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A Heroína

As heroínas estão às voltas com duas espécies de busca: a da mais jovem por seu desenvolvimento, que Carol Christ chama de a "busca social", e a jornada de renascimento, mais tipicamente empreendida na segunda metade da vida ou mais tarde. Christ define a primeira como uma "busca pelo Self em que a protagonista começa na alienação e vai em busca da integração no seio de uma comunidade humana onde possa desenvolver-se mais plenamente". A segunda busca trata "de uma relação com o poder ou poderes cósmicos".1

Ao estudar a ficção produzida por mulheres inglesas e americanas, descubro que essas autoras muitas vezes subordinam as heroínas a limitações impostas pelo seu sexo, e num nível ainda mais coartador do que o experimentado pelas próprias escritoras em suas vidas. Descobri, porém, que as ficções de mulheres não são inteiramente determinadas pela cultura patriarcal limitadora. Mesmo as autoras mais conservadoras intercalam em suas tramas indícios de uma possibilidade feminina mais holista, que subverte as idéias que os homens têm a respeito do que as mulheres devem ser e fazer. Em seus relatos de moças às voltas com sua busca social, mesmo as autoras mais feministas retratam suas protagonistas como pessoas assoberbadas pelas prescrições patriarcais que limitam o desenvolvimento de sua genuína natureza adulta, razão pela qual a heroína é forçada a decrescer, em lugar de crescer. Mas nos

romances de transformação e renascimento as autoras em geral apresentam uma maturação psicológica mais completa das heroínas do que o aprovado pelo patriarcado. A ficção das mulheres, como nossos sonhos, fortalece-nos a resistência contra aquilo que mais nos aterroriza e impele-nos a imaginar criativamente mundos alternativos.

A literatura produzida por mulheres sugere que a busca social da heroína implica, de modo típico, uma série de estágios acentuadamente diferentes dos que Joseph Campbell e outros descreveram como característicos da jornada do herói masculino:

O mundo verde. À medida que a jovem heroína vai se aproximando da puberdade, ela é

muitas vezes mobilizada por uma ânsia de mergulho na natureza. Diante da expectativa de conformar-se à feminilidade adulta, o que no patriarcado significa conter-se para caber dentro do controle dos homens, ela sente que no mundo verde possui a si mesma e experimenta a relutância de abandonar os elos vivificantes com a natureza. Essa é uma época em que ela vivência na natureza o complemento da sua natureza individual, que teme vir a perder quando crescer.

Cruzando o limiar. Nesse estágio, a moça deve deixar a casa dos pais para que aconteça a sua

diferenciação. Enquanto os rapazes se revoltam contra os pais e desejam evitar uma cumplicidade fatal com a mãe enquanto "outro", elas não obstante buscam superar a vida social e sexual do pai, dentro do mundo social dos homens. As moças tendem a lançar um olhar por sobre o ombro, enxergando às suas costas o arquétipo materno poderosamente vitimado e com o qual temem uma fusão letal. Tendo deixado a mãe para trás, esta serve menos como modelo de papel do que como exemplo a ser contradito. É por isso que a busca feminina de Eros, seja hetero ou homossexual, torna-se infestada pelo perigo de retomar a atuação de vínculos infantis ou de antagonismos adolescentes.

O enamorado do mundo verde. A heroína se volta de modo típico para um enamorado de

fantasia, que é inteiramente não-patriarcal, que deseja mais participar de uma relação amorosa mutuamente prazerosa do que ter poder sobre ela. No entanto, essa figura do desejo pode ser projetada em namorados impróprios ou infectados pelo patriarcado, o que leva ao...

Trauma do estupro. Embora, na sua forma mais dramática e prejudicial, essa experiência

constitua a violenta penetração da mulher contra seu desejo erótico, também implica qualquer relação amorosa que a jovem heroína não deseje. Penélope Washbum escreve: '"Fazer amor' com um homem a quem ela não ama, fingir uma atração ou excitação erótica, engravidar de um filho que ela não quer, ter uma relação sexual contra sua vontade são formas de morte espiritual para a mulher."2 Os vestígios da teoria segundo a qual a mulher que desfruta do sexo não é decente são freqüentemente internalizados e bloqueiam o acesso a um Eros autenticamente desejado e também à maturação psicológica.

Confinamento dentro do patriarcado. A conformidade às normas Conjugais para o gênero

feminino e a outras normas ameaça fechar as portas da busca do Self. Segundo a descrição feita por uma heroína sobre seus sentimentos no dia do casamento, ao consentir com uma situação que contrariava seus mais profundos instintos, ela parecia estar sendo mergulhada numa gigantesca bolha de marshmallow.

