CAPÍTULO 4: OS DISCURSOS DESVELADOS: A MANIFESTAÇÃO
4.1 Os discursos da Folha de S.Paulo
4.1.2 Análise das capas da Folha de S.Paulo
No caso da análise das capas de Folha de São Paulo, foram selecionados seis dias, respectivos aos dias nos quais foram publicados os editoriais, assim como os dias anteriores e posteriores, a fim de capturar a possibilidade de alguma alteração nos posicionamentos. Isso significa que nesse trecho, nosso corpus é composto pelas publicações dos dias 12, 13, 14, 19, 20 e 21 de junho. No caso da Folha de S.Paulo, também faz parte de nossa análise as capas do caderno Cotidiano, editoria na qual as matérias foram publicadas. Para que haja maior dinâmica na leitura deste trabalho, teremos como base os tópicos de análise e objetos discursivos, separando o conteúdo em dois blocos dias 12, 13 e 14; e 19, 20 e 21, períodos que possuem como referência os editoriais selecionados.
Nos dois primeiros dias, os manifestantes foram apresentados como protagonistas da ação violenta, as manchetes “Contra tarifa, manifestantes vandalizam centro e Paulista” (ANEXO VI) e “Governo de SP diz que será mais duro contra vandalismo” (ANEXO VIII), não realizam distinções entre os participantes,
criminalizando de maneira geral as manifestações e seus atores. No dia 12, a foto- legenda que estampa a capa da publicação, coloca-se em oposição a um grupo de manifestantes em frente uma barricada ateada de fogo e traz como descrição:
“Militantes interditam a Avenida Paulista em manifestação contra o aumento das tarifas do transporte em São Paulo; foi o terceiro confronto com a polícia em menos de uma semana”. (CONTRA, 2013, p. A1)
O discurso apresentado se assemelha com a imagem da irracionalidade que viria a ser expressa no editorial “Retomar a Paulista”, no dia seguinte. Na imagem é possível verificar jovens encapuzados, que mais tarde também viriam a ser citados nas linhas do editorial.
No texto os manifestantes são apresentados como os agentes da ação violenta, apesar de existir pelo menos duas versões do fato, a dos manifestantes que acusavam a polícia da violência e a dos policiais que afirmavam o inverso. A Folha de S.Paulo adota o discurso do segundo grupo. Os trechos “manifestantes
voltaram a entrar em confronto com a polícia”; “manifestantes queimam ônibus e depredam bancos e metrô no centro”; “os manifestantes lançaram pedras e paus contra a PM”; “outro grupo de manifestantes invadiu o terminal [Pq. Dom Pedro II] e pichou ônibus”; e “Também quebraram orelhões, lixeiras e as entradas das estações de metrô”, (CONTRA, 2013, p. A1) trazem uma cenografia da violência propagada
pelos manifestantes, de maneira geral, tendo a violência policial como uma reação. O argumento da falta de controle foi utilizado como explicação, e consecutiva caracterização do MPL, em alguns dos trechos nos quais o movimento é citado em terceira pessoa “Grupo culpa violência da polícia e admite que perdeu controle.
PM diz ter sido alvo de coquetéis molotov” (CONTRA, 2013, p. A1) acabam por dar
caráter exclusivo aos manifestantes pela ação violenta, já que o primeiro grupo realiza uma admissão de culpa.
Uma suposta contradição do Movimento Passe Livre também marca forte presença na cenografia apresentada pela Folha de S.Paulo, em dois trechos específicos. “O ato foi organizado pelo Movimento Passe Livre, que se diz apartidário.
Mas contou com a participação de partidos políticos de esquerda e movimentos
anarquistas” e “O grupo protesta contra a alta de R$ 3 para R$ 3,20 nas passagens,
mas tem como bandeira a adoção da gratuidade no transporte público”.
A imagem das ações violentas, tendo os manifestantes, e consecutivamente o MPL, assim como a ideia de contradição expressa como o jornal coloca o movimento em cena, acaba por deixar em terceiro plano a declaração da manifestante que apresenta a repressão violenta da polícia como causa para as manifestações.
Figura 3 - Capa Folha de S.Paulo, 12 de março de 2013.
Fonte: Acervo Digital da Folha de S.Paulo, acesso em 10 jan. 2018.
Já no dia seguinte, os manifestantes protagonizam a foto-legenda, porém presentes como uma ameaça que encurrala o policial ferido na frente do prédio de Prefeitura de São Paulo, que sem alternativas reage. Na legenda: “Ferido, policial
militar Wanderlei Vignoli agarra militante e aponta arma a manifestantes para evitar que fosse linchado no protesto de anteontem em SP; um dia depois, ele disse que teve medo de morrer ao ser cercado” (GOVERNO, 2013, p. A1) dois elementos
acabam por chamar atenção, a temporalidade da fotografia, que não se remetia ao dia anterior, mas sim há dois dias, assim como a dramaticidade da história do policial ferido, a ideia do medo do policial, assim como sua foto ensanguentada, busca dar a esse agente a imagem de vítima.
A cenografia continua sendo desenhada tendo como pano de fundo o vandalismo, no texto de abertura da capa principal os manifestantes são colocados na posição de “‘baderneiros’ e ‘vândalos’”, em fala do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Porém, o jornal realiza um maior equilíbrio entre manifestantes e policiais, destacando também uma variação de perfil dentre manifestantes que haviam sido presos “Ontem, 13 manifestantes ainda estavam
presos. O grupo, heterogêneo, tem de moradores de Alphaville a residentes
em Pirituba. Só dois são estudantes”. (GOVERNO, 2013, p. A1). Pela primeira
vez a cenografia abre espaço para a possibilidade de uma imagem de distinção entre os manifestantes.
Figura 4 - Capa Folha de S.Paulo, 13 de março de 2013.
