CAPÍTULO III O Estado-Nação
B. Alexis de Tocqueville: a democracia liberal
Tocqueville descobriu a democracia na América. Talvez resida nisso a origem da extraordinária perspicácia de suas análises, mas também a causa de suas limitações. A interpretação de sua obra, de resto, põe um certo número de dificuldades' metodológicas, bem evidenciadas por Raymond Aron (cf., em particular, Les éiapes de Ia pensée sociologique, Gallimard, 1967).
Com efeito, se combinarmos certos capítulos de Da democracia na América, onde Tocqueville traça o retrato de uma sociedade particular, a sociedade americana, e de O antigo regime e a Revolução, onde ele tenta analisar uma crise histórica, a Revolução Francesa, pode-se perceber que ele se dedica à constituição de um "tipo", a sociedade democrática, a partir do qual são deduzidas as tendências possíveis da sociedade futura. Mas, dado que certos traços estruturais da sociedade democrática podem ser ligados às particularidades da sociedade americana, enquanto outros são extraídos da essência de qualquer sociedade democrática, subsiste uma incerteza quanto ao grau de generalidade das respostas dadas por Tocqueville, as quais parecem ser ora da ordem da tendência, ora da ordem da alternativa. Quando Tocqueville opta nitidamente pela alternativa, então teremos ou que a sociedade democrática será despótica, ou que ela será liberal; o modelo americano que o ,inspira impede-o certamente de imaginar o frágil, mas original, modo de desenvolvimento democrático que é próprio das sociedades européias.
De qualquer modo, a superioridade' de Tocqueville sobre Benjamin Constant e sobre o conjunto dos liberais de seu tempo consiste em que ele põe como inelutável e irreversível o próprio fato democrático:
"Uma grande revolução democrática se opera entre nós; todos a vêem, mas nem todos a julgam do mesmo modo. Uns a consideram como coisa nova e a tomam por um acidente; têm esperança de poder ainda detê-la. Já outros a consideram irresistível, porque ela lhes parece ser o fato mais contínuo, mais antigo e mais permanente que se conhece na história" (Da democracia na América).
Mas é preciso especificar imediatamente que, para Tocqueville (e nisso reside sua plena originalidade), esse fato democrático é definido a partir da noção de igualdade:
"O desenvolvimento gradual da igualdade das condições, portanto, é um fato providencial, cujas principais características são: é universal. duradouro, escapa a cada dia do poder humano. Todos os eventos, assim como., todos os homens. servem a seu desenvolvimento." Nos Estados Unidos, esse desenvolvimento da igualdade de condições é associado aos mecanismos da liberdade política. Assim, por exemplo, os americanos conseguiram estabelecer as instituições concrdas da soberania popular, que nenhuma aristocracia tentou frear. Decerto, inicialmente, escolheu-se no mais das vezes um regime eleitoral censitário, mas, ao contrário de Benjamin Constant, Tocqueville vê em tal regime tão-somente uma etapa para a soberania popular: "Quando um povo começa a tocar no censo eleitoral, pode-se prever que ele chegará, num prazo mais ou menos longo, a eliminá-la completamente. Trata-se de uma das regras mais invariáveis que regulam . as sociedades (...)". Mas o importante é que a soberania popular aparece como uma instituição concreta e não, como na Europa, como uma perigosa ficção:
"A vontade nacional é uma das palavras de que os intrigantes de todos os tempos e os déspotas de todas as épocas mais amplamente abusaram. Uns viram sua expressão nos sufrágios acabados de alguns agentes do poder; outros nos votos de uma minoria interessada ou temerosa; há mesmo quem a descobriu inteiramente formulada no silêncio dos povos e pensou assim que, do fato da obediência, nascesse para eles o direito de comando."