O completamento da busca: a consecução da totalidade erótica e profissional. O bem-

sucedido completamento da busca da heroína pela sua natureza autêntica só raramente acontece nos romances que estudei, exceto nas novelas de ficção em que ela conquista um mundo no qual pode ter uma vida adulta plena, como membro participante de uma coletividade não-patriarcal de fantasia. Aquilo que é normal para a busca do herói é o desvio

para a heroína. Embora o herói também possa revoltar-se contra sua identidade social, a heroína não tem escolha nesse sentido. Para ser completa, para experimentar a totalidade da sua sexualidade, competência, crescimento intelectual e perícia profissional, que constituem a natureza humana própria, ela corre o risco de ser punida e marginalizada. No âmbito da autodeterminação sexual, o homem é recompensado, ao passo que encontrei apenas duas ou três heroínas de ficção que tiveram licença para sobreviver a um prazer sexual satisfatório, escolhido por elas. A jovem mulher que completa a busca é, por definição, uma pária da sociedade e sua busca social é por definição associal.

Os estágios da busca de renascimento da heroína também são muito diferentes dos estágios típicos da jornada do herói:

Rejeição da persona. Nos estágios iniciais, a heroína primeiro sente uma insatisfação vaga

que depois se torna mais consciente em relação aos papéis sociais que assumiu. Pode ter-se masculinizado numa espécie de travestismo psicológico, desenvolvendo características competitivas, duras, agressivas, excessivamente racionais, que considerara necessárias para vencer no mundo do trabalho. Ou, então, pode ter-se conformado com normas de gênero para a submissão feminina, numa série de papéis nos quais dá de si mesma em detrimento de sua própria natureza. Freqüentemente, a viagem de renascimento começa com o afastamento em relação ao marido ou companheiro, ou com a tão aguardada decisão de parar de se identificar com o próprio pai.

O encontro com a sombra. A sombra desempenha um papel nitidamente diferente na busca

de renascimento da heroína em comparação com a do herói. A sombra masculina, proposta por Jung, ou anti-eu, é anti-social, tendo a ver com impulsos que decorrem da revolta contra as normas e os mores culturais, e dos impulsos reprimidos no inconsciente. Descobri que as sombras de mulheres, retratadas na ficção, são socialmente conformistas, incorporando o autodesprezo das mulheres por suas manifestações de desvio em relação às normas para seu gênero, inclusive as que proíbem a sexualidade feminina. A heroína é mais propensa a encontrar na sua sombra a sua própria rejeição socialmente internalizada de arquétipos femininos mais profundos. Na ficção como na poesia produzidas por mulheres, a sombra da heroína assume a forma de um companheiro especialmente horroroso, em que a sombra ginofóbica e o animus se fundem num "marido medonho" ou num namorado horrível que reforça suas auto-recriminações e tenta arrastá-la a uma cumplicidade com os padrões sociais. Se a heroína permanecer atolada nesta fase, incapaz de transcender as mensagens comunicadas através das experiências sociais cotidianas, pelo patriarcado, fracassará na sua jornada de renascimento.

O encontro com as figuras parentais. Na sua jornada, a heroína reencontra as figuras dos

pais, tanto na realidade como na memória. Esse é o momento de completar a diferenciação psicológica, alcançada no plano físico pelo distanciamento dos mesmos numa etapa anterior da sua vida. Somente na meia-idade, ou ainda depois, é que a heroína chega a um acordo bem-sucedido com o pai e a mãe, como figuras da sua memória pessoal. Assim que os elementos positivos e negativos do pai e mãe biográficos forem absorvidos e transcendidos, e superado qualquer exagero de identificação ou fusão antagônica com os pais vivos reais, pode acontecer o encontro com o arquétipo materno numa dimensão mais profunda.

O guia ou senha do mundo verde. Enquanto está às voltas com a busca de renascimento, a

heroína refaz um caminho em espiral, de volta a questões antigas que não tinham sido examinadas em toda a sua complexidade, naquela ocasião, por causa da conformidade ao

social. Os guias e as senhas do mundo verde que parece fomentar o avanço do desenvolvimento surgem com o desejo de revisitar um certo local da natureza, ou como o sonho de um animal. Assim como acontece na busca social do jovem herói nativo americano que "suplica por uma visão" e muitas vezes encontra um animal ou outro elemento conhecido da natureza, as heroínas da ficção, neste estágio, deparam-se com focas oníricas, tartarugas imaginárias, frases de uma música repentinamente portentosa e, inclusive, no caso de uma solteira já idosa que dá um grande pontapé nos elementos patriarcais para tornar-se uma feiticeira, uma cesta de frutas de aparência totalmente inocente, que lhe é enviada do interior. As heroínas negras podem se sentir atraídas pelo estudo da sua herança africana, ou ter vontade de regressar à terra de origem de sua família.

