Em seu ensaio sobre Kora1 (a virgem primordial), Jung disse:
Deméter e Kora, mãe e filha, ampliam a consciência feminina para cima e para baixo e alargam a mente estritamente consciente e limitada ao tempo e ao espaço, oferecendo-lhe indícios de uma personalidade maior e mais abrangente que tem participação no curso eterno das coisas... Parece muito claro que a anima do homem encontrou projeção no culto a Deméter... Para o homem, vivências da anima são de um significado imenso e permanente. Mas o mito Kora-Deméter é por demais feminino para ter sido apenas o produto de uma projeção da anima... Deméter-Kora existe no plano da vivência mãe-filha, alheia ao homem, impenetrável para ele.
Existe uma diferença imensa entre a vivência mãe-filho e a vivência mãe-filha. No nível arquetípico, o filho comporta para a mãe a imagem de sua busca interior, mas a filha é a extensão de sua própria natureza essencial, devolvendo-a ao passado e à sua própria juventude e, mais tarde, à promessa de seu próprio renascimento numa nova personalidade, numa percepção consciente do Self. Dentro do padrão natural de desenvolvimento, o menino sente a distância em relação à mãe, ditada pela sua masculinidade, muito antes que a menina e começa desde então a lutar por realizações. Em todos os lugares, porém, antes do século XX, a menina permanecia em casa, em seus anos de crescimento, contida pela órbita da mãe até o momento de ela mesma tornar-se mãe e inverter então o papel. Nessa medida, ela naturalmente cresceria e ultrapassaria o papel passivo de ser protegida para penetrar na passividade vital de abrir-se para receber a semente, e o ponto de transição desse processo é assinalado factual ou simbolicamente pela violenta ruptura do hímen.
Na Grécia antiga, os mistérios eleusianos de Deméter são um testemunho da necessidade avassaladora da mulher pelo seu já crescente distanciamento do padrão natural do feminino primitivo, da necessidade que a Deusa tem de ensinar-lhe o significado da profunda transformação que acontece quando de filha torna-se mãe e novamente filha. Como é imensa hoje essa necessidade, neste momento em que a maioria das mulheres vive quase como um homem no mundo exterior e deve encontrar o significado completo da maternidade no plano interior, e não no plano físico, e quando tantas daquelas que têm filhos estão simplesmente "brincando de casinha", sem jamais se permitirem vivenciar, de modo consciente, o violento término de sua identificação como filhas.
Perséfone está brincando com suas amiguinhas na eterna Primavera, completamente contida em sua despreocupada crença de que nada pode alterar esse estado feliz de juventude e beleza. Por baixo, no entanto, agita-se a ânsia de tomar consciência, e "a virgem que não deve ser mencionada" distancia-se de suas parceiras. Intoxicada pelo odor de um narciso, detém-se para colhê-lo e, ao fazer isso, abre a porta pela qual o Senhor do Mundo Inferior corre para capturá-la. Podemos observar aqui que Gaia, a Mãe Terra, distingue-se claramente de Deméter neste mito. Ela é a comparsa de Zeus na conspiração, por assim dizer! Diz Kerényi, "Do ponto de vista da Mãe Terra, nem a sedução nem a morte são trágicas ou sequer dramáticas.''
É através do pai que a filha toma pela primeira vez consciência de quem é. Quando não existe uma imagem adequada do pai na vida de uma menina, a identidade entre filha e mãe pode assumir uma intensidade tremenda; quando a imagem paterna é muito negativa e assustadora, a filha pode inconscientemente assumir um problema da mãe, de uma maneira peculiarmente profunda, às vezes assumindo-o pela vida afora, muito depois de sua mãe já estar morta, permanecendo assim incapaz, em seus esforços, de encarar o próprio destino de forma livre. Normalmente, a menina começa a desapegar-se da mãe e a tornar-se consciente de sua própria potencialidade como mãe através do amor pelo pai. Assim, prepara-se para o intoxicante momento em que encontra o narciso, em que enxerga a si mesma como pessoa (tal como Narciso, que vê o reflexo do próprio rosto na água), e vive o inescapável estupro subseqüente.