Às instituições concretas da soberania popular, os americanos acrescentam uma outra vantagem: a de uma Constituição federal, que permite combinar os méritos das grandes e das pequenas nações: "A União é livre e feliz como uma pequena nação; gloriosa e forte como uma grande." Tocqueville insiste também fias conseqüências positivas de uma liberdade de associação ilimitada tanto política como civil:
"A primeira vez que ouvi dizer. nos Estados Unidos, que cem mil homens se haviam comprometido publicamente a não beber licores fortes. a coisa me pareceu maIs divertida do que séria e não vi bem. num primeiro momento, por que esses cidadãos tão temperantes não se contentavam em beber água no seio de suas famílias. Terminei por compreender [...1 que eles haviam agido preci-
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samente como um grande senhor que se vestisse muito humildemente, com o objetivo de inspirar nos cidadãos simples o desprezo pelo luxo."
Ora, nos países democráticos, as associações são particularmente capazes de frear os efeitos funestos da igualdade condições, sem de tentar contrariar o desenvolvimento dessa igualdade:
"São as associações que. entre os povos democráticos, devem assumir o lugar dos particulares poderosos que a igualdade de condições fez desaparecer."
E Tocqueville enumera e analisa vários traços próprios às instituições e. aos costumes americanos, que lhe parecem se orientar todos nesse mesmo sentido: associar, combinar igualdade de condições com liberdade. Se o desenvolvimento da democracia na Europa não atingiu o mesmo estágio, nem por isso deixa de ser menos inelutável. E Tocqueville busca suas causas, principalmente para a França, na história do Antigo Regime e da Revolução. Se o fato democrático desenvolve-se nesse país de modo convulsionado e contraditório, é preciso ver nisso, principalmente, o deito da centralização administrativa e da divisão das classes, que levaram ao estabelecimento de instituições incapazes dessa combinação entre liberdade e igualdade.
Ao promover o processo da Revolução na Europa, Tocqueville apresenta uma impiedosa diatribe contra a monarquia do Antigo Regime. Assim, a centralização que se cobre com as cores da Revolução é, em primeiro lugar, uma obra do Antigo Regime. Com extraordinária acuidade, Tocqueville descreve os mecanismos da tutela administrativa ("se a insolência da palavra não havia ainda sido produzida, tinha-se pelo menos a coisa"), da justiça administrativa que impunha a garantia dos funcionários graças ao poder dos Conselhos do Rei, da centralização urbana; e insiste no nascimento dessa formidável burocracia por intermédio dos Intendentes. Em suma,
"se a centralização não pereceu absolutamente com a Revolução, foi porque era, ela mesma, o começo da Revolução e o seu signo [...]".
Acrescenta-se a isso o fato de que a aristocracia européia nada compreendeu da inelutabilidade do fato democrático e tentou opor-se a ele, constituindo-se em "casta" zelosa de seus privilégios e capaz somente de aumentar a irritação das outras classes, compostas, por sua vez, de grupos corporativos separados e fechados em si mesmos. Assistia-se, observa Tocqueville, a uma "espécie de individualismo coletivo,
que preparava as almas para o verdadeiro individualismo que conhecemos", e, finalmente, "a divisão das classes foi o crime do antigo reinado e tornou-se mais tarde a sua desculpa [...] ".
A Revolução não fez mais do que acentuar essa combinação importada do Antigo Regime entre a democracia e a ausência de liberdade política, generalizando-a para o conjunto dos costumes, de modo que a democracia - se é nos Estados Unidos um regime de liberdade - é na Europa um regime de servidão.
Para além dessa constatação, Tocqueville evita combater o fato democrático europeu. Aqui, como em outros lugares, "querer 'parar a democracia é algo semelhante a lutar contra o próprio Deus", Ao contrário, é preciso tentar "instruir a democracia"; é preciso "uma ciência nova para um mundo inteiramente novo" (Da democracia na América).