Essa vitimização das forças policiais é alterada logo no dia seguinte, 13 de junho (ANEXO VIII), quando da violência policial generalizada frente os manifestantes e jornalistas. Realizando praticamente um giro de 180º na cenografia apresentada, colocando os policiais como os agentes da violência durante os protestos. Pela primeira vez os manifestantes são retirados de cena, como agentes promotores da violência. Podemos dar destaque para os excertos “PM CERCA MANIFESTANTES
E USA BALAS DE BORRACHA (...)”; e “Policial agride casal que tomava cerveja em bar na Avenida Paulista, próximo ao Masp, ontem à noite, e recebeu ordem para que deixasse o local”, (POLICIA, 2013, p. A1) legenda da foto que estampa a capa
principal da publicação. Além do ato explícito de violência do policial contra um casal, não identificado como parte das manifestações. Apesar da violência ainda ser a tônica do discurso, elemento que discutiremos mais adiante, os agentes trocaram os papéis como protagonistas da ação.
A Polícia Militar de São Paulo é apresentada como principal causadora das cenas de violência. Na cenografia aparece pela primeira vez a imagem de pessoas que não faziam parte das manifestações e saíram feridas, dando destaque a figura dos profissionais da imprensa, inclusive Giuliana Vallone, repórter do próprio jornal, que aparece com o olho o sangrando em uma das fotografias, com a manchete de que mais seis além dela haviam saído feridos.
Os excertos seguintes, apresentados na capa do caderno Cotidiano, assim como nova imagem de um policial atirando contra um grupo de manifestantes acabam por caracterizar ainda mais a mudança na cenografia apresentada pelo jornal a partir dessa data: “O quarto dia de protestos (...) foi marcado pela repressão
violenta da Polícia Militar, que deixou feridos manifestantes, jornalistas — sete
deles da Folha — e pessoas que não tinham qualquer relação com os atos”; “Sem
ter sido agredida, a Tropa de Choque cercou os manifestantes e disparou
bombas de efeito moral e balas de borracha.”; e “Depois, manifestantes repetiram
as cenas de depredação dos protestos anteriores (...)”. (NOVO, 2013, p. C1)
Nos dias 19, 20 e 21 (ANEXOS XIII, XVI e XVIII) existiu uma variação frente a cenografia apresentada. As cenas apresentadas nas capas transitam entre o confronto entre policiais, cenas de saques e vandalismo e a comemoração da revogação do aumento das passagens na capital paulista.
Figura 5 - Capa Folha de S.Paulo, 14 de março de 2013.
Ainda que priorizando as imagens de violência, a primeira e mais evidente alteração é o tratamento dado ao Movimento Passe Livre, que passa a ser completamente destacado frente os atos de vandalismo e violência “Integrantes do
Movimento Passe Livre e outros manifestantes tentaram conter o grupo, demonstrando uma divisão entre os participantes dos atos”; “(...) guardas municipais evitaram a invasão do prédio [Prefeitura]. Integrantes do Movimento Passe Livre também tentaram conter agressores”, (ATO, 2013, p. A1; ATAQUE, 2013, p. C1)
assim o MPL passa a ser enxergado para além de um promotor do caos e da violência.
Outros atores que passam a fazer parte central do discurso são os políticos, enquanto antes a PM aparecia como principal agente por parte do Estado, tendo o governo apenas como fiscalizador e incentivador de ações mais contundentes contra os atos de vandalismo, dessa vez as figuras pessoais do prefeito Fernando Haddad e da então presidente Dilma Rousseff, além de uma citação ao ex-presidente Lula, são colocadas no centro da cenografia.
“No momento do ataque, às 18h50, Haddad estava fora da prefeitura. Ele
fora ao encontro da presidente Dilma e do ex-presidente Lula em busca de uma
solução para a crise”; “De manhã, Haddad admitiu a possibilidade de suspender
o aumento da tarifa de R$ 3 para R$ 3,20, mas disse que, para isso, poderia
aumentar impostos. Segundo o Datafolha, a descrença dos paulistanos nos Três
Poderes é a maior em uma década.”; (ATAQUE, 2013, p. C1) e “Para a presidente
Dilma, os atos ‘ultrapassam mecanismos tradicionais das instituições, dos partidos,
das entidades de classe e da mídia’”, (ATO, 2013, p. A1) são as passagens que
mostram esse novo protagonista da cenografia apresentada.
Nos demais dias, 20 e 21 de junho de 2013, o jornal manteve a cenografia semelhante com o dia 19, sendo que em alguns momentos os manifestantes pacíficos tiveram maior evidência, assim como a participação dos agentes políticos e as consequências financeiras da redução das passagens. Dia 20 de junho apresenta a cenografia mais atípica, demonstrando manifestantes alegres por conta da redução do valor das passagens, porém o discurso não destaca novos atores, ou mudança significativa na apresentação do tema.
Figura 6: Capa Folha de S.Paulo, 19 de junho de 2013
Fonte: Acervo Digital da Folha de S.Paulo, acesso em 10 jan. 2018.
Compreendendo a cena englobante da reportagem e das capas, ou seja, sua necessidade de fazer-se mais informativa do que reflexiva, ou opinativa, percebemos que o tom é estritamente afetado. Ao contrário do editorial, no qual é possível compreendermos de maneira clara como autoritário, ou explicativo, devido a sua própria liberdade discursiva, devida ao gênero, na reportagem e nas capas a detecção desse tom se torna menos evidente. Porém, é possível destacarmos que o tom dado às capas é de caráter violento, por mais que a linguagem jornalística acabe, de certa maneira, por camuflá-lo, as escolhas demonstram a ideia de violência em praticamente todas as imagens e conteúdos publicados nos seis dias analisados.