O momento em que tudo explode na vida de uma mulher é sempre um estupro simbólico — uma necessidade — alguma coisa que se instala com força inexcedível e não conhece resistência. O Senhor do Mundo Inferior é quem vem, desgarrando-se do inconsciente com o tremendo poder do instinto. Ele vem com "seus cavalos imortais" e apodera-se da virgem (no homem, a anima), arrastando-a para longe da vida superficial do seu paraíso infantil, até as profundezas, até o reino dos mortos, pois a entrega total que a mulher faz do seu coração, de si mesma, é, para a vivência de seus instintos, uma espécie de morte.
Perséfone grita em protesto e por medo, ao ser violentamente rompido o elo do seu vínculo com a mãe, com a juvenilidade inconsciente. A mãe, Deméter, ouve e sabe que a filha
está perdida, mas não sabe como. Durante nove dias ela vagueia pela terra com medo e padecendo, em busca da filha, mas sem compreender. Deméter está inteiramente identificada com seu sofrimento, tragada por essa dor vertiginosa, esquecida até de seu corpo, que não alimenta nem lava. É o início da luta indizivelmente dolorosa que a mulher trava para desapegar-se de suas emoções possessivas, a única luta que pode dar luz ao amor.
A perda da filha para a mulher mais velha é a perda da parte jovem e despreocupada da sua pessoa; é a oportunidade de descobrir os significados, algo que constitui a tarefa da segunda metade da vida; é a mudança da vida das projeções externas para o desapego, o voltar-se para dentro que leva à "experiência imediata de estar fora do tempo", nas palavras de Jung. Na linguagem desse mito, a Morte se ergue e leva embora a crença da mulher numa primavera para sempre duradoura. A grande maioria das mulheres contemporâneas, sem qualquer contato com o mistério de Deméter, tem extrema dificuldade em abrir mão do apego inconsciente à juventude, da identificação parcial com a imagem da anima no homem, da Perséfone não violentada eternamente a colher flores no abençoado estado de inconsciência em relação às trevas do mundo inferior. Para essas mulheres, a menopausa implica perturbações corporais e psíquicas há muito renitentes, à medida que o conflito torna-se mais agudo e permanece sem solução.
Kerényi escreveu: "Entrar na figura de Deméter significa ser perseguida, ser roubada, ser estuprada", como Perséfone, "enfurecer-se e sofrer, deixar de compreender", como Deméter, "e então recuperar tudo de volta e nascer de novo", como Deméter e Perséfone — a dupla realidade única de Deméter-Kora. Nessa vivência não pode haver atalhos.
Somente quando Hades, o Senhor da Morte, o irmão tenebroso de Zeus, se dispõe a cooperar é que pode vir a resposta. É ele quem dá a Perséfone a semente de romã para que coma, e ela, que até então rejeitou todo alimento (recusando-se a assimilar a experiência), no momento em que está repleta de alegria à idéia de não ter que aceitá-la, pega sem querer a semente de romã mas a engole voluntariamente. Apesar de seus protestos, ela realmente tem a intenção de regressar mais uma vez à identificação com sua mãe. Essa é uma imagem de como o elemento salvador pode acontecer no inconsciente antes que a mente consciente possa apreender tudo o que está acontecendo. Existem muitos sonhos nos quais o sonhador tenta voltar para uma coisa ou situação antiga mas, por exemplo, encontra as portas trancadas ou o telefone quebrado. O ego ainda anseia pelo status quo mas, mais embaixo, o preço foi pago e
não podemos voltar atrás. Portanto, o grande valor dos sonhos está em nos tornar conscientes
dos movimentos subterrâneos. Até mesmo Deméter em seu planejamento consciente ainda tem vagos anseios pelo regresso da filha, tal qual antes. Mas seu questionamento é apenas superficial. Assim que toma conhecimento de que a semente foi comida, não há mais o que dizer acerca da questão — é tudo alegria. Perséfone comeu o alimento de Hades, assimilou a semente das trevas em si mesma e pode agora dar à luz a sua nova e própria personalidade. Sua mãe também. Ambas atravessaram o umbral da morte rumo à renovação de uma nova primavera — a renovação interior que a idade não necessariamente precisa extinguir — e aceitaram a necessidade igual do inverno e da vida nas trevas do mundo inferior.