O namorado do mundo verde. Na ficção produzida por mulheres, o encontro com uma deusa

ou deus eróticos tende a ser natural, anti-social, profundamente não Conjugal, isento do conteúdo da sombra patriarcalizada. As heroínas da ficção acabam loucas, mortas ou no mínimo excluídas do convívio social, quando se permitem romances com o namorado do mundo verde. Seja este uma figura real ou imaginária, o amante ideal aparece como guia iniciático e muitas vezes ajuda as mulheres em pontos difíceis da sua busca. Ele (às vezes ela) não constitui nem o grande momento, nem a meta, da viagem de renascimento. O encontro com o amante do mundo verde permite que a heroína aceite sua potente sexualidade feminina e prossiga em sua viagem de renascimento.

O arquétipo materno. Na versão masculina da busca de renascimento, o encontro final é com

o "outro", de outro sexo, e isso assume a forma de uma luta com o feminino interior da psique masculina. O perigo desse processo é a cumplicidade fatal com um ser estranho e contrassexual: a meta é subordinar a heroína como elemento do Self masculino renascido. A polarização junguiana de gêneros e a valorização de comportamentos de prática do poder subvertem a meta masculina de atingir uma psicologia equilibrada, andrógina.

O encontro da heroína com uma figura feminina e maternal da profundeza da sua psique envolve uma clareza a respeito do que deve ser abjurado e do que é para ser absorvido da sua figura original de mãe e de suas vivências femininas pessoais. Assim que a submissão do sexo é superada e que se completa o trabalho de elaboração da relação com a mãe pessoal, num nível subconsciente, a heroína avança no sentido de uma transformação da personalidade numa fusão favorecedora com o arquétipo materno, ou numa simbiose de complementaridade com o mesmo. Enquanto antes, na busca social, ela talvez tenha vivenciado uma perda da sua própria natureza ou uma fusão, ditadas por esse processo, agora seus limites pessoais estão diferenciados o suficiente dos da mãe biológica para que ela tente refortalecer-se através do arquétipo da mãe.

A volta à sociedade. Depois de ultrapassado o terror do arquétipo materno, é de se esperar

uma explosão de imagens naturais, agudamente particulares e a envolvente participação sensual no fluxo contínuo do início da vida. Na sua volta à sociedade depois de uma viagem em que se transformou em agente do seu próprio destino, em sintonia com a natureza e repleta de prazer sexual, competência, amor-próprio e coragem, a heroína agora é uma Velha, ou Velha Sábia. Nas sociedades eurocêntricas existe uma falta de respeito pelos mais velhos, em particular por mulheres de meia-idade e mais velhas, um desrespeito que é muitas vezes reforçado por homens e mulheres que não completaram suas próprias viagens de renascimento e que alimentam medo e antagonismo pelas pessoas que podem servir de continente para suas projeções do arquétipo materno não assimilado. Por causa disso, a Velha recém-nascida costuma receber poucas demonstrações de reverência da parte da comunidade pela sua sabedoria espiritual, e é provável que mobilize medo e até mesmo desprezo.

O esboço que apresento para a busca social e para a busca de renascimento baseia-se em observações da literatura. Embora os dados de ficção sejam em geral mais desanimadores do que as experiências vivas das mulheres, a poesia que examinei tem-se mostrado mais esperançosa. Além disso, muitas das mais exuberantes viagens de renascimento da ficção recente têm sido escritas por mulheres negras, fortalecidas pela rejeição que as feministas negras têm demonstrado dos padrões europeus brancos, em trabalhos como o de Gloria Naylor, Mama Day, e o de Paula Marshall, Praise for the Widow. As romancistas e poetisas americanas nativas, embora ainda mais marginalizadas e até mesmo devastadas pelos valores da população americana branca, estão lançando livros recentes (como o de Leslie Marmon Silko, Ceremony, e o de Louise Erdrich, a trilogia Love Medicine, The Beet Queen e Tracks) que retomam o trabalho de resgate das buscas social e de renascimento até seu encontro com material tradicional arquetípico, capaz de fortalecer a heroína. Embora as heroínas brancas não possam simplesmente usurpar os arquétipos espirituais dos sistemas religiosos das mulheres negras ou nativas americanas, elas podem buscar arquétipos com um poder correspondente no passado pagão europeu.

Estou convencida de que, para todas nós, a literatura pode servir como catalisador de escolhas existenciais. As romancistas e poetisas nos advertiram com seus contos sobre os horrores patriarcais e, ao mesmo tempo, nos incentivaram com as histórias sobre as heroínas cujas buscas podemos querer imitar. Proporcionaram-nos momentos de epifania, de visão, quando podemos sentir erguendo-se das profundezas da nossa vida uma qualidade feminina que transcende por completo as polaridades de gênero, destruidoras da vida humana.

No documento Christine Downing - Espelhos Do Self (páginas 136-140)