O monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh escutou a oração gestáltica de Fritz Perls que citei e decidiu escrever uma nova oração que a completasse. Intitulou-a “Inter-relações”:
Você sou eu, e eu sou você.
Não é evidente que nós intersomos? Você cultiva a flor que há em você, para que assim eu seja lindo.
Eu transformo os desperdícios que há em mim, para que assim você não tenha que sofrer.
Eu o apoio; você me apoia.
Estou neste mundo para lhe oferecer paz; você está nesse mundo para me trazer alegria.
Esse poema está voltado para o você, cuidando daquilo que é amoroso e relacionai, estendendo-se à consideração de um nós, pontuando o cuidado do outro muito mais que os próprios limites pessoais e enfatizando a mutualidade e a interdependência.
Quando observamos nosso relacionamento afetivo, temos de nos perguntar do quanto necessitamos nos assegurar por meio do “eu sou eu e você é você” (o que significa ter um “eu” forte) e quanto por meio do “você sou eu e eu sou você” (e, dessa maneira, dissolver esse “eu” para podermos nos encontrar no você, no nós). Porque quem grita “eu!” muito alto normalmente precisa aprender a sussurrar e a reconhecer o você, e quem grita o você e o nós com excessiva veemência necessita escutar o próprio eu. Sabemos que uma grande paz nos alcança quando conseguimos ser um e descansar na unidade. Por isso, algumas tradições espirituais afirmam que o homem e a mulher são uma só carne e transcendem o dual. Quando assim sentimos, experimentamos de novo a união. E, embora seja um pouco atrevido dizer, na unidade estamos em consonância com o Espírito Criador, pois ele se faz presente por meio daquele que foi criado e por meio da união de um homem e uma mulher para que a vida siga seu curso.
O relacionamento é sagrado porque fertiliza, cria e impulsiona a vida. A felicidade que pode outorgar ao eu pessoal procede do alinhamento do relacionamento afetivo com os movimentos da vida. Portanto, quanto mais penso na ideia de que o relacionamento afetivo, ou qualquer outro modo de relação, deveria nos fornecer felicidade, mais estranha e ilógica a considero. Por que o companheiro haveria de nos dar alguma coisa? A lógica de sermos nutridos por outros acentua a centralidade do eu, da individualidade; dá por certo que o mais importante, o centro do universo, somos nós mesmos, e que o companheiro, os outros, a natureza, devem servir ao propósito de que nossa pessoa esteja bem. Não é igualmente válido pensar que somos nós que devemos dar algo ao companheiro, à sociedade ou ao mundo, e não o contrário? Não é belo pensar que o
relacionamento serve à vida e, dessa maneira, sintoniza -se com o mistério perpetuado pelos séculos dos séculos? Se tomarmos o relacionamento afetivo do ponto de vista espiritual, são os indivíduos que servem a ele, e não o contrário. E, em um plano mais profundo, o relacionamento serve à vida. Nesse olhar, o eu se faz pequeno e a importância que concedemos ao individualismo na sociedade atual se torna irrelevante. O casal está tocado, aqui, pela melodia da alma. Nela podemos sentir que somos ultrapassados por algo maior, por uma união transcendente, pois o relacionamento é aqui um caminho de transcendência para nosso pequeno eu. Como nos diz Bertrand Russell: “Na união do amor vi, em uma miniatura mística, a visão antecipada do céu que imaginaram santos e poetas”.
A questão, de qualquer maneira, é chegar ao amor que nos faz bem, que se reconhece porque nos sentimos reais, abertos, respeitosos e somos mais e mais felizes. Bert Hellinger aponta três componentes da felicidade no relacionamento, em forma de “palavras simbólicas concentradas”. Seriam três expressões “mágicas” que abrem as portas da felicidade no relacionamento: “sim”, “obrigado” e “por favor”.
O “sim” é a chave-mestra, o grande afirmativo da existência, e, quando sentimos o “sim” em relação a um companheiro, damos a ele o que mais peremptoriamente todos necessitamos: amar o outro como ele é e sermos amados como somos. E quando nosso companheiro sente o sim em relação a nós, sentimo-nos profundamente vistos, comovidos e abertos. Esse sim significa: “Aceito-o tal como você é”, “Aceito o que o configura tal como é, e não pretendo que seja diferente”. Eu me ilumino, comovo, abro meu coração para seu ser. Quando isso ocorre com um casal, ambos se sentem leves, expandidos, luminosos e elevados. Imaginemos agora o contrário: por exemplo, que a mensagem que recebemos ou damos a nossos companheiros é, direta ou indiretamente, “Não gosto de como você é; você tem que mudar para se ajustar a minhas imagens de como deveria ser”. Então, o coração se encolhe. Ao contrário, quando experimentamos a vivência de: “Aprecio quem você é, aprecio que esteja aí, o que você vive me concerne”, a relação muda completamente e aumenta o nível de bem- estar.