Fenômeno inelutável, a igualdade das condições faz com que se corram perigos igualmente inelutáveis, Mas "não creio que sejam insuperáveis", afirma Tocqueville, já que
"as nações de nossos dias não podem fazer com que as condições não sejam iguais em seu seio; mas depende delas .que a igualdade as conduza à servidão ou à liberdade, às luzes ou à barbárie, à prosperidade ou à miséria",
Na realidade, e independentemente do que se possa dizer, o otimismo de Tocqueville é muito moderado. Os remédios que propõe a seus contemporâneos para que se orientem no sentido de uma democracia "liberal" são extraídos da experiência americana. Assim, ele insiste particularmente na necessidade de desenvolver um poder judiciário forte e independente, de suscitar a constituição de associações diversas ou, ainda e sobretudo, de buscar todos os meios para obter uma centralização eficaz:
"É no município que reside a força dos povos livres. As instituições municipais são para a liberdade o que as escolas primárias são para a ciência [o..]. Sem instituições municipais, uma nação pode se dar um governo livre, mas não possuI o espírito da liberdade."
A lição, para os tempos modernos, parece insuperável:
"E eu digo que para combater os males que a igualdade pode produzir, há apenas um remédio eficaz: é a liberdade política."
Todavia - e nisso reside, ao mesmo tempo, a ambigüidade e a riqueza de toda a análise de Tocqueville -, parece que são as próprias
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condições de desenvolvimento da igualdade que contribuem para destruir as condições da liberdade política. Lendo-o, fica-se ainda mais convencido de que a democracia será despótica.
Individualismo e materialismo caracterizam a sociedade democrática moderna, e preparam o leito para o poder despótico. A centralização não faz mais do que aumentar e a revolução industrial leva o intervencionismo estatal a se expandir. Também aqui, os pontos de vista de Tocqueville são mais lúcidos e mais pessimistas do que os de Constant:
a propriedade industrial dá à luz lima classe que tem necessidade, mais do que as outras, de ser "vigiada, regulamentada, contida"; e, por conseguinte, é inevitável que "as atribuições do governo cresçam com ela"; a "indústria traz o despotismo em seu seio, e esse se amplia naturalmente à medida que ela se desenvolve". O intervencionismo econômico não basta: '''O Estado é levado a se ocupar da caridade e da religião, cujo pessoal é por ele pago, cujos padres são por ele mantidos; ele os controla não somente do ponto de vista da organização, mas como o domínio do temporal é por vezes difícil de ser distinguido do espiritual - o Estado chega a se imiscuir no dogma, e, desse modo, controla a alma de cada homem até no seu elemento mais profundo." À medida que as condições se equalizam, "os indivíduos parecem menores e' a sociedade, maior": "A unidade, a ubiqüidade, a onipotência do poder social, a uniformidade de suas regras, formam o traço saliente que caracteriza todos os sistemas políticos gerados em nossos dias. " E a democracia pode evItar o despotismo em medida ainda menor porque o fato igualitário é também o resultado de uma paixão: ardente, insaciável. Doravante, os povos democráticos
"querem a igualdade na liberdade e. se não podem obtê-la, querem-na até mesmo na escravidão. Padecerão a pobreza, a servidão, a barbárie, mas não padecerá a aristocracia".
Tocqueville expõe, com a maior sutileza, os dados de uma aliança conflitual entre liberdade e igualdade:
"Eles haviam querido ser livres para poderem se fazer iguais; e, à medida que a igualdade se estabelecia melhor com a ajuda da liberdade, tornava-lhes a liberdade mais difícil."
INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS
Alcxis de TOCQUEVILLE (1805-1859). (Euvres completes, sob á direção de JohnPeter Mayer, Gallimard, 1951-1978. 18 volumes publicados. .
De Ia démocratie en A mérique (1835), Gallimard. cal. "Idées", 1968 [ed. brasileira: A democracia na América, Itatiaia, Belo Horizonte, 19641.
L'Ancien Régime et la Révolution (1856), Gallimard. cal. "1dées", 1975 [ed. brasileira: O Amigo Regime e a Revolução, Ed. da Universidade de Brasília, Drasilia. 1982].
CAPÍTULO IV