diversos puzzles concebidos para desnudar a incompatibilidade

de sua linguagem, incoerência e caráter infrutífero (se bem sucedido talvez este trabalho contribua para aumentar o número de aplicações que bem se servem da noção para solucionar problemas: afinal grounding* é um subtipo de grounding). No

entanto, como indicado na bibliografia que serviu de base para a seção 2.5. supra (página 60 e seguintes), percebe-se que filósofos como Raven e Fine já responderam os problemas colocados, sendo certo que, como já assinalado, a construção de uma Lógica própria de grounding e a apreensão correta de suas propriedades permanece como um debate aberto inserido na pesquisa filosófica.

Outro traço negativo ostentado pela solução calcada em mundos impossíveis é o de que ele supõe algo intuitivamente estranho aos utentes da linguagem natural, ou mesmo em máquinas ou algoritmos que se dedicassem a um exame de termos jungidos em implicação. É completamente inusitado ou pelo menos incomum que alguém recorra primitivamente à construção de uma totalidade impossível para a elaboração de hipóteses tais. Esse mesmo inconveniente não é apresentado por

grounding, que se insere mais naturalmente numa atividade humana investigativa de

razões.

Aí se insinua aquilo que se destaca negativamente no que diz respeito à ampliação do espaço modal é essa objeção a mais genérica e, no entanto, mais direta e incontornável. Sustentar mundos impossíveis (concretos ou não) representa um completo contrassenso em relação ao mandamento da economicidade de uma teoria.

Fora as críticas genéricas e os problemas admitidos até mesmo pelos não-

vacuístas e defensores da solução proporcionada pelos mundos impossíveis, pertinente se faz essa crítica que antecede mesmo a formulação daquelas acima expostas. Será mesmo necessária uma ampliação tão radical do espaço modal, ou mesmo que se lance mão do mesmo para a resolução dessa trivialidade da verdade baseada no ex falso?

É certo que tais filósofos não pretendem fazer com que sua solução dependa da natureza atribuída aos mundos possíveis e / ou impossíveis para funcionar. No entanto, emergiria muito claro, até mesmo para quem não possua uma grande familiaridade com textos metafísicos, que esses mundos possíveis e impossíveis, abstratos ou concretos, constituem-se de conjuntos maximais de sentenças, fatos, proposições em tudo estranhos (porque não ocorridos no mundo atual), concebidos exclusivamente para propiciar uma saída de um problema local, em boa parte já

desnudado por perplexidades de linguagem. Eles são infinitudes concebidas para solução de problemas locais.

Em poucas palavras, mundos impossíveis (assim como mundos possíveis) são muito para supor, demandam um ônus muito pesado de demonstração e elucubração conceitual para solucionar a trivialidade da verdade dos contrapossíveis. Ressalte-se que seus usos são múltiplos e que a presente investigação não pretende sua eliminação completa, ou substituição em todas essas hipóteses.

Não se quer aqui afirmar que bastaria o recurso a um indeterminado senso

comum, mas de início apontar o custo teórico da assunção da existência não só de

fatos ou proposições verdadeiras em mundos outros, mas a quantidade de fatos e entidades que são necessários para a construção e a dificuldade de sua correta conceituação.

Seja o número de fatos e entes necessários para a solução, seja sua correta conceituação, tudo leva a considerar como antieconômica a tese. De um ponto de vista de economicidade bem tradicional esses conjuntos maximais infringem claramente o princípio ditado pela “navalha de Ockham”: há outras maneiras de tratar da modalidade sem o recurso à semântica de mundos, e a proposta constante deste trabalho se insere como mais uma opção, permitindo que até em termos de impossibilidades possa ser aferida a relação fundamentalidade dos termos conectados em implicações contrafactuais.

No que toca a sua singela cardinalidade, há uma multiplicação despropositada de entidades várias (ainda que alguém que advogue em favor da solução dos mundos impossíveis considerasse que tais mundos abrigassem apenas objetos e propriedades) que não exercem qualquer papel decisivo fora do cálculo modal. São irrelevantes no que diz respeito à prioridade explanativa dos termos discutidos ou contrafactualmente relacionados. Essa mesma crítica é encontrada em artigo de Schaffer (2015):

Similarly, if Clare posits only the actual concrete cosmos, and David — I have in mind David Lewis, of course — posits infinitely many possible concrete cosmoi, then David’s theory does feel less economical. Overall, token numbers do not seem to matter when the ratios are small (e.g. 1,736,549 electrons versus 1,736,550 electrons), but do seem to matter when the ratios are large (e.g. one versus infinitely many cosmoi). This is perplexing. (pg. 646)

Em verdade essas outras entidades (sejam objetos, propriedades, fatos, sentenças) possuem o potencial de tornar complicado e levar a perplexidades na ordenação dos mundos considerados no espaço modal ampliado. Sua multiplicação não se mostra assim como violação sem sanção do princípio de Ockham: considerá- las atrai problemas cujo enfrentamento demanda engenhosidade.

As dificuldades de ordenação de tais mundos a partir de sua maior ou menor semelhança é o inconveniente típico dessa “inflação” conceitual e ontológica. Com “peças demais sobre o tabuleiro” emerge tormentosa a tarefa de sua ordenação e o controle dos resultados obtidos quando comparados àquilo que nos forneceria a linguagem ou a dissecção dos fatos enunciados segundo a implicação.

Com foco na antieconomicidade da solução ampliativa propiciada pelos mundos impossíveis, parece que ela não se sustenta diante de nenhum critério clássico ou contemporâneo cogitado em Metafísica. Mesmo com base na proposta de Schaffer (2015), parece haver uma multiplicação qualitativa desnecessária de entidades para a solução do problema dos contrapossíveis. Essas entidades fundamentais (termo que aqui pode ser lido tanto no sentido de sua funcionalidade interna na solução ampliativa do espaço modal como numa acepção puramente metafísica), no caso os mundos, encerram-se numa categoria especial que também onera a economicidade qualitativamente. Trata-se de uma opção que permite simplesmente dispensar seu uso, adotando aquilo que se chama de abstencionismo em relação à realidade de mundos distintos do atual. A adoção de realismos ersatz, abstracionismos e ficcionalismos atrai críticas pesadas e ensejam questões que não se resolveram entre os próprios filósofos que há décadas se ocupam do tema.

No mais, como já dito anteriormente a conjugação de um espaço modal ampliado com grounding como critério de ordenação de mundos apenas nos traria uma soma de problemas, sem vantagens. Seria apenas acrescido mais um critério de ordenação a outros tantos formulados pelos autores que competentemente vêm se dedicando ao assunto.

Quanto ao mais, a natureza especial dos mundos (conjuntos maximais de objetos e propriedades, fatos, proposições compossíveis) não permite que sejam assimilados aos demais conjuntos. Eles se encerram numa categoria própria e que se