Imaginemos também que nosso companheiro sorri para nós, ou sorrimos para ele, como se disséssemos “Obrigado”: obrigado por existir ou obrigado por estar aqui, obrigado por nosso encontro, nosso caminho, por me amar, por ser como você é, por nossos frutos... Acho que pouca s coisas fazem tão bem como a gratidão. Ela amplia e estende o coração de quem a dá e de quem a recebe. Pode haver algo mais bonito e feliz no relacionamento que nos sentirmos gratos? E certamente não só no relacionamento, mas também com os pais, com a vida, com as pessoas que nos cercam etc.
E, quando sentimos e dizemos “por favor”, então arriscamos e nos aproximamos do outro com nossa ternura, nossa vulnerabilidade, nossa mais profunda humanidade, oferecendo-lhe nossa fragilidade, nossa pele sem durezas. E, ao arriscar, podemos ser recompensados com o mel do encontro verdadeiro, despojado de representação de papéis, formalidades e vestes.
O amor que nos faz bem é composto de sorrisos. É um constante sorriso interno perante o outro, mesmo nos momentos de atrito, desacordo e turbulência. Um psicólogo norte-americano filmou diversos casais, propondo que permanecessem trancados durante um dia inteiro em um quarto, sem distrações, evitando suas distrações habituais, aquelas com que evitam se comunicar e encarar seus assuntos, para poder, assim, observar sua comunicação e seu funcionamento. Depois de um tempo, ele adquiriu tal destreza que era capaz de prognosticar se um casal continuaria junto ou não depois de observá-los por dez minutos. Percebeu que a variável determinante para os casais que seguiriam juntos era o reconhecimento, visto que se escutavam, que se correspondiam, levavam-se em conta e não deixavam de dar sinais de consideração, de que o outro era importante: um sorriso, um olhar, um gesto, um comentário etc. Não se evitavam nem se ignoravam, havia feedback. Apesar das dificuldades que podiam atravessar, continuavam se reconhecendo e confirmando um ao outro e se davam indicadores não verbais do tipo “dançamos juntos”.
O amor que nos faz bem, como vimos nos capítulos dedicados às Constelações Familiares, está baseado na ordem, no equilíbrio, no olhar
dirigido à vida, na abertura do coração. É uma relação entre adultos bem apoiados em si mesmos e em sua história familiar, que puderam dar bálsamo a suas feridas e curá-las. O amor que não nos faz bem é justamente o contrário: as complicações e os jogos psicológicos. É cego porque, em vez de ver o que existe e integrá-lo, obstina-se no que gostaria que existisse e briga. Os filhos, por exemplo, por amor que não nos faz bem ou amor cego infantil, assumem dores ou culpas ou doenças dos pais, com a ideia de que é possível para eles carregá-las em seu lugar. O amor que não nos faz bem se sacrifica por outros em vez de respeitá-los, ou se volta ao sofrimento em vez de à vida, o que cria pautas interpessoais que não trazem felicidade. Vi casais nos quais um dos dois não quer viver, por exemplo, ou se sente deprimido e sem vida, e o outro se zanga ou até o agride em uma tentativa desesperada de que viva e se agarre à vida. Uma vez, trabalhei com uma mulher que havia sobrevivido a um atentado terrorista e se sentia mais unida às vítimas que à vida, como se não sentisse o direito de continuar vivendo. Sofria uma forte depressão e não conseguia entender a violência que despertava em seus filhos e seu marido, por meio da qual eles exigiam desesperadamente que ela se levantasse e vivesse.
No amor que nos faz bem, um mais um somam mais que dois. No amor que não nos faz bem, um mais um somam menos que dois. Alguns casais conseguem estabelecer entre si pautas de troca e de convivência que os nutrem, enriquecem e multiplicam. Outros se ancoram em pautas que os empobrecem e geram tensão. A chave que faz a diferença consiste, como dizíamos, no fato de que os casais que se nutrem sabem expressar de muitas maneiras o reconhecimento pelo que o outro lhe dá e pelo que faz por ele, de modo que convidam a fortalecer o ciclo de dar e receber.
O amor que nos faz bem sempre milita no respeito e na igualdade de categoria, o que quer dizer “Sou como você, nem melhor nem pior”. O amor que nos faz bem tem os olhos abertos: é aquele capaz de olhar e ver a realidade, respeitá-la e aceitá-la. Nesse sentido, o amor que nos faz bem pelos pais é aquele que os aceita e ama, com suas imperfeições, com su as culpas e sofrimentos. E isso também serve para o casal.